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Luiz Pontual
O Homem e a Natureza
    
Há mais de vinte anos chegou-nos às mãos um pequeno e precioso volume,
"O Homem e a Natureza", de S.H. Nasr.  Publicado pela primeira vez em 1968 e esgotado desde a década de 80, esta edição em português da Zahar Editores,
Rio de Janeiro, é um verdadeiro tesouro do campo de conhecimento hoje
conhecido vaga e genericamente por "ecologia".
Trata-se da transcrição, para o formato livro, de quatro memoráveis
conferências proferidas em maio de 1966 na Universidade de Chicago. 
S.H. Nasr é um sábio contemporâneo; não apenas um erudito brilhante, mas
autoridade inconteste em estudos tradicionais e, sobretudo, grande conhecedor do Islã em suas variadas facetas: esoterismo, religião, leis, arte e costumes.
Nasr examina neste livro as raízes profundas do preocupante desequilibrio 
entre o homem contemporâneo e a natureza. Já em 1968 -  lá se vão
quarenta anos - os sintomas já eram visíveis e as causas não apenas se
mantiveram mas se intensificaram, produzindo um ciclo de catástrofes que evolui em progressão geométrica, apontando irresistivelmente para uma
provável
déblâque do planeta Terra.
São investigadas inicialmente as circuntâncias do advento do cristianismo
e o alto preço pago no enfrentamento do panteísmo e naturalismo então reinantes, em favor do restabelecimento (o termo "religião" designa o resgate de uma
ligação perdida) do elo Terra-Céu. Prossegue magistralmente sua exposição examinando momentos decisivos - religiosos, filosóficos econômicos e políticos - através dos séculos e que contribuíram para a grave
situação mundial hoje reinante.
O alto valor intelectual deste pequeno e importante livro reside, muito acima do conjunto de informações,  na coerência da narrativa, visão abrangente e encadeamento lógico irrepreensível de causas e efeitos.

                                                                                           (
Luiz Pontual)
Conferência/Livro por S.H. Nasr
O   H O M E M   E   A   N A T U R E Z A

S. H. Nasr


                                       
PREFÁCIO À EDIÇÃO MANDALA BOOKS


         
Uma década se  passou desde que este  livro foi escrito.Durante esse período, a consciência da grande crise ecológica, que foi prevista neste trabalho, subitamente despertou na mente do homem ocidental. Na América, em certas partes da Europa e também no Japão foram dedicados dias especiais à salvação da Terra. Florestas foram derrubadas para produzir o papel necessário para se escrever a respeito dos vários aspectos da crise ecológica.

         E, por fim, em 1972, em Estocolmo, teve lugar uma importante conferência  internacional, resultando na criação de  um|órgão especial para estudar e aplicar meios de preservação do meio ambiente.

         Não há dúvida de que as várias dimensões dos problemas que a crise ecológica está colocando diante do homem tornaram-se muito mais bem conhecidas durante este período e de que se criou entre as pessoas uma maior concientização no que diz respeito aos malefícios causados pelo homem moderno em sua lida com o ambiente natural, do qual depende de forma tão direta. Essa nova preocupação é observada no número de livros e revistas agora dedicados a esse assunto; nos currículos criados em várias universidades, especialmente nos Estados Unidos e norte da Europa, para ensinar e treinar especialistas para enfrentar os problemas do meio ambiente, na fundação de órgãos nacionais e internacionais para supervisionar a utilização do meio ambiente; em grupos como o Clube de Roma, que foi estabelecido para aproximar os mais destacados cientistas e "pensadores", a fim de que ponderem sobre o futuro do homem; e mesmo nas tentativas de se criar um novo tipo   de tecnologia, chamada   "branda", Intermediária" ou "limitada", para atenuar os efeitos das Indústrias pesadas sobre o meio ambiente. Mas apesar de todos estes movimentos, a gravidade da crise ecológica e o perigo iminente que constitui para a vida humana permanecem irredutíveis. De certa forma, todos estes esforços parecem não ter alcançado o âmago do problema, pois com a menor das pressões econômicas externas, como esta provocada pela crise de energia nos dois últimos anos, são sempre as leis recentemente promulgadas sobre o meio ambiente que são modificadas, em lugar da modificação dos modos de vida, que são os principais responsáveis pelas crises que o homem está enfrentando nos dias de hoje. É por esta razão que talvez este livro ainda tenha uma mensagem para aqueles que continuam interessados na busca de uma solução real para as difíceis condições do homem moderno, especialmente quando refletidas em sua total desarmonia com o ambiente natural.

