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| Textos de Luiz Pontual |
| Instituto René Guénon de Estudos Tradicionais |
| Capítulo II do livro "Oriente e Ocidente" A SUPERSTIÇÃO DA CIÊNCIA |
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| René Guénon : "Orient et Occident", Editions Vêga, Paris, 1983. |
| A civilização ocidental moderna tem, entre outras pretensões, a de ser eminentemente "científica"; seria bom precisar um pouco mais o que se entende por esta palavra, mas isto geralmente não é feito porque ela pertence àquele tipo de palavras às quais nossos contemporâneos parecem atribuir uma espécie de poder misterioso, independentemente de seu significado. A "Ciência", com letra maiúscula, assim como o "Progresso" e a "Civilização", como o "Direito", a "Justiça" e a "Liberdade", é uma dessas entidades que mais vale não procurar definir, e que correm o risco de perder todo o seu prestígio se forem examinadas mais de perto. Todas as chamadas "conquistas" de que tanto se orgulha o mundo moderno reduzem-se, assim, a grandes palavras atrás das quais não há nada ou quase nada: sugestão coletiva, dizíamos, ilusão que , por ser compartilhada por tantos indivíduos e por manter-se da forma como se mantém, não poderia ser espontânea; talvez um dia tentemos elucidar um pouco este lado da questão. Mas no momento não ê este o aspecto principal; apenas constatamos que o Ocidente atual acredita nas idéias de que há pouco falávamos, se é que se pode chamar aquilo de idéias, não importando a maneira pela qual chegou a essa crença. Não são verdadeiramente idéias, pois muitos dos que pronunciam essas palavras com a maior convicção não têm em mente nada de muito definido que a elas corresponda; no fundo existe apenas, na maioria dos casos, a expressão, pode-se dizer até a personificação, de aspirações sentimentais um tanto vagas. São verdadeiros ídolos, são divindades de uma espécie de "religião leiga" que, é claro, não é bem definida e não o pode ser, mas que nem por isto deixa de ter uma existência muito real: não é religião, no próprio sentido da palavra, porém algo que pretende substituí-la, que mereceria mais propriamente ser chamado de "contra-religião". A primeira origem deste estado de coisas remonta ao início, também, da época moderna, em que o espírito anti-tradicional se manifestou imediatamente pela proclamação do "livre exame", isto é, da ausência, na ordem doutrinária, de qualquer princípio superior às opiniões individuais. A anarquia intelectual devia fatalmente daí resultar: donde a multiplicidade ilimitada de seitas religiosas e pseudo-religiosas, de sistemas filosóficos visando acima de tudo ã originalidade, de teorias científicas tão efêmeras quanto pretensiosas; um caos incrível dominado, entretanto, por uma certa unidade, pois existe um espírito especificamente moderno do qual tudo isto procede, mas uma unidade, em seu todo, completamente negativa,pois é exatamente uma ausência de princípio, que se traduz por essa indiferença para com a verdade e o erro que recebeu, a partir do século XVIII, o nome de "tolerância". Compreendam-nos bem: não pretendemos de forma alguma acusar a tolerância prática, exercida para com indivíduos, apenas a tolerância teórica, que pretende exercer-se com relação às idéias, reconhecendo em todas elas os mesmos direitos, o que deveria logicamente implicar em um ceticismo radical; e além disto não podemos deixar de constatar que, c£ como todos os propagandistas, os apóstolos da tolerância são de fato com muita freqüência os mais intolerantes entre os homens. Produziu-se, com efeito, algo que é de uma ironia sem par: aqueles que quiseram derrubar todos os dogmas criaram, para seu uso, não diremos um novo dogma, mas uma caricatura de dogma, que conseguiram impor ao mundo ocidental em geral; assim se estabeleceram, sob pretexto de "liberdade de pensamento", as crenças mais quiméricas jamais vistas a qualquer tempo, sob a forma desses vários ídolos dentre os quais há pouco enumerávamos os principais. De todas as superstições pregadas por aqueles que se dedicam a deblaterar a qualquer propósito contra a "superstição", a da "ciência" e da "razão" é a única que parece, à primeira vista, não repousar sobre uma base sentimental; mas existe as vezes um racionalismo que não passa de sentimentalismo disfarçado, conforme o prova a paixão de seus partidários, o ódio que nutrem contra tudo o que contraria suas tendências ou ultrapassa sua compreensão. Em todo caso, como o racionalismo, aliás, corresponde a uma redução da intelectualidade, é natural que seu desenvolvimento se processe paralelamente ao do sentimentalismo, tal como explicamos no capítulo precedente; por si só, cada uma destas duas tendências pode ser representada de modo mais especial por certas individualidades ou por certas correntes de pensamento, c, em virtude das expressões mais ou menos exclusivas e sistemáticas que são levadas a assumir, pode até existir entre elas conflitos aparentes que dissimulam, aos olhos do observador superficial, sua solidariedade profunda. O racionalismo moderno começa, em suma, em Descartes (teve até alguns precursores no século XVI) e podemos seguir-lhe os passos através de toda a filosofia moderna, tanto quanto no domínio científico; a reação atual do intuicionismo e do pragmatismo contra ele dá-nos um exemplo desses conflitos - e vimos, no entanto, que Bergson aceitava perfeitamente a definição cartesiana de inteligência. Não é sus natureza que é questionada, apenas sua supremacia. No século XVIII houve também antagonismo entre o racionalismo dos enciclopedistas e o sentimentalismo de Rousseau; ambos, entretanto, serviram igualmente à preparação do movimento revolucionário, o que demonstra que se enquadravam na unidade negativa do espírito anti-tradicional. Se colocamos lado a lado este exemplo e o precedente, não será porque atribuímos a Bergson qualquer intenção político; não podemos, porém, impedir-nos de pensar na utilização de suas idéias em certos meios sindicalistas, sobretudo na Inglaterra, enquanto que cm outros meios semelhantes o espírito "científico" está mais do que nunca em posição de destaque. No fundo, parece que uma das grandes habilidades dos "dirigentes", da mentalidade moderna consiste em favorecer alternada ou simultaneamen te às duas tendências em questão de acordo com a oportunidade, em estabelecer entre elas uma espécie de dosagem, por um jogo de equilíbrio que corresponde a preocupações com certeza mais políticas do que intelectuais; esta habilidade, de resto, pode não ser sempre intencional, e não pretendemos pôr em dúvida a sinceridade de qualquer erudito, historiador ou filósofo; mas estes, muitas vezes, são apenas "dirigentes" aparentes e podem ser por sua vez dirigi -dos ou influenciados sem disto nem de leve suspeitarem. Ademais, o uso que se faz de suas idéias nem sempre corresponde a suas próprias intenções, e seria um erro responsabilizá-los ou acusá-los por não haverem previsto certas conseqüências mais ou menos remotas; basta, porém, que estas idéias estejam em conformidade com uma ou outra das tendências de que falamos para que sejam utilizáveis no sentido que acabamos de referir; e, considerando-se o estado de anarquia