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Instituto René Guénon de Estudos Tradicionais
Capítulo III  do livro
"Oriente e Ocidente"
A SUPERSTIÇÃO DA VIDA
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René Guénon : "Orient et Occident", Editions Vêga, Paris, 1983.   
              
            
Os ocidentais freqüentemente recriminam as civilizações orientais , entre outras coisas, por suas características de fixidez e de estabilidade , que a eles parecem uma negação do progresso, como de fato o são, concordamos plenamente; mas para considerá-las um defeito é preciso crer no progresso. Para nós, estas características indicam que estas civilizações participam da imutabilidade dos princípios sobre os quais se apóiam, e este é um dos aspectos essenciais da idéia de tradição; ´e porque a civilização moderna carece de princípios que ela é eminentemente cambiante. Não é necessário crer, no entanto, que a estabilidade de que falamos chega ao ponto de excluir toda modificação, o que seria um exagero; porém reduz esta modificação apenas a uma adaptação às circunstâncias, através da qual os princípios não são de modo algum afetados, e que pode até ser deles rigorosamente deduzida, por pouco que sejam considerados não em sí, mas com vistas a uma aplicação determinada; e é por isto que existem, além da metafísica, que, no entanto, basta a si própria enquanto conhecimento dos princípios, todas as "ciências tradicionais", que abrangem a ordem das existências contingentes inclusive as instituições sociais. £ necessário que tampouco se confunda imutabilidade com imobilidade ; mal-entendidos deste tipo são freqüentes por parte dos ocidentais, porque estes são incapazes de separar a concepção da imaginação, e porque seu espírito não consegue afastar-se das representações sensíveis; pode-se notá-lo claramente em filósofos como Kant, que não podem, no entanto, ser alinhados dentre os "sensualistas". O imutável não é aquilo que é contrario à mudança, e sim o que lhe é superior, da mesma forma que o "supra-racional" não é o "irracional"; é preciso desconfiar da tendência de arrumar as coisas em oposições e antíteses artificiais, através de uma interpretação ao mesmo tempo "simplista" e sistemática, que se origina principalmente da incapacidade de prosseguir e resolver os contrastes aparentes na unidade harmônica da verdadeira síntese. É fato, também, que realmente existe, sob o aspecto que aqui abordamos assim como sob vários outros, uma certa oposição entre Oriente e Ocidente, pelo menos no atual estado de coisas: há divergência, mas é preciso não .esquecê-lo, esta divergência e unilateral e assimétrica, é corro um ramo que se separa do tronco; é unicamente a civilização ocidental que, caminhando no rumo que tem seguido nos últimos séculos, a tal ponto afastou-se das civilizações orientais que entre una e outras parece não mais haver, por assim dizer, qualquer elemento comum, qualquer termo de comparação, qualquer campo de entendimento e conciliação.

               O ocidental, mais particularmente o ocidental moderno (é sempre a esse que queremos nos referir), apresenta-se como essencialmente mutável e inconstante, entregue ao movimento sem pausa e à agitação incessante, e disto não deseja sair; seu estado é, em suma, aquele de um ser que não consegue encontrar seu equilíbrio, e que por não o conseguir recusa-se a admitir que isto suja possível em si, ou simplesmente desejável, e chega ao ponto de orgulhar-se de sua impotência,  Esta mudança em que se encontra encerrado e que lhe apraz, da qual não exige que o conduza a qualquer finalidade, porque acabou por apreciá-la em si, eis, afinal, o que ele chama de "progresso", corno se simplesmente caminhar, em qualquer direção, já bastasse para se ter certeza de que se avança; mas avanço com relação a que, isto ele nem sonha em se questionar; e ã dispersão dentro da multiplicidade que é a inevitável consequência desta mudança sem princípio e sem finalidade, até mesmo a sua única conseqüência cuja realidade não possa ser contestada, ele chama "enriquecimento": mais uma palavra que, pelo grosseiro materialismo da imagem que ele evoca, é inteiramente típica e representativa da mentalidade moderna.  A necessidade de atividade exterior levada a tal ponto, o gosto do esforço pelo esforço, independentemente dos resultados que dele se podem obter, nada disto é natural ao homem, pelo menos ao homem normal, segundo a idéia que dele se tem feito em toda parte e através do tempo; mas isto de algum modo tornou-se natural para o ocidental, talvez como efeito daquele hábito que, segundo Aristóteles, é como uma segunda natureza, mas principalmente pela atrofia das faculdades superiores do ser, necessariamente correlativa ao desenvolvimento intensivo dos elementos inferiores:  aquele que não tem como subtrair-se ã agitação resta apenas satisfazer-se com isto, do mesmo modo que aquele cuja inteligência limita-se ã atividade racional acha esta ultima admirável e sublime; para estar-se plenamente â vontade dentro de uma esfera fechada, de qualquer natureza, é preciso nem imaginar que possa existir algo além disto.  As aspirações do ocidental, único entre todos os homens (não nos referimos aqui aos selvagens, os quais ê muito difícil saber com precisão como abordar), em geral limitam-se estritamente ao mundo sensível e a suas dependências, dentre as quais compreendemos toda a ordem sentimental e uma boa parte da ordem racional; há, com certeza, louváveis exceções, mas aqui podemos apenas abordar a mentalidade geral e comum, aquela que é verdadeiramente característica do lugar e da época.

