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Instituto René Guénon de Estudos Tradicionais
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KABLOONA

Condensação do livro de
Gontran de Poncins
em colaboração com
Lewis Galantière, publicada na "Seleções do Reader's Digest" na década de 50.

"Dentre o que é raro no  mundo, o mais raro é um homem civilizado gozando de plena paz de espírito,» assevera
Gontran de Poncins.
No entanto, vivendo entre os esquimós do Ártico, gente poupada aos desgastes da vida
civilizada, e partilhando de suas dificuldades épicas, de suas alegrias primitivas, de seus ímpetos quase selvagens, descobriu êle uma serenidade de alma jamais
experimentada alhures.
Kabloona, o livro que reconta suas aventuras físicas e espirituais, conquistou aplausos gerais da crítica e teve enorme êxito de livraria.
                Aconselharam-me escrever ao Bispo. Era em abril e minha carta foi endereçada para Forte Smith, no paralelo 6o. No fim de maio, tinha eu em mãos a resposta. Sua Excelência teria prazer em conduzir-me no seu avião. «Venha falar comigo em McMurray, ao norte de Alberta, nos começos de julho.»

                  Essa carta preciosa e os documentos da Sociedade de Geografia de Paris, nos quais era atestada minha condição de etnógrafo, constituiam quase toda minha bagagem. O dinheiro de que dispunha não levava vantagem sobre ela. Não fiz mesmo quaisquer planos, pois já havia descoberto há tempos—na Índia, na China, nos Mares do Sul—que a vida os repele, tendo seus próprios planos superiores aos nossos.

                  Era o dia 11 de junho de 1938 quando parti de Paris. E a 9 de julho, após ter ultrapassado a ponta de trilhos mais setentrional do Canadá, levantei vôo de Forte McMurray com o Bispo Breynat. Cinco dias depois, com 2.400 km de vôo, o piloto nos fêz descer em Coppermine, em pleno Oceano Glacial. Recebidos cordialmente pelo Padre Delalande, fomos depois levados para a casa da missão. No dia seguinte partia de novo o Bispo, que já fizera muito por mim trazendo-me até ali, verdadeiro posto avançado da civilização.

                 Terminava em Coppermine o mundo do homem branco. Ali o dinheiro, dentro de certo limite, ainda tinha valor. Uma estação de rádio—nenhuma outra havia mais ao norte— de propriedade do governo, irradiava esporadicamente, domingo de tarde, notícias de caráter pessoal aos missionários e policiais espalhados pelos quatro cantos daquele deserto gelado, e aos chefes das guarnições nos postos da Baía de Hudson. Uma vez por ano, um dentista lá aparecia, com um jovem esquimó carregando seu motor acionado a pedal.

                  Mas, a despeito de ter chegado a Coppermine depois de 11 mil quilômetros de viagem, a povoação ainda estava muito distante das regiões habitadas pelos esquimós do Ártico. Minha última base seria o posto de Gjoa Haven, situado na ilha chamada Terra do Rei Guilherme, na Baía de Hudson, a 700 milhas a nordeste; para alcançá-lo, eu teria ainda de percorrer 2.100 milhas!

                  Só quinze dias depois c que poderia sair de Coppermine. Passei esse tempo com o Padre Delalande. Observei então, com curiosidade, que os homens de raça branca, como o padre e seus visitantes, longe de conquistar os esquimós ao seu estilo de vida, eram, ao invés, convertidos ao deles. Suas preocupações não eram outras que as do esquimó: o gelo, a melhora do tempo, o trenó, a doença dos cães, o preço das peles. A doença de um cão-guia era muito mais importante que a paz da Europa; é que, por aquelas bandas, o cabeça de um trenó é tudo. O pró prio Padre Delalande, como me disse, levou seis anos para conseguir um bom guia, e agora era só vê-lo a falar constantemente do cão e suas proezas.

                  Muitas e muitas vezes conversávamos os dois, quando os olhos do padre se desviavam para a janela e ele, interrompendo uma frase, saía correndo a ver se era mesmo uma foca o que avistara na água. Foca significava comida, e comida era muito mais importante do que conversa. Comer e manter-se aquecido, eis as duas normas de vida primordiais por aquelas paragens.

                  Cedo, porém, verifiquei que tinha certo limite a vida de esquimó que levava toda aquela casta de homens brancos do Norte—caçadores ou sacerdotes. É verdade que viajavam em trenós, que pescavam através do gelo, que vestiam peles e que mesmo, em ocasiões raras, construíam iglus. Jamais penetravam, no entanto, o mundo esquimó, mundo este de ordem mental, ao qual eles eram indiferentes. Pois foi justamente este mundo que consegui desvendar.
Desprevenido como eu estava ainda quanto a roupas adequadas à vida no Ártico, o Padre Delalande aconselhou-me a adquiri-las em Coppermine. Mandou chamar Krilamik, a melhor costureira do lugar, e encomendou-lhe o necessário.
Coxeando, arreganhando os dentes, pitando cigarro após cigarro, a velha esquimó levou-me à loja. Nada encanta mais a vista do que um perito em pleno exercício de sua função e Krilamik, debruçada sobre as pilhas de peles, era de inspirar confiança. Metade delas foi rejeitada num relance. Uma a uma, examinou todo o estoque, esfregando-as e friccionando-as entre os dedos e levantando-as para sentir-lhes o peso. Depois de duas horas, o que escolhemos formava uma pilha bem volumosa. Incluía 17 peles inteiras, três barrigas brancas e trinta pernas, tudo de caribu. Acrescente-se a isso uma grande pele de foca para botas, uma de alce e, para enfeite, uma de glutão.

                 Compramos também um maço de tendões de caribu, cujas fibras, depois de separadas, serviriam para Krilamik tecer, com os dentes, um cordel dos mais resistentes possível. Levamos toda a mercadoria para sua tenda e, sem a menor preocupação com medidas, ela meteu mãos à costura. Será escusado dizer que saiu tudo à perfeição.
Já ia pelo décimo segundo dia em Coppermine, quando fui informado de que poderia alcançar Perry River, a 250 milhas apenas da Terra do Rei Guilherme, pelo navio Audrey B. Seu itinerário, porém, levou-o rumo oeste para a foz do Mackenzie, antes de dobrar para leste, na direção de Perry River, 1.900 milhas de rota batida para atingir um ponto a 500 milhas de distância! Mas, afinal, arriamos ferros diante do posto da Baía de Hudson, em Perry River. Ao zarpar no dia seguinte o Audrey B., cortava-se meu último vínculo com o mundo exterior.

                  Uma semana depois, um esquimó meio civilizado, de nome Angulalik, levou-me em sua lancha através das 250 milhas que ainda me separavam da Terra do Rei Guilherme. A 9 de setembro, entrávamos na majestosa e calma baía de Gjoa Haven. Para além dela, estende-se uma vasta planície descolorida, estática, petrificada, impiedosa, desolada, vazia de qualquer promessa que não fosse a da solidão.

                  EM GJOA HAVÉN fui hóspede de Paddy Gibson,o único homem branco do posto. O aprendiz da Baía de Hudson, que partilhara com Paddy sua pequena barraca marrom, voltou na lancha que me trouxera. Ficamos, eu e Gibson, vendo a lancha afastar-se nas águas da baía fora, e espantou-me que êle não dissesse uma palavra, nem fizesse o menor gesto de adeus. Nada. As despedidas são próprias para gente que, nas plataformas das estações, sabe que os viajantes regressarão de novo. Aqui eram de todo supérfluas.

