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Instituto René Guénon de Estudos Tradicionais
Liberdade e 
igualdade
       Martin Lings
Capitulo IV de
"Sabedoria tradicional e Superstições Modernas", da Polar Editorial, São Paulo, 1998.
(Tradução de M. Soares de Azevedo)
           O mundo de hoje é um caos de opiniões e aspirações conflitantes: o assim chamado "mundo livre" é um caos fluido; a parte totalitária do mundo moderno é um caos rígido. Em contraste com ambos, o mundo antigo sempre constituiu uma ordem, isto é, uma hierarquia de conceitos, cada qual em seu próprio nível. O caos tem sido produzido, como vimos, pelo "achatamento" humanístico da hierarquia até o nível psíquico, e pela conseqüente intrusão, nas considerações mundanas, de aspirações sobrenaturais frustradas e pervertidas. Qualificado por sua própria natureza para prestar culto, o homem não pode deixar de cultuar, e se sua perspectiva é cortada do plano espiritual, ele encontrará um "deus" para adorar em algum nível mais baixo, dotando, portanto, algo relativo com o que pertence apenas ao Absoluto. Daí a existência hoje em dia de tantas palavras "mágicas", como "liberdade", "igualdade", "alfabetização", "ciência", "civilização", palavras cuja simples menção faz uma multidão de almas cair prostrada em adoração submental. As superstições da liberdade e da igualdade não são apenas o resultado mas também, parcialmente, as causas da desordem geral, pois cada uma à sua maneira constitui uma revolta contra a hierarquia; e elas são ainda mais perniciosas por constituírem perversões de dois dos mais elevados impulsos do homem. Corruptio optimi péssima, a corrupção do melhor é a pior forma de corrupção. Mas, restaure-se a antiga ordem, e os dois ídolos em questão evaporarão do plano deste mundo, deixando às legítimas aspirações terrenas por liberdade e igualdade espaço para respirar, e, mais uma vez, ocuparem seus lugares, transformados, no cume da hierarquia.

           O desejo de liberdade é, acima de tudo, o desejo por Deus, uma vez que a Liberdade Absoluta é um aspecto essencial da Divindade. Desta forma, no Hinduísmo, o estado espiritual supremo, que assinala o fim da caminhada mística, é designado "libertação" (mokshà), pois ele é o estado de união (yoga) com o Absoluto, o Infinito e o Eterno e, portanto, de liberdade de todos os vínculos da relatividade. Foi claramente e acima de tudo à esta liberdade que o Cristo se referiu quando disse: "Buscai o conhecimento, pois o conhecimento os libertará",(1) visto que o conhecimento direto, Gnose, significa união com o objeto de conhecimento, isto é, Deus. Mas estas palavras do Cristo possuem também uma aplicação secundária em um nível mais baixo: há uma liberação relativa no conhecimento direto de verdades espirituais, pois tal conhecimento propicia acesso a um mundo superior e constitui, portanto, uma possibilidade de libertação deste mundo. Esta libertação é a "subida da caverna", na famosa imagem de Platão; e não seria despropositado lembrar aqui o que ele diz, pois representa o ponto de vista do mundo antigo, tanto oriental como ocidental.

             Platão — ou melhor, Sócrates, pois é em sua boca que Platão coloca este discurso (2) — nos pede para imaginar uma grande caverna subterrânea, com prisioneiros confinados ali desde a infância. Eles foram obrigados a se sentar em uma longa fila, de frente para uma das paredes da caverna, acorrentados de tal maneira que não podem virar a cabeça, conseguindo somente olhar para a frente. Uma fogueira, colocada às suas costas, ilumina a parede. Entre eles e o fogo, são carregados bonecos, feitos à imagem de todos os tipos de criaturas terrenas, vivas e inanimadas. Mas, não podendo virar a cabeça, os prisioneiros conseguem ver apenas as sombras que os bonecos lançam sobre a parede à sua frente.

            A seguir, Sócrates nos pede para imaginar que um dos prisioneiros escapa das correntes. A princípio, ele é capaz de se virar e ver os próprios bonecos. Depois, escapa da caverna e sobe até o mundo exterior, onde serão vistas todas aquelas coisas em cuja similitude os bonecos foram feitos. No início, ele consegue olhar apenas para suas sombras e para seus reflexos na água, primeiramente com a ajuda do luar e a seguir da luz do Sol; depois, é capaz de olhar diretamente para as próprias coisas; finalmente, ele é capaz de olhar para o Sol.

