Sooooo
O Instituto
cursos
livros
notícias
Instituto René Guénon de Estudos Tradicionais
OK
L Pontual
Russel Means discursa:

"Contra o genocídio cultural
dos nativos norte-americanos"
Textos de Luiz Pontual
E-Mail :
Livros
Cursos
Geral
Luiz Pontual
                                      I
         "O
único início cabível numa declaração deste gênero é que eu detesto escrever. O próprio processo resume o conceito europeu de pensamento "legítimo": o que é escrito tem uma importância que é negada ao falado. A minha cultura, a cultura lakota, tem uma tradição oral e, portanto, eu usualmente rejeito escrever. Um dos meios de que se vale o mundo dos brancos para destruir as culturas de povos não-europeus é impor uma abstração à relação falada de um povo.

                     Por isso, o que você lê aqui não é o que escrevi. É o que eu disse e outra pessoa escreveu. Permito que assim seja feito porque me parece que a única via de comunicação com o mundo dos brancos são as folhas mortas e secas dos livros.. Na verdade, não me importo se minhas palavras" atingem ou não os brancos. Eles já demonstraram através de sua história que não conseguem ouvir, não conseguem ver, que apenas conseguem ler (é claro que há exceções, mas as exceções apenas confirmam a regra). Eu me preocupo mais com os povos indígenas americanos, estudantes e outros mais que começaram a ser absorvidos pelo mundo dos brancos através das universidades e de outras instituições. Mesmo assim, esta é uma preocupação marginal. Não é nada impossível crescer com cara vermelha e mente branca e, se é uma escolha pessoal de alguém, que assim seja. Isto é parte do genocídio cultural que os europeus promovem contra os povos indígenas hoje. Eu me preocupo é com os indígenas americanos que optaram por resistir a este genocídio e podem estar confusos sobre como proceder.

                 Não tornar-se europeizado requer grande esforço da parte de cada indígena americano. A energia necessária a este esforço só pode vir dos meios tradicionais, dos valores tradicionais que os nossos velhos conservam. Ela deve vir do arco, das quatro direções, das relações. Não pode nunca vir das páginas de um livro ou de mil livros. Nenhum europeu poderá jamais ensinar um lakota a ser lakota, um hopi a ser hopi. O título de mestre em "Estudos Indígenas" ou em "Educação" ou qualquer outra coisa não faz de alguém um ser humano nem fornece conhecimento dos meios tradicionais. Faz de você apenas um europeu no pensamento, uma pessoa de fora.

                É preciso que eu esclareça algo aqui, pois parece haver certa confusão a este respeito. Quando falo de europeus ou de europeus no pensamento, não estou permitindo falsas distinções. Não estou dizendo que, por um lado, existem os produtos de alguns milhares de anos de desenvolvimento europeu genocida e reacionário, o que é ruim, e, por outro lado, um novo desenvolvimento intelectual e revolucionário, o que é bom. Eu aqui me refiro às teorias denominadas marxismo, anarquismo e "esquerdismo" em geral. Não acredito que estas teorias possam vir a ser separadas da tradição intelectual européia. Na verdade, é tudo apenas a mesma velha história.

              Tome o cristianismo, como exemplo histórico. Na sua época, o cristianismo foi revolucionário. Mudou as relações de poder na Europa para sempre, quer dizer, a menos que você ache que o Império Romano é ainda a força militar dominante. Mas a cultura européia, da qual o cristianismo tornou-se parte, influiu na religião de forma a torná-la um instrumentos da destruição de povos não-europeus, para o bem da expansão do poder militar e econômico europeu por todo o planeta, para o bem da consolidação das nações-estado européias, para o bem da formação do sistema econômico capitalista. A revolução ou as revoluções cristãs tiveram papel importante no desenvolvimento da cultura européia em direções previamente apontadas e nada mudaram a não ser apressar o genocídio perpetrado pela Europa fora da Europa ou, talvez, dentro da própria Europa.

              O mesmo é válido para o capitalismo e outras "revoluções" européias. Elas mudaram um pouco as relações de poder dentro da Europa, mas apenas para servir às necessidades do mundo do branco à custa de todos os outros e de tudo mais.

