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Instituto René Guénon de Estudos Tradicionais
O Demiurgo
                                                                 Parte I                                                                            



             
Existem alguns problemas que constantemente vêm preocupando o homem, mas aquele que se há apresentado geralmente como o mais difícil de resolver é o da origem do mal, com o qual se depararam, como se fosse um obstáculo intransponível, a maioria dos filósofos e sobre tudo os teólogos: "Si Deus est, unde Malum ? Si non est, unde Bonum ?"(1). Este dilema é, com efeito, insolúvel para aqueles que consideram a Criação como obra direta de Deus, e que, em conseqüência, estão obrigados a responsabilizar-lhe do bem e do mal. Se dirá sem dúvida que esta responsabilidade é atenuada em certa medida pela liberdade das criaturas; mas, se as criaturas podem escolher entre o bem e o mal, é porque tanto um como outro já existiam, ao menos em princípio; e se as criaturas são suscetíveis de decidir-se às vezes em favor do mal em lugar de fazê-lo sempre em favor do bem, é porque são imperfeitas. Como então Deus, sendo perfeito, pôde criar seres imperfeitos ?

               É evidente que o perfeito não pode produzir imperfeição, já que, se isto fosse possível, o perfeito deveria conter em si mesmo o imperfeito em estado principial, com o que deixaria de ser o perfeito. O imperfeito não pode então proceder do perfeito por via de emanação; assim, não poderia resultar senão da criação "ex nihilo", mas como admitir que algo possa proceder do nada, ou, em outros termos, que possa existir alguma coisa carente de princípio ? Por outro lado, admitir a criação "ex nihilo" seria admitir o aniquilamento final de todos os seres criados, já que o que teve um começo deve também ter um final, e não há nada mais ilógico que falar de imortalidade em tal hipótese. Mas a criação assim entendida é um absurdo, posto que é contrária ao princípio de causalidade, que é inegável para todo homem sincero e medianamente razoável, com o que podemos dizer como Lucrécio: "Ex nihilo nihil, ad nihilum nihil posse reverti". (2)

                 Não pode haver nada que careça de um princípio; mas, qual é este princípio? – Não será, na realidade o Princípio único de todas as coisas ? - Se consideramos o universo total, é evidente que ele contem todas as coisas, posto que todas as partes estão contidas no todo. Por outro lado, o Todo é necessariamente ilimitado, já que, se tivesse um limite, o que estivesse para lá deste limite não estaria compreendido pelo todo, sendo esta suposição completamente absurda. O que não tem limite pode ser chamado Infinito, e como contém tudo, é o Princípio de todas as coisas. Por outra parte o Infinito é necessariamente "uno", porque dois infinitos que não fossem idênticos se excluiriam um ao outro; resultando disto que não há mais que um Princípio Único de todas as coisas, e este Princípio é o Perfeito, posto que o Infinito só pode ser tal se é o Perfeito. (3)

                 Assim o Perfeito é o Princípio Supremo, a causa primeira, que contêm todas as coisas em potência e produziu todas as coisas ; mas então, posto que não há mais que um Princípio Único, de onde saem todas as oposições que normalmente se consideram no universo: o Ser e o Não-Ser, o Espírito e a matéria, o Bem e o Mal ? Nos encontramos aqui com a mesma pergunta do começo, e agora podemos formulá-la de uma maneira mais geral: como pôde a unidade produzir a dualidade ?

                 Alguns acreditaram que deviam admitir dois princípios distintos, opostos um ao outro, mas esta hipótese está descartada pelo dito anteriormente. Com efeito, estes dois princípios não podem ser ambos infinitos, pois se excluiriam ou se confundiriam; se só um fosse infinito, este seria o princípio do outro; e, se ambos fossem finitos, não seriam verdadeiros princípios, já que dizer que aquilo que é finito pode existir por si mesmo é admitir que algo possa sair do nada, posto que todo finito tem um começo logicamente , senão cronologicamente.

                 Nesse último caso, como conseqüência, um e outro, sendo finitos, deveriam proceder de um princípio comum, que é infinito, o que nos volta a levar em consideração um princípio único. Além do mais, muitas doutrinas que observamos como dualistas não o são mais que em aparência; no Maniqueísmo, como na religião de Zoroastro, o dualismo não é mais que uma doutrina puramente exotérica, cobrindo uma verdadeira doutrina esotérica da Unidade: Ormuz e Ahrimán são ambos engendrados por Zervané-Akérêné (4), e devem com ele fundir-se no final dos tempos.