                  É preciso ainda notar, dentro da própria ordem intelectual, ou melhor, no que dela subsiste, um fenômeno estranho que ê apenas um caso particular do estado de espírito que acabamos de descrever: é a paixão pela pesquisa considerada um fim em si mesma, sem qualquer preocupação de vê-la resultar em uma solução qualquer; enquanto que os outros homens procuram para encontrar e para saber, o ocidental de hoje procura por procurar; a palavra evangélica,
Quaerite et invenietis* ,  é  para ele letra morta, com toda a força desta expressão, pois ele chama precisamente "morte" a tudo o que constitui um resultado definitivo, assim como denomina "vida" o que não passa de agitação estéril.  O gosto doentio pela pesquisa, verdadeira "inquietação mental" sem limite e sem resultado, manifesta-se de modo particular na filosofia moderna, cuja maior parte representa apenas uma serie de problemas completamente artificiais, que só existem porque são mal colocados, que só nascem e subsistem através de equívocos cuidadosamente sustentados; problemas insolúveis,  é verdade, considerando-se a maneira como são formulados, mas que não se deseja resolver, e cuja única razão de ser consiste em alimentar indefinidamente controvérsias e discussões que a nada conduzem e a nada devem conduzir.  Substituir deste modo o conhecimento pela pesquisa (e já observamos, a este respeito, o notável abuso das "teorias do conhecimento"), é simplesmente renunciar ao objeto próprio da inteligência, e ê bem compreensível que, nestas condições, alguns tenham finalmente chegado a suprimir a própria noção da verdade, pois a verdade só pode ser compreendida como o fim que se deve atingir, e aqueles não desejam um fim para sua pesquisa; isto não poderia, então ser coisa intelectual, mesmo tomando a inteligência em sua acepção mais extensa, e não mais elevada ou mais pura; e se pudemos falar de "paixão da pesquisa",  é porque se trata, na verdade, de uma invasão da sentimentalidade em domínios nos quais deveria permanecer estrangeira.  Não protestamos, bem entendido, contra a existência da sentimentalidade, que é um fato natural, mas apenas contra sua extensão anormal e ilegítima; é preciso saber colocar cada coisa em seu lugar,e lá deixá-las, mas para isto é preciso uma compreensão da   ordem universal que escapa ao mundo ocidental, onde a desordem é a lei; denunciar o sentimentalismo não é negar a sentimenta1idade, do mesmo modo que denunciar o racionalismo não significa negar a razão; sentimenta1ismo e racionalismo, igualmente, não representam senão abusos, ainda que se apresentem no Ocidente moderno como os dois termos de uma alternativa da qual é impossível sair.