               Newton revolucionou a física e as chamadas ciências naturais ao reduzir o universo físico a uma equação matemática linear. Descartes fez o mesmo com a cultura. John Locke o fez com a política e Adam Smith com a economia. Cada um destes "pensadores" tomou um pedaço da espiritualidade da experiência humana e a converteu num código, numa abstração. Eles tomaram o fio onde o cristianismo o havia deixado, eles "secularizaram" a religião cristã, como gostam de dizer os "acadêmicos", e ao fazê-lo tornaram a Europa mais apta a agir como cultura expansionista. Cada uma destas revoluções intelectuais abstraiu ainda mais a mentalidade européia, retirou a maravilhosa complexidade e espiritualidade do universo, substituindo-as por uma "seqüência lógica". Foi isto que se chamou de "eficiência" na mentalidade européia. Tudo o que é mecânico é perfeito, tudo o que parece funcionar no momento, quer dizer, tudo o que prova que o modelo mecânico é o certo, passa por correto mesmo quando é claramente falso. É por causa disto que a "verdade" muda tão rapidamente na mente européia. As respostas que resultam deste processo são meros tapa-buracos temporários que precisam ser continuamente afastados em favor de novos tapa-buracos que apoiem os modelos matemáticos que os mantém(os modelos)vivos.

                 Hegel e Marx são os herdeiros do pensamento de Newton, Descartes, Locke e Smith. Hegel terminou o processo de secularizar a teologia e a colocou nos seus próprios termos. Ele secularizou o pensamento religioso através do qual a Europa compreendia o Universo. Depois, Marx colocou a teoria de Hegel em termos "materialistas", o que quer dizer que Marx desespiritualizou a obra de Hegel completamente também, nos próprios termos de Marx. E é isso que se vê como potencial revolucionário da Europa. Os europeus podem vê-lo como revolucionário, mas os índios americanos apenas o vêem como mais uma dose do mesmo velho conflito europeu entre ser e ganhar. As raizes intelectuais de uma nova forma de imperialismo europeu-marxista estão nos laços entre Marx - e entre seus seguidores - e a tradição de Newton, Hegel, etc.

                 Ser é uma proposição espiritual. Ganhar é um ato material. Tradicionalmente, os índios americanos sempre tentaram ser as melhores pessoas que podiam ser. Parte deste processo espiritual foi e ainda é doar a riqueza, abrir mão da riqueza a fim de não ganhar. O ganho material é um indicador de falso status entre os povos tradicionais, enquanto entre os europeus é "prova de que o sistema funciona". Aqui existem portanto, duas visões diametralmente opostas em confronto. E o marxismo está bem do outro lado, bem afastado da visão indígena americana. Mas, consideremos uma importante conseqüência de tudo isto, que não é apenas um debate intelectual.

                 A tradição européia materialista de desespiritualizar o universo é muito similar ao processo mental contido na desumanização de outra pessoa. E quem parece ser o maior perito em desumanizar pessoas? E por que? Soldados que viram muitos combates aprendem a fazê-lo ao inimigo antes de voltar ao combate. Assassinos o fazem antes de sair para assassinar. Guardas da S.S. o faziam aos internados nos campos de concentração. Policiais o fazem. Líderes empresariais o fazem aos operários que mandam para as minas de urânio e as usinas de aço. Políticos o fazem a qualquer pessoa em volta. O que cada um destes processos de desumanização tem em comum para os grupos que desumanizam é que matar e destruir outras pessoas torna-se aceitável. Um dos mandamentos cristãos diz que "não matarás", pelo menos os seres humanos, e o truque consiste então em converter as vítimas em seres não-humanos. Assim, pode-se proclamar como uma virtude a violação do seu próprio mandamento.

                Em termos da desespiritualização do universo o processo mental funciona no sentido de tornar uma virtude a destruição do planeta. Aí usa-se termos tais como "progresso" e "desenvolvimento" para disfarçar, do mesmo modo como se usa "vitória" e "liberdade" para justificar a carnificina no processo de desumanização. Um especulador de empreendimentos imobiliários, por exemplo, pode falar em "desenvolver" um pedaço de terra abrindo uma pedreira por lá. Desenvolvimento significa, na verdade, a destruição total e permanente, a própria terra removida. Mas a lógica européia ganhou algumas toneladas de cascalho com as quais mais terra poderá ser "desenvolvida" construindo-se leitos de estradas. No final das contas, o universo inteiro está aberto - na visão européia - a esta forma de insânia.

