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Instituto René Guénon de Estudos Tradicionais

   Os livros, ensaios e conferências do Dr. Seyyed Hossein Nasr, têm revelado, para muitas pessoas,
as ricas possibilidades da perspectiva tradicional. Seu último livro, Islamic Art and Spirituality,
foi editado pela Universidade do Estado de Nova Iorque, em 1987.

    
Esta entrevista teve lugar no gabinete particular de seu escritório na George Washington University, em Washington, aposento que tem as paredes cobertas de livros. O Dr. Nasr é professor
de Estudos Islâmicos na referida universidade.
    

     (Esta entrevista foi publicada originalmente em inglês in Parabola – The Magazine of Myth and
Tradition, volume 13, N.o 1, fevereiro 1988, Nova Iorque, e aqui transcrita com a
expressa autorização dos editores.      

Tradução: Julieta Penteado)


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Jeffrey P. Zaleski: O senhor incluiu em seu último livro, Islamic Art and Spirituality, o ensaio "A Mensagem Espiritual da Caligrafia Islâmica" , no qual diz que "a caligrafia do Corão emerge por ocasião da revelação islâmica e representa a resposta da alma dos povos islâmicos à mensagem divina" . A idéia da criatividade como uma resposta positiva ao sagrado difere da concepção comum ocidental, que a vê como um ato prometéico por meio do qual a humanidade imita a Deus e tenta mesmo usurpar Seus poderes. Na tradição islâmica, qual o papel desempenhado pela resposta criadora na relação da humanidade com Deus?

Seyyed Hossein Nasr : No mundo islâmico não existe a idéia da criação prometéica, ou seja, a idéia do homem agindo não apenas de modo independente em relação a Deus, mas, com freqüência, contra a vontade do céu – roubando o poder de criar, tomando posse dele para si e passando a criar o que quiser, a partir do seu nível individualista de existência, do seu próprio ego ou das suas limitações. A tradição is1âmica vê a criatividade sempre ligada à relação entre o homem e Deus. O homem recebe Dele, em primeiro lugar, o seu ser; depois, todas as qualidades que o tornam humano – inclusive a capacidade de criar. Enfim, ele recebe de Deus a própria vida, que torna possíveis as manifestações das qualidades que estão contidas de maneira fundamental nos Nomes Divinos e nas próprias Qualidades Divinas. No mundo islâmico considera-se que a arte, no senti- do real da palavra, tem sempre origem na submissão humana a Deus. Esta submissão permite que as Qualidades Divinas se manifestem através do ser humano, ao passo que ver neste o inventor de suas próprias qualidades ou obras criativas eqüivale a um véu que esconde, de algum modo, a Divindade. A tradicional concepção islâmica do homem é centralizadora: diz que ele conduz um centro dentro de si: ele é o coração onde reside o intelecto - no sentido tradicional do termo – e onde reside, por fim, a misericórdia divina. A mensagem corânica é sempre dirigida ao coração. Segundo uma célebre expressão islâmica, " 0 coração do fiel é o trono da compaixão divina" . E dele que brota o élan criador, a vitalidade criadora. O homem encontra esse centro dentro de si. Não é o trabalho artístico o seu centro. 0 centro é o próprio homem e é dele, na realidade, que provém a nossa ligação com Deus, fazendo com que sejamos capazes de disseminar as Qualidades da Divindade no mundo à nossa volta – em nível humano, é claro, porque Deus permanece Deus e o homem permanece homem. Não existem qualidades humanas que não
derivem, em última instância, das Qualidades Divinas.

J.Z. : Nesse mesmo ensaio sobre a caligrafia do Corão o senhor escreve que "o próprio santo é, em si mesmo, um trabalho de arte" . - As leis que regem a ciência da arte sacra e as que regem a ciência da santidade são as mesmas ? E mais, é possível criar um trabalho de arte sacra sem um desenvolvimento interior correspondente?