                  De volta ao posto, Paddy enterrou-se logo na correspondência chegada e, por dois dias, não houve jeito de afastá-lo para outra qualquer tarefa. Em grande afã, pegava duma carta, lia uma ou duas páginas, largava-a, abria outra, e assim todo o tempo. Aquela sofreguidão não significava sede de informação; há uma ânsia de contacto, com o mundo, que nada tem a ver com ela. De quem é esta ? E esta outra ?

                   Subitamente, Gibson apanhou uma carta e ficou com a respiração quase supensa; esta, êle a leu cuidadosamente de fio a pavio. Era do pai. Pelo rádio, êle tivera a notícia da morte do velho na Irlanda, havia seis meses. Ficou imóvel, sentado, e eu desviei a vista para outro lado. Naquele recanto do mundo os mortos ainda escrevem cartas. Este pensamento ficou a perseguir-me e, de noite, ambos já recolhidos, eu figurava Gibson, do outro lado do tabique, deitado na cama, abrindo de novo a carta e lendo: «Meu querido filho...»

                   Na manhã seguinte à minha chegada, apreciei, da janela, um falcão a fazer evoluções em plena tempestade sobre a tundra erma e vasta. Estava caçando a verdelha, pássaro que constitui seu sustento habitual.

                   Tudo naqueles confins era um elo na cadeia da morte. O homem estava ali por causa da raposa branca. Esta, à caça dos lemingues. Estes ratinhos do Ártico, por causa de outra presa ainda mais minúscula. Em terra era o mesmo: os lobos seguiam o rasto dos caribus; a raposa ia-lhes atrás para recolher-lhes os sobejos, e por último o glutão, à cata das migalhas que ela abandonasse. Ao longo dos blocos de gelo flutuantes, o urso polar caçava focas, enquanto a astuta raposa o acompanhava, porque o urso—esse gourmet das geleiras—come apenas a gordura, deixando o resto. E no encalço das raposas vinha o homem deitando suas armadilhas.

                   Meu mundo estreitou-se inexoravelmente. Naquela estação, a vista não alcançava muito além de um  
quilômetro. Para onde quer que dirigisse o olhar, os limites eram visíveis. Era como um campo de detenção, pensei eu: implacável, estéril, sinistro, e virtualmente sem vida.

                   Tais pensamentos—o falcão caçador, a cadeia da morte, o sentimento de solidão—só agora o sei, não passavam de preocupações de um homem que viera do mundo exterior; ninguém do Ártico consentiria que eles lhe atormentassem o espírito. Eu mesmo, em breve, estaria inteiramente libertado deles. De estranhas e sinistras, as coisas tornaram-se-me logo familiares. A neve não tardaria a transformar-se num refúgio, as mais severas tempestades seriam um inimigo com o qual aprenderia a lidar, e a própria noção da morte se tornaria natural.

                   Por aquele tempo, no entanto, ainda não atingira esse ponto. O inverno estava por vir e o outono, que atravessávamos, era a estação temível das borrascas e pavorosas ventanias, do frio horrível (a única estação em que o homem do Norte treme de frio), durante a qual o esquimó vive encolhido em sua tenda, orando pela vinda do inverno, tal como nós outros ansiámos pela primavera. Para o esquimó, a neve é o presente dos deuses, há tanto esperado, o elemento mágico que torna possíveis as viagens, que lhe proporciona o anteparo contra o vento quando ele gasta horas e horas no mar gelado à espreita da foca, e que lhe fornece os blocos graciosos com os quais constrói sua morada.

                   Algures no interior, debaixo de um montão de pedras, o esquimó enterrou o trenó, os arreios, os arpões, e todo o aparelhamento usado nos severos e magnificentes meses do inverno. Enquanto outubro não chega, e com êle a neve, o esquimó não passa de uma criatura miserável, um pobre cigano andrajoso. Assim que a neve cai, a tenda mesquinha é abandonada, e se levanta o alvo iglu; as peles transformam-se em galantes vestimentas. E como uma metamorfose: o cigano mesquinho torna-se um caçador, o mendigo da porta do posto é agora um inuk, «um homem, em toda sua preeminência ».

                   EM PRINCÍPIOS de outubro foi que, por primeira vez, vi o mar congelar-se; vi as águas móveis transformar-se em gelo, as ondas petrificar-se em colinas e vales.   Para quem como eu se criou numa região onde a temperatura raramente cai a 20°C abaixo de zero, o espetáculo tinha algo de mágico, fantástico. Mas para o esquimó não era menos significativo o congelamento do Oceano Glacial, porquanto o mar é sua grande auto-estrada de inverno. É o campo de caça que põe à sua disposição reservas de suprimento para os meses improdutivos. É seu habitai, sua «terra», pois é nele que constrói o iglu, sabido que o gelo na água é mais quente que o terreno eternamente congelado.

                    O mar não se solidifica numa única noite. Dia após dia, observei o espelho de superfície granulosa rachar e quebrar, a água correr livremente, para de novo toda a luta recomeçar. Gradualmente, o mar era forçado a ceder, cristalizando-se contra a margem congelada. Certa manhã, só restava pequena piscina no meio da baía, de um verde tão escuro que parecia preto. No dia seguinte, até ela desaparecera, e os esquimós, não sem experimentar com os calcanhares a dureza do gelo, lançaram-se cautelosamente das margens para assinalar a chegada da grande estação.

                    Nesse meio tempo, Gibson estivera fazendo os preparativos para o inverno. Em primeiro lugar, era o carvão que tinha de ser trazido da pilha pela margem, e armazenado. É era necessário cobrir o resto cuidadosamente, a fim de que fosse mantido em boa temperatura, pois o carvão custa uma fortuna, e quando gela, não arde mais. Tudo que o intenso frio pudesse danificar tinha de receber cuidados especiais: as baterias elétricas, por exemplo, que perdem metade da eficiência quando se congelam; os vidros de tomate, ou picles, que podem rebentar. Quanto às batatas, se geladas instantaneamente podem degelar-se e ficam aproveitáveis, ao passo que apodrecem quando geladas lentamente.

                   Não tardou que partisse o primeiro trenó da estação; todo o mundo acorreu para vê-lo. Não é que já houvesse muita neve: caía ainda esparsa; a viagem tinha de correr tortuosamente, de montículo em montículo, num esforço de cem quilômetros para cobrir apenas quarenta. Mas o


esquimó não precisa cogitar do tempo, e o esforço é da essência mesma de sua existência.
Ficara combinado que um nativo de Netsilik, de nome Ütak, pelo preço comercial de uma raposa branca, me conduziria terra a dentro até as imediações de um acampamento esquimó. Teria eu que me prover do necessário alimento, sem esquecer os pequenos presentes. Ao terminarem os preparativos, a neve em torno do Posto já formava montículos de três metros de altura.
Paddy ajudou-me a empacotar minhas provisões e objetos de uso. «Sabe o que você deve fazer ?» disse êle. «Faça uma sopa grossa de porco salgado, feijão e arroz, espalhe-a numa prancha na varanda, que ela gela num instante. Então, com um martelo, você a quebra em pedaços grandes. Deixe-os expostos ao frio, e eles se conservarão congelados. Pelo caminho, basta aquecer um desses tijolinhos para se ter uma boa refeição. »
Assim, com tão magras provisões, e um conhecimento rudimentar do jargão corrente naquela zona, estava eu preparado para o mergulho no mundo esquimó.
Tudo pronto, Utak descobriu que a faca para neve ficara esquecida na palhoça. Era um utensílio indispensável, pois servia para comer, para construir o iglu, para atacar o urso polar. Também se verificou que faltava o arpão de matar focas. E, depois de incorporados ambos os instrumentos ao lote, Utak passou uma revista no trenó e deu-se por satisfeito. Qual nada! Ainda faltava a chaleira. Como pudéramos esquecê-la?