           A caverna é este mundo e os prisioneiros são mortais em sua vida terrena. Devido à falta de objetividade, causada pela inércia, embotamento e preconceito, os prisioneiros não podem ver claramente nem mesmo os bonecos, isto é, as coisas deste mundo; podem ter apenas uma vaga e obscura imagem deles, "pois agora vemos como em espelho, obscuramente, mas depois veremos face a face".(3) O mundo exterior é o outro mundo, que contém as realidades espirituais das quais as coisas deste mundo são símbolos. O aumento da capacidade de visão do prisioneiro liberto após ter chegado ao mundo exterior corresponde exatamente ao aumento do brilho do sorriso de Beatriz ao conduzir Dante através dos sete Céus. Este aumento denota a intensificação da percepção intelectual direta à medida em que o ser ascende por toda a hierarquia dos estados espirituais, conquistando em cada qual um grau mais pleno de liberação. Comparado com esse grau, a liberdade conferida pela escapada das cadeias parece cada vez mais relativa, sem falar do que é comumente chamado de "liberdade", isto é, aquelas "liberdades" menores como as que podem ser desfrutadas pelos próprios prisioneiros, a maior parte dos quais nem mesmo aspira ser libertada de suas cadeias. Sócrates nos pede para imaginar como as atividades e os interesses desses prisioneiros, centrados como estão inteiramente nas sombras dos bonecos, apareceriam a alguém que tivesse alcançado o fim de toda iluminação.

            Ao refletirmos um pouco sobre a narrativa de Platão, como ele certamente desejaria que nós o fizéssemos, fica claro que, entre aqueles que escapam da caverna e depois a ela retornam, destacam-se os Mensageiros Divinos, os fundadores de religiões, alguns dos quais nunca foram prisioneiros, simplesmente vieram do Alto. Em ambos os casos, sua missão sempre é falar aos habitantes da caverna sobre o Sol e a Lua, sobre os homens e as mulheres, os animais e os pássaros, as árvores e as flores, de acordo com suas dimensões plenas, o quão maravilhosos eles são em forma e cor. E alguns dos prisioneiros sorvem suas palavras e são tomados por um desejo de escapar do mundo das sombras para o mundo real. Mas muitos deles ficam indignados, sustentando que os Profetas são loucos ou sonhadores, e que as sombras dos bonecos são a mais alta realidade que existe.

           A luz desta imagem, compreenderemos que a diferença entre aquele que crê e o cético não é tanto como a diferença existente entre o prisioneiro e o liberto, mas sim como a existente entre dois prisioneiros, um dos quais é cônscio de seu aprisionamento, enquanto que o outro recusa-se a admitir que este mundo é uma prisão, pois seus pensamentos se detêm nos muros de sua própria cela.

              Se remontarmos agora à origem da concepção de igualdade, à sua fonte no Absoluto, perceberemos que ela é um aspecto daquela suprema possibilidade espiritual que o Cristianismo denomina "deificação" e que o Hinduísmo expressa pelas palavras "tu és Esse" (Deus é o teu Verdadeiro Eu). A necessidade de igualdade, que é parte da nostalgia da alma do homem decaído, é acima de tudo a necessidade de se tornar "adequado" mais uma vez à Presença Divina. Esta adequação, o maior dos Mistérios, é expressa no Islã pelas seguintes palavras: "O Meu Céu não pode Me conter, nem Minha Terra, mas o coração do Meu servo fiel pode conter-Me."

            Os maiores santos são iguais em virtude da igualdade de seu vazio que recebe a Plenitude do Infinito. E esta igualdade possui, subjacente ao seu aspecto divino, o que pode ser chamado de um aspecto celestial. Um poema medieval inglês, A Pérola, nos fala de um homem que visita a sepultura de sua filha e que, lá adormecendo, tem uma visão dela no Paraíso. Ele pergunta como ela está, e ela lhe diz que é a Rainha dos Céus. Ele a repreende, mas ela responde: "É verdade, como o senhor diz, que a Santa Virgem Maria é a Rainha dos Céus, mas sua bondade e generosidade são tamanhas que ela permite que outros reinem como Rei e Rainha a seu lado".