                  Já dissemos que o sentimento é extremamente próximo do mundo material; não é sem razão que a linguagem une estreitamente o sensível e o sentimental, e, como é necessário que não se chegue a confundi-los, são apenas duas modalidades de uma só ordem de coisas.  O espírito moderno e quase  que unicamente voltado para o exterior, para o domínio sensível; o sentimento parece-lhe interior, e freqüentemente quer opô-lo, sob este aspecto, ã sensação; mas isto é muito relativo, e a verdade é que. a "introspecção" do psicólogo capta apenas fenômenos, isto é, modificações exteriores e superficiais do ser; só é verdadeiramente interior e profunda a parte superior da inteligência. Isto parecerá espantoso para aqueles que, como os intuicionistas contemporâneos, que da inteligência conhecem apenas sua parte inferior, representada pelas faculdades sensíveis e. pela razão enquanto aplicada a objetos sensíveis, acreditam que ela seja mais exterior que o sentimento; porém, aos olhos do intelectualismo transcendente dos orientais, racionalismo e intuicionismo mantem-se sobre um mesmo plano e do mesmo modo detêm-se no exterior do ser, a despeito das ilusões através das quais uma ou outra destas concepções acredita captar algo  de sua natureza íntima.  No fundo, em tudo isto, a questão nunca é chegar além das coisas sensíveis; a discordância versa apenas sobre os processos a empregar para atingir estas coisas, sobre a maneira pela qual convém abordã-las sobre qual dentre seus diversos aspectos precisa ser posto em maior evidencia: poderíamos dizer que uns preferem insistir no lado "matéria", outros no lado "vida".  Sao estas, de fato, as limitações que o pensamento ocidental não pode superar: os gregos eram incapazes de libertar-se da forma; os modernos parecem especialmente inaptos a se desligarem da matéria e, quando tentam fazê-lo, nao conseguem sair do domínio da vida.  Tudo isto, a vida tanto quanto a matéria, e ainda mais do que a forma, não passam de condições de existência especiais ao mundo sensível; logo, tudo está sobre um mesmo plano, conforme há pouco dizíamos.  0 Ocidente moderno, salvo casos excepcionais, faz  do mundo sensível seu único objeto de conhecimento; quer se atenha de preferência a uma ou outra das condições deste mundo, quer o estude sob este ou aquele ponto de vista, percorrendo-o não importa em que direção, o domínio onde se exerce sua atividade mental não deixa de ser sempre o mesmo; ainda que este domínio pareça estender-se um pouco mais, nunca irá muito longe, uma vez que é puramente ilusório.  Além disto existem, junto ao mundo sensível, diversos prolongamentos que pertencem ainda ao mesmo grau de existência universal; conforme se considera esta ou aquela condição, entre todas as que se definem este mundo, será possível atingir-se às vezes um ou outro destes prolongamentos, continuando-se, porém, igualmente encerrado dentro de um domínio especial e determinado.  Quando Bergson diz que a inteligência tem a matéria como seu objeto natural, chama erradamente de inteligência aquilo a que se refere, e o faz porque tudo o que é verdadeiramente intelectual lhe é desconhecido; mas no fundo tem razão se visa apenas, sob esta denominação falha, a parte mais inferior da inteligência ou, mais precisamente, o uso que dela se faz habitualmente no Ocidente atual.  Quanto a ele, é mesmo ã vida que se prende essencialmente; é bem conhecido o papel que desempenha o "élan vital" em suas teorias, e o significado que atribui ao que chama percepção da "duração pura" rias a vida, qualquer que seja o "valor" que se lhe atribua, não deixa de estar do mesmo modo ligada a matéria, e ê sempre o mesmo mundo que aqui se considera segundo uma concepção "organicista" ou "vitalista", e em outra parte sob uma concepção "mecanicista".  Apenas, quando se faz preponderar o elemento vital sobre o elemento material na constituição deste mundo, é natural que o sentimento tome a dianteira da chamada inteligência, os intuicionistas com sua "torsão de espírito"(**), os pragmatistas com sua "experiência interior", apelam simplesmente para os poderes obscuros do instinto e do sentimento, que tomam como a própria essência do ser, e quando vão até o fim de seu pensamento, ou melhor, de sua tendência, chegam, como William James, a finalmente proclamar a supremacia do "subconsciente", através da mais incrível subversão da ordem natural jamais registrada pela história das idéias.