                Não menos de uma hora leváramos completando o carregamento do trenó, e eu estava de pé junto a ele, já enfadado pela demora dos preparativos, quando subitamente o trenó arrancou e dei comigo a correr atrás dele, tropeçando na neve, esforçando-me por acompanhar Utak, na frente, a açoitar os cães. Estava já quase sem fôlego, quando ele deteve os animais, rindo de dentes à mostra ao ver-me chegar ofegante, como se estivesse feliz por colocar o homem branco em situação ridícula. Estávamos apenas a uns vinte metros do Posto; no entanto, minha impressão era de que já me haviam transportado para outro planeta.

               NADA DE MAIOR ocorreu em caminho, mas estivemos sempre ocupados. Aqui era uma correia frouxa; tínhamos que apertá-la, do contrário metade da carga poderia escapulir-se. Cuidado com aquele cão! Está procurando agachar-se, e uma chico tada não se deve fazer esperar. Cuidado com aquela pedra! Se os deslizadores baterem nela, o invólucro de gelo poderá quebrar-se. Era como se estivéssemos num barco: em mar calmo, nada acontece de extraordinário, mas o barqueiro tem sempre com que ocupar-se.
Fiz o que estava em minhas forças para tornar-me parte integrante daquele trenó, daquela paisagem. Aci ma de tudo, o que mais me espantava era a ausência de cor. A neve, como o descobri, não era branca! Aparecia a  mim como um mundo cinzento, sem proporção nem dimensão. Nunca o horizonte se dignou de aparecer, com sua linha confortável, dividindo a terra do céu; eram ambos da mesma substância. Não havia distâncias intermediárias, nenhuma perspectiva, nada a que o olhar pudesse prender-se, a não ser as miríades de plumas de neve esvoaçando perto do chão.

              Chegou a vez de perder-nos, envolvidos nesse manto côr de cinza. A atmosfera estava densa de uma poeira em redemoinho; os próprios cães eram dificilmente entrevistos do trenó, aparecendo-nos apenas como umas manchas. Fechei os olhos, apertando  bem  as  pálpebras  uma contra a outra, como se quisesse soldá-las, pois o vento fustigava-me a face a ponto de rachar a pele. As maçãs do rosto e o queixo começaram a arder, como se queimados por um ferro quente, e a pele subitamente se tornava insensível. O abalo era muito violento, e a própria alma foi sacudida. Estava pronto para ceder, compreendendo que a natureza era aqui forte demais para se lhe resistir. Utak veio ter comigo e interpretei esse movimento como o desejo de confessar-me o que eu próprio suspeitava:   que   estávamos   perdidos. Qual nada!
—Quer me emprestar seu cachimbo? Foi tudo o que disse.

                    Depois de duas baforadas, devolveu-mo com um  «Ótimo!», acompanhado de um sorriso.
Eu deveria saber que não seria êle um esquimó se se preocupasse. Quando um deles se sente «perdido», simplesmente constrói um iglu —um mais entre tantos—e cai beatificamente no sono até que amaine a tempestade.

                    Utak desapareceu às carreiras dentro do nevoeiro em frente. Subitamente, reapareceu e, quase com ó nariz na neve, passou a esquadrinhar o chão, passando de um lado para o outro com incrível rapidez à procura de trilha de trenó em meio àquela tempestade. Imagine-se apenas o que seria procurar trilhas de cinco centímetros de largura, separadas uma da outra cerca de meio metro, naquele mundo igual, em toda a sua extensa alvura! Por mais espantoso que o seja, porém, Utak encontrou as trilhas, cavando com os calcanhares na neve fresca. E logo zarpamos de novo, na busca de marcos que êle conhecia tão bem quanto é familiar ao camponês «o galho partido» ou «o carvalho fendido pelo raio», que lhe servem de ponto de referência pelo caminho. Vinha a noite caindo quando três pontinhos de luz tênue furaram subitamente aquela paisagem cinzenta. Eram os iglys! Através de suas translúcidas paredes de neve, era visível o leve resplendor das lâmpadas de óleo de foca, indícios da presença humana. Tive que engatinhar por um túnel, dentro do qual o vento uivava, para entrar num deles.

                  Mas seria aquilo um iglu ? Aquela caverna fuliginosa de feiticeira, de cujas paredes gotejava uma espécie de exsudação causada pelo calor da lâmpada e dos corpos humanos ?!   À luz mortiça, moviam-se figuras de formas indecisas, homens e mulheres. O odor era incrível. Eu estava no covil de um urso pardo, numa caverna de troglodita.

                  Eu tinha chegado ainda muito recentemente de outro mundo para enxergar no iglu algo além da imundície: um montão de carne congelada a um canto, manchas de sangue de foca por toda parte, cabeças de peixe roídas aqui e ali. Para levar ao auge aquele horror, um dos esquimós lançava-se de vez em quando no túnel de entrada para enxotar os cães, e o alarido que se formava ressoava como se um assassínio tivesse sido cometido numa câmara subterrânea.
Mesmo hoje, é-me ainda difícil explicar como me acostumei àquela vida a ponto de que, um mês depois, um relato como este me apareceria de uma grande tolice, pois acentuava os aspectos não-essenciais, abandonando tudo que era de importância no quadro da existência esquimó.

                   Felizmente, o extremo cansaço não me dava larga para pensar. Os detalhes feriam-me os olhos, mas não logravam atingir-me o cérebro. Minha caixa havia sido trazida para dentro do iglu, mas a fadiga não me permitia procurar minhas provisões «brancas». Que ia comer? Aquele peixe repelente, congelado e coberto de neve, que eu ouvia estalar nos dentes dos esquimós.   

                   O pessoal da casa olhou para mim quando viu que o Kabloona—nome que os esquimós dão ao homem branco—não ia oferecer gulodices aos presentes. Nada disseram, mas sua censura era inconfundível. Magoado, enfiei-me em meu saco, sem tocar na comida.

                    Éramos cinco dormindo em fila num iglu construído para três apenas. Fiquei com as roupas, mas os esquimós dormem nus em seus sacos de pele de caribu. Era o mesmo que dormir numa jaula com animais selvagens. Toda a noite o teto gotejou sobre mim, o que me causava terrível agonia, e eu não podia afastar-me porque estávamos deitados bem juntos uns dos outros.

                    No dia seguinte, Utak construiu um iglu para mim, com uma espécie de alpendre ligado ao dele. Um iglu é lindo quando novo, e quando o iglerk, isto é, o divã chato de neve, já acabou de ser amaciado. E tão alvo, tão puro, que a gente receia mover-se para não sujá-lo. Mas o meu não tardou a tomar o aspecto confortável e doméstico, pois os esquimós logo o invadiram como conquistadores, sentaram-se no meu iglerk, arrotando e rindo-se, comendo peixe e cuspindo fora as espinhas, emporcalhando tudo.

                    SENTI-ME só e numa desesperada situação. E o pior é que, por cima de tudo, dois dias depois minhas mãos se congelaram quando eu estava pescando com Utak. A uma meia milha da margem, êle fêz um orifício no  
gelo e levantou ao lado, com uns três blocos de neve, uma espécie de anteparo contra o vento. Ajoelhando-se então numa pele de caribu, deixou cair na água uma isca para atrair os peixes. Ao se aproximarem estes, feria-os com um arpão de três pontas. Era espantosa a paciência e a atenção com que observava o orifício. Por menor que fosse o peixe fisgado, o fato era sempre motivo para grande excitação e comentários de toda sorte. Por que estava êle tão absorvido, com aquela concentração digna de um cientista ? Pela arte de encher a barriga!