                 A dualidade é então necessariamente produzida pela Unidade, posto que não pode existir por si mesma; mas, como pode ser produzida ? Para entende-lo devemos considerar primeiramente a dualidade sob seu aspecto menos particular, que é a oposição do Ser e do Não-Ser ; Aliás, já que um e outro estão forçosamente contidos na Perfeição Total, é evidente, em princípio, que esta oposição não pode ser mais que aparente. Assim, valeria mais a pena falar somente em distinção; mas, em que consiste esta distinção ? existe, em realidade, independente de nós mesmos, ou não será, simplesmente, o resultado de nossa forma de ver as coisas ?

                 Se por Não-Ser entendemos o puro nada, é inútil seguir falando, pois o que podemos dizer daquilo que é nada ?

                 Mas, outra coisa bem distinta seria considerar o "Não-Ser" como possibilidade de Ser ; deste modo o Ser seria a manifestação do Não-Ser e, entendido desse modo, o Ser estaria contido em estado potencial no Não-Ser. A relação entre o Não-Ser e o Ser é então a relação entre o manifestado e o não-manifestado, e podemos dizer que o não-manifestado é superior ao manifestado, posto que é seu princípio, já que contém em potência todo o manifestado mais o que não é, nunca foi, nem jamais será manifestado.

                 Ao mesmo tempo, vemos aqui a impossibilidade de falar de uma distinção real, já que o manifestado está contido em princípio no não-manifestado; de qualquer forma, não podemos conceber o não-manifestado diretamente, senão unicamente através do manifestado. Assim, esta distinção existe para nós e somente para nós.

                 Se é assim concebida a dualidade quanto a distinção entre ser e não-ser, com maior razão deve ser igualmente em seus demais aspectos. Com isso vemos o caráter ilusório da distinção entre espirito e matéria, sobre a qual se edificaram - sobre tudo nos tempos modernos - grande quantidade de sistemas filosóficos, como se isso se tratasse de uma base irrevogável ; e , desaparecendo esta distinção, de tais sistemas não sobra nada. Além do mais, podemos ressaltar que a dualidade não pode existir sem o ternário, já que se o princípio supremo, ao diferenciar-se, dá nascimento a dois elementos - que por outra parte só são distintos em quanto nós os consideramos como tais  - estes e seu princípio comum formam um ternário. E de tal forma isto é assim que, em realidade, é o ternário e não o binário o que é imediatamente produzido pela primeira diferenciação da unidade primordial.

                  Voltemos agora à distinção entre o Bem e o Mal, que não é em si mais que um aspecto particular da dualidade. Quando opomos Bem e Mal, consideramos geralmente o Bem como perfeição, com o que o Mal não é outra coisa senão o imperfeito. Mas, como o imperfeito poderia se opor ao perfeito? Já vimos que o perfeito é o princípio de todas as coisas, e que, por outro lado, não pode produzir o imperfeito; daí resulta que o imperfeito não existe, ou que, ao menos, o imperfeito só pode existir como elemento constitutivo da perfeição total, e, sendo assim, não pode ser realmente imperfeito, e o que chamamos imperfeição não é mais que relatividade.

                  Assim, o que chamamos erro é verdade relativa, já que todos os erros devem estar compreendidos na verdade total, sem o que esta, estando limitada por algo que estaria fora dela, não seria perfeita, o que eqüivale a dizer que não seria a verdade. Os erros, ou, melhor dizendo, as verdades relativas, não são senão fragmentos da verdade total; é pois a fragmentação a que produz a relatividade, e em conseqüência, poderíamos dizer que, se relatividade fosse realmente sinônimo de imperfeição, poderia considerar-se como causa do mal. Porém o mal só é tal quando se distingue do bem.