intelectual em que mergulhou o Ocidente, tudo se passa como se a intenção fosse mesmo aproveitar a própria desordem e tudo o que se agita no caos para a realização de um plano rigorosamente determinado. Não pretendemos insistir demasiadamente neste ponto, mas é muito difícil não o retomarmos de vez em quando, pois não podemos admitir que uma raça inteira seja pura e simplesmente acometida por uma espécie de loucura que vem durante ha vários séculos, e é premente que haja algo que, apesar de tudo, dê um significado ã civilização moderna; não cremos no acaso, e estamos persuadidos de que tudo o que existe deve ter uma causa; aqueles que são de outra opinião têm toda a liberdade para deixar de lado este tipo de considerações. Agora, dissociando as duas tendências principais da mentalidade moderna para melhor as examinarmos, e abandonando momentaneamente o sentimentalismo, que retomaremos mais adiante, podemos aqui nos perguntar: o que e exatamente esta "ciência" de que tanto se orgulha o Ocidente? Um hindu, resumindo com extrema concisão o pensamento dos orientais que tiveram ocasião de conhecê-la, caracterizou-a com muita justeza através destas palavras: "A ciência ocidental é um saber ignorante" (1) . A aproximação destes dois termos não é uma contradição, significa o seguinte: é um saber, se assim o desejarem , que tem alguma realidade, pois é válido e eficaz em um certo domínio relativo, mas é um saber irremediavelmente limitado, ignorante do essencial, um saber carente de princípio, como tudo o que pertence ã civilização ocidental moderna. A ciência, como é concebida por nossos contemporâneos, ê unicamente o estudo dos fenômenos do mundo sensível, e este estudo é conduzido de tal forma que não pode, repetimos, ser relacionado com qualquer princípio de ordem superior; ignorando deliberadamente tudo o que a supera, torna-se plenamente independente em seu domínio, é verdade, mas esta independência de que se gaba é feita apenas de sua própria limitação. Melhor ainda, ela chega a negar a -quilo que ignora, porque é o único meio de não confessar esta ignorância; ou, se não ousa negar formalmente que possa existir alguma coisa fora de seu âmbito nega pelo menos que isto possa ser conhecido de alguma forma, o que de fato vem a dar no mesmo, e pretende englobar todo o conhecimento possível. Por um preconceito muitas vezes inconsciente os "cientificistas" imaginam, como Auguste Comte, que o homem jamais se propôs outro objeto de conhecimento além da explicação dos fenômenos naturais; preconceito inconsciente, dizemos, porque são evidentemente incapazes de compreender que se possa ir mais longe, e não é isto o que neles censuramos, apenas sua pretensão de recusar aos outros a posse ou o uso de faculdades de que eles próprios carecem: diríamos que são como cegos que negam, senão a existência da luz, pelo menos a do sentido da visão, pela simples razão de estarem dele privados. Afirmar que existe não simplesmente o desconhecido, porém o "desconhecível", no dizer de Spencer, e fazer de uma enfermidade intelectual uma fronteira que a ninguém é permitido transpor, é coisa jamais vista cm parte alguma; e tampouco se viram homens usarem uma afirmação de ignorância como programa e profissão de fé, abertamente tomarem-na como rótulo de uma pretensa doutrina, sob o nome de "agnosticismo". E note-se que eles não são nem pretendem ser céticos; se o fossem, haveria em sua atitude uma certa lógica que poderia torná-la desculpável; mas, pelo contrário, são os crentes mais entusiastas da "ciência", os mais fervorosos admiradores da "razão". Poder-se-á dizer que é bastante estranho colocar a razão acima de tudo, de professar-lhe um verdadeiro culto e ao mesmo tempo proclamá-la essencialmente limitada; isto ê um tanto contraditório, de fato , e se o constatamos, não nos dispomos a explicá-lo; esta atitude denota uma mentalidade que de modo algum é a nossa, e não nos cabe justificar as contradições aparentemente inerentes ao "relativismo" sob todas as suas formas. Também nos dizemos que a razão ê limitada e relativa; mas, muito longe de considerá-la a totalidade da inteligência, encaramo-la apenas como uma de suas porções inferiores, e vemos na inteligência outras possibilidades que imensamente ultrapassam as da razão. Em suma, os modernos, ou pelo menos alguns entre eles, até consentem em reconhecer sua ignorância- e os racionalistas atuais fazem-no, talvez, com mais facilidade que seus predecessores, mas apenas, sob a condição de que ninguém tenha o direito de conhecer o que eles próprios ignoram; o fato de se pretender limitar o que existe ou apenas limitar radicalmente o conhecimento é tudo uma manifestação do espírito de negação que é tão característico do mundo moderno. Este espírito de negação não é senão o espírito sistemático, pois um sistema é essencialmente uma concepção fechada; e já chegou até a identificar-se com o próprio espírito filosófico, especialmente depois de Kant, que, pretendendo encerrar todo conhecimento dentro do relativo, ousou declarar expressamente que "a filosofia é, não um instrumento para ampliar o conhecimento, mas uma disciplina para limitá-lo" (2) , o que é o mesmo que dizer que a função principal dos filósofos consiste em impor a todos os limites estreitos de seu próprio entendimento. É por isto que a filosofia moderna acaba por substituir quase que inteiramente pela "crítica" ou pela "teoria do conhecimento" o próprio conhecimento; é por isto, também, que para muitos de seus representantes ela é apenas a "filosofia científica", quer dizer, simples coordenação dos resultados mais gerais da ciência, cujo domínio é o único reconhecido como acessível ã inteligência. Filosofia e ciência, nestas condições, não se devem mais distinguir e, a bem dizer, desde que existe o racionalismo, podem ter apenas um único objeto, representam apenas uma ordem de conhecimento, estão animadas de um mesmo espírito: é o que chamamos não de espírito científico, mas de espírito "cientificista". Devemos insistir um pouco nesta última distinção: o que desejamos frisar e que nada vemos de mau em si no desenvolvimento de certas ciências, mesmo que achemos excessiva a importância que a isto se atribui; não passa de um saber muito relativo, porém não deixa de ser um saber, e é legítimo que cada um aplique sua atividade intelectual em objetos proporcionais a suas próprias aptidões e aos meios de que dispõe. Apenas reprovamos o exclusivismo , poderíamos dizer o sectarismo daqueles que, entusiasmados pela extensão que essas ciências atingiram, recusam-se a admitir que algo exista além delas, e pretendem que toda especulação, para ser válida, deve-se submeter aos métodos especiais que essas mesmas ciências empregam, como se esses métodos, feitos para o estudo de certos objetos determinados, devessem ser universalmente aplicáveis; é verdade que o que eles concebem como universalidade é algo de extremamente restrito, e que não ultrapassa o domínio das contingências. Porém esses "cientificistas" muito se espantariam se soubessem que, mesmo sem sair deste domínio, existe um sem-número de coisas que não poderiam ser atingidas por seus métodos, e que no entanto podem ser o objeto de ciências muito diferentes das