               E o mais importante aqui é que os europeus não sentem nenhuma perda em tudo isto. Mesmo porque, seus filósofos desespiritualizaram a realidade e não há, portanto, nenhuma satisfação (para eles) em simplesmente observar a maravilha que é uma montanha, um lago ou um povo sendo. Não. A satisfação mede-se em ganhos materiais e então a terra transforma-se em cascalho, o lago transforma-se em escoadouro de uma fábrica e as pessoas são arrebanhadas para serem industrializadas nas usinas de doutrinação que os europeus gostam de chamar de escolas. Tudo isto é muito "racional" e é para o bem de todos. Não há, portanto, experiência denenhuma perda. E é muito difícil, ou mesmo impossível, convencer alguém de que existe alguma coisa errada com o processo de ganhar quando lhe falta a sabedoria espiritual para sentir a perda do que foi destruído ao longo do caminho.

                Cada nova abstração européia nasce de uma necessidade direta. Cada vez que uma abstração começa a se gastar, cada vez que os custos envolvidos tornam-se óbvios - até mesmo para alguns europeus - cria-se uma nova abstração, que adia o inevitável. Por algum tempo, Newton, Locke, Descartes e Smith  conduziram a Hegel, Marx e Darwin. Depois vem Einstein, Niels Bohr, etc. Cada nova realidade abstraída levou mais longe e contribuiu para continuar o sistema de ciência/materialismo quando as velhas respostas ficaram rotas. Mas cada nova abstração, cada novo tapa-buraco elevou as apostas feitas com o mundo real. Tome o combustível das máquinas industriais como exemplo. Pouco mais do que dois séculos atrás, quase todo o mundo usava a madeira, um item natural e reconstituível, como combustível para as necessidades muito humanas de cozinhar e manter o calor.

                Mas veio a Revolução Industrial e o carvão tornou-se o combustível dominante à medida em que a produção tornou-se o imperativo da Europa. A poluição começou a virar um problema nas cidades e a terra teve suas entranhas reviradas na busca de carvão, enquanto que a madeira era apenas coletada ou colhida sem grandes prejuízos ao meio ambiente. Mais tarde o petróleo tornou-se o combustível principal à medida em que a tecnologia da produção era aperfeiçoada através de uma série de "revoluções" científicas. A poluição aumentou dramaticamente e ninguém ainda tem idéia dos custos ambientais que o processo de retirar todo aquele petróleo da terra poderá causar no futuro mais distante. Agora existe uma "crise de energia" e o urânio vai-se tornando o combustível dominante -ainda em nome do mesmo sistema de valores materialistas que provocou a crise, tanto da energia como do meio ambiente.
                Dos capitalistas pode-se esperar ao menos que continuarão a desenvolver o urânio como combustível enquanto isto lhes trouxer um bom lucro. Esta é a ótica deles e talvez isto funcione por algum tempo. Dos marxistas, por outro lado, pode-se esperar que desenvolvam o urânio tão rápido quanto possível, pelo simples fato de que é a produção de combustível mais "eficiente" à disposição. Esta é a ótica deles, e não vejo porque seja a preferível. Como eu disse, o marxismo é o toque certo no âmago da tradição européia. É a mesma velha história.


                                                                
II

               Os missionários foram a ponta-de-lança do esforço europeu em destruir os continentes deste hemisfério, não apenas os povos que são indígenas de lá, mas os próprios continentes. Os missionários ainda estão por lá, ainda estão ativos e os povos tradicionais os reconhecem como inimigos. Todavia, seus principais substitutos em importância foram os capitalistas, cuja missão é explorar eficientemente aquilo que os missionários descerraram. Esta mudança da Igreja para o capitalismo sem dúvida nenhuma provocou algumas diferenças superficiais na estrutura da sociedade européia - eles até se deram ao trabalho de "separar a Igreja do Estado" nas suas leis (para reduzir o poder da Igreja), mas a questão é que esta "revolução" apenas piorou a situação dos não-europeus. O capitalismo é mais destrutivo e mais eficiente do que a versão missionária da Europa que encontramos algumas centenas de anos atrás.

                Existe uma solução prática que pode ser aplicada aqui. Você não pode julgar a verdadeira natureza de uma doutrina européia na base das mudanças serem feitas na estrutura de poder e na sociedade européias. Você só pode julgá-la pelos seus efeitos sobre os povos não-europeus. E isto porque cada revolução na história européia serviu para reforçar as tendências e aptidões européias em exportar destruição para outros povos, outras culturas e o próprio meio ambiente. Desafio quem quer que seja a me apontar um exemplo onde isto não seja verdade.