                  Se chamamos bem ao perfeito, realmente o relativo não é algo distinto, já que em princípio está contido nele; então, desde o ponto de vista universal, o mal não existe. Existirá unicamente se consideramos as coisas sob um aspecto fragmentário e analítico, separando-as de seu princípio comum, em lugar de considera-las sinteticamente como contidas nesse princípio, que é a perfeição. Assim é criado o imperfeito; distinguindo o Mal do Bem cria-se os dois por esta distinção mesma, pois o Bem e o Mal são tais se opomos um ao outro e, se não há mal, não há motivo para referir-se ao Bem no sentido ordinário dessa palavra, senão unicamente da Perfeição. É pois a fatal ilusão do dualismo quem realiza o Bem e o Mal, e que, considerando as coisas sob um ponto de vista particularizado, substitui a Unidade pela multiplicidade, e encerra assim os seres sobre os quais exerce seu poder no domínio da confusão e da divisão. Este domínio é o império do Demiurgo.


                                                                         

                                                                                
Parte II      


                 
O que dissemos a respeito da distinção entre Bem e o Mal permite compreender o símbolo da Queda original, ao menos na medida em que estas coisas podem chegar a expressar-se. A fragmentação da Verdade total, ou do Verbo - pois são o mesmo no fundo -, produz a relatividade e é idêntica à segmentação do Adam Kadmon, cujas partes separadas constituem o Adam Protoplastas, o primeiro formador. A causa desta segmentação é Nahash, o egoísmo ou o desejo da existência individual. Este Nahash não é algo externo ao homem, senão algo que está nele, primeiro em estado potencial, e só se torna externo na medida em que o homem mesmo se exterioriza.

                   Este instinto de separatividade, por sua natureza, que é a de provocar a divisão, empurra o homem a provar o fruto da Árvore da Ciência do Bem e do Mal, quer dizer, a criar a distinção entre o Bem e o Mal. Então seus olhos se abrem, pois aquilo que lhe era interior se converte em exterior, como conseqüência da separação que produziu entre os seres. Estes estão agora revestidos de formas, que limitam e definem sua existência individual, e assim o homem se converteu no primeiro formador. Mas, sucede que ele também se encontra submetido às condições dessa existência individual, está revestido de uma forma, ou, segundo a expressão bíblica, de uma túnica de pele, e está encerrado no domínio do Bem e do Mal, no Império do Demiurgo.

                    Através desta exposição breve e muito incompleta, vemos que o Demiurgo não é em realidade uma potência externa ao homem; em princípio não é mais que a vontade do homem quando realiza a distinção entre Bem e Mal. Mas em seguida o homem, limitado como ser individual por esta vontade que é a sua mesma, a considera como algo externo a ele, e assim esta se torna distinta dele. Além do mais, como esta vontade se opõe aos esforços necessários para sair do domínio em que ele mesmo se encerrou , a vê como uma potência hostil, e a denomina Shathan ou "o adversário". Observemos que este adversário, que nós mesmos criamos e criamos a cada instante - já que não se deve considerar isso como algo que ocorreu em um tempo determinado - , não é mal em si mesmo, mas que constitui unicamente o conjunto de tudo o que nos é contrário.

                    Desde um ponto de vista mais geral, o demiurgo, convertido em uma potência distinta e considerado como tal, é o príncipe deste mundo de que se fala no evangelho de João. Não é, propriamente falando, nem bom nem mal, mas tanto um quanto outro, posto que contém em si mesmo o bem e o mal. Se considera seu domínio como o mundo inferior, em oposição ao mundo superior ou universo principial do qual se separou . Mas há de se ter em conta que esta separação jamais é absolutamente real, só o é na medida em que a realizamos, pois este mundo inferior está contido, em estado potencial, no universo principial, e é evidente que nenhuma parte pode realmente sair do Todo. Por outro lado, isto é o que impede que a queda continue indefinidamente; mas isto não é senão uma expressão totalmente simbólica, e a profundidade da queda mede simplesmente o grau de separação realizada. Com esta restrição o Demiurgo se opõe a Adam Kadmon ou à Humanidade Principial - manifestação do Verbo - mas somente como um reflexo, já que não é uma emanação, e não existe por si mesmo; isso é o que está representado pela figura dos anciãos do Zohar, e também pelos triângulos opostos do Selo de Salomão. (5)

                     Isto nos leva a considerar ao Demiurgo como um reflexo tenebroso e invertido do Ser, já que na realidade não pode ser outra coisa. Portanto não é um ser; mas depois do já dito, pode considerar-se como a coletividade dos seres na medida em que são distintos, ou se se prefere, enquanto têm uma existência individual. Somos seres distintos enquanto criamos nós mesmos a distinção, que só existe na medida em que a criamos; e enquanto o fazemos somos elementos do Demiurgo, e, como seres distintos, pertencemos ao domínio deste Demiurgo, que é o que se conhece como a criação.