               A vida, considerada em si própria, é sempre mudança, modificação interessante; é, então, compreensível que exerça tanta fascinação sobre o espírito da civilização moderna, do qual a mudança é também o traço mais marcante , aquele que aparece à primeira vista, mesmo a um exame completamente superficial.  Quando se esta assim encerrado na vida e em concepções com ela diretamente relacionada se pode conhecer daquilo que escapa ã mudança, da ordem transcendente e imutável que é a ordem dos princípios universais; não haveria mais, então, qualquer conhecimento metafísico possível, e somos sempre reconduzidos a esta constatação, como conseqüência inelutável de cada uma das características do Ocidente atual.  Dizemos aqui mudança ao invés de movimento, porque o primeiro destes termos é mais extenso que o segundo:  o movimento é apenas a modalidade, física, ou melhor, mecânica, da mudança, e há concepções que abordam outras modalidades irredutíveis àquela, que até mesmo lhe reservam o caráter mais propriamente "vital", excluindo-se o movimento compreendido em seu sentido comum, isto ê. como simples mudança de situação. É  preciso ainda, não exagerar certas oposições, que só o são sob um ponto de vista um tanto limitado:  assim, uma teoria mecanicista é, por definição, uma teoria que pretende explicar tudo através da matéria e do movimento; porém, dando-se a idéia de vida toda a extensão de que é suscetível, poderíamos nela incluir o próprio movimento, e se perceberia, então, que as teorias que se dizem opostas ou antagônicas são, na realidade, muito mais equivalentes do que gostariam de admitir seus respectivos seguidores (1) ; existe apenas, numa e noutra parte, um pouco mais ou um pouco menos de estreiteza de enfoque.  0 que quer que seja, uma concepção que se apresenta como uma "filosofia da vida" e necessariamente, por isto mesmo, uma "filosofia do devir"; queremos dizer que ela esta encerrada no devir e dele não pode sair (pois devir e mudança são sinônimos), o que a obriga a colocar toda a realidade neste devir, a negar que exista qualquer coisa fora ou além dele, porque faz parte do espírito sistemático imaginar que inclui em suas fórmulas a totalidade do universo; esta é mais uma negação formal da metafísica. O  mesmo se dá, claramente, com o evolucionism.o sob todas as suas formas, desde as concepções mais mecanicistas, inclusive o grosseiro "transformismo", até teorias do gênero das de Bergson; única mente o devir poderia nela caber, e mesmo assim apenas considerando-se-lhe uma parte bem restrita.  A evolução, em suma, ê apenas a mudança, mais uma ilusão quanto ao sentido e à qualidade desta mudança; evolução e progresso sao exatamente a mesma coisa, salvo algumas peculiaridades, mas hoje em dia a preferência tem recaído sobre a primeira destas duas palavras, porque lhe atribuem um ar mais "científico"; o evolucionismo é como que um produto das duas grandes superstições modernas, e da ciência e a da vida, e o que faz o seu sucesso e precisamente o fato de que. satisfaz tanto ao racionalismo quanto ao   sentimentalismo; as proporções variáveis em que se combinam estas duas tendências estão em grande parte na diversidade das formas que assume esta teoria.  Os evolucionistas colocam a mudança em toda parte, até em Deus, segundo eles próprios admitem:  é desta forma que Bergson representa Deus, como "um centro de onde os mundos fluíram, e que não é uma coisa, e sim um fluir contínuo"; e acrescenta literalmente:  "Deus, assim definido, nada tem de concluído; ele é vida incessante, ação, liberdade" (2) .  São, então, exatamente estas idéias de vida e de ação que constituem, para nossos contemporâneos, uma verdadeira obsessão, e que aqui se transportam para um domínio que exige ser especulativo; na realidade, é a supressão da especulação em favor da ação que tudo invade e absorve.  Esta concepção de um Deus em devir, que é apenas imanente e não transcendente, também aquela (que vem a dar no mesmo) de. uma verdade que se faz, que é apenas uma espécie de limite ideal, sem nada de atualmente realizado, não são de forma alguma excepcionais dentro do pensamento moderno; os pragmatistas, que adotaram a idéia de um Deus limitado por motivos puramente "moralistas", não foram seus primeiros inventores, pois tudo o que se supõe evoluir deve ser forçosamente concebido como limitado. 
O pragmatismo, por sua própria denominação, se coloca antes de tudo corno uma "filosofia da ação"; seu postulado mais ou menos confesso e que o homem tem apenas necessidades de ordem prática, necessidades ao mesmo tempo materiais e sentimentais; logo, e a abolição da intelectualidade; porém, se assim e, por que ainda pretender construir teorias?  Isto é muito difícil de compreender; e, como o ceticismo, do qual difere apenas no tocante à ação, o pragmatismo, se quisesse ser coerente consigo mesmo, deveria limitar-se a uma simples atitude mental, para a qual nem mesmo pode procurar justificação lógica sem desmentir se a si próprio; mas não há dúvida de que é muito difícil manter-se estrita -mente dento desta reserva. O homem, por maior que seja sua decadência intelectual, não pode deixar de pelo menos raciocinar, nem que seja para negar a razão; os pragmatistas, aliás, não a negam como os céticos, porem pretendem reduzi-la a uma utilização puramente pratica; vindo em seguida aqueles que pretenderam reduzir toda a inteligência ã razão, sem, contudo, recusar-lhe um uso teórico, significa, então, um passo a mais no aviltamento.  Existe até um ponto em que a negação dos pragmatistas vai além da dos céticos puros:  estes não contestam que a verdade exista fora de nós, apenas que a possamos atingir; os pragmatistas, imitando alguns sofistas gregos (que, provavelmente, pelo menos não se levavam a sério), chegam a suprimir a própria verdade.