                   Se não estivesse torturado pelo frio, teria sido enorme meu prazer em apreciá-lo. Mas os dedos se me queimavam dentro das luvas e, após algumas horas ao ar livre, a dor tornou-se quase insuportável. Paramos afinal e, tirando as luvas, verifiquei que meus dedos pareciam de um cadáver. Três dias depois ainda estavam no mesmo, nada podendo eu fazer com eles; duros como pedra, e tão dolorosos que nem um cigarro eu •podia enrolar. Tive que ficar dias seguidos engaiolado no iglu.

                   Assim é que, deitado em meu iglerk, pude observar, pela ligação entre os dois iglus, a vida das mulheres. Unarnak, mulher de Utak, trabalhava com o kumaksheun, o pega-piolho, um longo osso de caribu, com um tufo de pêlo de urso polar colado à extremidade. Parece que aquilo exercia extraordinária atração sobre os piolhos, e era um regalo—embora de tipo especial—ver Unarnak arrancá- los do chumaço de pêlo e estalá-los nos dentes.

                    A mãe de Utak, Niakognaluk, uma velhinha sem formas, passava os dias sentada, escovando e socando as peles, tarefa que não tem fim no mundo esquimó, pois a neve e a água ensopam e endurecem constantemente as roupas e as peles em que êjes se deitam. Inclinada sobre a lâmpada, trabalhando com mãos desajeitadas, sentada sobre os pés dobrados, Niakognaluk, murmurando sem parar, era incansável em sua faina. Quando uma pele ficava pronta, ela a atirava para o lado com enfado e, levantando com ambas as mãos suas calças de caribu, ia cambaleando até a pilha de peles para apanhar outra.

                   Usava duas ou três raspadeiras no trabalho, mas a principal parte era feita com os dentes. Terminada a tarefa, a pele estava alva e macia como uma luva. Logo que tive certeza de que os dedos não me cairiam das mãos, resolvi ir com Utak e os demais pescar foca, em vez de voltar ao Posto com êle. É que havia sérias razões para uma pescaria de focas; a despeito de ter passado o dia pescando, o peixe que aparecera era tão pequeno que não daria para alimentar todo o pessoal, por maior que fosse a quantidade apreendida.

                   Eminentemente nômade e pescador nato, o esquimó é levado, em sua luta em busca de alimento para a família, a percorrer a região num círculo irregular. Terminada a corrida do salmão ártico pelo rio, êle desce para os lagos afim de pescar pelos buracos feitos 110 gelo e de caçar a raposa branca. Quando o inverno avança, e à medida que a camada de gelo se torna mais espessa, é obrigado a ir mais adiante, pois o consumo diário de comida da família e dos cães atinge cerca de vinte quilos, suprimento que, para ser obtido, exige terrível esforço. A curva seguinte é a pescaria de focas e a caça do urso polar nos mares gelados. Então, vem a primavera, e com ela passa o caribu em sua marcha para o norte. Reabre-se a grande estação das visitas; e no outono, recomeça o ciclo com a volta dos peixes pelo rio.
A partida para mim constituía um espetáculo maravilhoso: os trenós altos de carga, os cães latindo e engasgando-se ao puxar os pesados fardos, os gritos nervosos das mulheres, que gesticulavam à frerite, enquanto as velhas, amarradas no alto das pilhas, gemiam ao serem sacudidos seus ossos.

                  Nossa primeira parada era perto de um campo de pescaria, onde cada homem tinha um esconderijo. Removidas as pedras, e aberto o esconderijo arrancou-se com um machado um grande bloco de peixe congelado. Depois, havia que fazer uma série de coisas: descarregar as velhas, que tinham Os músculos todos doridos; dar de mamar aos bebes; desligar os arreios cruzados dos cães; tomar chá; só então é que os homens se sentariam à parte, com seus cachimbos, para uma prosinha. Nunca o esquimó se deixa ficar perplexo. Devido a que a vida lhe é muito dura, são preciosos seus momentos de lazer; e exceto entre os camponeses e operários, não existe em nosso mundo civilizado o prazer que o esquimó aufere de uma horinha de inatividade.

                  No quarto dia de viagem chegamos a um pouso de pesca da foca, pequeno, de quatro ou cinco iglus. Eu não tinha ficado com muita comida, mas meu iglu ainda não estava terminado quando foi invadido por todo o pessoal. Metade de minhas provisões se foi em duas horas. O próprio Utak foi que se pôs à frente da pilhagem, e distribuiu tudo o que lhe caiu nas mãos. Eu tinha direito também de dispor de suas provisões tão livremente quanto das minhas, pois acima de tudo estava, a hospitalidade; a propriedade era de somenos valia. A maneira simples com que tomaram conta de tudo quase me deu prazer. Cutucavam-me sem a menor cerimônia e diziam: «Onde foi que você escondeu a geléia ? Os meninos querem um bocadinho.» Ou então: «Você só tem este fumo? É pouco, para um branco.»

                   Os esquimós espalhavam-se em leque pelo campo de pesca, cada um com dois cachorros especialmente treinados e presos a uma corda de dez metros de comprimento. Os cães saíam com o focinho pregado à neve a farejar, como perdigueiros, até que, de repente, um deles parava, agitado, farejando o rasto. É que localizara o orifício que serve de respiradouro à foca.

                    Todas as focas deixam abertos certo número desses orifícios. Quando o gelo se está formando, a foca vem tão freqüentemente à superfície respirar, que não dá tempo à congelação e o choque de seu corpo quebra com facilidade a tênue camada que se acumula nos intervalos, e que, em outros lugares, chega a atingir dois a dois e meio metros de espessura.

                    Uma vez localizado o orifício coberto de neve, o esquimó prende uma seta de aço à ponta de um arpão, enrola no pulso a corda ligada à seta, e se apronta para a matança. Esta, porém, pode ser demorada, pois a foca dispõe de outros respiradouros, não aparecendo naquele ou levando horas para aparecer. Encontrei certa feita um pescador que já havia três dias estava imóvel, na extraordinária atitude que assumem, a cabeça para baixo, o posterior arrebitado, em silêncio absoluto devido à audição ultra-sensível do animal--tudo em pura perda. Outra vez, um conhecido meu, Angus Gavin, de Perry River, regressou de uma pescaria com as mãos abanando.

                    —Quanto tempo você esperou? perguntou-lhe um esquimó.

                    —Quatro horas geladíssimas! retrucou ele, indignado.

                     O esquimó olhou-o sério.

                    —Quatro dias não é muito.

                   Morto o animal, passa-se a comê-lo. Numa de minhas pescarias, fiquei num iglu com três esquimós. Uma noite, depois de uma pescaria bem sucedida, fizemos o chá costumeiro e...   não  posso  precisar  que  horas eram, mas dei um cochilo e de repente acordei, para deparar com o seguinte quadro: os três homens, alumiados por detrás pela fraca luz da candeia, de modo que sua sombra se projetava na parede como murais fantásticos. «Todos os três estavam ajoelhados, os troncos inclinados para diante, imóveis, exceto as mãos vorazes. Em frente deles estava enorme bacia cheia de grandes nacos de foca. Banqueteavam-se. Cada um tinha um bocado na mão e outro na boca, e antes mesmo que os houvessem engulido, já as mãos remexiam a bacia. Pela atmosfera corria um cheiro de foca e de selvagens em festim. De onde eu estava podia ver suas faces besuntadas de gordura, o sangue a escorrer-lhes das bocas; e, com suas cabeças achatadas, o cabelo caindo sobre a fronte, e as enormes mandíbulas, eles inspiravam-me uma visão inesquecível da idade da pedra.