            Mesmo no plano humano, uma sociedade de homens "socialmente" iguais não é apenas um sonho utópico, mas uma possibilidade. E a tradição nos conta que essa foi de fato a norma na Terra por milhares de anos. A Idade de Ouro é, por definição, a Idade em que todos os homens estão "acima das castas". Mas, na ausência dessa igualdade, é evidentemente melhor que alguns elementos da humanidade permaneçam relativamente virtuosos, ao invés de todos afundarem em uma idêntica mediocridade. E o "sistema de castas" é um meio, entre outros, de salvaguardar, tanto quanto possível, o que restou de virtude e colocá-la em uma posição que possa beneficiar da melhor forma possível a sociedade como um todo. Esse sistema, além do mais, demonstrou satisfatoriamente sua utilidade, sendo praticado sem dúvida de uma forma mais rigorosa e metódica entre os hindus do que entre outros povos; e foram os hindus que conseguiram preservar intacta até nossos dias, em toda a sua intelectualidade, uma religião extraordinariamente antiga. As religiões correlatas a ela, como a grega, romana e germânica já estavam degeneradas no início dos tempos históricos.

                A existência de castas baixas, anormal em si mesma, tende a tornar-se normal à medida que se aproxima o fim de um ciclo de tempo, e o mundo antigo preocupava-se com o problema da auto-preservação, com a melhor maneira de deter o curso da decadência, isto é, de como controlar a geração de tipos humanos inferiores e diminuir a velocidade de um movimento descendente, que eles sabiam ser inevitável. Porém, os métodos de resistência a este movimento variaram. O sistema de castas implica a aceitação de que uma certa decadência já havia ocorrido. Um meio mais antigo de auto-preservação para um povo é manter afastadas, como fazem os índios norte-americanos, algumas das principais causas externas da decadência humana, como a vida não nomádica, sedentária e tudo o que a acompanha, e permanecer no maior contato possível com a natureza virgem, isto é, em um contato físico e psíquico que é ritualizado e iluminado por um verdadeiro contato intelectual. Esta última condição é indispensável.

                "E através das espécies animais e do fenômeno da natureza que os índios contemplam as essências angélicas e as Qualidades Divinas... Para eles, nenhum objeto é o que parece ser, mas é simplesmente a pálida sombra de uma Realidade. É por esta razão que todo objeto criado é wakan, sagrado.
O santuário do pele-vermelha está em toda parte; eis porque a Terra deve permanecer intacta, virgem e sacra, como quando saíram das Mãos Divinas, já que apenas o que é puro reflete o Eterno. O índio não tem nada de "panteísta", nem imagina por um momento que Deus esteja no mundo. Mas ele sabe que o mundo está misteriosamente imerso em Deus."
(4)

               Esta perspectiva impõe um modo de vida que torna possível dispensar totalmente um sistema de castas e conservar uma ordem social que é, ao menos virtualmente, um prolongamento da igualdade primordial. Não há "classe baixa" nem "classe média" entre os peles-vermelhas; e, desde que se mantenham fiéis a si mesmos e não sejam contaminados pelos "caras-pálidas", os índios constituem uma raça de nobres que ainda forma em cada geração uma pequena minoria de exemplares dos sacerdotes-reis da antigüidade remota.

               Mas uma mera persistência no nomadismo, se não estiver baseada em um contato intelectual com a natureza, constitui apenas uma garantia contra certas formas de degeneração. São muitos os caminhos que levam à decadên cia, e o mundo é velho o bastante para que eles se tornassem bem variados. A palavra "primitivo" é utilizada hoje em dia com muito pouca discriminação. Comparados aos homens de épocas mais primordiais, os peles-vermelhas da Idade de Ferro consideram-se a si mesmos como corrompidos. Mas, de modo relativo, eles merecem sem dúvida o título de "primitivos", considerando que muitos, se não a maioria, dos "selvagens" que atualmente são chamados de "primitivos" estão extraordinariamente corrompidos. Não faz sentido chamá-los de primitivos simplesmente porque um contato mais próximo com a natureza os livrou dessa forma particular de decadência que atingiu seu ponto máximo na civilização moderna.