S.H.N. :Eu disse que o próprio homem - o santo - é o supremo trabalho da arte, porque todas as coisas são criadas por Deus. O homem, em certo sentido, é a Sua major criação. Ele reúne dentro de si todas as perfeições criadas. O santo é a plenitude do homem - ser santo é ser integralmente humano. Todos nós somos sub-humanos, do ponto de vista da tradição. O santo é a norma. A natureza teomórfica do homem é cinzelada, em sua essência, através da disciplina espiritual; por isso é que ele representa o perfeito trabalho de arte. Essa perfeição existe em nós, mas está velada por nossa natureza humana, manifestando-se ocasionalmente. No santo, porém, o véu é
retirado e a natureza do ser humano se revela em sua plenitude.
       As leis que, poderíamos dizer, fazem um santo ser santo não são nem as mesmas que as da arte sacra, mas estão relacionadas, em profundidade, com elas, no sentido de que a arte sagrada depende fundamentalmente de uma inspiração supra-individual. Ela tem origem naquele mundo que transcende o ego individual - o mundo do espírito. Está, por isso, intimamente ligada à experiência espiritual da santidade. Não que as túnicas e os métodos sejam os mesmos, porém a inspiração original vem da mesma esfera. É por isso. por exemplo, que no cristianismo a Origem do ícone está vinculada à São Lucas ou ao anjo, e não simplesmente a um ser humano que
no primeiro século possa ter pintado a imagem de Cristo.
Há, portanto, um elo interior entre a santidade e a arte sacra, e também uma profunda afinidade entre ambas. Essa arte baseia-se numa ciência sagrada do cosmo - do macro e do microcosmo - e na realidade metacósmica. Mas a santidade - não em todos os seus aspectos, mas no da sabedoria - liga-se precisamente à compreensão desse conhecimento. Por isso. o conhecimento que habita o cerne da santidade sapiente está intimamente relacionado com o conhecimento que reside no âmago da arte sacra. Quando essa santidade é destruída ou diminuída, a arte sagrada perde o seu centro e decai de modo gradual. Aconteceu inúmeras vezes na história humana; os dois exemplos mais evidentes são os da arte da antigüidade tardia e da arte européia pós-medieval.
       Quanto à pergunta sobre a possibilidade de uma pessoa produzir arte sacra sem ser santa, a resposta é : sim, é possível. Porque, uma vez conhecidas as normas - a linguagem simbólica, as imagens, a técnica e a disciplina para a criação de uma arte que tem sua origem na fonte do sagrado -, e desde que haja a relação mestre-discípulo, é possível, numa sociedade tradicional, transmitir essas técnicas, sem que o discípulo
compreenda todo o seu significado e alcance.
Em certo sentido a arte é, então, maior do que aquele que a faz. Porém, mesmo nesse caso, há necessidade de alguma adequação moral e espiritual, porque ninguém jamais poderia tornar-se discípulo de um mestre artesão, no mundo tradicional, sem alguma qualificação moral. Isso não faz da pessoa um santo, mas a põe a caminho de alcançar a perfeição espiritual através do seu métier, de sua arte. Portanto, há essas duas relações. No inicio da arte sacra é o mestre espiritual que traz a realidade espiritual do mundo arquetípico, do espírito, para o mundo da manifestação, seja esta um estilo caligráfico ou seja, em outra tradição, um ícone ou imagens sagradas. Isso está na fonte da arte. Contudo, uma vez no mundo, essa forma artística é maior que o indivíduo que a ela se devota e que através dela alcança gradualmente a perfeição espiritual. Assim, é possível criar um trabalho de arte sacra sem a plena consciência de todos os seus profundos significados simbólicos.

J.Z. : E a respeito de uma sociedade não- tradicional como a América de hoje ou, voltando um pouco atrás, como a Europa do final do século dezenove? Fala-se de artistas como Van Gogh ou, mais recentemente, como Mark Rothko, dizendo-se que o trabalho deles tem uma dimensão espiritual. Hoje em dia muitos artistas procuram relacionar seu trabalho com o sagrado, porém fora do contexto de uma tradição revelada. Esses artistas estio se iludindo? É possível criar arte sacra numa sociedade não tradicional como a nossa?