                Pois agora nos pedem que nós, enquanto indígenas americanos, acreditemos que uma "nova" doutrina revolucionária européia, o marxismo, irá inverter as tendências negativas da história européia sobre nós. Mais uma vez as relações de poder européias tem de ser ajustadas e supõe-se que este ajuste será melhor para todos nós. O que isto realmente significa?
Mesmo agora, hoje, nós que vivemos na reserva de Pine Ridge, estamos no que a sociedade dos brancos designou como "área de sacrifício nacional". Isto significa que nós temos muitos depósitos de urânio aqui e que a cultura branca (não nós) precisa deste urânio por ser matéria que produz energia. O mais barato, o mais eficiente meio que a indústria tem de extrair e industrializar o urânio é jogando seus subprodutos aqui mesmo nos campos de extração.

                Aqui mesmo onde nós moramos. Este lixo é radioativo e deixará toda esta região inabitável para sempre. E este é um preço aceitável, para a indústria e para a sociedade branca que criou a indústria, a pagar pelo desenvolvimento desta fonte de energia. Pelo caminho, eles também planejam drenar o lençol d'água sob esta parte do Dakota do Sul como parte do processo industrial, deixando esta região duplamente inabitável. O mesmo acontece abaixo, na terra dos navajo e dos hopi, acima, na terra dos cheyenne e dos crow do norte, e em outros lugares. Mais de sessenta por cento de todas as fontes de energia dos Estados Unidos estão debaixo das terras de reservas indígenas e não há nenhum jeito de considerar tal fato uma questão menor. Para os índios americanos, é uma questão de sobrevivência no sentido mais puro do termo. Para a sociedade dos brancos e sua indústria é questão de ser capaz de continuar a existir na sua presente forma.

                Nós resistimos a sermos transformados numa área de sacrifício nacional. Nós resistimos a sermos transformados num povo de sacrifício nacional! Nós não aceitamos o ônus desse processo industrial. Cavar urânio aqui e drenar o lençol d'água aqui é assassinato. Nem  mais nem menos. Portanto, as razões da nossa resistência são suficientemente óbvias e não precisam ser  ainda mais explicadas. A ninguém.

               Agora vamos supor que, na nossa resistência ao extermínio, nós procuremos aliados. Vamos supor ainda mais que acreditamos nas palavras do marxismo de que pretende nada mais nada menos que a completa queda da ordem capitalista européia, a qual representa esta ameaça à nossa mera existência. Esta poderia parecer uma aliança natural para os povos indígenas americanos. Afinal de contas, como dizem os marxistas, foram os capitalistas que nos colocaram na posição de sacrifício nacional. É verdade até certo ponto.

                Porém, como tentei assinalar, esta "verdade" é muito enganadora. Olhe abaixo da superfície do marxismo revolucionário, e o que você encontra? O compromisso de virar o sistema industrial que criou a necessidade que a sociedade dos brancos tem de urânio? Não. O compromisso de garantir aos lakota e outros povos indígenas americanos um controle real sobre a terra e os recursos que deixaram? Não, a não ser que inverter o processo industrial seja parte da sua doutrina. O compromisso com os nossos direitos, enquanto povos, em manter nossos valores e tradições? Não, não enquanto necessitarem do urânio de nossas terras para alimentar o sistema industrial da sociedade, da cultura da qual os marxistas ainda são parte.

                O marxismo revolucionário tem por compromisso perpetuar e aperfeiçoar ainda mais o mesmo processo industrial que destrói todos nós. Apenas oferece "redistribuir" os resultados, talvez o dinheiro, desta industrialização para uma parcela maior da população. Apenas oferece tirar riqueza das mãos dos capitalistas e passá-la adiante mas, para fazer isto, o marxismo precisa manter o sistema industrial. Mais uma vez, as relações de poder dentro da sociedade européia terão de ser alteradas. Mais uma vez, porém, os efeitos sobre os povos indígenas americanos aqui e sobre os povos não-europeus em outros lugares permanecerão os mesmos. É quase como o que ocorreu quando o poder da Igreja foi redistribuído para as empresas privadas durante a chamada "revolução burguesa". A sociedade européia mudou um pouco, ao menos superficialmente, mas a sua conduta diante dos povos não-europeus continua a mesma. Veja o que a revolução americana de 1776 fez pelos índios americanos. É a mesma velha história.