que eles conhecem, mas nem por isto menos reais, e, muitas vezes , mais interessantes sob diversos aspectos. Parece que os modernos tomaram , arbitrariamente, no domínio do conhecimento científico, um certo número de porções que se obstinaram em estudar, excluindo todo o resto como se fosse inexistente; e, às ciências particulares que assim cultivaram, é muito natural e de modo algum espantoso ou admirável que tenham dado um desenvolvimento muito maior do que puderam a elas dar os homens que não lhes atribuíam a mesma importância, que muitas vezes nem mesmo se preocupavam com isto, e que se dedicavam a outras coisas que lhes pareciam mais sérias. Estamos pensando especialmente no desenvolvimento considerável das ciências experimentais, domínio em que, evidentemente, distingue-se o Ocidente moderno, e onde ninguém sequer pensa em contestar sua superioridade que, aliás, os orientais acham muito pouco invejável, precisamente pelo fato de ter sido adquirida às custas do esquecimento de tudo o que lhes parece realmente digno de interesse; entretanto não tememos afirmar que há ciências, mesmo experimentais, de que o Ocidente moderno não ter a menor idéia. Estas ciências existem no Oriente, dentre aquelas a que damos o nome de "ciências tradicionais"; no próprio Ocidente as havia também na idade média, com características perfeitamente comparáveis ; c estas ciências, algumas das quais permitem aplicações praticas de incontestável eficácia, emprega meios de investigação que são totalmente estranhos' aos homens de ciência europeus de nossos dias. Não cabe aqui estendermo-nos sobre este assunto; todavia devemos ao menos explicar por que dizemos que certos conhecimentos de ordem científica têm uma base tradicional, e em que sentido o entendera; ademais, isto implica exatamente em demonstrar, de modo ainda mais claro do que até aqui o fizemos, o que falta à ciência ocidental. Dissemos que uma das características especiais da ciência ocidental é pretender-se inteiramente Independente e autônoma; e esta pretensão só se pode sustentar se for ignorado sistematicamente todo conhecimento de ordem superior ao conhecimento científico, ou melhor ainda, se for este formalmente negado. O que está acima da ciência, na hierarquia necessária dos conhecimentos, é a metafísica, que ê o conhecimento intelectual puro e transcendente, enquanto que a ciência, por sua prõpria definição, é apenas o conhecimento racional; a metafísica é essencialmente supra-racional, é necessário que ela o seja, senão não seria metafísica. Ora, o racional i smo não consiste em. simplesmente afirmar que a razão tem algum valor, o que só os céticos contestam, mas em sustentar que nada existe além da razão, logo, que não há conhecimento possível além do conhecimento cientifico; assim, o regionalismo implica necesseriamente na negação da metafísica. Quase todos os filósofos modernos são racionalistas, de modo mais ou menos estrito, mais ou menos explícito; naqueles que não o são, encontra-se apenas sentimentalismo e voluntarismo, o que não deixa de ser anti-metafísico, porque, se admitem algo além da razão, é abaixo dela que o procuram, em vez de procura-lo acima; o verdadeiro intelectualismo está talvez tão afastado do racionalismo quanto o intuicionismo contemporâneo, só que em sentido inverso. Nestas condições, se um filósofo moderno pretende fazer metafísica, pode-se estar seguro de que aquilo que ele assim denomina não tem absolutamente nada em comum com a metafísica verdadeira, e de fato nada tem; não podemos conferir a isto outro nome senão "pseudo-metafísica", e, se nela as vezes se encontram algumas considerações válidas, estão na realidade relacionadas com a ordem científica pura e simples. Logo, ausência completa do conhecimento metafísico, negação de todo conhecimento que não seja o científico, limitação arbitrária do próprio conhecimento científico a certos domínios específicos, excluindo-se outros, eis as características gerais do pensamento propriamente moderno; eis a que grau de rebaixamento intelectual chegou o Ocidente desde que saiu dos caminhos que são normais para o resto da humanidade. A metafísica é o conhecimento dos princípios de ordem universal, dos quais todas as coisas necessariamente dependem, direta ou indiretamente; na ausência da metafísica, todo conhecimento que subsiste em qualquer ordem que seja carece verdadeiramente de princípio, e mesmo que com isto ganhe um pouco em independência (não de direito, mas de fato), perde muito mais em alcance e em profundidade. £ por isto que a ciência ocidental é, se assim se pode dizer, toda de superfície; dispersando-se na multiplicidade ilimitada dos conhecimentos fragmentários, perdendo-se no detalhe inumerável dos fatos, nada ensina sobre a verdadeira natureza das coisas, que declara inacessível para justificar sua impotência a este respeito; seu interesse é também muito mais pratico do que especulativo. Se às vezes fazem-se tentativas de unificação deste saber eminentemente analítico, são puramente factícias, repousando sempre sobre hipóteses um tanto casuais; também fracassam uma após a outra, e não parece que uma teoria científica, qualquer que seja sua amplitude, seja capaz de durar mais que meio século no máximo. De resto, a idéia ocidental de que a síntese é,como que um resultado e uma conclusão da análise é radical mente errônea; a verdade é que através da análise não se poderá jamais chegar a uma síntese digna de tal nome, pois são duas coisas de ordens diferentes; e é da natureza da análise a capacidade de prosseguir indefinidamente, se o domínio em que ela se exerce for suscetível a esta extensão, sem que se esteja mais próximo de conseguir uma visão de conjunto sobre esse domínio. Por mais fortes motivos é perfeitamente ineficaz na obtenção de um relacionamento com princípios de ordem superior. O caráter analítico da ciência moderna traduz-se pela multiplicação incessantemente crescente das "especialidades", cujos perigos o próprio Auguste Comte não pôde deixar de denunciar; esta "especialização", tão exaltada por certos sociólogos sob o nome de "divisão do traba1ho", é com certeza o meio mais fácil para contrair-se a "miopia intelectual" que parece fazer parte das qualificações exigidas para um perfeito "cientificista", e sem a qual, aliás, o próprio "cientificismo" não se estabeleceria . Assim também os "especialistas", uma vez fora de seu domínio, demonstram geralmente uma incrível ingenuidade; nada mais fácil do que impô-lo a eles, e é isto que constitui grande parte do sucesso das teorias mais estapafúrdias , por menos cuidado que se tenha em chamá-las "científicas"; hipóteses das mais gratuitas, como por exemplo a da evolução, assumem postura de "leis" e são tidas como comprovadas; se este sucesso é apenas passageiro, encontra-se prontamente uma outra coisa, que é sempre aceita com igual facilidade. As falsas sínteses, que se empenham em extrair o superior do inferior (curiosa transposição da concepção democrática), não passarão jamais de hipóteses; por outro lado, a verdadeira síntese, que parte dos princípios, participa de sua certeza; mas para isto, bem entendido, é preciso partir de princípios verdadeiros, e não de simples hipóteses filosóficas a