S.H.N. : Não. Sob o meu ponto de vista, não é possível. A arte sacra não pode ser criada fora da cultura tradicional para a qual ela tem significado. Entretanto, qualidades cósmicas, qualidades espirituais, podem refletir-se numa arte que não é, cm si mesma, de natureza tradicional. Pode-se ver isso, por exemplo, na música do Ocidente. A verdadeira música sacra ocidental é o canto gregoriano. A partir da Renascença passamos, aos poucos, a ouvir a chamada musica secular, que era, no inicio, profundamente impregnada de valores religiosos e espirituais. Isso continuou até a época de Bach.
Certas partituras bachianas, que não poderiam ser enquadradas entre o que se qualifica de obra religiosa, possuem, na realidade, urna substância espiritual. Mesmo no período pós-bachiano, quando a música ocidental se torna cada vez mais secular, humanística, titânica - em especial com Beethoven e Wagner - percebem-se eventualmente, passando pelas personalidades puramente humanísticas e às vezes até narcisistas que criaram a música romântica, qualidades cósmicas e espirituais. Isso é possível. Mas não é possível criar um trabalho de arte sacra sem a estrutura cultural tradicional. Pode-se tentar refletir certas qualidades espirituais, e há alguns pintores, como Van Gogh e os impressionistas, em cujas obras há algo de beleza cósmica, sem que elas sejam arte tradicional ou sacra.

J.Z. : Então, existe algo nesses artistas que responde, digamos, a uma verdade mais alta.

S.H.N. : Existe, sim ; mas às vezes essa verdade maior, a vida do mundo espiritual, brilha em
certos artistas à despeito deles mesmos.

J.Z. : Era o que ocorria com freqüência com Beethoven.

S.H.N : Sim, e mais do que com Beethoven, com Mozart, cujos últimos trabalhos – A Flauta Mágica, ou o Réquien – revelam um conteúdo que não corresponde ao tipo de pessoa mundana que se imagina que Mozart fosse e que era, segundo o que se sabe. Em Beethoven também há uma exteriorização excessiva. Em certo sentido, uma obra como a Nona Sinfonia nunca deveria ter sido composta, porque exterioriza estados de alma e tesouros que pertencem realmente aos domínios da interioridade. E isso nem sempre é positivo. Para quem é sensível, os últimos quartetos de Beethoven ou a Nona Sinfonia talvez levem a um êxtase espiritual. É uma possibilidade. Mas os ouvintes comuns, do dia-a-dia, não são assim; a própria obra traz em si, inerente, uma forma de exteriorização. Contudo, devia haver alguma coisa na alma desse homem – que, afinal, era um crente – que permitiu que essas qualidades cósmicas penetrassem de maneira ocasional em seu trabalho, embora conscientemente ele se rebelasse contra a tradição da música clássica. Ele libertou a música, mas também rompeu a estrutura semitradicional,
clássica, sobre a qual a música se fundamentava até a sua época.

J.Z. : E. aqueles que não são artistas nem artesãos ? Os que trabalham numa biblioteca, ou numa fábrica? Quais são suas possibilidades de participar de uma resposta criadora, de expressar criativamente uma
resposta ao mundo e ao sagrado?

