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Luiz Pontual
        

        
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“Para meus filhos eu dou total liberdade e o mais importante é a nossa relação emocional !”. Quantas vezes não ouvimos este tipo de “proclamação de princípios”  de pais modernosos, geralmente com filhos insuportáveis ?

     Não é preciso muito esforço intelectual para constatar  a fingida virtude (1) desta declaração
“liberal”, pois é evidente que ela está desculpando o fato de os pais não darem qualquer tipo  de verdadeira orientação aos filhos, deixando esta desagradável função ao “mundo” e às escolas.

    “Largar” os filhos por aí soa muito melhor como “dar liberdade”, e assim as possíveis dores de consciência são amansadas. A própria palavra “liberdade”, hoje, é um mito inatacável e, no entanto, em si mesma, não é sempre positiva : se falarmos que alguém “livrou-se da saúde”, evidentemente não se trata de algo bom, pois está doente ; o mesmo poderíamos dizer, sem menos razão que, se “João está livre de qualquer orientação”, está , é claro, completamente perdido...

     Outra atitude que geralmente acompanha a tal “liberdade irrestrita” é a monetarização da relação pais e filhos ; deste modo, a liberdade é associada a um benefício ou recompensa e, nestas condições, os filhos não teriam do que reclamar... mas as coisas, como todos sabem, não correm tão bem assim.
Não cansamos de assistir crianças dando socos e caneladas nos pais, apesar da liberdade e do dinheiro ? Chegamos a ouvir que tal comportamento é não apenas aceitável mas até mesmo elogiável , pois o filhinho está demonstrando “rebeldia com o mundo”, e, “nós mesmos não fomos rebeldes um dia?”

     A constatação deste vulgar estado de coisas pode ser verificada a todo momento, mas o mais importante é buscarmos suas verdadeiras causas, mesmo sumariamente , e  é que faremos agora.

    A idolatria que hoje é dedicada à palavra “liberdade” tem suas raízes na Revolução Francesa e,  mais profundamente, na cisão do movimento protestante de 1517, em relação à Igreja Católica Apostólica Romana. Lutero proclamou então a Bíblia como única autoridade  e sua interpretação passou a ser regida pelo “livre exame” (2).

    Tal ruptura teve enorme alcance, pois significava  insubordinação à autoridade do Papa e à de toda hierarquia eclesiástica ; tal “libertação” favorecia aos interesses políticos e econômicos da Alemanha, irrealizáveis sob as normas das tradições da Igreja Católica.

    O conceito mesmo de Deus ficou a critério da cabeça de cada um – afinal não era livre o exame ?  -  com isso, a religião, que era o centro ordenador não apenas do Ocidente, mas do conjunto da humanidade em todos os tempos , passou a ser assunto particular , que dependia  do “humor”  individual.

    Podemos dizer que a idéia de País, Estado, ou  Nação, tal como  conhecemos hoje, tem sua origem nestes fatos históricos ; o que antes ( nos referimos à Europa ) era um continente intelectual, abrangendo vários reinos, passou a ser uma colcha de retalhos. Cada país europeu adotou sua “religião nacional” , isto é, cada país adaptou “um” protestantismo, subordinado-o às suas próprias necessidades políticas.

    A “libertação religiosa”,  na verdade, foi  equivalente ao afastamento de Deus ou do Princípio Único (3) e este fato desencadeou “revoluções” (4) sucessivas em pouco tempo : primeiro caiu a autoridade religiosa , depois os reinados e em seguida a burguesia, para chegar ao mais baixo , isto é,  o socialismo e o comunismo.

    A Revolução Francesa é um subproduto destes fatos históricos e seu lema grandiloqüente, emocional e um tanto irreal,  “Liberdade, Igualdade e Fraternidade” (5), é ilustrativo  quanto às suas aspirações originais. O mundo moderno é um desdobramento ou expansão deste “modelo” político que nos proporcionou duas guerras mundiais, uma monstruosidade chamada comunismo (6) e, também, certa dificuldade na educação dos filhos...