                     Todos os elementos da criação, ou as criaturas, estão assim contidas no Demiurgo, e, com efeito, só de si mesmo as pode extrair, posto que a criação ex nihilo é impossível. Considerado como criador, o Demiurgo produz primeiro a divisão, e não é realmente distinto dela, já que só existe enquanto a divisão mesma existe; depois, como a divisão é a fonte da existência individual e esta vem definida pela forma, o Demiurgo deve ser considerado como formador e então é idêntico a Adam Protoplastas, tal como vimos. Podemos dizer também que o Demiurgo cria a Matéria, entendendo por esta palavra o caos primordial que é a reserva comum de todas as formas; depois organiza esta matéria caótica e tenebrosa da onde reina a confusão, fazendo surgir dela as formas múltiplas cujo conjunto constitui a criação.

                      Devemos considerar então que esta Criação é imperfeita ? Seguramente não se pode considera-la como perfeita; mas, desde o ponto de vista universal, não é mais que um dos elementos constitutivos da perfeição total. Só é imperfeita quando a consideramos analiticamente, como separada de seu Princípio, e o é na mesma medida em que constitui o domínio do Demiurgo. Mas, se o imperfeito só é um elemento do Perfeito, não é verdadeiramente imperfeito, e daí resulta que em realidade o Demiurgo e seu domínio não existem desde o ponto de vista universal, da mesma forma que a distinção entre o Bem e o Mal. Resulta igualmente que, desde o mesmo ponto de vista, a Matéria não existe: a aparência material é uma ilusão, da onde não se deve tirar a conclusão de que os seres que têm esta aparência não existem, pois seria cair em outra ilusão: a de um idealismo exagerado e mau entendido.

                    Se a Matéria não existe, a distinção entre Espírito e Matéria desaparece ; em realidade tudo deve ser Espírito, mas entendendo esta palavra em um sentido bem diferente daquilo que lhe atribuíram a maior parte dos filósofos modernos. Estes, com efeito, opondo o Espirito à Matéria, não o consideram como independente de toda forma, e poderíamos perguntar-nos em que ele se diferencia da Matéria. Se se afirma que ele é inextenso, enquanto que a Matéria é extensa, como é que o inextenso pode estar revestido de uma forma ? Por outro lado, por quê querer definir o Espírito ? Já que, seja com o pensamento ou de outra maneira, é sempre através de uma forma como se quer defini-lo, e então já não é Espírito. Em realidade o Espírito universal é o Ser, e não tal ou qual ser particular; é o Princípio de todos os seres, e assim os contém a todos. Por isso tudo é Espírito.

                    Quando o homem alcança o conhecimento real desta verdade, se identifica e identifica todas as coisas com o Espirito Universal. Então para ele toda distinção desaparece para ele , de tal forma que contempla todas as coisas como estando nele mesmo e não como sendo exteriores a ele, pois a ilusão se desvanece ante a Verdade como a sombra frente ao sol. Assim, por esse mesmo conhecimento, o homem é libertado das amarras da Matéria e da existência individual, já não está submetido ao domínio do Príncipe deste Mundo, já não pertence ao Império do Demiurgo.



                                                                          
                                                                           
Parte III
                                                                      


                    
O que precede resulta que o homem pode, desde sua existência terrestre, libertar-se do domínio do Demiurgo ou do Mundo hylico, e que esta libertação se opera pela Gnose, quer dizer, pelo Conhecimento integral. Assinalaremos que este conhecimento nada tem em comum com a ciência analítica e não a supõe de modo algum. É uma ilusão muito difundida em nossos dias crer que não se pode chegar à síntese total senão através da análise; ao contrário, a ciência ordinária é totalmente relativa e limitada ao mundo hylico, e sua existência é tão nula quanto este, do ponto de vista universal.