S.H.N. : Existe uma possibilidade, porque, fundamentalmente, tudo que fazemos é arte: boa ou má arte. A espécie humana faz três coisas; há três elementos vinculados à nossa existência diária. Um é a ação. Outro é o fazer. E há o fundamento de ambos, que é o ser. Nós, existimos. - Normalmente, não temos consciência de existir. Ser capaz de simplesmente existir exige muita meditação, contemplação e autodisciplina. É uma coisa muito difícil. Durante o dia, mergulhamos, às vezes, no oceano da nossa própria existência, mas, como norma, agimos ou criamos. Teoricamente, tudo o que fazemos e cada ação nossa deveria ser uma forma de arte. Tudo deveria ser uma resposta ao Divino. Uma pessoa que tenha atingido um estado espiritual bastante elevado converte até uma refeição, em certo sentido, numa resposta à Divindade. A alegria que experimenta ao andar, ao respirar, ao comer – nos aspectos mais elementares da vida humana – não é menor do que a alegria da chamada grande criatividade, no sentido moderno da arte. Na verdade, as primeiras alegrias são muito maiores, porque com elas a pessoa está sempre respondendo a Deus. Esse não é um ideal fácil de alcançar, mas num nível mais próximo, para os seres humanos comuns que trabalham numa biblioteca ou que percorrem uma estação de trem, se houver uma vida interior, uma prática, uma disciplina espiritual, cada momento da vida, em certo sentido, é uma resposta. Essa resposta pode se manifestar – mesmo que não de maneira perfeita e a cada instante, como no caso dos santos – em certos momentos da existência. No caso de alguém que trabalha numa biblioteca, é claro que o modo como coloca os livros nas prateleiras não vai ser nunca tão criativo quanto, por exemplo, pintar um mural. Mas a maneira de agir, a intenção espiritual atrás do ato, a perfeição que se tenta atingir , não importa o que se faça, fazendo do trabalho uma dádiva que é apresentada a Deus – considerando-se assim a própria vida, ainda que sob circunstâncias difíceis –, sempre pode ser santificada. Essa criatividade tem capacidade de manifestar-se, mesmo que exteriormente
ela hoje possa não ser chamada de arte.

J.Z. : O senhor falou da perfeição que a pessoa tenta atingir em qualquer coisa que faça. No seu novo livro, o senhor aborda com freqüência a questão da beleza e de sua criação. Parece que algo dentro de nós nos guia para a beleza e para a perfeição, parece que temos o anseio de sermos artistas.

S.H.N. : Sim, como disse Coomaraswamy com muita propriedade, o artista não é um tipo especial de homem; cada homem é um tipo especial de artista. Existe em todos nós um anseio, uma necessidade de beleza. E na arte, antes de tudo – estou usando a palavra num contexto tradicional, porque hoje há pessoas que acreditam que a arte não tem nenhuma ligação com a beleza. Mas tem, é claro, no sentido tradicional do termo. Alguma coisa em nós busca a beleza e há uma dupla razão para isto. Primeiramente, ainda guardamos dentro de nós a natureza perfeita com que fomos criados. Nas tradições abraamicas ocidentais, ela é chamada de natureza paradisíaca – referente à Adão no paraíso antes da queda. Assim, conservamos alguma memória do estado edênico. Estamos, de certa forma, sedentos daquilo que realmente somos. Estamos buscando a nós mesmos, e esse eu interior sempre foi impregnado de beleza. No paraíso ela o inundava. Em segundo lugar, como conseqüência, já que não podemos fugir a ser o que somos ; temos algo do infinito em nós.  Internamente, nosso ser se abre para o infinito. Não somos um mundo fechado. Caímos no mundo da finitude, mas estamos sempre sedentos de infinitude. Toda a nossa rebelião contra a finitude, inclusive o desejo de liberdade e o sentimento de infelicidade com aquilo que temos, vem daí. É muito raro que os seres humanos se sintam felizes com suas realizações, materiais ou não; é o caso de atores ou atrizes famosos, a maioria psicologicamente doentes – para falar com moderação. Por alguma razão, não alcançam a felicidade. Quanto mais corremos, mais parece que ela está em algum lugar além do horizonte. A razão é que somente o infinito pode nos proporcionar o sentido de finalidade e, portanto, de contentamento e de paz, no sentido supremo. A beleza é, na realidade, uma espécie de eco desse infinito. Ela abre, por um momento, o cativeiro da limitação, quebra as cadeias que nos agrilhoam, e por isso a nossa alma anseia por ela. Há diferentes modalidades do belo; existe uma hierarquia, mas até mesmo a sua menor forma é viva e conduz à Beleza Última que é a Beleza de Deus. Quando mais contemplativa e espiritual for uma pessoa, mais sensível será ao poder libertador da beleza. Ela libera. É claro que também nos embriaga. Ela inebria. E gostamos dessa embriaguez, porque durante alguns momentos nos faz esquecer as limitações do nosso ego. Por que os homens se embriagam? Porque desejam se esquecer de si mesmos. E a bebida física não é nada comparada à bebida espiritual, através da qual a pessoa consegue transcender-se. A beleza tem o tremendo poder de provocar isso. Contudo, devido a esse poder mesmo, ela é também muito perigosa. É uma espada de dois gumes. Se a alma não está disciplinada, ao invés de essa beleza ser uma escada que conduz à Beleza Última, que é Deus, ela pode, na verdade, agir como um engodo. Pode dispersar ainda mais a alma e impedir- lhe a integração, porque esta, quando atraída para uma forma limitada de beleza, está cega para a sua suprema manifestação. Por isso em certas religiões, especialmente no cristianismo, alguns santos rejeitaram a expressão da beleza. No Islã o caminho é outro, principalmente na tradição sufi, que enfatiza quase sempre o aspecto espiritual positivo do belo. Enquanto religião, o Islã ressalta o belo e fundamentou-se sempre, enquanto civilização, no esforço de criá-lo. A beleza é um caminho de acesso a Deus.