            Nas páginas que se seguem, procuramos descobrir as raízes da crise ecológica através do exame da história da ciência no Ocidente, e buscando mesmo atribuir um novo papel a esta disciplina acadêmica. Na década que passou, algum esforço foi feito neste sentido, mas de dimensão insignificante, tendo-se em vista a urgência e atualidade do problema. Durante os distúrbios estudantis nas universidades americanas, pelo menos um grupo de estudantes invadiu o departamento de história da ciência de uma destacada universidade, exigindo especificamente um novo papel para esta disciplina, que não seria o de descrever os principais "avanços" da ciência, mas o de explicar como o desenvolvimento e aplicação da ciência ocidental puseram o homem em uma situação tão desesperadora. Contudo, no cômputo geral, não é observável em lugar algum uma transformação de objetivo e direção em grande escala por parte desta disciplina, e o interesse dos estudantes em investigar a história da ciência para descobrir outras ciências da natureza e pesquisar meios de encontrar um caminho que nos tire do lodo dos dias atuais geralmente ultrapassa o interesse dos professores que lhes ensinam. Isto ainda é o normal, apesar de notáveis exceções.

            Propusemos também, no original, a redescoberta das cosmologias tradicionais das culturas orientais como meio de obter uma nova visão do universo natural e seu signi ficado. Isto também ocorreu, em escala notável, nos anos que se passaram, mas nem sempre de forma significativa ou saudável. Surgiram excelentes traduções e exposições novas de fontes tradicionais autênticas, referindo-se ao simbolismo das formas naturais e das várias cosmologias tradicionais. Mas, no cômputo geral, a enxurrada de mate rial sobre estes assuntos entrou na arena da vida do homem moderno trajada com as vestes do ocultismo e conduzindo a onda dos movimentos pseudo-religiosos, aos quais se associa grande parte deste tipo de material. Parece que, novamente com certas exceções dignas de nota (observadas nos escritos de homens como Huston Smith, Theodore Roszak e Jacob Needleman, no Estados Unidos, e Keith Critehlow, Gilbert Durand e Elémire Zoll, na Europa — homens que procuraram redescobrir as ciências tradicionais a partir da perspectiva tradicional), há agora um extremo antagonismo do tipo mais perigoso. Nas universidades, os departamentos de filosofia e, em grande parte, o ensino de "humanidades" continuam imersos no universo fechado da lógica desprovida de transcendência, enquanto o "inconformismo" ou "contracultura" está buscando transcendência, mas é impermeável à lógica que emana do Intelecto interior e também à revelação, que é igualmente uma manifestação do Intelecto Universal ou Logos. Como é notável aquela visão contida no recente e majestoso trabalho de Frithjof Schuon, Logic and Transcendence, na qual, a partir da perspectiva tradicional, se desdobra um panorama universal onde tanto a lógica quanto a transcendência recebem o devido tratamento.

         Por fim, nas páginas que se seguem, afirmamos claramente que a crise ecológica é apenas uma exteriorização de um mal-estar interno e que não pode ser resolvida sem um renascimento espiritual do homem ocidental. Este tema foi intensamente abordado por Theodore Roszak em seu livro Where the Wasteland Ends e ocasionalmente em outros trabalhos, mas não fosse pelos expoentes das doutrinas tradicionais como Frithjof Schuon, Titus Burckhardt, Marco Pallis e Martin Lings, cujos trabalhos são citados com freqüência neste livro, as forças para uma genuína renovação dentro das tradições religiosas no Ocidente não teriam avançado de forma apreciável. Na realidade, foram as forças que desejam repetir os erros do modernismo, dentro da própria estrutura das doutrinas e ritos religio sos, que ganharam ascendência, forçando as pessoas de pensamento elaborado a buscar em outras paragens os ensinamentos tradicionais genuínos.