                   ALGUNS DIAS depois de meu regresso a Gjoa Haven, depois daquela excursão de pesca, soube que o Padre Henry, compatriota meu, dirigia uma missão primitiva entre os esquimós na Baía de Pelly. Resolvi visitá-lo, e para conduzir-me até lá, contratei os serviços de um guia prometendo-lhe como paga duas raposas.
Assim que se começa a fazer negócio com o esquimó, êle se mostra orgulhoso e com uma confiança em si mesmo que tem seu quê de grandioso. Seus cães ? Seu guia é o melhor que ainda apareceu por aquelas bandas. Pode perguntar a qualquer pes soa. Sobre o caminho, nem tenha dúvida. Ninguém o conhece melhor do que êle.

                   Quanto tempo levaremos para chegar à Baía de Pelly ? Vamos ver... E êle conta nos dedos... Dois iglus, três iglus, quatro iglus... cada iglu corresponde a uma noite de viagem. E ao contar, êle fica olhando para o rosto do interlocutor, como a perguntar a si mesmo até que número êle poderá chegar sem assustar o branco. Oito noites e nove dias ao todo. Na realidade, levaríamos dezessete.

                   Mas, afinal, pusemo-nos a caminho, meu guia Shongili e eu. Seguimos o curso de um rio gelado, arrastando e empurrando o trenó sobre o gelo. Ao pararmos de noite, pude examinar bem aquele espécime de homem. Era como um macaco, desmanchado, espadaúdo, os braços arriados ao longo do corpo. Os longos bigodes caíam-lhe sobre a boca, e êle vivia a rir como uma menina, não cessando um instante de lamber os dedos. Toda vêz que eu virava as costas para correr à frente dos cães, êle subia no trenó e pulava de novo no chão quando eu olhava para trás. Era pesadão e aborrecido, um tipo desagradável ao extremo.

                  Mas não paramos de aprender no Ártico, e é o tempo que nos inflige a primeira das lições, e com que crueldade! Ia eu carregado de agravos contra Shongili, quando, um dia, desabou uma tempestade de neve, e súbito fui forçado a tudo esquecer  para   somente pensar  em que  éramos dois  homens  lutando juntos pela mesma causa.
Eram duas e meia da tarde quando teve início. De repente caiu urna ventania que soprava a nada menos de 8o quilômetros por hora, envolvendo-nos em verdadeira muralha de neve. Os cães, com exceção do mais próximo, ficaram logo invisíveis, um pé de vento sacudiu o trenó e atirou-o a distância como uma pena, e através da tempestade vieram todos os uivos sinistros dos cães que não conseguíamos enxergar.

                   Detivemo-nos e levantamos um iglu da melhor maneira possível. Aqui é que Shongili pôde mostrar-me o que significava ser um lnuk, isto é, um homem, na plena acepção do termo. Aquele ser rude e inepto transformou-se duma hora para a outra num artista, movendo-se como um inspirado. Depois de calmamente encher o cachimbo, raspou o chão com o arpão à procura de neve que servisse.

                    Parecia que o iglu levaria séculos para ser levantado. Com muito cuidado, Shongili cortou uma primeira fila de blocos e os alinhou em círculo. Os cães atiraram-se dentro, à cata de abrigo, e êle os escurraçou violentamente, a pontapés. Depois, colocou-se dentro da pequena muralha, e só saiu de lá quando a tarefa estava pronta. Os blocos da parte superior do iglu tinham que ser retirados de debaixo dos pés. E com que perícia e rapidez êle fazia tôda aquela operação: a neve, que se esfarelava muito facilmente, exigia destreza espe cial para ser manipulada: o mesmo para cortar a superfície interna na devida inclinação ou para reduzir as dimensões do iglu em meio ao trabalho, caso a súbita intensificação da tempestade exigisse pressa. Nada disso lhe oferecia a menor dificuldade.

                    Trabalhava imperturbável. Aquilo que para mim era verdadeiramente catastrófico, não passava para êle das casualidades de  sua  existência cotidiana. Quase terminado o iglu, rastejei para dentro dele e colei-me à parede. Shongili colocou no lugar o último bloco e saiu para desenterrar os cães, dar-lhes de comer e enterrar nossos pertences na neve. Afinal, tudo pronto, entrou no iglu, sacudiu as vestes calmamente, sentou-se, tirou as botas e então, deitando-se de costas, olhou para mim. Mostrara ser mais forte que a tempestade. Tal como o marinheiro no mar,   enfrentou-a   tranqüilamente, sem dar a menor prova de medo. Ela não lhe mudou o ritmo. Aquele espírito de vagarosa decisão que, uma hora antes, me havia posto em estado de   exasperação   e  inquietude,   me dava agora uma nítida impressão de grandeza. Em meio à borrasca, aquele  peão do  Ártico,   por sua  total impassibilidade,  emprestou-me  um tanto de sua serenidade de alma.
DEPOIS de dias de viagem, chegamos afinal ao acampamento dos esquimós na Baía de Pelly, e fui conduzido por um deles até o Padre Henry. Ao nos aproximarmos, nosso guia correu à frente para anunciar a estupenda novidade da chegada do Kabloona. E que ali só haviam vindo três homens brancos no curso de um século.

                  Rodeamos uma colina e vimos vir ao nosso encontro um homem alto, magro, ossudo, mais do que delgado — translúcido. Como todos os ascetas, o Padre Henry infundia uma impressão de transparência que não podia ser escondida fosse qual fosse a quantidade de vestes esquimós que usasse. Por baixo de seu gorro de pele brilhavam dois agudíssimos olhos azuis, metade espirituais, metade infantis. Uma barba avermelhada de comprimento patriarcal derramava-se por sobre a sua jaqueta.

                   Levou-me o Padre Henry até uma porta de madeira na encosta da colina e empurrou-me à frente para dentro da sua caverna. A terra aqui congelava a cerca de trinta metros de profundidade e a temperatura era de quase 5o°C abaixo de zero. Nenhum esquimó viveria ali; um iglu é muito mais quente. Duas lâmpadas de óleo de foca deixavam escapar apenas um ligeiro bruxoleio na escuridão. Numa prateleira à direita estava uma lâmpada de querosene, uma faca circular, das usadas pelos esquimós, um trapo, uma lata de fumo vazia e uma caixa de sal. Bem em frente da porta havia uma tarimba, e o espaço entre esta e a porta media menos de metro e meio.

                    Duas peles de caribu haviam sido estendidas sobre a tarimba e em sua superfície ligeiramente inclinada é
que dormia o sacerdote. A direita havia um buraco no chão, o qual em parte tapamos com a caixa de meus pertences. «A caixa será sua cama,» disse o Padre. «E se você ficar sempre fora daquele buraco não sentirá frio.»

                   O Padre não tinha mais nenhum objeto originário da civilização branca. Tudo o que trouxera consigo era agora parte de um passado esquecido. «São coisas que não têm nenhum valor aqui,» disse êle. De que serviriam um prato, uma faca, um garfo, se sua refeição diária era uma lasca de peixe congelado, comido pela manhã ao levantar-se? Como poderia usar uma caneta, com a tinta congelada ? E um guardanapo, que enrijecia como papelão? Só uma coisa se podia fazer, era lamber os dedos, gesto que já se lhe tornara automático.