J.Z. : Na tradição ocidental, aqueles que são considerados grandes artistas – Beethoven, Shakespeare, Dostoievsky – focalizaram, na sua arte, não somente o espiritual ou o sagrado, mas também, e de modo acentuado, o demasiadamente humano. Dostoievsky, por exemplo, escreveu a respeito daqueles que infligiam violência a crianças, a respeito dos extremos do feio; é como se lhe fosse necessário conhecer também esse aspecto da humanidade para poder criar seu sábio testemunho final. Qual a importância do autoconhecimento na busca da resposta criadora? É necessário conhecer tanto o lado mais baixo quanto o mais elevado?

S.H.N. : Por certo que é necessário. Existem, em alguns lugares, pessoas que voam, como as águias, diretamente para as regiões mais altas, para o sol, e para as quais não é preciso investigar os labirintos da vida humana e da psique, que são extremamente complicados. Mas numa civilização, como um todo, essa investigação é necessária ; em algum ponto do percurso eles têm que ser examinados e todas as civilizações têm feito isso. Nas civilizações tradicionais o labirinto da psique está sempre subordinado ao espírito. O que aconteceu no Ocidente foi que a investigação daquilo que o senhor chamou de demasiadamente humano foi realizada, muitas vezes, com uma indiferença total pela fonte da condição humana, que é o espírito, que é Deus. Isso é fruto do humanismo renascentista, que demorou um século ou dois para amadurecer, notadamente na literatura. Há romances extensos em que o autor mergulha em si mesmo para fugir tanto ao universo da natureza – criação de Deus – quanto ao da religião. Cria um mundo para substituir a ambos, desperdiça toda uma vida escrevendo romances gigantes com personagens falsos. Em certo sentido, isso é cair num labirinto sem jamais conseguir encontrar a saída. Mas há exceções, e eu acho que Shakespeare não deve ser confundido com esse tipo de autor, porque ele é, com certeza, uma espécie de fecho da arte sacra, da arte religiosa mais profunda da literatura ocidental. Embora tenha vivido no período elizabetano, ele se enquadra numa concepção medieval de literatura, pois, embora tenha uma incrível percepção do caráter humano, tinha como propósito último e permanente a integração final desse caráter. Como Martin Lings destacou tão bem em seu conhecido livro sobre Shakespeare, suas obras nos ajudam a reunir, dentro de nós mesmos, antes de partirmos deste plano, as pequenas centelhas da nossa alma. Porém, a maioria dos escritores famosos do século dezenove, os quais escreveram romances gigantescos – Dostoievsky, que foi um deles, mostrou-se, de várias formas, muito sensível à religião; era muito perceptivo e algumas de suas passagens ajudaram as pessoas a voltar-se para a crença , a maior parte desses romancistas, mesmo aqueles marcados por uma grande genialidade, sob um ponto de vista puramente humano, foram presa de uma espécie de narcisismo humanista que tentava, de certa maneira, substituir o mundo divino pelo mundo humano. Não era mais um humanismo religioso, era um tipo de humanismo rebelde. Assim, uma pessoa pode passar toda uma vida lendo esses romances, que não obterá deles nada além de fantasmas que não levam ninguém a realizar-se ou a atingir a espiritualidade. Não é como ler a epopéia do Mahabharata ou a literatura medieval. Nem como ler Dante. O escritor ocidental da Idade Média e o escritor tradicional de outras civilizações sempre escreveram tendo em mente a criatividade e a salvação da sua alma. Estes dois aspectos ficaram mais ou menos desvinculados em grande parte da literatura moderna, especialmente no romance; portanto, é possível estudar o universo humano ad infinitum sem ir nunca além dele. É isso que a literatura tradicional tenta evitar. Ela tem também momentos da mais profunda compreensão do universo humano. Veja as histórias dos índios norte-americanos: tem um entendimento inacreditavelmente profundo da natureza humana, porém sempre a relacionam com o universo espiritual. É ilusão tratar a condição humana como uma ordem de realidade completamente independente.