          Temos ainda esperança de que, enquanto aumenta a crise criada pelo esquecimento por parte do homem de quem ele realmente é, e na medida em que caem, um por um, os ídolos de sua própria confecção, ele comece uma verdadeira reforma de si mesmo, que sempre significa um renascimento espiritual, e através deste renascimento alcance uma nova harmonia com o universo da natureza que se estende a sua volta. De outra forma, é inútil esperar uma harmonia com esta grande teofania, que é a natureza virgem, enquanto permanecermos em esquecimento e indiferentes à Origem dessa teofania, tanto além da natureza quanto no âmago da existência do homem. Que as páginas que se seguem sejam um modesto auxílio em chamar a atenção para as raízes dos problemas cujos sinais externos muitos já distinguem, raízes que se inserem profundamente no coração endurecido e na mente obliterada do homem moderno, cujo destino, não obstante, o chama a realizar seu papel de vice-gerente de Deus na terra e protetor da ordem natural, e de testemunha da verdade de que Omnis natura Deo lognitus ("A natureza toda fala de Deus")
(1)

                                                 
SEYYED HOSSEIN NASR
                                                                   
                                                                  Teerã
                                                          Maio de 1975 d.C.
                                                    Jumada 'l-awwal 1395 A. H.

Nota:
(1) Hugo de São Victor, Eruditio Didascalica, 6.5 p. 176, 1. 805.
       Os capítulos deste livro se baseiam em quatro conferências proferidas na Universidade de Chicago durante o mês de maio de 1966, fazendo parte de uma série de conferências anuais que têm lugar nessa Universidade sob o patrocínio da Fundação Rockefeller. O objetivo destas conferências é investigar, no mais amplo sentido, os problemas colocados à paz e à própria vida humana pelas várias aplicações da ciência moderna.

                  O próprio fato de tais conferências terem lugar anualmente atesta a apreensão existente hoje em dia, em muitos círculos, ante os malefícios causados pela tecnologia e ante a ameaça desta e da ciência à paz. Investigam-se as causas da desordem atual, cuja existência é tão óbvia, que poucos ainda podem pretender ignorá-la. Mas apenas raramente as causas subjacentes e essenciais têm sido trazidas à luz, talvez, em parte, porque se se tornassem conhecidas teria de ocorrer uma mudança radical na própria forma de pensar de muitos daqueles que percebem os efeitos maléficos dessas causas. E poucos estão dispostos a aceitar ou a submeter-se a esta modificação.

                 Hoje todo mundo fala do perigo da guerra, da superpopulação ou da poluição do ar e da água. Mas geralmente essas mesmas pessoas que se apercebem destes problemas óbvios falam da necessidade de um posterior "desenvolvimento", ou da guerra contra a "miséria humana" que nasce das condições impostas pela própria existência terrestre. Em outras palavras, desejam remover os problemas causados pela destruição do equilíbrio entre o homem e a natureza através de uma maior conquista e dominação desta última. Poucos gostariam de admitir que os mais problemas técnicos e sociais que a humanidade enfrenta nos dias de hoje não vêm do tão falado "subdesenvolvimento", mas sim do "superdesenvolvimento". Poucos desejam olhar de frente a realidade e aceitar o fato de que não há  possibilidade de paz na sociedade humana enquanto a atitude para com a natureza e todo o ambiente natural basear-se na agressão e na guerra. Além do mais, talvez nem todos percebam que, a fim de se conseguir esta paz com a natureza, tem de haver paz com a ordem espiritual. Para se estar em paz com a Terra tem-se de estar em paz com o Céu.

                Não há uma maneira de o homem defender sua qualidade de humano sem ser arrastado por suas próprias invenções e maquinações a uma condição infra-humana, a não ser permanecendo fiel à imagem do homem como um reflexo de algo que transcende o meramente humano. A paz na sociedade do homem e a preservação dos valores humanos são impossíveis sem paz com as ordens natural e espiritual e respeito pelas realidades supra-humanas imutáveis, que são a origem de tudo que se chama "valores humanos"..
         