                      Por outro lado, devemos indicar também que os diferente Mundos, ou, segundo a expressão geralmente admitida, os diversos planos do Universo, não são lugares ou regiões, senão modalidades de existência ou estados de ser. Isto permite compreender como um homem, vivendo na terra possa pertencer em realidade, já não ao Mundo hylico, mas no Mundo psíquico ou até no Mundo pneumático. É o que constitui o segundo nascimento. Não obstante, propriamente falando, este não é mais que o nascimento ao Mundo psíquico, pelo qual o homem se torna consciente dos outros planos, mas sem ainda alcançar o Mundo pneumático, quer dizer, sem identificar-se com o espirito universal. Esta identificação só é alcançada por aquele que possuir integralmente o conhecimento triplo, pelo qual é libertado para sempre dos nascimentos mortais; é o que se expressa dizendo que somente os Pneumáticos são salvos. O estado dos Psíquicos não é mais que um estado transitório; é aquele do ser que já está preparado para receber a luz, mas que ainda não a percebe, que não tomou consciência da Verdade una e imutável.

                      Quando falamos de nascimentos mortais, entendemos por isso as modificações do ser, seu percorrer através das formas múltiplas e mutantes; não há nisso nada que se pareça à doutrina da reencarnação tal como a admitem os espíritas e os teosofistas, doutrina que algum dia teremos a ocasião de explicar. O Pneumático está libertado dos nascimentos mortais, quer dizer, está libertado da forma, e, portanto, do Mundo demiúrgico; já não está submetido à mudança e, em conseqüência, é sem-ação; este é um ponto sobre o qual falaremos mais adiante. O Psíquico, ao contrário, não ultrapassa o Mundo da Formação, que é designado simbolicamente como o primeiro Céu ou a esfera da Lua; daí regressa ao mundo terrestre, o que não significa que tome um novo corpo na Terra, mas simplesmente que deve revestir-se de novas formas, sejam quais forem, antes de obter a libertação.

                      O que acabamos de expor mostra o acordo - poderíamos inclusive dizer a identidade real, apesar de certas diferenças na expressão - da doutrina gnóstica com as doutrinas orientais e mais particularmente com o Vedanta, o mais ortodoxo de todas as doutrinas metafísicas fundadas no Brahmanismo.

                      É por este motivo que podemos completar o dito anteriormente a respeito dos diversos estados do ser, reproduzindo algumas citações do Tratado do Conhecimento do Espírito de Sankarâchârya.

                      "Não há outro meio de obter a libertação completa e final que o Conhecimento; é o único instrumento que desata os laços das paixões; sem o Conhecimento não se pode obter a Beatitude."

                       "A ação, não se opondo a ignorância, não a pode afastar; mas o Conhecimento dissipa a ignorância, como a luz dissipa as trevas."

                        A ignorância é aqui o estado do ser envolto nas trevas do Mundo hylico, ligado à aparência ilusória da Matéria e às distinções individuais; mediante o Conhecimento - que não pertence ao domínio da ação, mas que lhe é superior - todas as ilusões desaparecem, tal como dissemos anteriormente.

                        "Quando a ignorância que nasce das afeições terrestres é afastada, o Espírito, por seu próprio esplendor, brilha ao longe em um estado indiviso, como o Sol difunde sua claridade quando as nuvens se dissipam."

                         Mas, antes de chegar a este grau, o ser passa por um estado intermediário, que corresponde ao Mundo psíquico; então crê ser, já não o corpo material, mas a alma individual, posto que para ele não desapareceu toda distinção, porque ainda não saiu do domínio do Demiurgo.

                         "Imaginando-se que é a alma individual, o homem se apavora, como alguém que toma , por engano, um pedaço de corda por uma serpente; mas seu temor é afastado pela percepção de que ele não é a alma, mas o Espírito universal."

                          Aquele que tomou consciência dos dois Mundos manifestados, quer dizer, do Mundo hylico - conjunto de manifestações grosseiras ou materiais -, e do Mundo psíquico, - conjunto das manifestações sutis -, é nascido duas vezes, Dwidja ; mas aquele que é consciente do Universo não-manifestado ou do Mundo sem forma, que dizer, do Mundo pneumático, e que chegou à identificação de si mesmo com o Espírito universal, Atmâ, este e só este pode ser chamado de Yogi, que quer dizer, unido ao Espírito universal.