J.Z. : O senhor mesmo é um escritor que enfrenta o desafio da criatividade.
Como é a sua preparação para o ato de escrever?

S.H.N. : Eu não estabeleço distinção entre a chamada escrita criativa e a acadêmica, porque na verdade elas estão inter-relacionadas. Ocasionalmente escrevo poesia e alguma literatura, mas a maior parte dos meus trabalhos são acadêmicos, metafísicos ou filosóficos – no entanto, um tipo de estilo literário é inerente neles. Assim, a minha resposta, provavelmente, diz respeito a todos que escrevem. Cada pessoa a quem Deus deu o dom da criatividade, no sentido em que o senhor usa essa palavra, possui um tipo de ritmo que se refere à sua própria natureza interior. Nesse nível, minha resposta é, por força, um tanto pessoal. Deus me dotou com uma grande capacidade de concentração. Quando quero escrever alguma coisa, as idéias começam a borbulhar na minha mente e as elaboro a partir de duas coisas. Se estou escrevendo um artigo acadêmico, digamos, a respeito de determinado filósofo, tenho de fazer referência a seus trabalhos, aos seus livros, aos números das páginas, etc. É preciso, enfim, fundamentar o trabalho de maneira acadêmica; se estou escrevendo um ensaio metafísico, filosófico ou místico, essas referências acadêmicas não são necessárias. Porém, em ambos os casos, quer eu recorra aos meus próprios recursos intelectuais e à memória, quer tenha de ir à biblioteca pesquisar novas notas de rodapé e o de mais, tão logo essas fontes estejam estabelecidas elas começam a borbulhar dentro de mim. Mesmo quando estou caminhando, ou algumas vezes até conversando, esse ensaio ou esse livro determinado está sendo escrito em minha mente. Nessa altura, costumo sentar-me e fazer uma prece. Sendo muçulmano, rezo cinco vezes por dia, mas, além disso, faço uma espécie de oração contemplativa especial para me purificar, me preparar, e então, de algum modo, o que estava sendo elaborado na minha mente flui no papel. Os problemas são poucos. Todo o trabalho foi feito anteriormente; ao tomar a pena, a única dificuldade é faze-la acompanhar o pensamento. Nunca datilografo meus trabalhos; uso sempre uma caneta antiga, de pena, não uma esferográfica. Ainda escrevo com um instrumento tradicional e escrevo muito, muito rápido, porque está tudo pronto na minha mente, pronto para fluir.

J.Z : Sim, parece que o processo criativo opera num nível diferente do nível de nosso pensamento usual. E parece haver também um elemento de submissão ao processo criador, que permite que este aconteça. A propósito, o que pensa o senhor da arte surrealista, ou da arte que tenta comunicar-se através dos sonhos, os quais estão localizados fora da nossa consciência desperta normal?