                Vida e ação são estreitamente solidárias; o domínio de uma e também o domínio da outra, é, e neste domínio limitado que permanece toda a civilização ocidental, hoje mais que nunca. Já dissemos antes como os orientais con sideram a limitação da ação e de suas conseqüências, corno opõem, sob este ponto de vista, o conhecimento à ação:  a teoria extremo-oriental do "não-agir", a teoria hindu da "libertação", são coisas inacessíveis à mentalidade ocidental comum, para a qual é inconcebível que se possa imaginar libertar-se da ação, e mais ainda que se possa, de fato, consegui-lo. A ação, também, só é comumente considerada sob suas formas as mais exteriores, aquelas que correspondem propriamente ao movimento físico:  donde esta necessidade crescente de velocidade, esta trepidação febril, que são tão peculiares ã vida contemporânea; agir pelo prazer de agir só  pode se chamar agitação, pois há, na própria ação, certos graus a serem observados e certas distinções a serem feitas.  Na da mais fácil do que demonstrar quanto isto ê incompatível com tudo o que é reflexão e concentração, logo, com os meios essenciais de todo conhecimento verdadeiro; é realmente o triunfo da dispersão, na mais completa exteriorização que se possa conceber; é a ruína definitiva do resto de intelectualidade que ainda poderia subsistir, se alguma coisa não vier a tempo reagir contra estas funestas tendências.  Felizmente, o excesso do mal pode provocar uma reação, e os perigos até físicos que são inerentes a um desenvolvimento de tal modo anormal podem acabar inspirando um salutar temor; enfim, da mesma maneira que o domínio da ação comporta apenas possibilidades muito restritas, quaisquer que sejam as aparências, é impossível que este desenvolvimento prossiga indefinidamente, e, por força das circunstâncias, uma mudança de direção impor-se-á mais cedo ou mais tarde.  Entretanto, no momento, não iremos examinar as possibilidades de um futuro talvez longínquo; o que consideramos é o estudo atual do Ocidente, e tudo o que nele vemos apenas confirma que progresso material e decadência intelectual estão ligados e acompanham-se mutuamente; não pretendemos decidir qual dos dois é a causa ou qual é o efeito, tanto mais que se trata, em suma, de um conjunto complexo, em que as relações entre seus diversos elementos são às vezes recíprocas e alternativas.  Sem procurar remontar às origens do mundo moderno e ã maneira pela qual sua mentalidade própria pôde se constituir, o que seria necessário para  resolver inteiramente a questão, podemos dizer o seguinte: já foi preciso que houvesse uma depreciação e um aviltamento da intelectualidade para que. o progresso material chegasse a assumir uma importância suficiente para transpor certos limites. Porém, uma vez iniciado este movimento, com a preocupação do progresso material absorvendo pouco a pouco todas as faculdades do homem, a intelectualidade continuou a enfraquecer gradativamente, até chegar ao ponto em que hoje a vemos, e talvez ainda vã mais longe nessa direção, se bem que isto pareça certamente muito difícil.  Em contrapartida, a expansão da sentimental idade não é  de forma alguma incompatível com o progresso material, porque ambos são, no fundo, coisas quase da mesma ordem; queiram-nos desculpar o retornarmos com tanta freqüência a este ponto, mas isto é indispensável para compreender o que se passa à nossa volta.    Esta expansão da sentimentalidade, que sucede  correlativamente à regressão da intelectualidade, será mais excessiva e  mais desordenada a medida que não encontra alguma coisa que a possa conter ou dirigir eficazmente, papel que não poderia caber ao "cientificismo", que, conforme vimos, está longe de ser, por sua vez, indene ao contágio sentimental, e que de intelectualidade não tem mais do que uma falsa aparência.