              A encarnação da perspectiva intelectual em uma autoridade espiritual solidamente constituída é o que Platão sustentou ser a melhor defesa contra a decadência. E isso é o que os peles-vermelhas compartilham com os hindus, assim como com aquelas últimas teocracias sedentárias que não possuem sistema de castas. Surpreendentes e características são as maneiras pelas quais as duas últimas teocracias buscaram neutralizar, ou reduzir ao mínimo, as discrepâncias entre casta e classe, isto é, entre qualificações naturais e posição social, a qual está cada vez mais sujeita a ser o resultado de meros "acidentes". A Cristandade conservou a ordem social existente por sua correspondência parcial com um verdadeiro sistema de castas, mas estabeleceu acima dela uma casta superior, aberta a todas as classes, apesar de protegida dos intrusos pelos grandes sacrifícios impostos a seus membros. No Islã, que representa um apelo direto ao sacerdote-rei que permanece no fundo da natureza humana, ser membro da casta mais alta é uma imposição a todas as classes. Mas, a distância entre o ideal da Idade de Ouro e a realidade da Idade Som bria é transposta pela insistência do Corão e do Profeta sobre os "graus". Ainda que seja enganoso dizer que a civilização islâmica está permeada de um senso de casta, pode-se de fato dizer que ela é extraordinariamente permeada do sentido da essência do sistema de castas, a saber, um senso da hierarquia dos diferentes graus de possibilidades espirituais da humanidade. Assim, para o muçulmano, a hierarquia secular das distinções de classe é antes de mais nada eclipsada pela igualdade virtual do sacerdócio e, a seguir, substituída pela hierarquia espiritual no interior do quadro daquela igualdade.

                  Considerando como seria possível, na prática, formar um Estado ideal, que ele chama de "aristocracia", Platão diz que primeiro seria necessário encontrar alguns verdadeiros filósofos e colocá-los na posição de governantes, mesmo contra a vontade deles. A partir de sua descrição destes aristocratas, fica claro que ele está se referindo a santos, no sentido pleno da palavra, pois o verdadeiro filósofo é alguém que "escapou da caverna" e possui visão direta do "Sol". O Estado de Platão é na realidade uma teocracia: tendo escapado da caverna, o aristocrata, no sentido platônico pleno, é doravante capaz de executar um ir e vir entre ela e o mundo acima. E aqui reside o significado da função de pontífice, em latim Pontifex, literalmente "construtor de ponte".
Mas, e se a autoridade espiritual estiver longe de ser em si mesma um verdadeiro aristocrata? A História não tem demonstrado que os postos mais altos podem ser como aquelas roupas que ficam grandes demais em certas pessoas?

               A "solução" moderna para esta questão é encurtar a roupa para que ela sirva num anão. A solução dos antigos era ser paciente e esperar um homem melhor. Além disso, eles sabiam que a roupa em si era preciosa, independentemente daquele que a vestia. O teocrata pode estar bem longe de possuir de fato a qualificação espiritual que corresponda à sua função, mas tal função é ainda assim pontifex em si mesma, no sentido de que sua existência à frente do Estado afirma a supremacia do espiritual sobre o temporal, e constitui um reconhecimento oficial da "saída da caverna" e uma garantia da orientação da coletividade nesta direção. Mais ainda, além da hierarquia exterior dos dignatários espirituais, há a hierarquia interior dos santos, daqueles que são pontífices em si mesmos, independentemente de qualquer função que desempenhem ou não. E esta hierarquia interior pode, praticamente falando, substituir a hierarquia exterior ou, de qualquer maneira, desempenhar um peso incalculável na balança, para equilibrar as falhas no preenchimento das funções mais altas. Durante toda a Idade Média, a Cristandade Ocidental contou com uma sucessão contínua de grandes santos em cada geração, homens e mulheres cuja palavra era lei em toda parte, de fato se não oficialmente, e o mesmo se aplica à Igreja Oriental e às grandes teocracias não-cristãs mais ao Oriente, cujas "idades médias" chegaram a um fim muito mais recentemente. Mas, sem a própria ordem teocrática, com sua hierarquia oficial exterior para assegurar que o senso geral de valores seja verdadeiro, esses santos nunca poderiam ter "deixado sua luz brilhar diante dos homens" com tão deslumbrante plenitude. E nisto reside o coração de uma civilização teocrática, que existe apenas para promover o movimento "rio-acima" e controlar o curso "rio abaixo", criando e mantendo em movimento um ímpeto centrípeto que contrabalançará as tendências centrífugas da criação. Em poucas palavras, provendo uma ambiência na qual a religião possa melhor desempenhar sua função; e os santos são a religião, no sentido de que encarnam tudo que é ascendente e centrípeto. Isso se aplica também, por extensão, às ordens místicas ou fraternidades, pois cada uma delas é como que um prolongamento da vida do santo que a fundou.