S.H.N : Essa pode ser uma arte muito perigosa. Grande parte do surrealismo está designado de maneira inadequada, na realidade. Sur, do Francês e do latim, significa acima, e esta arte, por certo, na sua maior parte, não está acima do realismo: é um sub-realismo. Se nós chamamos de realidade o estado desperto comum – e esta é uma definição filosófica aceitável do real, embora, é claro, em ultima instância, o real não seja isso – e se denominamos de realismo uma arte que é uma emulação das formas externas da natureza – como as pinturas de Ingres ou da famosa escola clássica do século dezoito – então nós temos dois mundos: um que está em cima e outro embaixo. Há o que está acima do mundo físico – o mundo espiritual – e um mundo sub-realista, dos subelementos da psique, onde, na verdade, se acumula todo o lodo da lagoa, ou seja, os elementos mais negativos e, quase sempre, mais perigosos da psique humana. O que dizer da arte que tenta fazer com que eles aflorem? Em geral, é o mesmo que libertar o dragão sem ter São Miguel para matá-lo. Pode tratar-se de uma arte poderosa, sob o aspecto psicológico, e que também ajuda a decompor analiticamente a psique, através dessa agitação que produz. Não costuma ser bela, embora existam eventuais imagens bonitas. Mas, não é, na verdade, uma arte visionária, no mesmo sentido da arte visionária dos índios americanos ou dos povos primitivos. Em sânscrito há tratados específicos sobre a primeira visão do arquétipo do iogue e de como este a traz para o mundo das formas. 1sso pertence ao universo arquetípico, que está acima do chamado mundo real exterior. Penetrar nos sonhos é, muitas vezes, entrar no mundo sub-real. Agora, outro elemento problemático nessa arte é que existem cinco bilhões de pessoas na superfície terrestre. Por que, então, o sonho de A merece tanto interesse e o das outras cinco bilhões de pessoas não? 0 que há de tão interessante a respeito de uma psique particular, a respeito da expressão do meu ego, do meu eu individual? Há uma megalomania ligada a grande parte da arte moderna. Antigamente, mesmo no período da pintura clássica, tentava-se pintar uma árvore, por exemplo, a partir de alguma coisa objetiva que estava bem à frente do pintor. Antes desse período, tentava-se pintar o arquétipo, o arquétipo universal, como na arte da Idade Média. Mas agora, espera-se que se expressem os sonhos, as formas imaginárias individuais; do ponto de vista artístico, pode-se perguntar.    Para quê ? Por que isto ? É claro que o ponto de vista tradicional opõe-se por completo à idéia da arte pela arte. Isso é uma insanidade, do ponto de vista normal. A arte deve fletir a qualidade cósmica da virtude, da beleza ou da verdade.

J.Z : No seu ensaio Sacred Art and Persian Culture o senhor escreveu que "a função da arte, segundo a sua concepção islâmica, é dignificar a matéria" . Isso é maravilhoso – e sucinto. Com relação a esta matéria que é nobilitada – e isso no mundo islâmico pode abranger desde um aparelho de jantar até o projeto de uma casa –, ela transmite automaticamente esse efeito a todos que a vêm? Se alguém que desconhece a tradição for a uma mesquita, será necessariamente tocado? Ou é preciso uma preparação para receber o que a arte sacra tem para oferecer ?

S.H.N. : Há graus e níveis. A arte tem a sua linguagem própria, e do mesmo jeito que eu ou o senhor não podemos entender sânscrito, a menos que o tenhamos estudado, nem sempre é tão fácil penetrar no mundo da arte e compreender por completo a sua linguagem. A percepção total da mensagem artística de uma civilização ou tradição estranha à nossa requer uma instrução – como o aprendizado de uma língua. Isso posto, essa nobilitação da matéria permite, não obstante , que certas qualidades cósmicas, certas formas de beleza se reflitam através dela. E mesmo que não se dê uma percepção total, uma grande extensão de possibilidade perceptiva se abre para aqueles que entram em contato com ela. É por isso que, digamos, 90% dos turistas vindos de um estado do meio-oeste americano, que chegam ao Alhambra, exclamam ao entrar : " Oh , que beleza!" . É o primeiro comentário. Eles não apreendem a mensagem global, o complicadíssimo simbolismo geométrico, a caligrafia e o seu significado; porém, mesmo assim, há o impacto imediato de uma atmosfera na qual é revelada a estrutura interna da matéria. Sua opacidade se transforma em transparência. Existem, contudo, algumas pessoas que se mantêm totalmente opacas quando confrontadas com formas de arte que lhes são estranhas. Isso pode acontecer. Veja o caso de muitos brancos ao chegarem à América. Eles não eram sensíveis a nenhuma das formas de arte dos índios americanos. E sabemos quanto foi destruído até que, de maneira gradual, começou-se a compreender que se
tratava de uma bela forma de arte.