               O marxismo revolucionário e toda a sociedade industrial procura racionalizar todos os povos em relação à indústria - indústria máxima, produção máxima. Esta é uma doutrina materialista que despreza a tradição espiritual do índio americano, que despreza nossas culturas, nossos modos de vida. O próprio Marx nos chamava de "pré-capitalistas" e de "primitivos". Pré-capitalista significa, em sua perspectiva, que nós deveríamos eventualmente descobrir o capitalismo e nos tornarmos capitalistas. Nós sempre fomos economicamente atrasados em termos marxistas. A única maneira que os povos indígenas americanos teriam de participar de uma revolução marxista seria entrando para o sistema industrial, tornando-nos trabalhadores em fábricas ou "proletários" como Marx os chamava. O homem foi muito claro a respeito do fato de que a revolução só poderia ocorrer através da luta do proletariado, de que a existência de um sistema industrial maciço é pré-condição necessária para uma sociedade marxista bem sucedida.

                Acho que aqui existe um problema de linguagem. Cristãos, capitalistas, marxistas, todos eles tem sido revolucionários em suas próprias mentes. Mas nenhum deles realmente propõe a revolução. O que propõem realmente é a continuação. Eles fazem o que fazem de modo a permitir que a cultura européia continue a existir e a se desenvolver de acordo com as suas necessidades. Como os vermes, a cultura  européia  passa  por  convulsões   ocasionais,   até   mesmo divisões dentro de si, de modo a continuar vivendo e crescendo. Não é de uma revolução que estamos falando, mas de um modo de continuar o que já existe. Uma ameba ainda é uma ameba depois que se reproduz. Mas talvez comparar a cultura européia com uma ameba não seja justo para com a ameba. Talvez células cancerosas sejam uma comparação mais precisa, pois a cultura européia tem historicamente destruido tudo ao seu redor e um dia destruirá a si mesma.

              Portanto, para que nós realmente juntássemos nossas forças com o marxismo, nós índios teríamos que aceitar o sacrifício nacional de nossa terra, teríamos que nos suicidar culturalmente e nos tornarmos industrializados, europeizados, talvez sanforizados. Teríamos que nos derrotar inteiramente. Só os insanos podem achar que tal possibilidade é desejável para nós.

              A esta altura tenho que parar e me perguntar se não estou sendo muito duro. O marxismo tem alguma história. Será que esta história apoia as minhas observações? Eu olho para o processo de industrialização na União Soviética desde 1920 e vejo que estes marxistas fizeram o que levou três séculos na "revolução industrial" inglesa. E isso lhes tomou apenas sessenta anos. Vejo que o território da URSS antes continha certo número de povos tribais e que estes povos foram esmagados para dar lugar às fábricas. Os soviéticos se referem a isto como "questão nacional", a questão de se os povos tribais tinham ou não o direito de existir enquanto povos, e decidiram que os povos tribais eram um sacrifício aceitável para as necessidades industriais. Eu olho para a China e vejo a mesma coisa. Eu olho para o Vietnam e vejo os marxistas impondo uma ordem industrial, arrancando as raízes dos povos tribais indígenas das montanhas.

              Ouço um cientista soviético de renome dizer que quando o urânio se exaurir, alternativas serão encontradas. Vejo os vietnamitas ocupando uma usina nuclear abandonada pelos norte-americanos. Será que eles a desmantelaram e destruíram? Não. Eles a estão usando. Vejo a China explodir bombas nucleares, desenvolver reatores de urânio, preparar um programa espacial com a finalidade de explorar e colonizar os planetas do mesmo modo que os europeus colonizaram e exploraram este hemisfério. É a mesma velha história, só que desta vez em ritmo provavelmente mais rápido.

              A declaração do cientista soviético é muito interessante. Será que ele sabe qual será esta fonte alternativa de energia? Não, ele apenas tem fé. A ciência encontrará um caminho. A industrialização é boa e necessária. Como sabem disto? Fé. A ciência encontrará um caminho. Fé deste tipo sempre se considerou como religião na Europa. A ciência tornou-se a nova religião européia, tanto para os capitalistas quanto para os marxistas. Eles são realmente inseparáveis. Eles são parte integrante da mesma cultura. Portanto, seja na teoria seja na prática, o marxismo exige que os povos não-europeus desistam completamente de seus valores, de suas tradições, de sua existência cultural. Numa sociedade marxista, seremos todos viciados em ciência industrializada.