                     Um dos sintomas mais notáveis da preponderância adquirida pelo sentimentalismo é o que chamamos de "moralismo", isto é, a tendência claramente evidente a tudo relacionar com preocupações da ordem moral, ou pelo menos a subordinar-lhes tudo mais, particularmente o que é considerado como pertencente ao domínio da inteligência. A moral, por si própria, é essencialmente sentimental; representa um ponto de vista tão relativo e contingente quanto possível, e que, ademais, sempre foi próprio do Ocidente; mas o "moralismo" propriamente dito é um exagero deste ponto de vista, surgido apenas em data  bem recente.  A moral, qualquer que seja a base que se lhe dê, e qualquer que seja, também, a importância que se lhe atribua, não ê nem pode ser mais que uma norma de ação; para homens que não se interessam mais por coisa alguma que não seja a ação, é evidente que esta deve desempenhar um papel capital e eles se aferram a ela tanto mais quanto as considerações desta ordem possam dar a ilusão do pensamento em um período de decadência intelectual; é isto que explica o nascimento do "moralismo".  Um fenômeno análogo já havia ocorrido no fim da civilização grega, sem, contudo, atingir, ao que parece, as proporções que assumiu em nossos dias; de fato, a partir de Kant, quase toda a filosofia moderna é repassada de "moralismo", o que ê o mesmo que dizer que ela dá precedência à prática sobre a especulação, sendo esta prática, além do mais, considerada sob um ângulo especial; esta tendência chega a seu completo desenvolvimento com as filosofias da vida e da ação de que falamos. Ademais, assinalamos a obsessão, até entre os materialistas mais evidentes, pelo que se chama "moral científica", o que representa exatamente a mesma tendência; quer se chame científica ou filosófica, de acordo com os gostos de cada um, não passa de uma expressão do sentimentalismo, e nem ao menos esta expressão varia  de uma maneira apreciável.  É, realmente, um ponto curioso, que as concepções morais, em um dado ambiente, sejam todas tio extraordinariamente semelhantes  , ainda que se pretendam fundamenteadas sobre considerações diferentes e as vezes até contrárias; é isto que demonstra bem o caráter artificial das teorias de que cada um se serve para tentar justificar normas práticas que são sempre as que se observam comumente ã sua volta,  Estas teorias, em suma, representam simplesmente as preferências particulares daqueles que as formulam ou que as adotam; muitas vezes, também, um interesse partidário não lhes e de todo estranho; basta-nos para prová-lo a maneira pela qual a "moral leiga" (científica ou filosófica, pouco importa) é colocada em oposição ã moral religiosa.  Enfim, tendo o ponto de vista moral uma razão de ser exclusivamente social, a intrusão da política em tal domínio não é nada de se espantar; e talvez menos chocante do que a utilização, com fins semelhantes, de teorias que se pretendem puramente científicas; mas, afinal, o próprio espírito "cietificista" não foi criado para servir aos interesses de uma certa política? Muito duvidamos de que a maioria dos partidários do evolucionismo esteja isenta de  qualquer intenção oculta deste gênero;  e, para dar um outro exemplo, a chamada "ciência das religiões" parece muito mais um instrumento de polêmica do que uma ciência séria; estes são alguns dos casos a que há pouco aludimos,  e nos quais o racionalismo é principalmente uma máscara para o sentimentalismo.

                Não é só entre os "cientificistas" e entre os filósofos que se pode notar a invasão do "moralismo"; é preciso também notar, a este respeito, a degenerescência da idéia religiosa, tal como se constata nas inúmeras seitas originárias do protestantismo.  São estas as únicas formas religiosas especificamente modernas, e caracterizam-se por uma redução progressiva do elemento doutrinário em benefício do elemento moral ou sentimental; este fenômeno é um caso particular do aviltamento geral da intelectualidade, e não é por uma coincidência fortuita que a época da Reforma é a mesma do Renascimento, isto é, precisamente o início do período moderno.  Em certos ramos do protestantismo atual, a doutrina chegou a dissolver-se completamente, e como o culto, paralelamente, reduziu-se a quase nada, o elemento moral subsiste finalmente só:  o "protestantismo liberal" não é mais do que um "moralismo" com rótulo de religião; não se pode dizer que seja ainda uma religião no sentido estrito da palavra, posto que, dos três elementos que formam a definição de religião, resta apenas um.  Com esta limitação, seria mais uma espécie de pensamento filosófico especial; afinal, seus representantes se entendem geralmente muito bem com os partidários da "moral leiga", também chamada "independente", e ocorre até, as vezes, solidarizarem-se abertamente com estes últimos, o que demonstra que estão conscientes de suas reais afinidades.  Para designar coisas deste gênero, empregamos de bom grado a palavra "pseudo-religião"; e aplicamos também a mesma palavra a todas as seitas "neo-espiritualistas", que nascem e prosperam principalmente nos países protestantes, porque o "neo-espiritualismo" e o "protestantismo liberal" procedem das mesmas tendências e do mesmo estado de espírito:  a religião é substituída, através da supressão do elemento intelectual (ou de sua ausência, quando se trata de criações novas), pela religiosidade, isto é, uma simples aspiração sentimental mais ou menos vaga e inconsistente; e esta religiosidade está para a religião aproximadamente assim como a sombra está para o corpo.  Pode-se reconhecer aqui a "experiência religiosa" de William James (que se complica com o apelo ao "subconsciente"), e também a "vida interior" no sentido que lhe dão os modernistas, pois o modernismo não foi mais do que uma tentativa de introduzir-se no próprio catolicismo a mentalidade em questão, tentativa esta que esfacelou-se contra a força do espírito tradicional do qual o  catolicismo, no Ocidente moderno,  é aparentemente o único refúgio, à parte as exceções individuais que podem sempre existir fora de toda organização.