J.Z. : 0 senhor sabe, por certo, que Peter Brook está levando o Mahabharata em Nova Iorque. Há algum artista em atividade atualmente que não faça parte das religiões reveladas tradicionais, cujo trabalho mereça sua recomendação?

S.H.N : É uma pergunta difícil de responder. Conheço Peter Brook muito bem, pessoalmente, desde os tempos em que ele costumava ir ao Irã e que nós discutíamos dias e dias a respeito de arte sacra e teatro sacro, e sobre a possibilidade de introduzir alguns de seus elementos na situação moderna. Não assisti ao Mahabharara, mas, no mínimo, ele deve ter levado algumas pessoas à percepção de que existem outras formas de arte além da habitual arte humanística que as rodeia. No que diz respeito à música, temos autores que fazem música erudita nas quais há qualidades, embora, é claro, não se trate de música tradicional. Quanto à literatura, eu diria que, com certeza, T. S. Eliot e Ezra Pound são dois grandes poetas da língua inglesa que procuraram recriar e redescobrir a tradição através da poesia. Na França, citaria Paul Claudel . Não são escritores completamente tradicionais, mas possuem certas qualidades positivas que podem ser apreciadas. No domínio da pintura, há alguns pintores mexicanos que tentam usar a linguagem indígena americana de uma forma contemporânea, e alguns pintores navajos revelam certas qualidades. As pinturas de Fritjof Schuon – ele era pintor, além de metafísico – são um belo exemplo disso, falando-se em pessoas que pintam numa técnica não totalmente tradicional. Logo, é possível.

J.Z. : Embora o senhor tenha citado tão poucos, pode- se notar que vem ressurgindo o interesse pela arte tradicional. Ainda há um interesse muito reduzido, é claro, comparado ao de séculos atrás. Quais são as possibilidades para a arte tradicional hoje? Quais as possibilidades de uma resposta criadora, para a maioria das pessoas ?
O nosso parece ser um tempo de trevas. É, realmente?

S.H.N. : São tempos de trevas, mas que oferecem, também, uma compensação muito profunda, no sentido de que, quanto mais a verdade se torna inacessível para nós, tanto maior é a força com que nos abraça externamente. A própria treva torna possíveis e fáceis coisas que antes eram muito difíceis. Portanto, há possibilidades, mesmo nestes tempos negros. Não se deve jamais perder a esperança. A coisa mais importante de todas é ser capaz de levar uma vida espiritual e ter uma disciplina tradicional que nos oriente a vida interior, que nos permita respondermos a Deus no mais profundo do nosso ser. Se conseguirmos isso, quer sejamos funcionários de uma biblioteca, quer flautistas, ou algo semelhante, não haverá falta de criatividade. Não diremos : "Oh, desperdicei minha vida ! desejava ser criativo e não fui, apenas colocava livros em estantes!" , se compreendermos que viver de fato sob o Poder Divino, segundo a Vontade de Deus, é responder a Ele a cada momento da vida. E se essa resposta se formaliza indo ao escritório, cortando madeira ou pintando, isso na verdade é secundário, porque é uma imposição da nossa natureza interior. OO que muitas pessoas chamam hoje de criatividade é, de fato, um substitutivo para a descoberta do próprio centro. Elas colocaram seu centro num trabalho que está fora delas. É por isso que muitas vezes você vê pessoas terríveis de se conviver produzindo trabalhos notáveis – trabalhos que, num certo sentido, não são delas, porque elas não têm dentro de si um centro. A coisa mais importante para alguém é descobrir o próprio centro.

Ecos do Infinito

Entrevista de Seyyed Hossein Nasr para Jeffrey P. Zaleski
Fevereiro de 1988
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