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| O simbolismo das plantas |
| Luiz Pontual |
| Notas: 1) O termo chinês Feng Shuy significa literalmente “vento e água”. 2) Geomancia ( Hing Fa chinês ) é a arte das formas e situações ; trata da harmonia entre o homem e a natureza que o rodeia. 3) Ver “A Grande Tríade” ( Ed. Pensamento ,SP ) , de René Guénon, sobre o esoterismo chinês. 4) Natureza ( latim physis ) , etimologicamente, designa “o que vem a ser”, ou o “devir” . 5) Ver o magnífico livro “La Pipa Sagrada” ( Ed. Taurus, Madri ), que reúne relatos de Black Elk compilados por John Epes Brown. 6) Os Yantras, na doutrina Hindú, são desenhos simbólicos que se destinam a servir de suporte à concentração e meditação. 7) “Des Couleurs Symboluques”, de Frédéric Portal, ( Ed. La Maisnie ). 8) ‘Pecado’ significa precisamente ‘mancha’, no sentido de obscurecimento ou ignorância. 9) Ver “O Zen na Arte da Cerimônia das Flores”, de Gusty L. Herrigel, (Ed. Pensamento, SP). |
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| Na arquitetura e no paisagismo, assistimos atualmente à redescoberta de antigas ciências orientais, como o Feng Shui (1) , uma ciência particular do conhecimento geomântico (2) que, por sua vez, reporta-se às doutrinas cosmogênicas, isto é, relacionadas à criação dos mundos em geral e de nosso mundo em particular. Certamente, algumas considerações sobre o “ambiente cultural” em que tais ciências foram cultivadas, assim como certas indicações preliminares sobre o simbolismo das plantas nos serão úteis. Antes de tudo, é fundamental que saibamos que o ponto de partida ou princípio de qualquer tradição oriental autêntica , sem exceção, é a origem celeste ou divina do homem e da natureza : “tudo deriva da Grande Unidade ( o “Tai Ki” taoísta (3) )”. No Cristianismo, o “Princípio Único” é Deus ; no Hinduísmo, é Brahma ; no Islã, Allah ; entre os Sioux , Wakan Tanka - e assim por diante, pois toda religião ou doutrina verdadeiramente tradicional é monoteísta e, sob formas diferentes, há uma unidade que as transcende e une. “Símbolo”, palavra muito em moda mas pouco compreendida, é a intermediação entre o mundo natural e o espiritual ; ele representa, sugere e “atrai” o superior. Como a natureza (4) é emanada do Princípio Superior ( o Tao-I Chinês ) , está assim plena de significados e simbolismo, que podem ser “lidos” através das suas formas, cores, proporções, números, etc. Nos referimos acima ao simbolismo como “alimento espiritual” mas é claro que os vegetais têm importância vital para os homens : todo alimento se reporta às plantas, direta ou indiretamente. Mais que isto, a ausência de vegetais implicaria o imediato aniquilamento da humanidade, pois não teríamos oxigênio para respirar ! Para ilustrar força “dos céus” sobre as plantas, invocaremos o testemunho daqueles que conhecem a vida rural; estes estão cansados de presenciar os inacreditáveis impulsos de crescimento das plantas quando uma boa chuva natural, com trovões e relâmpagos, as atinge. Nestas ocasiões, caminhando por um bosque, somos surpreendidos por incrível “pipocar” de brotos em geral e cogumelos em particular. A chuva, como o orvalho, para os Orientais, é uma “manifestação celeste” e as plantas, seu receptáculo. Não é por acaso que existe o nome “cálice” das flores nem que suas pétalas, muitas vezes, podem ser comparadas às mãos abertas para receber. A chuva, em todo mundo tradicional, é considerada veículo das influências celestes. Quem não ouviu falar da “Dança da Chuva” dos índios norte-americanos? Na verdade, como nos relata o sacerdote Black Elk (5), trata-se de um rito complexo cuja principal finalidade é a obtenção de Conhecimento através do Grande Espírito – Wakan Tanka – e a chuva, que de fato ocorre ao final das cerimônias, é apenas uma conseqüência ou comprovação da eficácia de tal rito. O Budismo e o Taoísmo, por outro lado, concedem um lugar privilegiado à “Flor de Lótus”; ela floresce nos pântanos, à superfície de suas águas estagnadas e impuras; neste caso, simboliza a perfeição e misericórdia divina, que se manifesta exuberante mesmo em um ambiente como este, que se assemelha simbolicamente ao mundo moderno. No Hinduísmo , as formas florais aparecem nos sagrados Yantras (6), com suas cores e formas concêntricas. Ali, as proporções geométricas e o simbolismo das cores se traduzem em ritmo espacial, prestando-se como uma “escada” para se atingir estados espirituais superiores. De modo simplificado, podemos traduzir o simbolismo geral das cores (7) como segue: - O preto (para além das estrelas fixas) representa o Princípio e é cor sacerdotal por excelência. - O branco (as estrelas fixas) representa a pureza, o imaculado, isto é sem manchas ou pecados (8). É a cor da santidade e também da sabedoria, que é luz. - O amarelo (sol sob o aspecto luminoso) é ouro, isto é, imutabilidade, valor permanente, princípios e sabedoria. O vermelho (o sol em seu aspecto calor e vida) é expansão. É a cor da casta guerreira e dos reis. É cor Samurai e explica a bandeira do Japão. - O azul (abóbada celeste, mundo intermediário) é o ar, a abóbada celeste, o sopro vital e o ar da vida. - O verde (a copa das árvores, que toca o azul do céu) é a vegetação. Simboliza a regeneração; alimento (no sentido material e espiritual). Trata-se de uma cor composta; é portanto, uma combinação simbólica. - O marrom é a terra e o tronco das árvores (cor composta, ou combinação simbólica). - O cinza representa as pedras e os minérios. O mundo metálico e mecanizado . É a cor da poluição.O mundo metálico e mecanizado. É interessante observar acima a ordem decrescente do simbolismo das cores: há uma perfeita correspondência com os graus de afastamento, desde a criação do mundo. Assim como as cores, as formas vegetais também guardam um simbolismo. Esquematicamente, uma árvore pode ser vista como a síntese dos três mundos, isto é, Céu, Homem e Terra. A copa, semicircular, é a abóbada celeste; o tronco, o eixo vertical ou pilar de união; as raízes, a Terra. Um caso particular do simbolismo floral encontra-se relacionado ao budismo japonês: o Ikebana (9), cujo método fundamental deriva da tríade acima mencionada, isto é, Céu, Homem, Terra. Estes três planos da natureza devem se harmonizar no Ikebana, espelhando simbolicamente o Universo. Os procedimentos rituais necessários ao perfeito domínio do Ikebana guardam correspondência com a “Arte da Caligrafia” e a “Cerimônia do Chá”; nos três casos a disciplina mental, o domínio da respiração e da postura são fundamentos para a realização da tradição de um saber ancestral . O próprio artista, ao maestrizar sua arte, é Mestre de si mesmo. O domínio do simbolismo vegetal é como um prolongamento de seu próprio domínio, pois o Mestre é agente do Princípio no mundo; suas mãos, instrumentos a serviço do Céu. Estas poucas considerações, nos sugerem o alcance e profundidade do simbolismo vegetal e das doutrinas orientais, que são o fecundo território intelectual onde esta e outras ciências tradicionais um dia floresceram. |
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