                   É entre os povos anglo-saxões que o "moralismo" grassa com a máxima intensidade, e é lá também que o gosto pela ação se afirma sob as formais mais extremas e mais brutais; estas duas coisas estão, logo, bem ligadas entre si.
conforme dissemos. Há uma singular ironia na concepção corrente que representa os ingleses como um povo essencialmente ligado à tradição, e aqueles que assim  pensam confundem simplesmente tradição com costume. 
A facilidade com que se abusa de certas palavras é verdadeiramente extraordinária: alguns há QUE chegaram a chamar "tradições" os usos populares, ou até hábitos de origem bem recente, sem qualquer alcance ou significado; quanto a nos, recusamo-nos a dar este nome ao que não passa de um respeito mais ou menos maquinai a certas formas externas, que as vezes não são mais que "superstições" no sentido etimológíco da palavra; a verdadeira tradição esta no espírito de um povo, de uma raça  ou de uma civilização, e tem razões de ser muito mais profundas O espírito anglo-saxão é na verdade anti-tradicional , pelo menos tanto quanto o espírito francês ou o espírito germânico, mas talvez de uma maneira um pouco diferente, pois na Alemanha, e até certo ponto na França, é mais a tendência "cientificista" que predomina; pouco importa, aliás, que seja o "moralismo" ou o "cientificismo" que prevalece, pois, repetimo-lo mais uma vez, seria artificial querer separar inteiramente estas duas tendências que representam as duos faces do espírito moderno, e que se encontram em proporções diversas em todos os povos ocidentais.  Parece que a tendência "moralista" leva mais vantagem, hoje em dia, enquanto que a dominação do "cientificismo" era mais acentuada há poucos anos atrás; mas o ganho de um não implica em perda para o outro, uma vez que são perfeitamente conciliáveis e, apesar de todas as flutuações, a mentalidade comum os associa estreitamente:  nela há lugar, ao mesmo tempo, para todos estes ídolos de que anteriormente falávamos.  Entretanto , existe uma espécie de cristalização de elementos diversos que especialmente agora ocorre, tomando por centro a idéia de "vida" e o que se lhe refere,   como  ocorria no século XIX em torno da idéia de "ciência" e no século XVIII em torno da   idéia de "razão"; falamos aqui de idéias, mas melhor faríamos se falássemos simplesmente de palavras, pois é  mais a fascinação das palavras que aí se exerce em toda a sua amplitude.  0 que as vezes se denomina "ideologia" com um tom pejorativo por parte daqueles que não são tolos (porque apesar de tudo ainda se encontram alguns destes), não passa de verbalismo; e, a este propósito, podemos retomar a palavra "superstição", com o sentido etimológico ao qual ha pouco fazíamos alusão, e que designa uma coisa que sobrevive a si mesma, uma vez perdida sua verdadeira razão de ser.  Com efeito, a única razão de ser das palavras é exprimir idéias; atribuir um valor às palavras por si próprias, independentemente das idéias, nem ao menos colocar qualquer idéia sob essas palavras, e deixar-se influenciar apenas por sua sonoridade, é realmente superstição. O "nominalismo", em suas diversas gradações, é a expressão  filosófica desta negação da idéia, a qual pretende que seja substituída pela palavra ou pela imagem; confundindo a concepção com a representação sensível, na realidade deixe apenas subsistir esta última; e, sob uma ou  outra encontra-se extremamente disseminado na filosofia moderna, ao passo outrora era apenas exceção. Isto é muito significativo; cumpre ainda acrescentar que o nominalismo está quase sempre solidário com o empirismo, isto é, a tendência a relacionar com a experiência, mais especialmente com a experiência sensível, a origem e o fim de todo conhecimento: negação de tudo o que é verdadeiramente intelectual, ê sempre o que encontramos, como elemento comum, no fundo de todas essas tendências e de todas essas opiniões, por -que é esta, efetivamente, a raiz de toda deformação mental e porque esta negação está implícita, a título de pressuposto necessário, em tudo o que contribui para falsear as concepções do moderno Ocidente.