    Após estas necessárias considerações históricas, retomaremos nosso tema central, que é diretamente ligado ao conceito de família e de escola. Até o século XVII, aproximadamente, a educação dependia exclusivamente da família e das escolas (intelectuais ou profissionais) ligadas à Igreja. Era preservado o legado ancestral de conhecimentos em todas as atividades domésticas e através das festas folclóricas, uma e outra coisa impregnadas de simbolismo ; os desenhos de bordados, os “contos de fadas”, a pintura de objetos de utilidade doméstica, brinquedos, arquitetura, enfim, tudo o que rodeava a vida quotidiana fazia parte de uma cultura integrada (7). Superada a primeira infância, encaminhavam-se as crianças aos ofícios e/ou aos estudos segundo sua vocação (8) , o que nem sempre era algo hereditário. Um Cardeal, por exemplo, poderia perfeitamente ter sido um camponês humilde - e assim por diante.

    Estamos nos referindo à educação no quadro da Europa antes da Revolução francesa, mas poderíamos estender os exemplos à qualquer parte do Oriente tradicional, China, Índia, Tibete ou Japão, entre outros, e até mesmo aos índios norte-americanos.

    Entre os Sioux e Hopi, por exemplo,  há algo mutíssimo diferente destes filhos desorientados, agressivos e  super-ativos  As crianças índias, são, por incrível que pareça, extremamente calmas e mesmo concentradas. São capazes, como tivemos oportunidade de testemunhar em mais de uma ocasião, de permanecerem durante duas ou mais horas em perfeita tranqüilidade , enquanto adultos conversam ou cumprem tarefas.

    Pode-se  compreender um pouco tal traço inusitado para os modernos se repararmos que um índio, assim como um camponês medieval, acompanha os vários momentos que constituem, por exemplo, o ciclo da alimentação. As crianças acompanham e ajudam os pais desde o preparo da terra, passando pela semeadura, o lento brotar e o desenvolvimento das plantas , até sua colheita e preparo final para alimentação. Não é a mesma coisa que um insuportável garoto super-ativo detonando um pacote de cornflakes ... ou um hot-dog !

    Uma criança normal, isto é, que vive segundo as leis naturais, encontra-se intimamente ligada à estas leis e delas participa recíproca e continuamente. Mas a civilização moderna não se pauta pelo enfrentamento à natureza ? Sua lei  não é a "vitória" sobre as "forças cegas" da natureza ?  Entre os índios, assim como em todos os lugares tradicionais, a lei natural determina a vocação de cada criança e sua “competência”, é a exata harmonia entre a vocação e a função social que venha a  exercer (9).

    “Vocação” é  “chamamento” , mas o que chama quem ? O indivíduo é chamado pelo mundo a realizar durante sua vida as qualidades que lhe são próprias desde o nascimento. Ninguém negaria de boa fé o fato das crianças, inclusive as de mesmos pais, com idêntica educação, terem vocações bem diferentes entre si . Numa mesma família encontramos um filho que demonstra desde cedo facilidade com música ; outro é um irremediável preguiçoso ; outra   aprende sem nenhuma dificuldade  a matemática.
Apesar destas evidências, nosso mundo moderno trata a todos como se fossem iguais – a tal da “Égalité”, do lema revolucionário francês.  Assim, o ensino público é obrigatório (10)  ( - Ah !...onde está agora a tal “Liberté”?)  e igual para todos ( a socialista “Fraternité”...) , passando por cima do fato de cada um ser nitidamente diferente do outro...

    O resultado desta imposição educacional é um verdadeiro massacre das vocações ; todos são nivelados pela “média”,  que corresponde muito exatamente à palavra mediocrização - e isto sem pararmos para pensar nos critérios e métodos com que são elaboradas as chamadas matérias escolares, o que nos levaria para muito além dos limites deste artigo.

    Recentemente  a TV ( esta sim a “educadora-mor”, onde a mediocridade é regurgitada diariamente) exibiu um documentário revelador sobre o destino pessoal e profissional de crianças que foram consideradas “gênios” e de “altíssimo QI” , estudantes de escolas especiais ; o que assistimos foi a um desfile de decepções verdadeiramente melancólico, levando-nos a questionar os critérios atuais da alegada “genialidade”!