                          "O Yogi, cujo intelecto é perfeito, contempla todas as coisas como morando nele mesmo, e assim, pelo olho do Conhecimento, percebe que tudo é Espirito."

                          Notemos de passagem que o Mundo hylico se compara ao estado de vigília, o Mundo psíquico ao estado de sonho, e o Mundo pneumático ao estado de sono profundo. Devemos a este propósito recordar que o não-manifestado é superior ao manifestado, por ser seu princípio. Acima do Universo pneumático existe apenas - segundo a doutrina gnóstica - o Pleroma, que pode considerar-se como constituído pelo conjunto dos atributos da Divindade. Não se trata de um quarto mundo, mas do próprio Espírito universal , Princípio Supremo dos três Mundos, nem manifestado nem não-manifestado, indefinível, inconcebível e incompreensível.

                         O Yogui ou o Pneuma, já que no fundo são o mesmo, se percebe, já não como uma forma grosseira nem como uma forma sutil, mas como um ser sem forma: se identifica então com o Espírito universal, e eis aqui quais são os termos com que Sankarâtchârya descreve este estado :

                         "É Brahma, e após a aquisição deste estado não há nada mais a possuir ; após o gozo de sua felicidade, já não há felicidade que possa ser desejada; e após a obtenção de seu conhecimento, já não há conhecimento para obter."

                          "É Brahma, que uma vez sendo visto, não há nenhum outro objeto para contemplar; tendo se identificado com Ele, já nenhum nascimento é experimentado; tendo o percebido, não há nada mais a perceber. "

                          "É Brahma, está difundido em todas as partes, em tudo: no espaço intermediário, no que está por cima e o que está por baixo; o verdadeiro, o vivente, o ditoso, sem dualidade, indivisível, eterno e uno."

                          "É Brahma, sem tamanho, inextenso, incriado, incorruptível, sem rosto, sem qualidades ou características."

                          "É Brahma, pelo qual todas as coisas são iluminadas ; sua luz faz brilhar o Sol e todos os corpos luminosos, mas que não se faz manifesto por sua luz."

                           "Penetra ele mesmo sua própria essência eterna, e contempla o mundo inteiro aparecendo como Brahma."

                           "Brahma não se parece em nada ao Mundo, e fora de Brahma não há nada; tudo o que parece existir fora dele é uma ilusão."

                           "De tudo o que se vê, de tudo o que se escuta, só existe Brahma, e pelo conhecimento do princípio, Brahma é contemplado como o ser verdadeiro, vivente, feliz, sem dualidade."

                           "O olho do Conhecimento contempla ao ser verdadeiro, vivente, feliz, que tudo o penetra; mas o olho da ignorância não o descobre, não o percebe, como um homem cego não vê a luz."

                           "Quando o Sol do Conhecimento espiritual se levanta no céu do coração, expulsa as trevas, penetra tudo, abarca tudo e ilumina tudo."

                            Observemos que o Brahma de que aqui se trata é o Brahma superior; há de se ter cuidado em distingui-lo do Brahma inferior, pois este não é outra coisa que o Demiurgo, considerado como o reflexo do Ser. Para o Yogi, só existe o Brahma superior que contém todas as coisas e fora do qual não há nada; o Demiurgo e sua obra de divisão já não existem.

                            "Ele que realizou a peregrinação de seu próprio espirito, uma peregrinação na qual não há nada que concerne a situação, ao lugar ou ao tempo, que está em tudo, no que nem o calor nem o firo se experimentam, que constitui uma felicidade perpétua e uma liberação de toda penalidade; este está por cima da ação, conhece todas as coisas, e obtém a eterna Beatitude."





                                                                             
Parte IV





                   
Depois de haver caracterizado os três Mundos e os estados de ser que os correspondem, e de haver indicado dentro do possível em quê consiste a libertação da dominação demi´urgica, devemos retomar ainda o tema da distinção entre o Bem e o Mal, com o fim de tirar algumas conseqüências do exposto anteriormente.