               A tese apresentada neste livro é simplesmente a seguinte: embora a ciência seja legítima por si só, o papel e a função desta e sua aplicação se tornaram ilegítimos e mesmo perigosos devido à falta de uma forma mais elevada de conhecimento, no qual a ciência pudesse ser integrada, e à destruição dos valores sagrados e espirituais da natureza. Para remediar esta situação o conhecimento metafísico pertinente à natureza tem de ser revivido e a qualidade sagrada da mesma ser-lhe novamente conferida. Para consecução deste fim, a história e a filosofia da ciência têm de ser reinvestigadas em relação à teologia cristã e à filosofia tradicional da natureza que existiram durante grande parte da história européia. A própria doutrina cristã deveria ser ampliada para incluir uma doutrina que diga respeito ao significado espiritual da natureza, e isto com o auxílio das tradições metafísicas e religiosas do Oriente, onde tais doutrinas ainda estão vivas. Estas tradições não seriam tanto a origem de um novo conhecimento, mas um auxílio à anamnese, à lembrança de ensinamentos do Cristianismo, esquecidos agora em sua grande maioria. O resultado seria conferir-se, mais uma vez, uma qualidade sagrada à natureza, fornecendo uma nova base para as ciências, sem negar seu valor ou legitimidade dentro de seu próprio domínio. Seria a própria antítese do movimento corrente nos dias de hoje sob o nome de "teologia secular". Não significaria secularizar a teologia, mas conferir um significado sagrado e teológico àquilo que o homem moderno considera ser o mais secular de todos os domínios, a saber, a ciência.

                   Quando fomos convidados a dar estas conferências, em 1966, a escolha de nosso nome deveu-se especialmente ao fato de sermos seguidores de religião e cultura não-ocidentais, contudo um tanto atualizados com a ciência moderna e sua história e filosofia. Ao aceitarmos esta tarefa talvez audaciosa de agir como um crítico oriental do Ocidente, assim invertendo o que os orientalistas fizeram durante mais de um século com relação a todas as culturas e religiões orientais, sentimos que era imperativo ir além das fronteiras da ciência moderna, ou mesmo das disciplinas da história e filosofia da ciência, para penetrar a fundo em questão de ordem metafísica e teológica. E mais, ao conduzirmos o programa acima delineado tivemos também de ir além dos confins da civilização ocidental, entrando no vasto domínio daquilo que hoje se chama religião comparativa. A realização de todo este trabalho foi animada pela esperança de se encontrar novamente uma base sagrada para a própria ciência.
         
                Levar a cabo tão vasto programa requer conhecimento de muitas disciplinas e acesso às fontes em muitas línguas. De modo algum alegamos possuir o conhecimento de todos esses domínios, nem de todas as línguas pertinentes. Por esta razão, como também devido ao tempo limitado a nossa disposição para preparação destas conferências, fizemos uso freqüente de fontes secundárias. Na verdade, a maioria das notas, excluindo as que servem como referência, tem em vista servir de suporte aos nossos argumentos e não de prova de erudição. A tese apresentada é essencialmente metafísica e filosófica e deve ser considerada por si só, sem levar em conta se todas as notas de rodapé necessárias são fornecidas ou não. Nas notas, procuramos não esgotar as fontes que dão subsídios a nossa posição, nem tampouco fornecer todas as provas acadêmicas necessárias para convencer o leitor cético, mas sim fornecer certas evidências e assinalar o caminho para que outros possam se lançar a uma posterior investigação. Estes ensaios não pretendem ser exaustivos, mas são uma modesta introdução a um tipo de investigação ao qual ainda não se procedeu em extensão apreciável. Para se fazer justiça plena a todos os temas aqui tratados, seriam necessários muitos volumes e a colaboração de muitos estudiosos trabalhando em um campo que compreende diversas disciplinas acadêmicas, incluindo a história da ciência, filosofia da ciência e religião comparativa. Desejamos apenas que as idéias aqui apresentadas venham a estimular algum raciocínio em uma direção construtiva para a solução de um problema que é, a um só tempo, vital e urgente, e que não sejam postas de lado pelos pretensos críticos devido à falta de completa evidência histórica e acadêmica, um papel que estes ensaios não tiveram em vista exercer.

                Concluindo, desejamos agradecer à Divinity School, ao Departamento de Ciências Biológicas e ao Centro de Estudos do Oriente Médio da Universidade de Chicago, que atuaram como anfitriões destas conferências, ao Deão Jerald Brauer e, em particular, ao Professor John Rust, da mesma Universidade, por sua assistência e gentileza em tornar possíveis tanto as conferências como sua publicação.


                                                       
Seyyed  Hossein  Nasr.

                                                                     Teerã
                                                             Dezembro de 1967
                                                                Ramadã, 1387
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