maneira de Descartes. Em suma, a ciência, desconhecendo os princípios e recusando um relacionamento com eles , priva-se ao mesmo tempo da mais alta garantia que pode receber e da mais segura direção que se lhe pode dar; nela nada existe de válido além dos conhecimentos de detalhe, e desde que pretendeu colocar-se um degrau acima se tornou incerta e vacilante. Outra conseqüência do que acabamos de dizer sobre as relações entre análise e síntese, é que o desenvolvimento da ciência, tal como a concebem os modernos, na realidade não amplia seu domínio, as soma dos conhecimentos parciais pode crescer indefinidamente no interior deste domínio não por aprofundamento, mas por divisões e subdivisões levadas cada vez mais longe; é com toda a certeza uma ciência da matéria e da multidão. E mesmo que houvesse uma extensão real, o que pode excepcionalmente ocorrer, dar-se-ia sempre dentro da mesma ordem, não capacitando, então esta ciência a atingir um grau mais elevado: da maneira como é constituída, acha-se separada dos princípios por um abismo que nada poderá, já nem dizemos faze-la superar, mas até mesmo diminuir, por mais infimamente que seja. Quando dizemos que as ciências, mesmo as experimentais, têm no Oriente uma base tradicional, queremos dizer que, ao contrário do que sucede no Ocidente, elas estão sempre ligadas a certos princípios; estes não são jamais perdidos de vista e as próprias coisas contingentes parecem apenas merecer estudo enquanto conseqüências e manifestações de alguma coisa de outra ordem. É claro que conhecimento metafísico e conhecimento científico guardam a mesma profunda distinção. No entanto, não exsite entre ambos uma descontinuidade absoluta como a que constatamos ao examinarmos o atual estado do cohecimento científico entre os ocidentais. Tomando um exemplo no próprio Ocidente, consideremos toda a distância que separa o ponto de vista da cosmologia da antiguidade e da idade média e o da física conforme é entendida pelos sábios modernos; em tempo algum, antes da época atual, o estudo do mundo sensível havia sido considerado suficiente por si próprio; jamais a ciência desta multiplicidade cambiante e transitória havia sido julgada realmente digna do nome de conhecimento se não se tivesse achado um meio de relaciona-la, a qualquer grau, com algo de estável e permanente. A concepção antiga, que permaneceu sempre a dos Orientais, considerava uma ciência qualquer como válida, não tanto para si mesma, mas à medida que ela representava, dentro de uma certa ordem de coisas, um reflexo da verdade superior, imutável, da qual necessariamente participa tudo aquilo que possua alguma realidade; e, como as características desta verdade se encarnavem por assim dizer na idéia de tradição, toda a ciência se apresentava, então, como umprolongamento da própria doutrina tradicional, como uma de suas aplicações, secundárias e contingentes, sem dúvida, acessórias e não essenciais, constituindo um cohecimento inferior, se quiserem, mas no entanto, mas no entanto ainda um verdadeiro conhecimento, pois conservava um laço com o conhecimento por excelência, o cohecimento da ordem intelectual pura. Esta concepção, conforme se vê, não poderia de maneira nenhuma satisfazer-se com o grosseiro naturalismo de fato que encerra nossos contemporâneos no domínio unida das contingências, até mesmo, para ser mais exato, em uma canhada porção deste domínio (3): e, repetimos, como os orientais não mudaram de opinião quanto ao acima exposto, e não o podem fazer sem renegar os princípios sobre os quais repousa toda a civilização, as duas mentalidades parecem incompatíveis; porém, como foi o Ocidente que mudou, o que, aliás, está sempre a mudar, talvez chegue a um momento em que sua mentalidade enfim se modifique em um sentido favorável e se abra a uma compreensão mais vasta, e aí, então, esta incompatibilidade desapareça por si mesma. Cremos haver demonstrado suficientemente a que ponto é justo o julgamento dos orientais sobre a ciência ocidental; e, nestas condições, há apenas uma explicação para a admiração sem limites e o respeito supersticioso de que esta ciência é objeto; ela está em perfeita harmonia com as necessidades de uma civilização puramente material. De fato, não se trata de especulação desinteressada; o que impressiona os espíritos cujas preocupações estão voltadas para o exterior são as aplicações que a ciência permite, é seu caráter prático e utilitário acima de tudo ; e é, principalmente graças às invenções mecânicas que o espírito “cientificista” adquiriu seu desenvolvimento. Foram estas invenções que suscitaram, desde o início do século XIX, um verdadeiro delírio de entusiasmo, porque pareciam ter por objetivo o crescimento do bem-estar corporal, que é claramente a principal aspiração do mundo moderno; e também, sem que se percebesse, criavam-se assim mais necessidades novas do que era possível satisfazer, de modo que, até sob este ponto de vista muito relativo, o progresso é muito ilusório; e, uma vez neste rumo, não parece possível que se detenha : há sempre necessidade de coisas novas. Mas, de qualquer forma, são estas aplicações, confundidas com a própria ciência, que deram-lhe o crédito e o prestígio; esta confusão, que só poderia acontecer a pessoas que ignoram o que seja especulação pura, mesmo na ordem científica, tornou-se de tal forma habitual que hoje em dia, ao abrir-se uma publicação qualquer, encontrar-se-á constantemente designado pelo nome “ciência” o que propriamente deveria se chamar “indústria”; o “sábio”, para a maioria, é o engenheiro, o inventor ou o construtor de máquinas. Quanto às teorias científicas, beneficiaram-se deste estado de espírito muito mais do que lhe serviram de causa; se até os que são menos capazes de as compreender aceitam-nas em confiança e recebem-nas como verdadeiros dogmas ( e que quanto menos compreendem mais facilmente são iludidos), é porque as consideram, com ou sem razão, solidárias com as invenções praticas que lhes parecem tão maravilhosas. A bem dizer, esta solidariedade ê muito mais aparente do que real; as hipóteses de maior ou menor inconsistência nada têm a ver com essas descobertas o essas aplicações, sobre cujo interesse as opiniões podem divergir, mas que têm, em todo caso, o mérito de ser alguma coisa efetiva, e, inversamente, nada que puder ser realizado na ordem prática irá jamais provar a veracidade de qualquer hipótese que seja. De resto, de um modo mais geral, não poderia haver, a bem dizer, qualquer verificação experimental de uma hipótese, porque é sempre possível encontrar várias teorias através das quais os mesmos fatos sejam igualmente bem explicados; podem-se eliminar certas hipóteses quando se percebe que estão em contradição com fatos, mas aquelas que subsistem permanecem sempre simples hipóteses e nada mais; não é desta maneira que se poderá jamaisobter certezas. Apenas, para homens que aceitam somente o fato bruto, que têm outro critério de verdade além da "experiência", entendida unicamente como a constatação dos fenômenos sensíveis, não faz sentido ir além, ou proceder de forma diferente, não restando senão duas atitudes possíveis: conformar-se com o caráter hipotético das teorias científicas e renunciar a toda