                      Na Cristandade Medieval, com sua rede de monastérios e conventos espalhados por toda a Europa e Ásia Menor, cada povoação possuía em suas proximidades pelo menos um centro como este, onde um grupo de homens e mulheres vivia intensamente o grande ciclo do ano cristão — Advento, Natal, Reis, Epifania, Quaresma, Paixão, Ressurreição, Ascensão, Pentecostes, Assunção da Virgem Maria, a festa de São Miguel Arcanjo e Todos os Anjos, Todos os Santos e Finados, unidos entre si através dos meses pela sucessão das festas dos santos de cada dia. E a vivência intensa deste ciclo punha em movimento um poderoso vórtice espiritual, ao qual era difícil não ser atraído em certa medida.

                      A partir de cada centro, instrução religiosa elementar era fornecida a todos, e caridade dispensada aos necessitados. Era sempre possível, mesmo para o filho do camponês mais humilde, receber a educação mais aprimorada, desde que ele mostrasse uma profunda aptidão, digna da doutrina enraizada no Espírito. A noção em voga de que a "classe baixa" era "oprimida" na Idade Média está baseada numa concepção puramente mundana do "superior". Seria uma contradição se uma teocracia permitisse que qualquer parcela da comunidade fosse deliberadamente impedida de ser atraída para perto do Espírito, que é a única maneira de ascensão que um monge medieval, por exemplo, consideraria digna do nome. Para ele, o fato de que era extremamente difícil, senão impossível, ao pobre adquirir riquezas e títulos, aos quais ele mesmo tinha virado as costas, não teria parecido uma grande tragédia, para dizer o mínimo. Mas, com relação à ascenção no sentido positivo, mesmo o sistema de castas mais rígido certamente sanciona, à margem da sociedade, uma via ascendente que é aberta a todos sem restrição, incluindo os membros da casta mais baixa.

                "Se o Hinduísmo considera na natureza humana antes de mais nada aquelas tendências fundamentais que dividem os homens em tantas categorias hierárquicas, ele contudo concebe a igualdade na sobre-casta dos monges errantes, os saniasis, na qual a origem social não tem mais importância. O caso do clero cristão é similar, no sentido de que em seu interior os títulos de nobreza desaparecem: um camponês não poderia se tornar príncipe, mas poderia chegar a ser Papa, e coroar um Imperador".

                 Os casos individuais de injustiça e opressão, a grande distância que se abriu aqui e acolá, de tempos em tempos, entre a teoria e a prática, na Cristandade e em outras civilizações sacras conhecidas da História, não foram de responsabilidade da teocracia, mas da decrepitude coletiva da raça humana em sua extrema senilidade. Mais ainda, se as coisas foram mal, como geralmente aconteceu, foi graças à teocracia que elas não foram piores. E ocasionalmente, em algumas épocas e em alguns lugares, elas foram bem. E sempre se manteve a esperança de que o bem que houve uma vez poderia se repetir.

                   A Idade de Ferro como um todo pode ser chamada de "a época da escolha entre dois males". A Idade Média, ao contrário de qualquer período subseqüente, teve pelo menos a virtude de merecer ser chamada de "a época da escolha do mal menor". Os piores Papas e os piores Califas do Islã causaram um mal incomparavelmente menor do que homens como Henrique VIII, Ataturk e outros inauguradores da fria desesperança do secularismo.
A Europa Medieval era como um homem que mantinha sob controle uma doença sabidamente fatal6 e que geralmente convulsionava de dor todo o seu corpo e o fazia gemer constantemente. Mas sua compleição corporal estava intacta, a batida do coração era forte e regular. O sangue ainda corria pelas artérias e veias até a extremidade dos membros. De vez em quando, a febre cedia por um momento e o paciente se lembrava do que era ter juventude e saúde. O que é melhor, estar nessas condições, ou ser, possivelmente com menos sofrimento, como um corpo nos últimos estágios da doença, tão drogado que o desconforto relativamente pequeno que ele sente7 não guarda relação com a gravidade de seu estado? Mal se percebe a batida do coração, o sangue quase estagna nas veias, a pele inflama-se de chagas, algumas partes-externas do corpo já estão atrofiadas e o paciente, de acordo com sua proximidade do estado de coma ou de delírio, murmura ou diz coisas sem sentido como "Estou me sentindo cada vez melhor."