                    Quando desempacotei os presentes que lhe trouxera, êle ficou de pé, abanando a cabeça. Não, não podia mais comer aqueles alimentos dos homens brancos; nem mesmo arroz. Seu estômago nada disso digeriria. «Agora, só peixe congelado...» Nada como êle para nos aquecer internamente. Já lá  iam seis anos que era esse o único alimento que o sustentava. Era gostoso, aquecia, acalmava a fome e dava uma sensação de bem-estar.
A despeito de recepção tão pouco efusiva, continuei a desembrulhar a carga. O queijo, eu acabaria de comer; os charutos, seriam enviados para um padre belga que vivia na Baía Repulse e os apreciava muito. Quanto ao cachimbo, pobre Padre Henry! Era esta sua única regalia: tirar umas cachimbadas de vez em quando. Mas S. Revma. o Bispo pedira aos missionários um sacrifício a mais, de modo que o Padre Henry abrira mão de seu cachimbo. O resto dos presentes êle os colocou de um lado, dizendo distraidamente «Muita gentileza! Muita gentileza de sua parte!» Seus agradecimentos visavam apenas à boa intenção, pois os presentes propriamente não tinham significado algum para êle.

                    Eram seis da manhã, quando acordei no dia seguinte. Dormi mal na caixa, não podendo estirar as pernas. Havia muito que o Padre se levantara, e estava sentado na tarimba, imóvel, para não me acordar, murmurando baixinho suas preces. Vendo-me desperto, preparou o altar empurrando para um lado a lâmpada de querosene e a lata vazia de fumo, e deu início à missa. Eu ajudei, acocorado na tarimba.

                    «Dominus,» disse o Padre; e, passando a cabeça por baixo de uma viga, apareceu do outro lado, completando : «Vobiscum.» ....Et cum espiritu tuo,» respondi...

                    Ao confessar um dos nativos, êle ficava na passagem para fora, e a cena se desenrolava sob os olhos vítreos de uma foca congelada. Nessa escuridão, a uns 50° abaixo de zero, os dois ajoelhavam-se e cochichavam juntos.
Passei todo aquele dia com frio e aborrecido, deitado em meu saco de dormir e tomando chá. Quando estava comigo o Padre, conversávamos.

                   Contei-lhe as minhas dificuldades em chegar à Baía de Pelly, a despeito de ter pedido muito ao guia para apressar-se.    O Padre riu-se, afirmando que eu tivera sorte em chegar por aquele método. «Quando eu quero mandar um trenó em uma viagem rápida, chamo um esquimó e digo-lhe: — Preciso que você vá à Baía Repulse. Você levará algum tempo; você é jovem e provavelmente não conhece bem o caminho; além disso seus cães não valem grande coisa. Mas o caso é que não há mais ninguém disponível aqui, e não tenho outro jeito senão mandar você.»
Passado algum tempo, chega de volta o esquimó. O Padre pergunta-lhe: «Então?»

                    O homem dá mostras de abatimento. E que as coisas correram mal. O tempo estava muito pior que esperava; um dos cães caiu doente, sem falar em diversas outras dificuldades, cuja série é por êle enumerada escrupulosamente. Apesar de tudo, foi e voltou em doze dias, e estava certo de que o Padre sabia ter sido uma viagem rápida. Contou o Padre o episódio de um homem que o veio ver um dia, e que, após o chá e o silêncio de hábito, lhe disse a queima-roupa: «Botei a velha no gelo hoje.» Era sua própria mãe que êle havia levado para o mar, para que gelasse até morrer. Gostava muito dela, explicou. Sempre tinha sido bom para ela. Mas ela estava cega e tão velha que não servia mais para nada. De modo que, com a aquiescência de toda a família, êle a levou para o mar gelado a fim de que lá morresse.

                    «Espero com a ajuda de Deus mudar aos poucos algumas dessas coisas, abrandando alguns desses costumes,» asseverou o Padre; «mas não é fácil tarefa. Eles vivem uma vida dura e exclusivamente material. Se nos ouvissem, retrucariam que têm de enfrentar os fatos. Aquele homem fora um bom filho. Quando em viagem, dispensava cuidados à velha, correndo freqüentemente até junto do trenó para ver se estava bem aquecida, se não tinha fome, se não queria um pedaço de peixe. Mas chegara o dia, após anos durante os quais nem um queixume se ouvira, quando os moços decidiram não ser mais possível continuar a carregar o fardo, e então abandonaram a velha no gelo. E os velhos também aceitavam o destino conformados; às vezes partia deles a sugestão daquele fim.»

                     NÃO É necessário muito tempo para alguém voltar à vida primitiva. Já eu deixara de sentir-me preso aos acessórios da civilização. Mudar de roupa de cama diariamente, foi pensamento que deixou de existir em meu espírito; já apreciava o gosto do peixe congelado, especialmente se gelara instantaneamente, retendo assim o sabor original. Não me lembra ter experimentado em França algo que me soubesse tão bem ao paladar.

                     Além disso, havia razão no que dizia o Padre Henry: a alimentação do homem branco nenhuma serventia teria naquela vida. O arroz fervido apenas aquece a pessoa no momento em que é comido, e o calor adquirido desaparece logo. Ao passo que com o peixe congelado acontece justamente o contrário: não*se sente a irradiação de calor imediatamente; mas, vinte minutos depois começa a aquecer-nos e conserva-nos aquecidos horas seguidas. No que tange a carne crua, de elevado teor vitamínico, se ' comida congelada, pode ser consumida em enormes quantidades, e não há carne que chegue quando voltamos de um dia inteiro de labuta na neve. Até de carne estragada cheguei a gostar, com o tempo, embora jamais conseguisse considerá-la um petisco. «No começo eu era como você,» disse-me o Padre. «Mas lá um dia dei com um pedaço de ti-pi, carne passada, e disse para mim mesmo: Não é tão ruim assim. E desde então a carne fresca para mim quase perdeu o sabor.»

                     Demo-nos bem desde o primeiro instante, eu e o Padre Henrique. E assim intimamente .ligados, nossa conversa não era peada pelas reticências do trato social. Perguntei-lhe pois um dia se não lhe era pesada demais a solidão daquela vida.

                    —De modo nenhum, contestou; —sou perfeitamente feliz aqui"; tenho tudo que preciso. (Ele não tinha nada!)—Só uma coisa me aflige uma vez ou outra: que será de mim quando ficar velho?

                    Era como a confissão de uma fraqueza.

                    —Quando o senhor ficar velho, retruquei, procurando desajeitadamente confortá-lo, —irá para alguma missão no meio dos brancos.

                     —Isso é que não, absolutamente, protestou.

                     Que poderia eu dizer ? Não deveria ter insistido no assunto. Mas naquele momento, desejei de todo o coração que todos os velhos que dispõem de uma casa aquecida e os confortos assegurados à velhice pudessem ver aquele sacerdote solitário no Ártico.

                     Ele se mantinha vivo graças a algo diferente da força da natureza. A vida em certo sentido já o tinha abandonado, e qualquer coisa mais sutil, mais misteriosa a substituíra. Ali restava uma alma simples, reta, nua, coberta apenas com o manto inconsútil do seu cristianismo.

                     Suas vestes místicas serviam-lhe de escudo contra a fome, contra o frio, contra qualquer ataque do mundo físico. Uma vez mais aprendi que o espírito é imune e irresistível, ao passo que a matéria corruptível é fraca. Se, após testemunhar o que me fora dado apreciar, alguém se recusasse ainda a acreditar nessa verdade, melhor seria ter ficado em casa, pois não possui vocação para viajante.