certeza superior ã simples evidência sensível, ou desconhecer este caráter hipotético e acreditar cegamente em tudo o que é ensinado em nome da "ciência". A primeira atitude, certamente mais inteligente que a segunda (considerando --se os limites da inteligência "científica"), é a de certos homens de ciência que, menos ingênuos que os outros, recusam-se a ser enganados por suas próprias hipóteses ou por aquelas de seus colegas; assim chegam, para tudo o que não dependa da prática imediata, a uma espécie de ceticismo mais ou menos completo, ou pelo menos a um probabi1ismo: é o "agnosticismo", que não se aplica mais somente àquilo que ultrapassa o domínio científico, estendendo-se ã própria ordem cientifica; e só saem desta atitude negativa através de um pragmatismo mais ou menos consciente, substituindo, como na obra de Henri Poincaré, a consideração da verdade de uma hipótese pela de sua comodidade ; não será uma confissão de incurável ignorância? No entanto, a segunda atitude, a que se pode chamar dogmática, é defendida com maior ou menor sinceridade por outros homens de ciência, mas de modo especial por aqueles que se acham obrigados a fazer afirmações por necessidades didáticas; dar sempre a impressão de que está seguro de si e daquilo que diz, dissimular dificuldades c incertezas, jamais emitir enunciados de forma dubitativa, de fato, este é o meio mais fácil para alguém fazer-se levar a sério e para adquirir autoridade quando se lida com um publico geralmente incompetente e incapaz de discernimento, seja dirigindo-se a alunos ou publicando obras de divulgação. Tomam naturalmente esta mesma atitude, neste caso de modo incontestavelmente sincero, aqueles que recebem este tipo de ensinamento; é também comumente assumida por aquilo que se chama "o grande público", e o espírito "cientificista" pode ser observado em toda a sua plenitude, com aquela característica de crença cega, por parte de homens que possuem apenas meia instrução, em meios onde impera a mentalidade que é muitas vezes qualificada de "primária", se bem que não seja apanágio exclusivo do grau de escolaridade que traz esta designação. Pronunciamos há pouco a palavra "divulgação"; eis aí outro traço bem particular da civilização moderna, e nele se pode ver um dos principais fatores deste estado de espírito que ora tentamos descrever. É uma das formas de que se reveste esta estranha necessidade de propaganda que anima o espírito ocidental e que só pode ser explicada pela influência preponderante dos elementos sentimentais; nenhuma consideração intelectual justifica o proselitismo, no qual os orientais vêem apenas urna prova de ignorância e de incompreensão; são duas coisas inteiramente diferentes, o fato de uma pessoa simplesmente expor a verdade tal como a compreendeu, trazendo apenas a preocupação de não a desfigurar, ou de querer por toda força obrigar os outros a compartilhar de sua própria convicção. A propaganda e a divulgação só são possíveis em detrimento da verdade: pretender colocar a verdade "ao alcance de todos", torna-la acessível indistintamente a todo o mundo, é necessariamente diminuí-la e deformá-la, pois é impossível admitir que todos os homens sejam igualmente capazes de compreender o que quer que seja; não é uma questão de maior ou menor grau de instrução, é uma questão de "horizonte intelectual", e a' esta uma coisa que não se pode modificar, que é inerente ã própria natureza de cada indivíduo humano. O preconceito quimérico da "igualdade" vai de encontro aos fatos mais estabelecidos, tanto na ordem intelectual quanto na ordem física; é a negação de toda hierarquia natural, e é o rebaixamento de todo conhecimento ao nível do entendimento limitado ao vulgar. Não se quer mais admitir coisa alguma que ultrapasse' a Compreensão comum, e, de fato, as concepções cientificas e filosóficas de nossa época, quaisquer que sejam suas pretensões, são, no fundo, de urna lamentável mediocridade; conseguiram eliminar tudo o que pudesse ser incompatível com a preocupação de divulgar. Apesar do que alguns possam dizer, a constituição de qualquer elite é inconciliável com o ideal democrático; este exige a distribuição de um ensino rigorosamente idêntico entre os indivíduos mais desigualmente dotados, com as mais diferentes aptidões e temperamentos; apesar de tudo, não se pode impedir este ensino de produzir resultados ainda muito variáveis, mas isto é contrário ãs intenções daqueles que o instituíram. Em todo caso, este sistema de instrução ê com certeza o mais imperfeito de todos, e a difusão inconsiderada de quaisquer conhecimentos é sempre mais nociva do que útil, pois pode apenas provocar, de um modo geral, um estado de desordem e de anarquia. É a uma difusão assim que se opõem os métodos do ensino tradicional, existente em toda parte no Oriente, onde sempre haverá a convicção de que os inconvenientes reais da "instrução obrigatória" são muito maiores do que seus supostos benefícios. Os conhecimentos de que o público ocidental pode dispor, mesmo não tendo coisa alguma de transcendente, são ainda mais empobrecidos nas obras de divulgação que expõem apenas seus aspectos mais inferiores e ainda por cima falseados para os simplificar; e estas obras insistem de bom grado nas hipóteses mais fantasiosas, passando-as audaciosamente por verdades comprovadas, e acompanhando-as desses discursos ineptos que tanto agradam às multidões. Uma meia-ciência adquirida através de tais leituras ou através de um ensino cujos elementos são todos tirados de manuais que a ela equivalem, é muito mais nefasta do que a ignorância pura e simples; mais vale nada saber do que ter o espírito atravancado de idéias falsas, as vezes indeléveis, sobretudo se tiverem sido inculcadas desde a mais tenra idade. O ignorante conserva ao menos a possibilidade de aprender, se lhe surgir a oportunidade; pode possuir um certo "bom senso" natural, que, aliado ã consciência que geralmente tem de sua incompetência, é o bastante para evitar que faça um bom número de tolices. 0 homem que recebeu meia instrução, pelo contrário, tem quase sempre uma mentalidade deformada, e o que ele acha que sabe o faz tão convencido que imagina poder falar sobre todos os assuntos indistintamente; e o faz à torto e à direito, quanto mais incompetente for; tudo parece tão simples para quem nada sabe! Além disto, mesmo deixando de lado os inconvenientes da divulgação propriamente dita, e considerando a ciência ocidental em sua totalidade e sob seus mais autênticos aspectos, a pretensão que apregoam os representantes desta ciência, de poder ensiná-la â todos sem restrições, é mais um sinal de evidente mediocridade. Aos olhos dos orientais, um tema cujo estudo não exija qualquer qualificação particular não pode ter grande valor, e nada pode conter de verdadeiramente profundo; e, de fato, a ciência ocidental é to da externa e superficial; para caracterizá-la, em vez de dizer "saber ignorante", preferimos dizer, e mais ou menos com o mesmo sentido, "saber profano" . Deste ponto de vista, assim como de outros, a filosofia não se distingue verdadeiramente da ciência: muitas vezes pretendeu-se defini-la como a "sabedoria humana", na mais limitada acepção da palavra, sem recorrer a qualquer