                   Apresentamos aqui, principalmente, uma visão de conjunto do estado, atual do mundo ocidental considerado sob o aspecto mental; é por aí que ê preciso começar, pois e disto que depende todo o resto, e não é possível haver mudança importante e durável sem exercer-se em primeiro lugar sobre a mentalidade geral. Aqueles que sustentam o contrário são ainda vítimas de uma ilusão muito moderna: vendo apenas as manifestações exteriores, tomam os efeitos pelas causas, e de bom grado acreditam que aquilo que não vêem não existe; o que se chama "materialismo histórico", ou a tendência a tudo reduzir a fatos econômicos, é um notável exemplo desta ilusão. Chegou-se a tal estado de coisas que os fatos desta ordem realmente adquiriram, dentro da história contemporânea, uma importância jamais experimentada no passado; mas mesmo assim, seu papel não é nem poderá jamais ser exclusivo. Enfim, não se enganem: os "dirigentes", conhecidos ou desconhecidos, sabem muito bem que, para agir com eficácia, precisam antes de tudo de criar e manter correntes de idéias ou de pseudo-idéias, e não se furtam a faze-lo; mesmo quando estas correntes são puramente negativas, não perdem sua natureza mental, e é no espírito dos homens que deve primeiro germinar aquilo que a seguir se realizará externamente; até para abolir a intelectualidade é preciso em primeiro lugar persuadir os espíritos de sua inexistência e voltar-lhes a atividade em outra direção. Não é que sejamos daqueles que sustentam que as idéias conduzem o mundo diretamente; esta é mais uma fórmula de que muito se abusou, e a maioria daqueles que a empregam ignoram o que seja uma idéia, se é que não a confundem totalmente com a palavra; em outros termos, na maioria das vezes não são senão "ideológicos", e os piores sonhadores "moralistas" pertencem precisamente a esta categoria: em nome das quimeras a que chamam "direito" e "justiça", e que nada têm a ver com as idéias verdadeiras, exerceram nos recentes acontecimentos uma influência demasiado nefasta e cujas conseqüências fazem-se sentir com peso suficiente para que não seja necessário insistir no que queremos dizer; mas não há somente ingênuos em tal caso, há também, corno sempre, aqueles que os conduzem sem que saibam, que os exploram e que deles se servem com vistas a interesses muito mais práticos. O que quer que seja, como somos tentados a repetir a todo instante, o que importa acima de tudo é saber colocar cada coisa em seu devido lugar: a idéia pura não tem qualquer relação imediata com o domínio da ação, e não pode ter sobre o exterior a influência direta que exerce o sentimento; mas a idéia é do mesmo modo seu princípio, através do qual tudo deve começar, sob pena de ser desprovido de qualquer base sólida.  0 sentimento, se não for guiado e controlado pela idéia, engendra apenas erro, desordem e obscuridade; não se trata de abolir o sentimento, mas de mantê-lo em seus legítimos limites, o mesmo valendo para todas as outras contingências.  A restauração de uma verdadeira intelectualidade, mesmo que em uma elite restrita, pelo menos no começo, parece-nos o único meio de pôr fim   ã confusão mental que reina no Ocidente; é somente por aí que podem ser dissipa das tantas ilusões vãs que obstruem o espírito de nossos contemporâneos, tantas superstições muito mais ridículas e desprovidas de fundamento do que aquelas de que estão sempre a zombar as pessoas que querem se fazer passar por "esclarecidas"; e é somente por aí, também, que se poderá encontrar um campo de entendimento com os povos orientais.  De fato, tudo o que dissemos representa fielmente, não apenas nosso próprio pensamento, que em si pouco importa, mas também, este sim, muito mais digno de consideração, o juízo que o Oriente faz sobre o Ocidente, no momento em que consente em dele se ocupar de outra forma que não seja opondo, à ação invasora deste último, aquela resistência completamente passiva que o Ocidente não consegue compreender, pois ela supõe um poder interior de que este não possui equivalente, e contra o qual nenhuma força bruta poderia prevalecer.  Este poder está além da vida, é superior à ação e a tudo que passa, está fora do tempo e é como que uma participação da imutabilidade suprema; se o Oriental pode suportar pacientemente a dominação material do Ocidente, é porque ele conhece a relatividade das coisas transitórias, e é porque ele traz, no mais profundo de seu ser, a consciência da eternidade.


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Notas:

(*)   Buscai e achareis.  (N.T.)

(**) No original, "torsion d'esprit".

(1)  É  uma observação que já fizemos, em outra oportunidade, no tocante às
duas variedades opostas do  “monismo”,  uma espiritualista, outra materialista.

(2)  L'Evolution Creatrice, p. 270.





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