                     Para começar, se poderia estar tentado a dizer o seguinte: se a distinção entre o Bem e o Mal é ilusória, se em realidade não existe, o mesmo deve suceder com a moral, pois é evidente que a moral está baseada nesta distinção, a qual considera essencial. Isto seria ir demasiado longe; a moral existe, mas na mesma medida que a distinção entre o Bem e o Mal, quer dizer, para tudo o que pertence ao domínio do demiurgo; desde o ponto de vista universal, não teria nenhuma razão de ser.

                     Com efeito, a moral não pode aplicar-se mais que à ação; a ação supõe a mudança, e isto só é possível no formal ou manifestado. O mundo sem forma é imutável, superior à mudança, e portanto à ação, e o é porque o ser que já não pertence ao império do demiurgo é não-agente.

                     Isto indica que há de se ter muito cuidado em não confundir os diversos planos do universo, pois o que se diz de um poderia não ser verdadeiro para o outro. Assim, a moral existe necessariamente no plano social, que é essencialmente o domínio da ação; mas não quando se considera o plano metafísico ou universal, posto que então já não há ação.

                     Estabelecido este ponto, devemos assinalar que o ser superior à ação possui, não obstante, a plenitude da atividade; mas é uma atividade potencial, uma atividade não-agente. Este ser não é imóvel - como se poderia dizer erroneamente -, mas imutável, quer dizer, superior à mudança. Com efeito, ele se identifica com o Ser que sempre é idêntico a si mesmo: segundo a fórmula bíblica, "o Ser é o Ser". Isto está relacionado com a doutrina taoísta, segundo a qual a Atividade do Céu é não-agente.

                     O Sábio, em quem se reflete a Atividade do Céu, observa o não-agir. Entretanto, este Sábio - que temos designado como o Pneumático ou o Yogi - pode atuar aparentemente, como a lua parece que se move quando as nuvens passam diante dela; mas o vento que afasta as nuvens não tem influência sobre a lua. Igualmente, a agitação do Mundo demiúrgico não tem influência sobre o Pneumático; e a este respeito podemos citar o que disse Sankarâtchârya :

                     "O Yogi, tendo atravessado o mar das paixões, está unido à Tranqüilidade e se regozija no Espirito.

                     "Tendo renunciado aos prazeres que nascem dos objetos externos perecedouros, e gozando das delícias espirituais, está calmo e sereno como a chama sob uma lamparina, e se alegra em sua própria essência.

                     "Durante sua residência no corpo, não é afetado por suas propriedades, como o firmamento não é afetado pelo que flutua em seu seio; conhecendo todas as coisas permanece não afetado pelas contingências."

                     A partir daí podemos compreender o verdadeiro sentido da palavra Nirvana, da qual se têm dado tantas falsas interpretações; esta palavra significa literalmente "extinção do sopro ou da agitação", ou seja, o estado de um ser que já não está submetido a nenhuma agitação, que está definitivamente liberado da forma. É um erro muito comum, ao menos no Ocidente, crer que não há nada quando não há forma, quando em realidade é a forma o que não é nada e o informal é tudo. Assim, o Nirvana, muito longe de ser o aniquilamento como pretenderam alguns filósofos, é pelo contrário a plenitude do Ser.

                    De tudo o que precede, poderíamos tirar a conclusão de que não devemos atuar; mas seria inexato, se não em princípio, ao menos na aplicação que quiséramos fazer. Com efeito, a ação é a condição dos seres individuais, pertencentes ao Império do Demiurgo; para o Pneumático ou o Sábio na realidade não há ação, mas enquanto resida em um corpo, tem as aparências da ação; exteriormente, é em tudo parecido aos demais homens, mas sabe que não é mais que uma aparência ilusória, e isto é suficiente para que esteja libertado da ação, posto que é através do Conhecimento que se obtém a libertação. Por isso mesmo, o que está libertado da ação já não está sujeito ao sofrimento, já que o sofrimento é um resultado do esforço, e portanto da ação, e é nisto que consiste o que chamamos de imperfeição, ainda que na realidade não haja nada imperfeito.

                   É evidente que a ação não pode existir para aquele que contempla todas as coisas em si mesmo como existindo no Espírito universal, sem nenhuma distinção de objetos individuais, tal como expressam estas palavras dos Vedas: "Os objetos diferem simplesmente em designação, acidente e nome, como os utensílios terrestres recebem diferentes nomes, ainda que somente sejam diferentes formas de terra.". A terra, princípio de todas essas formas, é em si mesma sem forma, mas as contém todas em potência; tal é também o Espírito universal.