elemento de uma ordem superior a razão; a fim de evitar qualquer equívoco, chamá-la-íamos também "sabedoria profana", mas isto ê o mesmo que dizer que no fundo não é uma sabedoria, que é apenas aparência ilusória. Não insistiremos aqui nas conseqüências deste caráter "profano" de todo o saber ocidental moderno; entretanto, para ainda demonstrar a que ponto este saber é superficial e fictício, assinalaremos que os métodos de instrução em uso resultam em colocar-se a memória quase que inteiramente no lugar da inteligência; o que se pede aos alunos, a todos os níveis de ensino, é que acumulem conhecimentos, e não que os assimilem; enfatizam-se principalmente pontos cujo estudo não exige nenhuma compreensão; os fatos substituem as idéias e a erudição é comumente tomada pela verdadeira ciência. Para promover ou desacreditar tal ou qual ramo do conhecimento, tal ou qual método, basta proclamar que é ou que não é "científico"; o que é oficialmente tido como "métodos científicos" são os procedimentos da mais ininteligente erudição, a que mais exclui tudo aquilo que não seja pesquisa dos fatos por si mesmos, e até seus mais insignificantes detalhes; e, coisa digna de nota, são os "literatos" que mais abusam desta denominação. 0 prestígio deste rótulo "científico", mesmo quando ele na verdade nada mais é que um rótulo, é o triunfo do espírito "cientificista" por excelência ; e ao respeito que o emprego de uma simples palavra impõe às multidões (incluindo-se os pretensos "intelectuais"), não temos razão em chamar superstição da ciência" ? Naturalmente, a propaganda "cientificista" não se exerce apenas a nível doméstico, sob a dupla forma da "instrução obrigatória" e da divulgação ; ela causa danos também no exterior, como todas as outras variedades do proselitismo ocidental. Em toda parte onde os europeus se instalaram quiseram estender os chamados "benefícios da instrução", e sem se questionarem se já existia no lugar algum outro tipo de instrução; tudo o que não vem deles próprios deve ser considerado inexistente, e a igualdade não permite aos diferentes povos e às diferentes raças que tenham sua mentalidade própria; de resto, o principal "benefício" que esperam desta instrução aqueles que a impõem é provavelmente, a todo tempo e lugar, a destruição do espírito tradicional , A "igualdade" que e tio cara aos ocidentais reduz-se, do momento em que saem de seus países, apenas a uniformidade; suas outras implicações não são artigo de exportação e apenas concernem às relações entre os próprios ocidentais , pois acreditam-se incomparavelmente superiores a todos os outros homens, entre os quais não fazem distinções: os negros mais bárbaros e os orientais mais cultos são tratados praticamente do mesmo modo, por estarem igualmente fora da única "civilização" que tem direito de existir. Os europeus, também, geralmente se limitam a ensinar seus conhecimentos mais rudimentares; não é difícil imaginar como devem aprecia-los os orientais, para quem até mesmo o que há de mais elevado nesses conhecimentos pareceria notável por sua estreiteza e por sua grosseira ingenuidade. Como os povos dotados de civilização própria mostram-se bastante refratários a esta tão apregoada instrução, enquanto que os povos sem cultura a ela submetem-se mais docilmente, os ocidentais talvez não estejam longe de julgar os segundos superiores aos primeiros; nutrem como que uma relativa estima por aqueles que consideram suscetíveis de "elevarem-se" a seu nível, mesmo que depois de alguns séculos sob o regime da "instrução obrigatória" e elementar. Infelizmente, o que os ocidentais chamam "elevar-se", alguns há que, em seu próprio caso, chamam "rebaixar-se"; é isto que pensam todos os orientais, mesmo se não o dizem, e se preferem, como freqüentemente acontece, encerrar-se no mais desdenhoso silêncio, deixando -quão pouco isto lhes importa - a vaidade ocidental livre para interpretar sua atitude como bem lhe aprouver. Os europeus têm sua ciência em tão alta conta que a crêem dotada de prestígio irresistível, e se afiguram de que os outros povos devem cair em admiração diante de suas descobertas mais insignificantes; este estado de espírito, que os conduz por vezes a enganos sem par, não é novo, e dele encontramos em Leibnitz um divertido exemplo. É sabido que este filósofo concebera o projeto de estabelecer o que chamou de uma "característica universal", quer dizer, uma espécie de álgebra generalizada,, para ser aplicada a noções de toda ordem, em vez de restringir-se apenas a noções quantitativas; esta idéia , aliás, fôra-lhe inspirada por certos autores da idade média, especialmente Raymond Lulle* e Trithemius** . Ora, a certa altura dos estudos que fazia para a realização do projeto, Leibnitz veio a preocupar-se com o significado dos caracteres ideográficos que constituem a escrita chinesa, e mais particularrmente com as figuras simbólicas que formam a base do I-chinq; vejamos como estas foram por ele compreendidas: "Leibnitz, diz L. Couturat, acreditava ter encontrado através de sua numeração binária (numeração que emprega somente os algarismos 0 e 1 , na qual ele via uma imagem da criação ex-nihilo) a interpretação dos caracteres Fo-hi, símbolos chineses misteriosos e de alta antiguidade, cujo significado era desconhecido pelos missionários europeus e pelos próprios chineses... Propunha empregar-se esta interpretação na propagação da fé na China, visto que era apropriada para dar aos chineses um alto conceito sobre a ciência européia assim como para demonstrar a conformidade desta com as tradições veneráveis e sagradas da sabedoria chinesa. Ele anexou esta interpretação à exposição de sua aritmética binária que enviou ã Academia de Ciências de Paris" (4). É isto, de fato, o que lemos textualmente no trabalho em referência: “O que há de surpreendente neste calculo (da aritmética binãria), é que nesta aritmética por 0 e 1 encontra-se contido o mistério das linhas de um antigo rei e filósofo de nome Fohy, que se acredita ter vivido há mais de de quatro mil anos (5) e que os chineses consideram como o fundador de seu império e de suas ciências. Há muitas figuras lineares que lhe são atribuídas, elas vêm a dar todas nesta aritmética; mas basta citarmos aqui a Figura de oito Cova (6), conforme é chamada, que passa por fundamental, e a ela acrescentarmos a explicação que é evidente, uma vez que se observe primeiramente que uma linha inteira significa a unidade ou 1 e em segundo lugar que em uma linha interrompida significa zero ou 0. Os chineses perderam o significado dos Cova ou Lineações de Fohy há talvez mais de um milênio, e fizeram-lhes comentários, neles procurando não sei que significados longínquos, de modo que foi preciso que a verdadeira explicação lhes viesse agora através dos europeus. Eis de que maneira: não fazem mais de dois anos que enviei ao Rev. Pe. Bouvet, célebre jesuíta francês residente em Pequim, minha maneira de contar por 0 e 1, e mais não foi necessário para fazê-lo reconhecer que se tratava da chave das figuras de Fohy. Assim, escrevendo-me a 14 de novembro de 1701, enviou-me a grande figura deste Príncipe Filósofo que vai a 64 (7), e não deixa mais lugar a dúvidas sobre a veracidade de nossa interpretação, de