                     AFINAL, quando lhe pedi, o Padre Henry arranjou alguém para reconduzir-me à Terra do Rei Guilherme. Ao despedir-me dele, as palavras não me vieram à boca. Só consegui tomar ambas as mãos do sacerdote entre as minhas e balançar a cabeça. E nosso trenó partiu suavemente.

                     Em caminho tivemos luz do dia (se é que se pode assim chamar) das onze e meia da manhã à uma e meia da tarde. O resto do dia foi só escuridão. Mais tarde, o sol voltou, colorindo de um rosa pálido o mar endurecido, e sobre ele os montículos de gelo apareciam ora esverdeados, ora rosados, ora translúcidos, à medida que escorregávamos por entre eles. A terra morria e renascia com a sucessão das estações, e os esquimós eram tanto quanto eu conscientes de sua frescura e novidade. Embora a temperatura ainda nunca subisse acima de 45°C abaixo de zero, e o frio às vezes se tornasse causticante de noite, os três—pois Manilak trouxera a esposa nessa primeira fase de minha jornada—sentíamo-nos revigorados, traduzindo nossa alegria em conversas e risadas ruidosas.

                    Cada vez me sentia mais a gosto em meio àquele povo e seu sistema de vida; de loquaz, por exemplo, tornara-me lacônico. Em verdade, se pensarmos bem, quantas palavras desnecessárias pronunciamos! Passei a acreditar que a linguagem é feita para os preguiçosos; e, em caminho, nunca estávamos ociosos. Três pessoas viajando formam uma comunidade tácita, cada uma desempenhando uma tarefa, em silêncio. Avistada uma colina à frente, sem dizer palavra os três se levantavam e empurravam o trenó. Fosse para passar gelo nos deslizadores, para desembaraçar os arreios ou para fazer chá, nossos movimentos eram sempre coordenados. Resultava daí uma inesquecível impressão de harmonia e serenidade. E, terminado o trabalho, enrolávamos nossos cigarros, tirando o fumo da latinha comum, enquanto um risinho consagrava a espécie de convivência que existia entre nós.

                    De noite, o iglu subia do chão num pulo. A mulher reduzia a neve a um pó finíssimo e tapava bem as fendas. O marido amarrava os cães no lugar devido, e eu, portas a dentro, movimentava-me como uma velha dona de casa ocupadíssima. O conforto no iglu é uma questão de organização. Tudo deve ser feito de jeito que, ao sentar-se no iglerk, todos os objetos necessários estejam em lugares apropriados, ao alcance da mão. De sorte que, apenas estirando o braço, se pega a «neve de beber», a lata de fumo ou as vestimentas na grade do secador, sobre a lâmpada. Eu tinha agora verdadeira mania que dificilmente me deixaria convencer a mudar a posição daqueles objetos. Uma vez terminado os arranjos, eu me sentava com a mesma satisfação e presunção de uma concierge parisiense no seu cubículo, a cordinha do trinco à direita, o fogão à esquerda e o gato nos joelhos.

                      Aquilo é que era conforto! Por outro lado, quando se pegava no sono, tudo mudava. A temperatura caía quando se apagava a lâmpada. Eu não era esquimó, e continuava o sono para iludir-me. Meu saco de dormir estalava se me mexia, porquanto era um verdadeiro bloco de gelo. Meus cabelos e o rosto ficavam cobertos de gelo, pois o hálito se congelava assim que me escapava dos lábios.

                      Ao amanhecer do dia seguinte, o iglu estava cheio de uma névoa acinzentada. Leva-se muito tempo para resolver mover-se. Até retirar o braço fora do saco para acender o fogareiro Primus era uma tortura. E nem pensar em barbear-se. E extraordinário como isso piorava tudo. Ao crescer o cabelo nas bochechas, queixo e lábios, o gelo acumulava-se nele e, tornando-se incômodo pelo peso, tinha de ser retirado. Não podia descalçar as luvas para derretê-lo com as mãos. Assim, tinha que arrancá-lo, o que fazia a face sangrar; imediatamente, o sangue se congelava, e eu ficava com uma aparência horrível, o rosto salpicado de manchas de sangue congelado entre placas de queimadura feitas pelo frio no nariz e nas maçãs.

                      A meia noite, chegamos a Gjoa Haven, onde fui saudado à chegada pelo impassível Gibson.
«Cá está você de novo!» disse êle. Se ao menos êle soubesse o que me custara estar ali de novo! Trinta e cinco dias decorreram desde a última vez que lavei o rosto e tirei todas as roupas. Apesar de exausto, era-me difícil dormir. Dentro de casa, o termômetro permanecia a zero, e o calor quase me sufocava. Durante a viagem, não tossira nem uma vez, e
agora dei para tossir como um velho. Estava famélico, mas demasiado fatigado para comer. E aquele extremo cansaço não me abandonaria por muitos dias ainda.

                     CHEGAVA a primavera. A temperatura subiu até uns 20o C abaixo de zero, e um dia, subitamente—estávamos a 25 de abril,—deu um salto chegando a 1° abaixo de zero. Soprava um vento quente e desagradável. O «calor» era insuportável, e tivemos que remover a neve do teto do Posto, para que, ao derreter, não ficássemos inundados.

                      Olhei pela janela para os pingentes de gelo que gotejavam e pensei tristemente quão lúgubre era aquele mundo. Reapareceram no solo as lajes, que lembravam crânios, pontilhando aqui e ali a tundra nua. Até onde a vista alcançava, o panorama era sórdido, repelente, lúgubre. O Posto parecia encoberto por um redemoinho de cinzas e lixo, que o degelo punha à mostra. Nós mesmos éramos os responsáveis por aquela imundície! Latas vazias, vidros de geléia, batatas podres, tudo jazia espalhado do lado! de fora, tornando-nos ainda mais sucumbidos.

                     Com a continuação, passamos a ter o céu iluminado a noite toda. Detestávamos ir para a cama, e se o fazíamos não dormíamos. Como animais, havíamos hibernado e agora estávamos prontos para reaparecer.
Já os esquimós haviam abandonado os iglus cambaleantes, e tendas surgiram por todos os lados. Devido, porém, a que o vento incerto do Ártico esfriava, varrendo as novas habitações, eles construíam parapeitos de neve em torno das tendas para protegê-las. Arpões, peles de ursos, canoas, máquinas de costura enferrujadas e gramofones desmantelados, que haviam sido exumados triunfalmente para a primavera, jaziam a trouxe-mouxe nas tendas.

                      Maio é o grande mês das visitas, e quase diariamente chegam esquimós, às vezes de grandes distâncias, para suas operações comerciais, muitos deles trazendo 180 ou 200 raposas. A atmosfera era de exaltação e entusiasmo, ante a perspectiva dos festejos, das visitas, das compras que as mães de família tinham de fazer.

                      Um a um entram na fila do mercado, as mulheres e filhos junto aos seus calcanhares, e aí ficam hirtos, silenciosos, meio atônitos. Para quem uma lima enferrujada constitui um tesouro (Amundsen fala de esquimós que viajavam quase mil quilometros para obter alguns pregos) aquilo era o sétimo céu. Ali estavam caixas repletas de pregos, coleções completas de limas. Pendurados do teto, quase ao alcance da mão, estão nada menos de 50 chaleiras.

                      Deslumbrados, cheios de animação, eles se entreolham. Que criatura extraordinária é esse branco! Não se conforma com possuir todas essas panelas e chaleiras, mas traz novos lotes todos os anos. Deve ter, enterrados em seu longínquo país, imensos depósitos de panelas, fazendas e fumo.