                  A ação implica mudança, quer dizer, a destruição incessante de formas que desaparecem para serem substituídas por outras; são as modificações que chamamos nascimento e morte, as múltiplas mudanças de estado que deve atravessar o ser que ainda não haja alcançado a libertação ou a transformação final, empregando esta palavra transformação em seu sentido etimológico, que é o de passagem para além da forma. O apego às coisas individuais, ou às formas essencialmente transitórias e perecedouras, é próprio da ignorância; as formas não são nada para o ser que se há libertado delas, e por isso, inclusive durante sua residência no corpo, não lhe afetam em nada suas propriedades.

                   "Assim se move livre como o vento, pois seus movimentos não estão afetados pelas paixões."

                   "Quando as formas são destruídas, o Yogi e todos os seres entram na essência que tudo penetra."

                   "É sem qualidades e sem ação, imortal, sem desejos ; feliz, imutável, sem rosto; eternamente livre e puro."

                   "É como o éter, expandido por toda parte, e que penetra ao mesmo tempo o exterior e o interior de todas as coisas; é incorruptível, imperecedouro, é o mesmo em todas as coisas, puro, impassível, sem forma, imutável."

                   "É o grande Brahma, que é eterno, puro, livre, uno, incessantemente feliz, não dual, existente, perceptivo e sem fim."

                    "Tal é o estado a que chega o ser pelo Conhecimento espiritual; assim é libertado para sempre das condições da existência individual, libertado do Império do Demiurgo."


                                                                                      
* * *

Notas:

1."Se Deus existe, porque o mal ? Se não existe, porque o bem ? "

2."Do nada nada surge, ao nada nada pode reverter" 

3. Ou seja, a soma de todas as qualidades.

4. Ormuz, Ashriman e Zarvané-Akérêné pertencem à tradição mazdeísta. O mazdeísmo floresceu na região da Pérsia pré-islâmica. Também é conhecido por zoroastrismo (por causa de Zoroastro). Como na visão atualmente mais difundida sobre essa tradição sua ênfase estaria na dualidade, no culto a dois "deuses", um do "bem" (Ormuz) e o outro do "mal" (Ashriman), René Guénon usa-a como exemplo, observando que mesmo nesse caso considerava-se a existência de um Princípio, Zarvané-Akérêné, que, usando termos míticos, foi o pai dos gêmeos Ormuz e Ashriman.Zoroastro (ou Zaratrusta) foi um sacerdote do mazdeísmo ( ou uma figura emblemática de todo o sacerdócio mazdeísta) que revificou essa doutrina no século V a.C. Mas apesar de ainda existirem adeptos hoje em dia, a doutrina está fragmentada e em parte perdida.

5. "Selo de Salomão" – René Guénon ao denominar o hexagrama desse modo, o faz entre aspas. Ele é um símbolo universal, que não se restringe à tradição hebraica. É composto por dois triângulos e algumas explicações sobre seu significado podem ser lidas no próprio Demiurgo, quando ele menciona a trindade e o ternário (parte III).Uma de suas variações, aliás anterior ao próprio selo, é o conjunto de seis raios.

Mas, voltando ao selo, ele pode ajudar na compreensão de outros pontos do texto.

Quanto aos "dois Anciãos do Zohar" são figuras simbólicas do esoterismo hebraico. Um é o Ancião Sagrado e corresponde ao triângulo superior; o outro é o Ancião dos Dias e corresponde ao triângulo inferior.

Outro exemplo simbólico da mesma verdade é o da árvore em cuja copa estão duas aves: uma repousa imóvel e, em geral, está mais perto do eixo vertical da árvore ou no ponto mais alto desse eixo; a outra está deslocada do eixo, come algumas frutas e tem as asas levantadas. Encontramos essa figura na arte hindú, persa e árabe.
René Guénon
Título original: "Le Démiurge" ( assinado com o pseudônimo T. Palingénius ).
Publicado inicialmente na revista
La Gnose, novembro/ dezembro de 1909 e janeiro de 1910.
Constitui o capítulo I do livro
Mélanges, Paris, ed. Gallimard, 1976.