                 Mas se é possível a indivíduos decaírem a um nível inferior ao da coletividade — apesar de, sem dúvida, a palavra "inferior" não se encaixar em todos os casos, pois as profundezas do sofrimento podem estar num nível menos baixo do que a complacência —, é também possível a indivíduos escaparem do movimento geral num sentido positivo. Não há provérbio mais correto do que aquele que afirma que "não há vento ruim que não traga um bem para alguém", pois é uma necessidade metafísica — resultando diretamente da Onipresença Divina — que sempre haja um bem maior a ser tirado de toda situação. No caso presente, um aspecto deste bem pode ser expresso da seguinte maneira: no passado, os homens proclamavam ativa e diretamente a futilidade deste mundo, anunciando o sauve qui peut da religião, mas o mundo mesmo permanecia relativamente silencioso, ao passo que hoje em dia, quando os homens são cada vez menos ativos em proclamar esta verdade, o próprio mundo, com os homens aí incluídos de uma maneira puramente passiva, proclama cada vez mais a sua própria futilidade. Na realidade, tudo o que nós vivemos diariamente de um mundo em desvario demonstra que ele é realmente um lugar "onde a traça e o mofo apodrecem", e cada vez mais os falsos deuses, aos quais os homens se agarram, se desfazem em suas próprias mãos.

                 Dizer que uma coisa é perder a fé neste mundo e bem outra acreditar no vindouro é um simplificação. Descendemos remotamente de homens para os quais se erguia, na fronteira entre o mundo vindouro e este, não uma porta fechada, mas uma passagem aberta. Suas almas eram adequadamente preparadas e, sejamos conscientes disso ou não, herdamos certas coisas deles. E apesar de não haver esperança de que um pássaro voe enquanto persistir em ir com suas asas de encontro à terra, se ele puder ser levado, por algum motivo, a parar de se bater contra o chão, haverá uma boa chance de que ele pelo menos tente alçar vôo.

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Notas:

1. João 8:32. (N. do E.)

2. Livro VII de A República de Platão ou, mais corretamente, "O
Estado" de Platão.

3. ICoríntios 13:12.

4. Frithjof Schuon, Language ofthe Self, pp. 205, 221. Este livro deve ser lido não apenas por seu estudo, baseado em contatos diretos, da espiritualidade dos peles-vermelhas, principalmente aqueles das planícies, mas também por seu capítulo sobre "Distinções na Ordem Social", que joga uma luz há muito requerida em toda a questão das castas e classes segundo as diferentes perspectivas religiosas.

5. Frithjof Schuon, Language of the Self, p. 141.

6. Nossos antepassados medievais sabiam bem o que Platão queria dizer quando falou, mesmo a respeito de seu Estado ideal (e eles estavam bem longe de considerar seu próprio Estado como ideal): "Tudo o que é gerado é passível de corrupção, e nem uma constituição como esta durará para sempre, mas ela será desfeita". Eles tampouco teriam ficado injustificadamente surpresos com a virada que as coisas deram neste século pois, explicando como sua teocracia seria inevitavelmente derrubada e estabelecendo os estágios de degeneração pelos quais o Estado passaria, Platão menciona a "democracia" e a "ditadura" como as duas formas de governo mais deficientes possíveis, uma tendendo a levar à outra; a "ditadura" sendo em sua concepção o governo de um demagogo sem princípios que é levado ao poder por uma onda de reação contra o caos da democracia.

7. Isto é, em termos coletivos. Com relação aos indivíduos, o mundo moderno está sujeito a produzir combinações de temperamento e circunstância que são impenetráveis mesmo aos "remédios" mais poderosos. Não é por nada que nossa época é geralmente descrita como "uma época de suicídios e 'colapsos nervosos' ".

8. "Salve-se quem puder", em francês no original. (N. do T.)
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