                      O primeiro esquimó, o mais importante de todos, adianta-se. Está profundamente impressionado. A despeito do muito que conversaram no iglu, a realidade do mercado ultrapassa em maravilhoso tudo quanto sua memória relembrava. Coloca no chão um saco, abre-o, puxa de dentro algo sem forma e vagamente branco, coberto de sangue gelado. E uma raposa.

                       O branco, de pé, sorri, à espera de que o esquimó se decida. Finalmente, este anuncia com firmeza:

                       — Qt-chor-lo (querosene).

                       — Ta-mar-mik? pergunta o branco (Em quantidade equivalente ao valor de uma raposa ?)

                        —Eh -eh! retruca o esquimó, querendo dizer que sim.

                         O branco vai buscar o combustível, apanha a primeira raposa, e o esquimó expõe outra.

                         — Ti-pa-ko, diz êle, desta vez. (Tabaco).

                         — Ta-mar-miX? repete o branco.

                         A repetição da expressão que indica a quantidade aborrece o esquimó. Tomado de súbito temor, já não ousa afirmar seu desejo, e diz afinal em voz humilde.

                        —Napi-dlu-go (Corte ao meio).

                        Mas, que irá êle levar pela outra metade da raposa? Perpassa o olhar em torno, até o teto, e murmura:
                       
                        —Na-una. (Não sei).

                        De repente, um objeto numa prateleira sugere-lhe algo ao espírito, e êle aponta:

                       — Tam-na-lo. (Aquilo ali).

                       Cada vez que o branco põe uma raposa debaixo do balcão, o esqui mó fica sabendo que ela já foi contada e seu valor esgotado. E, enquanto ela permanecer no balcão, é sinal de que ainda tem capacidade aquisitiva. As três ou quatro primeiras raposas são facilmente permutadas por gêneros. Há certas provisões sem as quais o esquimó não pode viver: querosene, chá, fumo. Depois da quinta, porém, êle está liquidado. Não é que lhe tenha faltado treino, pois êle e a esposa discutiram mais de vinte vezes sobre as trocas a fazer desta vez. Mas não há meio de se lembrar.

                       Felizmente, ela está ali, o bico de suas botas tocando-lhe os calcanhares, cutucando-o e incitando-o.
«Chita...!» diz ela. «Uma panela !» Seus olhos cintilam como só os de mulheres primitivas soem fazer.
´E verdade, como poderia esquecer! Com isso, brotam-lhe idéias. «Isto,e isso, e aquilo!» E aponta para todo canto ao mesmo tempo, receando que essas novas idéias lhe escapem de repente.

                      Afinal, foi muito longe e, ao sair do armazém, arrastando atrás de si uma caixa de madeira cheia de tesouros, tem a vaga impressão de que muitos desses objetos reluzentes não têm a menor serventia para êle.
Próximos da natureza, como vivem, os esquimós são quase tão susceptíveis quanto os animais à influência das estações. Quando chega a primavera, o seu rosto terroso apresenta uma cor avermelhada e os olhos adquirem um brilho incomum.

                       Em Perry River não havia nesses dias quem escapasse ao império do instinto, como os animais na época do cio. Verificaram-se casos extraordinários, como o de Mokahainek, que, vendo-se solteiro, se casou com a mãe de seu companheiro de caçadas, uma mulher de 50 anos que aparentava ter pelo menos 70.

                       EM PERRY RIVER encontrei para mim um maço de cartas. Tinha que dar resposta a algumas e, apesar de estar a uns bons 800 quilômetros de Coppermine, esta distância não constituía empecilho a que me alcançassem pelo rádio e me forçassem a passar telegramas. Nada me restava agora senão planejar a volta àquele mundo, do qual me sentia desligado. Lutei contra a idéia, procurando relembrar a mim mesmo que no iglu eu tinha sido rei, ao passo que lá me tornaria novamente escravo. Poderá parecer ingratidão, mas só quando cheguei ao Canadá e tive notícia do início da guerra é que comecei a interessar-me pela França e meus amigos.

                      Uma noite, para os fins de maio, dois dias antes de partir para tomar o navio da Polícia Real do Canadá que me levaria do Ártico, devolvendo-me ao meu mundo, caminhei até o topo da colina e olhei em redor de mim. Era uma noite serena e pairava sobre o mar e a terra aquela calma, aquele silêncio que faz da noite no Ártico uma coisa inimaginável para quem não a conheceu. Revivi de memória os meses passa dos na neve, as durezas e mesmo misérias que suportara, e a súbitas dei comigo presa de uma saudade tão intensa que a mim mesmo me espantou e que nunca mais me largaria.

                      Deus sabe até que ponto ia nossa pobreza. Era uma pobreza total. Nada tínhamos de nosso. Havia, contudo, em nossa existência um sentimento de regozijo e contentamento, sobre o qual ainda hoje cismo sem lograr explicar. Perdi tudo o que possuía, mas ganhei riquezas inestimáveis. Privei-me do mundo, porém encontrei-me a mim mesmo, trocando o falso brilho pelo ouro. Depositados no fundo de meu ser havia germes de serenidade que me passaram despercebidos. Foram a tempestade e o perigo que me salvaram, pois sem eles meu espírito dormiria para sempre prisioneiro da carne. Naquelas tundras árticas pude reconstruir-me de dentro para fora. Através das vergônteas de minha face queimada pelo frio surgiu minha verdadeira fisionomia, aquela fisionomia que Deus deseja os homens mostrem uns aos outros.

                      De pé na colina, confessei a mim mesmo a vontade de não abandonar aquela terra. Meu desejo era regressar às remotas paragens, e viver talvez como o Padre Henry na Baía Pelly. Por muitas razões, porém, aquilo era um pensamento inteiramente impossível. E, ao descer a colina, sabia que meu destino estava alhures. Sei agora que êle está na França.








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Luiz Pontual
                  NÃo ME LEMBRO se foi uma fotografia numa vitrina que me deu a primeira sugestão, ou se foi alguma observação aguda, ouvida casualmente. O fato é que, algum tempo antes de uma certa primavera em Paris, a palavra esquimó se me agarrara ao trapézio do espírito, e em pouco eu estava inteiramente possuído da urgente necessidade de ir para o Ártico e viver no seio de um povo primitivo.
                  
                   O primeiro efeito de uma sensação dessa natureza não é a decisão, mas a inquietação. O mundo se torna cada vez mais abafado, menos tolerável; dia a dia, os amigos nos dão a impressão de que só falam tolices, vivendo uma vida sem sentido, até que chega o momento em que acordamos no meio da noite e ficamos com os olhos arregalados, como querendo furar a escuridão. Algo está por acontecer, não há dúvida. E de fato acontece: a decisão está tomada.
Um passo apenas, e eis-me com o dedo na campainha, à porta da Congregação dos Oblatos, sacerdotes que têm por missão particular a evange lização dos povos mais longínquos e abandonados da terra. Dessa casa têm partido, há gerações, missionários que se dirigem para o centro da África para as florestas brasileiras, para o Ártico.
Sem explicações preliminares, fui logo declarando ao padre que me recebeu o propósito de minha visita: era meu desejo ir viver com os esquimós. Mas, não me interessavam os da Groenlândia, já civilizados e vivendo sob tutela governamental; tampouco os do Alasca, especializados em cinzelar lembranças para turista
Queria ir para o meio dos esquimós canadenses, que habitavam as regiões do Ártico Central, tão longínquas que era completamente primitiva sua vida. Suas ilhas faziam parte da diocese de um Bispo oblato, que dispunha de avião particular. Poderia ele levar-me para o interior ? Contaria com o auxílio dos padres?
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