modo que se pode dizer que este padre decifrou o enigma de Fohy ã luz do que eu lhe havia comunicado. E como estas figuras são talvez o mais antigo monumento de ciência que existe no mundo, a restituição de seu significado após tão grande intervalo de tempo parecerá ainda mais curiosa. E esta concordância dá-me uma elevada impressão sobre a profundidade das meditações de Fohy. Porque aquilo que agora nos parece fácil não o era de modo algum naqueles tempos remotos... Ora, como na China se acredita que Fohy é também o autor dos caracteres chineses, se bem que muito alterados com o passar dos tempos, seu ensaio de Aritmética faz crer que nele se poderia encontrar ainda algo de considerável com relação aos números e às idéias, se se pudesse descobrir o fundamento da escrita chinesa, tanto mais que na China acredita-se que ele, ao estabelecê-la, levou os números em consideração. O Rev. Pe. Bouvet encontra-se muito aplicado em levar adiante este aspecto, e ê muito capaz de alcançar sucesso sob diversas maneiras. Entretanto, não sei se algum dia houve na escrita chinesa uma utilidade que se aproxime da que necessariamente deve existir em uma Característica que estou projetando. É que todo raciocínio que se pode tirar das noções poderia ser tirado de seus Caracteres através de uma forma de calculo, que seria um dos meios mais importantes de auxiliar o espírito humano" (8) . Persistimos na longa reprodução deste curioso documento que permite avaliar ate que ponto chegava a compreensão daquele que entretanto consideramos com o mais "inteligente" de todos os filósofos modernos: Leibnitz estava previamente persuadido de que sua "característica", que, aliás jamais chegou a constituir (e os "logisticistas" de hoje tampouco obtiveram melhores resultados), não podia deixar de ser muito superior à ideografia chinesa: e o melhor é que ele pensa dar a Fo-hi uma grande honra ao atribuir lhe um "ensaio de aritmética" e a primeira idéia de seu joguinho de numeração. Parece-nos avistar daqui o sorriso dos chineses, se lhes tivesse sido apresentada esta interpretação um tanto pueril que, muito longe de lhes dar "um alto conceito sobre a ciência européia", bem serviria, no entanto, para permitir-lhes uma exata apreciação de seu alcance real. A verdade é que os chineses, jamais "perderam o significado" ou melhor, os significados dos símbolos em questão; apenas não se achavam obrigados a explicá-los ao primeiro que aparecesse, especialmente se julgassem que seria trabalho perdido; e Leibnitz, ao falar de "não sei que significados longínquos", confessa, em suma, que não compreendeu nada. São estes significados, cuidadosamente conservados pela tradição (seguida fielmente pelos comentários), que constituem "a verdadeira explicação", e ademais nada têm de. "místico"; mas que maior prova de incompreensão se poderia dar do que tomar símbolos metafísicos por "caracteres puramente numerais"? Símbolos metafísicos, eis, de fato, o que são essencialmente os "trigramas" e "hexagramas", representação sintética de teorias capazes de receber desenvolvimentos ilimitados, e capazes também de múltiplas adaptações se, em vez de permanecer-se no domínio dos princípios, desejar-se aplicá-la a esta ou àquela ordem determinada. Leibnitz ficaria muito espantado se lhe dissessem que sua interpretação aritmética fazia parte também daqueles significados que ele rejeitava sem conhecer, só que a um nível completamente acessório e subordinado; pois esta interpretação não é errônea em si, sendo perfeitamente compatível com todas as outras, mas é essencialmente incompleta e insuficiente, insignificante mesmo, quando considerada isoladamente, e só tem interesse no que tange à correspondência analógica que une os significados inferiores ao significado superior, conforme afirmamos a respeito das "ciências tradicionais". O significado superior é o significado metafísico puro; o resto não passa de aplicações diversas, de maior ou menor importância, porém sempre contingentes: é assim que, como é possível haver uma aplicação aritmética, há uma infinidade de outras aplicações, como ha, por exemplo, uma aplicação lógica, que poderia ter servido bastante ao projeto de Leibnitz se ele a conhecesse, como há uma aplicação social, que é o fundamento do Confucionismo, como há uma aplicação astronômica, a única que os japoneses conseguiram captar (9) , como há até uma aplicação divinatória, considerada aliás, pelos chineses como uma das mais inferiores, e cuja prática foi relegada aos saltimbancos. Se Leibnitz tivesse tido contato direto com os chineses, estes lhe teriam explicado (mas será que ele compreenderia?) que mesmo os números que ele usava poderiam simbolizar idéias de ordem muito mais profunda que as idéias matemáticas, e que é em razão deste simbolismo que os números desempenhavam um papel na formação dos ideogramas, da mesma forma que na expressão das doutrinas pitagóricas (o que demonstra que estas coisas não eram ignoradas pela Antigüidade ocidental). Os chineses poderiam até aceitar a notação com 0 e 1, e usar estes "caracteres puramente numerais" para representar simbolicamente as idéias metafísicas do yin e do yang (que aliás nada têm a ver com a concepção da criação ex-nihilo), tendo, porem, muitas razoes para preferir, por mais adequada, a representação fornecida pelas "lineações" de Fo-hi, cujo objeto próprio e direto está no domínio metafísico. Desenvolvemos este exemplo porque evidencia claramente a diferença existente entre o sistematismo filosófico e a síntese tradicional, entre a ciência ocidental e c sabedoria oriental; não é difícil reconhecer-se, através deste exemplo que tem também para nós um valor de símbolo, de que lado se encontram a incompreensão e a estreiteza de opiniões (10). Leibnitz, pretendendo compreender os símbolos chineses melhor do que os próprios chineses, é um verdadeiro precursor dos orientalistas, que têm, especialmente os alemães, a mesma pretensão a respeito de todas as concepções e de todas as doutrinas orientais, e que recusam qualquer consideração às opiniões dos representantes autorizados dessas doutrinas: citamos em outro trabalho o caso de Deussen imaginando explicar Shankarâchârya aos hindus, e interpretando-o através das idéias de Schopenhauer; são manifestações típicas de uma mesma mentalidade. Devemos fazer ainda a este respeito uma última observação: é que os ocidentais, que apregoam com tanta insolência e a todo propósito a crença em sua própria superioridade e na de sua ciência, não tem a menor razão ao tratarem a sabedoria oriental como "orgulhosa", como alguns às vezes o fazem, pretextando que ela não se restringe às limitações a que estão acostumados, e porque não conseguem suportar algo que os exceda; este é um dos caprichos habituais da mediocridade, e é o que constitui a base do espírito democrático. 