    A “formação” posterior das crianças em geral ( talvez o mais exato neste caso fosse deformação )  é cada vez menos integral e universal, em favor das chamadas especialidades;  há poucas décadas formava-se o “clínico geral”, médico que tinha visão de conjunto e determinava seu diagnóstico desde o geral até o particular. Hoje, temos especialidades dentro de especialidades, coisas do tipo, “cirurgião dos meniscos do joelho esquerdo” e por aí vai, com situações semelhantes em vários outros ramos profissionais.

    É cada vez  mais raro  encontrarmos alguém com um mínimo do que um dia foi conhecido como cultura geral . No conjunto, os ofícios e ocupações estão crescentemente atomizados, cada um dominando ( geralmente mal ) uma ínfima partícula de saber, sem a menor noção do que seja universalidade (11).

    Nunca o mundo adulto esteve tão infantilizado ( e imbecilizado ) como hoje ; basta ligar a Trágica Vitrine (TV) (12) para ser atropelado por verdadeira avalanche de insignificância e imbecilidade  a ponto de nos causar náuseas. Mas... não é este um direito e uma conseqüência do presumido poder da esmagadora  maioria (13)? Pois é este adulto que constituirá o que hoje impropriamente se chama “família”, plantada, colhida, cozida e condimentada pelo louvado lema “Liberté ! Égalité ! Fraternité !”.

    Que tipo de orientação pode dar aos filhos quem nunca a recebeu ? É transmitido aos filhos o  possível, isto é, o legado da mediocridade,  que realimenta a “máquina social” continuamente, até sua desagregação final. Dentro e fora de casa, cada filho é abandonado à própria sorte, em nome da “Liberté !”; pai, mãe e escola têm sobre eles os mesmos esmagadores direitos, em nome da “Égalité !”; irmanados sob este mesmo ideal reina a confusão e a ignorância, em nome da “Fraternité !”

   Claro que o leitor estará a esta altura se perguntando se o autor destas linhas por acaso está questionando a excelência do regime democrático e se por acaso existe melhor alternativa, já que o que temos “é o menos pior”! Sim, o autor está questionando , mas este já é um outro tema que merece ser tratado à parte proximamente.

    Para concluir, podemos dizer que a notável agressividade das crianças modernas tem suas raízes profundas na ausência de orientação que necessitam desesperadamente.  Orientação para a qual seus primeiros provedores, os pais, estão  incapacitados, pelos motivos históricos que mencionamos brevemente neste artigo, tanto quanto os segundos “responsáveis”, escola e Estado, que fraternalmente produzem um esmagamento vocacional mais generalizado , sistemático e planejado.

    O abandono a que são  relegadas, com ou sem riqueza material, é o que os pais chamam hipocritamente de “liberdade”.

    Liberdade que é, neste caso, como podemos constatar, um verdadeiro inferno para as crianças.
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Luiz Pontual
E quando a
"liberdade" é
um inferno?
de Luiz Pontual
Notas:

(1) Esta é a definição da palavra hipocrisia .
(2) É por isso que o Protestantismo,  apenas cinco anos após  sua fundação, já havia produzido dezenas de sub-seitas. Hoje, são milhares...
(3) Dois modos de designar o mesmo conceito.
(4) Revolução, em seu  estrito sentido etimológico designa “voltar às origens ou ao Princípio”, e não romper com eles...como é comumente usado.
(5) “Liberté, Égalité et Fraternité”;  as palavras encontram-se nesta ordem de importância.
(6)  Nenhum outro regime  buscou tão encarniçadamente o esmagamento da religião e da família
(7) Ver nosso artigo “ Nós fazíamos nossos brinquedos!”
(8)  Ver nosso ensaio “O que é vocação ?”.
(9) Ver nosso artigo “A Tradição dos Índios Norte-Americanos".
(10) Esta obrigatoriedade chega ao cúmulo de ameaçar os pais recalcitrantes com  cadeia. Ficou mundialmente conhecida a recusa de John Lennon em enviar seu filho a uma escola pública.
(11) É muito engraçado que a instituição chamada de Universidade seja na verdade o maior gerador de particularidades...
(12) São duas palavras que gozam de intimidade
(13)  Expressão democrática por excelência, “a esmagadora maioria” representa a vitória da quantidade sobre a qualidade. Ver “O Reino da Quantidade e os Sinais dos Tempos”, de René Guénon, Ed. Dom Quixote, Lisboa.



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