                                                            
III

              Não acredito que o capitalismo em si seja o real responsável pela situação em que fomos declarados um sacrifício nacional. Não, é a tradição européia. É a própria cultura européia a responsável. O marxismo é apenas uma continuação desta tradição e não um remédio contra ela. Aliar-se com o marxismo é aliar-se com as mesmas forças que nos declaram um "custo" aceitável.

              Há um outro caminho. Há o caminho tradicional dos lakota e os caminhos de outros povos indígenas americanos. É o caminho que sabe que os seres humanos não tem o direito de degradar a Mãe Terra, que existem forças acima de tudo que a mente européia já concebeu, que os seres humanos precisam estar em harmonia com todas as relações ou as relações eventualmente eliminarão a desarmonia. A ênfase desproporcional dos seres humanos nos seres humanos, a arrogância européia em agir como se estivessem acima da natureza e de todas as coisas relacionadas, só pode resultar numa total desarmonia e num reajustamento que reduz os seres humanos aos seus devidos tamanhos, que lhes dá o gosto daquela realidade que está além do seu controle e alcance, e que restaura a harmonia. Não há necessidade de uma teoria revolucionária para que isto aconteça, pois isto está fora do controle humano. Os povos naturais deste planeta sabem disto e então não teorizam a respeito. A teoria é uma abstração, nosso conhecimento é real.

                Toda  tradição   européia,   incluindo   o  marxismo,   conspira  para desafiar a ordem natural das coisas. Abusaram   da Mãe Terra, abusaram dos poderes e isto não pode continuar  assim. Nenhuma teoria pode alterar este simples fato. A Mãe Terra retaliará, todo o
meio ambiente retaliará. E os que dele abusaram serão eliminados. O círculo dará toda a volta, ao ponto em que começou. Isto é revolução. E esta é a profecia do meu povo, do povo hopi e de outros povos corretos.

                Os índios americanos vem tentando explicar isto aos europeus há séculos. Mas, como eu já disse antes, eles se mostraram incapazes de ouvir. A ordem natural vencerá e os ofensores morrerão do mesmo modo que os cervos morrem quando ferem a harmonia, superpovoando uma dada região. É apenas uma questão de tempo até que o que os europeus chamam de "uma catástrofe de proporções globais" ocorra. O papel dos povos indígenas americanos, e de todos os seres naturais, é sobreviver. Parte da sobrevivência é resistir. Nós resistimos, não para fazer cair o governo ou para tomar o poder político, mas porque é natural resistir ao extermínio, sobreviver. Nós não queremos poder sobre as instituições dos brancos, nós queremos que as instituições dos brancos desapareçam. Isto é revolução.

               Volto então aos índios americanos que estão perambulando pelas universidades, pelos bairros miseráveis das cidades e por outras instituições européias. Se você está lá para aprender a resistir ao opressor de acordo com seus meios tradicionais, então que assim seja. Não sei como você consegue combinar os dois, mas talvez você tenha sucesso. Mas mantenha seu senso de realidade. Cuide-se para não vir a acreditar que o mundo branco oferece soluções aos problemas que nós enfrentamos. Cuide-se também para não vir a permitir que as palavras dos povos nativos sejam deturpadas para favorecer os nossos inimigos. A Europa inventou a prática de torcer as palavras. Basta que você olhe os tratados entre os povos e vários governos europeus para saber que isto é verdade. Tire a sua força do que você é.
*
O autor deste discurso é Russel Means, um líder sioux que tem tido destaque nas lutas em defesa dos direitos dos povos indígenas americanos. Seu nome tomou-se conhecido durante os episódios de Wounded Knee, em 1973, quando os índios opuseram resistência armada à imposição de uma administração indesejável, que o governo norte-americano defendeu isolando a área e declarando estado de sítio. Durante o período que se seguiu houve fome c epidemias na reserva cercada, que, juntamente com a coerção armada, acabaram por derrotar os índios. Russel Means foi processado pelo governo dos Estados Unidos, juntamente com vários outros índios. Entretanto, o Movimento Indígena Americano AIM), criado na ocasião, estruturou-se, e hoje mantém nas reservas as Survival Schools, basicamente uma rejeição à educação estatal e uma tentativa de reviver os valores culturais dos índios, suas tradições e seus idiomas.
*
Tradução de Luis Augusto Bicalho Kehl
Two Moons
Russel Means