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         C ERCA DE 80.000 dos nove milhões de habitantes da Austrália são aborígines, descendentes dos nômades da Idade da Pedra que dominavam o continente antes do branco chegar em 1788, e uma das raças mais antigas do mundo. Cresci entre eles e nunca deixei de admirar-me do seu talento extraordinário, de seus poderes de dedução, de seus sentidos altamente desenvolvidos de olfato e vista.

             Os aborígines têm pele cor de chocolate, cabelo ondeado ou crespo, boca grande, nariz largo, em forma de figo, e testa fugidia. São um pouco mais baixos do que o australiano branco comum. Em geral, são pescadores e caçadores. Repousavam quando de barriga cheia, caçavam quando tinham fome. Numa terra difícil onde não era possível cultivar cereais nem domesticar animais, além de ca chorros do mato, eles enfrentavam muito bem os percalços da vida.

             Aqueles que agora vivem em acampamentos supervisados, nas zonas civilizadas da Austrália, têm freqüentemente sido aviltados por esse contato, mas os 30.000 que ainda habitam as regiões setentrionais do país, mal tocadas pelo branco, são muito diferentes. Conseguem sobreviver em desertos áridos onde o branco morreria. Sabem seguir o rasto dos mais esquivos animais da floresta, seguindo uma pista onde os olhos do branco nada vêem.

             Por causa dessa habilidade fenomenal, os aborígines são muitas vezes utilizados pela polícia para descobrir criminosos ou encontrar gente perdida nas capoeiras. Na Nova Gales do Sul, uma menina de quatro anos afastou-se de casa. Quarenta vizinhos, a pé e a cavalo, bateram o mato o dia inteiro, sem êxito. O pai telefonou à polícia, a 60 quilômetros dali, pedindo auxílio do seu aborígine, ou mateiro preto, como o chamam.

             Quando o mateiro chegou, pouco antes do sol raiar, parecia não haver pista para ele. Era em pleno verão e o solo estava esturricado. Ele circundou a casa, afastando-se cada vez a cada giro. De repente, saiu confiante em linha reta. Durante horas seguiu uma pista fantasmagórica que ninguém mais conseguia ver—uma folha pisada, um ramo partido, um seixo deslocado. Umas vezes corria, outras caminhava de gatinhas. Por duas vezes na região pedregosa perdeu a pista invisível. À tardinha encontrou a garota dormindo exausta ao lado dum tronco.

             O mateiro ficou quase tão contente como os pais, pois os aborígines são gente bondosa. Esforçam-se até ao esgotamento, procurando alguém, e chegam a chorar de alegria quando encontram a pessoa.
As habilidades demonstradas por esses aborígines semi-selvagens são o produto lógico da sua luta pela sobrevivência. Não há meio de conservar alimento em terra quente, de modo que é preciso matar quase diariamente. A pontaria das lanças só é precisa até uns 50 metros, de modo que precisam chegar perto para arrojá-las. Pelas pegadas de um canguru, digamos, têm que deduzir sua velocidade, idade, tamanho, estado de saúde, tudo quanto possa ajudá-los na sua busca.

             Um mateiro, chefiando um grupo que procurava três homens perdidos, descreveu as atividades dos extraviados durante o dia. O clímax da sua descrição foi que um deles levara uma espingarda ao ombro esquerdo, e matara um peru bravo. A dedução é feita de trás para diante: (1) o homem põe o pé direito para frente para atirar da esquerda; (2) os grãos de chumbo sem dúvida feriram o capim e os arbustos; (3) a ave perdera algumas penas. Tudo isso observava o mateiro atento onde os brancos destreinados nada viram.

             Nos arredores de uma antiga cidade onde havia minas de ouro morava um velho solitário, Crazy Jack, que se perdia periodicamente. Numa ocasião, a polícia não conseguiu encontrar sinal dele e, depois de dois dias de busca, mandou chamar os mateiros. Havia semanas que não chovia. O matagal fora riscado por centenas de rastos—os deixados pelos homens que o procuravam e pelo próprio Crazy Jack. Após um momento de hesitação, os dois mateiros encontraram as pegadas que julgavam ser as mais recentes do velho e partiram.
    
             —Está doente!—disse um mateiro alguns quilômetros adiante.

             —Você quer dizer bêbedo!—retrucou o policial. —Doente!—insistiu o  aborígine. Dali a meia hora apontaram para uma galeria de mina abandonada. —Está lá.

              A autópsia confirmou que o ermitão estava doente e não estava bêbado quando saíra solitariamente ao encontro da morte. Como o sabiam os mateiros? Pela observação desde a infância das marcas deixadas por homens doentes e sãos.

              A habilidade do mateiro negro pode servir-lhe numa rua movimentada de cidade. Em Queensland, um homem roubou um acampamento de mineiros de ouro. O mateiro seguia as pegadas do fugitivo quando uma trovoada as apagou. Dez dias depois o mesmo mateiro encontrou pegadas das mesmas botinas perto do correio. Seguindo-as por entre milhares de outras, na rua poeirenta, conduziu a polícia a vários lugares e, por fim, a um hotel onde o ladrão foi preso.

              Meu avô contou-me uma proeza soberba que testemunhou na infância. Dois aborígines tinham ferido um emu com a lança, seguindo-o por espaço de quase um quilômetro. Ao chegarem a uma grande rocha plana, pareceu a vovô que perderiam a pista, mas, para sua surpresa, os aborígines se ajoelharam e sopraram na pedra. Dali a pouco continuavam, soprando de vez em quando. Explicaram que, ao atravessar o trecho rochoso, o emu quebrava as minúsculas folhinhas de musgo. Apontaram um lugar, sopraram e vovô viu voarem minúsculas partículas de musgo. Seguiram a ave—através de 50 metros de rocha até chegarem ao terreno mais favorável; por fim encontraram-na morta, com a lança no corpo. Alguns brancos asseveram que a natureza dotou os aborígines de algo especial em matéria de sentidos, porém um médico que os examinou diz que seus olhos e ouvidos não são mais apurados e sim mais exercitados que os do branco. Mas o seu sentido olfativo é certamente mais agudo. Sei de casos em que sentiram o cheiro de uma fogueira, de fumo queimado e dum cavalo suado a quilômetro e meio de distância.

               Poucos fugitivos têm logrado escapar aos mateiros. Nem mesmo o famoso bandido dos prados australianos, Roy Governor, pôde livrar-se de Alec Riley, aborígine que colaborava com a polícia de Nova Gales do Sul. Governor refugiu-se na região bravia do noroeste. Era astuto, engenhoso, estava armado e . . . era também aborígine.

               Enrolava os pés com couro de carneiro para ocultar as pegadas. Fazia giros e desvios. Descia pelas margens dos rios e entrava na água, como se fosse atravessá-la, mas, em vez disso, pulava numa árvore e saltava de galho em galho uns 50 metros até voltar ao chão. Mas nunca se livrou de Riley. Cada noite o mateiro e os policiais acampavam mais perto de Governor. E no fim o capturaram.

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Condensado de
"The American Mercury"

Publicado na "Seleções do Reader's
Digest " (*)  de fevereiro de 1955
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Olhos
que
Tudo
Vêem


Aborígines australianos—dotados de habilidades que
raiam pelo milagroso




por

Dal Stivens

(*) - Porquê "Seleções" ?

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