0 orgulho, na realidade, é um traço bem ocidental; também a humildade, aliás, e por mais paradoxal que possa parecer, há uma estreita solidariedade entre estes dois contrários: e um exemplo da dualidade que domina toda a ordem sentimental, e cuja prova mais incontestável é o próprio caráter das concepções morais, pois as noções de bem e de mal só poderiam existir através de sua oposição. Na realidade, orgulho e humildade são igualmente estranhos e indiferentes à sabedoria oriental (poderíamos da mesma forma dizer ã sabedoria sem adjetivo), porque a essência desta é puramente intelectual e inteiramente afastada de toda sentimenta1 idade; ela sabe que o ser humano é ao mesmo tempo muito menos e muito mais do que o imaginam os ocidentais, os de hoje em dia, pelo menos, e ela sabe também que o ser humano é exatamente o que deve ser para ocupar o lugar que lhe está destinado na ordem universal. 0 homem, queremos dizer, a individualidade humana, não tem de modo algum uma situação privilegiada ou excepcional, em qualquer sentido; não está no alto nem ao fundo da escala dos seres; representa simplesmente, na hierarquia das existências, um estado como os outros, dentre uma infinidade de outros, muitos dos quais superiores e muitos dos quais também inferiores a ele. Não é difícil constatar, mesmo a este respeito, que a humildade se faz acompanhar de bom grado por um certo tipo de orgulho: pela maneira com que as vezes no Ocidente se procura aviltar o homem, encontra-se um meio de atribuir-lhe ao mesmo tempo uma importância que na realidade nao poderia ter, pelo menos enquanto individualidade; talvez seja este um exemplo desse tipo de hipocrisia inconsciente .que e em maior ou menor grau inseparável de todo "moralismo", e na qual os orientais vêem geralmente uma das características específicas do ocidental. De resto, este contrapeso da humildade não existe sempre, longe disto; há também em muitos ocidentais, uma verdadeira deificaçao da razão humana, que se adora a si própria diretamente ou através da ciência, que é seu produto; é a forma mais extrema do racionalismo e do "cientificismo", mas e também seu resultado mais natural, e, afinal, mais lógico. De fato, quando nada se conhece além desta ciência e desta razão, pode-se ter até a ilusão de sua supremacia absoluta; quando nada se conhece de superior ã humanidade, e mais especialmente, a este tipo de humanidade que representa o Ocidente moderno, pode haver a tentação de divinizá-la, especialmente se a isto se mistura o sentimenta1ismo (e já demonstramos que este está longe de ser incompatível com o racionalismo). Tudo isto é apenas a conseqüência inevitável da ignorância dos princípios, que denunciamos como sendo o vício capital da ciência ocidental; e, apesar dos protestos de Littré, não pensamos que Auguste Comte tenha provocado o mínimo desvio ao positivismo quando pretendeu instaurar uma "religião da humanidade"; este "misticismo" especial não passava de uma tentativa de fusão das duas características da civilização moderna. Melhor ainda: conhecemos pessoas que chegavam a ponto de declarar que mesmo que nao tivessem qualquer motivo racional para serem materialistas, continuariam a sê-lo, unicamente porque é "mais belo" "fazer o bem" sem esperar qualquer recompensa. Estas pessoas, sobre cuja mentalidade o "moralismo" exerce tão poderosa influência (e sua moral, pelo fato de intitular-se "científica", não deixa de ser no fundo puramente sentimental), sao naturalmente daqueles que professam a "religião da ciência"; como isto na verdade só pode ser uma "pseudo-religião", é muito mais justo, a nosso ver, chamá-la "superstição da ciência", uma crença que repousa apenas sobre a ignorância (mesmo "erudita") e sobre vãos preconceitos merece apenas ser considerada uma vulgar superstição. ------------------------------------------ Notas: (1) The Miscarriage of Life in the West, por R. Ramathanm, procurador geral no Ceilão: Hibbert Journal, 1; citado por Benjamin Kidd, La Science de la Puissance, p. 110 da tradução francesa. (2) Kritik der reinen Vernunft, ed. Hartenstein, p. 256. (3) Dizemos naturalismo de fato porque esta limitação é aceita por muita gente que não professa o naturalismo no sentido mais especialmente filosófico: da mesma forma existe uma mentalidade positivista que n~ao supõe absolutamente a adesão ao positivismo enquanto sistema. * Escritor, místico e missionário catalão do século XIII.(N.T.) ** Johann Tritheitn (1462-1516) - Beneditino, abade de Spanheim. (N.T.) (4) La Logique de Leibnitz,pp. 474-475. (5) A data exata é 3468 antes da era cristã, segundo uma cronologia baseada na descrição precisa do estado do céu nessa época; acrescentamos que o nome Fo-hi serve na realidade para designar todo um período da história chinesa. (6) Koua é o nome chinês dos "trigramas", isto é, figuras obtidas pela reuni ao três a três, de todas as maneiras possíveis, de traços contínuos e interrompidos, e que são efetivamente em número de oito. (7) Trata-se dos sessenta e quatro "hexagramas" de Wen-wang, isto é, figuras de seis traços formadas pela combinação dos oito "trigramas" dois a dois. Observamos a propósito que a interpretação de Leibnitz é completamente incapaz de explicar, entre outras coisas, por que estes "hexagramas", as sim como os "trigramas" de que derivam, são sempre dispostos em um quadro de forma circular. (8) Explication de 1'Arithmétique binaire, qui se sert des seuls caractères 0 et 1 , avec des remarques sur son utilité , et sur ce qu'elle donne 1 e sens des anciennes figures chinoises de Fohy, Memoires de l'Acãdemie de Sciences, 1703: Oeuvres Mathematiques de Leibnitz, ed. Gerhardt, t. VIII, pp. 226-227. Ver também De Dyadicis: ibid, t. VII, pp. 233-234). Este texto termina assim: "Ita mirum accidit, ut res ante ter et amplius (millia?) annos nota in extremo nostri continentis oriente, nunc in extremo ejus occidente, sed melioribus ut spero auspiciís resuscitare tur. Nam non apparet, antea usum hujus characterismi ad augendam numerorum scientiam innotuisse sinenses vero ipsi ne Arithmeticam quidem rationem intelligentes nescio quos mysticos significatus in characteribus mere numeraiibus sibi fingebant". (Sucede, assim, algo de extraordinário, que uma coisa conhecida há mais de três (mil?) anos no extremo oriente de nosso continente tenha agora ressurgido no extremo ocidente do mesmo, espero, porém, que com melhores auspícios. Pois não parece que até agora os chineses conhecessem o uso deste sistema de caracteres em relação à elevada ciência dos números, não sendo os próprios, na verdade, sequer conhecedores do cálculo Aritmético, e supunham não sei que significados místicos em caracteres puramente numerais.) (N.T.) (9) A tradução francesa do I-Ching por Phi1astre (Annales du Musée Guimet, (tomo VIII e tomo. XXIII), que e, aliás, uma obra extremamente digna de nota, tem a falha de considerar um tanto exclusivamente o significado astronômico. (10) Lembraremos aqui o que dissemos sobre a pluralidade de significados de todos os textos tradicionais, e especialmente dos ideogramas chineses: Introdução geral ao estudo das doutrinas hindus, 2ª parte, cap. IX. Acrescentaremos ainda a seguinte citação tomada de Philastre: "Em chinês, a palavra (ou o caractere) nunca tem um significado absolutamente definido e limitado; e o significado resulta muitas vezes da posição dentro da frase, mas antes de tudo de seu emprego neste ou naquele livro mais antigo e da interpretação admitida no caso. A palavra só tem valor por suas acepções tradicionais" (Yi-king, 1ª parte, p. 8). |
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