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O Homem
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René Guénon
Capítulo II de "Le Symbolisme de la Croix"
Les Éditions Vega, Paris, 1983

    

          
               
A realização efetiva dos estados múltiplos do ser refere-se à concepção daquilo que as diferentes doutrinas tradicionais, e notadamente  o esoterismo islâmico, chamam de “Homem Universal” (1); esta concepção estabelece a analogia constitutiva entre a manifestação universal e sua modalidade individual humana, ou, na linguagem do hermetismo ocidental, entre o “macrocosmo” e o “microcosmo” (2). Esta concepção pode aliás ser vista em diferentes graus e com extensões variadas, mas a analogia permanece a mesma em todos os casos (3): assim, ela pode restringir-se à humanidade em si, encarada seja em sua natureza específica, seja mesmo na sua organização social, pois é sobre esta analogia que repousa essencialmente, entre outras aplicações, a instituição das castas (4). Em outro grau, mais extenso, a mesma noção pode abarcar o domínio de existência correspondente a todo o conjunto de um estado do ser determinado, qualquer que seja ele (5); mas este significado, sobretudo se se trata do estado humano (mesmo tomado no desenvolvimento integral de todas as suas possibilidades), ou de qualquer outro estado individual, é ainda “cosmológico”, e o que devemos essencialmente fazer aqui é uma transposição metafísica da noção de homem individual, que deve efetuar-se no domínio extra-individual e supra-individual. Neste sentido, a concepção de “Homem Universal” irá se aplicar antes de mais nada ao conjunto dos estados de manifestação; mas podemos torná-la ainda mais universal, na plenitude do termo, estendendo-a igualmente aos estados de não-manifestação, portanto à realização completa e perfeita do ser total, entendido no sentido superior que já indicamos, e sempre com a ressalva de que o termo “ser” só poderá ser tomado então com um significado puramente analógico.

           É essencial frisar aqui que toda transposição metafísica deste gênero deve ser vista como a expressão de uma analogia no sentido próprio da palavra; e lembraremos, para maior precisão, que toda verdadeira analogia deve ser aplicada em sentido inverso: é isto que representa o símbolo bem conhecido do “selo de Salomão”, formado pela união de dois triângulos opostos (6). Assim, por exemplo, do mesmo modo como a imagem num espelho é invertida em relação ao objeto, aquilo que é primeiro e maior na ordem principial é, ao menos aparentemente, o último e o menor na ordem da manifestação (7). Para fazermos uma comparação no campo da matemática, é assim que o ponto geométrico é quantitativamente nulo e não ocupa nenhum espaço, embora seja o princípio pelo qual se produz todo o espaço, que é o desenvolvimento ou a expansão de suas próprias virtualidades. É assim também que a unidade aritmética é o menor dos números se a colocamos diante da sua multiplicidade, mas é o maior em princípio, porque contém a todos virtualmente e produz toda a sua série pela simples repetição indefinida de si-mesma.

           Existe portanto analogia, mas não similitude, entre o homem individual, ser relativo e incompleto, tomado aqui como o tipo de um certo modo de existência (ou mesmo de toda a existência condicionada), e o ser total, incondicionado e transcendente em relação a todos os modos particulares e determinados da existência, inclusive em relação à Existência pura e simples, e que chamamos simbolicamente de “Homem Universal”. Devido a esta analogia, podemos dizer que, se o “Homem Universal” é o princípio de toda a manifestação, o homem individual deverá ser, na sua própria ordem, sua resultante e seu resultado - e é poroso que todas as tradições concordam em considerá-lo como formado pela síntese de todos os elementos e de todos os reinos da natureza (8). Desta forma, a analogia se mostra exata; mas para justificá-la completamente, e com ela a própria designação do “Homem Universal”, seria preciso expor considerações sobre o papel cosmológico do ser humano, que nos levariam muito longe do presente estudo. Diremos, no momento, apenas que o ser humano tem, no seu domínio da existência individual, um papel que podemos chamar de “central” em relação a todos os outros seres que se situam no mesmo domínio; este papel faz do homem a expressão mais completa do estado individual em questão, cujas possibilidades se integram por assim dizer nele (ao menos sob um certo aspecto, e com a condição de tomá-lo, não apenas na sua modalidade corporal, mas no conjunto de todas as suas modalidades, na extensão indefinida de que são susceptíveis) (9). Aí residem as razões mais profundas da nossa analogia; e é esta situação em particular que permite transpor a noção de homem, mais do que de qualquer outro ser que viva no mesmo estado, para transformá-la na concepção tradicional do “Homem Universal” (10).

              Acrescentaremos ainda uma observação que é das mais importantes: é que o “Homem Universal” só existe virtualmente, e de certa forma negativamente, como se fosse um arquétipo ideal, até que a realização efetiva do ser total lhe dê uma existência atual e positiva; e isto vale para qualquer ser, considerado como efetuando ou devendo efetuar esta realização (11). Diremos ainda,  que este modo de falar que apresenta como sucessivo o que é em si essencialmente simultâneo, só é válido quando nos colocamos do ponto de vista particular de um estado de manifestação do ser, tomado como ponto de partida da realização. Por outro lado, é evidente que expressões como “existência negativa” ou “existência positiva”, não devem ser tomadas ao pé da letra, mesmo porque aí a própria noção de “existência” só se aplica numa certa medida e até um certo ponto; mas as imperfeições inerentes à linguagem, pelo fato de que ela está ligada às condições do estado humano (e mais particularmente da sua modalidade corporal e terrestre), obrigam às vezes ao emprego, com todo o cuidado, de “imagens verbais” deste tipo, sem o que seria impossível expressar as verdades metafísicas em línguas tão pouco adaptadas para isto como o são as línguas ocidentais.





NOTAS

(1) “Homem Universal” (em árabe El-Insânul-Kâmil) é o Adam Qadmôn da Cabala hebraica e o “Imperador” (Wang) da tradição extremo-oriental (Tao Te King, XXV). - No esoterismo islâmico existe um grande número de tratados de vários autores sobre El-Insânul-Kâmil; os mais importantes são os de Mohyiddin ibn Arabi e de Abdul-Karim El-Jîlî.
(2) Já  explicamos em outra parte como entendemos estes termos (L’Homme et son devenir selon le Vêdânta, cap. II e IV). - Estes termos, de origem grega,  tem seus exatos equivalentes em árabe (El-Kawnul-kebir e El-Kawnuç-çeghir).
(3) Podemos dizer o mesmo da teoria dos ciclos, que é outra expressão dos estados de existência; todo ciclo secundário reproduz a seu modo, em menor escala, as fases correspondentes do ciclo maior a que está subordinado.
(4) Cf. Purusha-Shûkta do Rig-Vêda, X, 90
(5) A este respeito, e a propósito do Vaishwânara da tradição hindu, ver L’Homme et son devenir selon le Vêdânta, cap. XII.
(6) Ver ibid., cap. I e III.
(7) Mostramos que isto se acha claramente expresso tanto nos textos dos Upanishads como nos Evangelhos.
(8) Assinalemos notadamente, a este respeito, a tradição islâmica relativa à criação dos anjos e do homem. – Não é preciso dizer que o significado real destas tradições não tem nada em comum com qualquer concepção “transformista”, ou mesmo simplesmente “evolucionista”, no sentido mais geral desta palavra, nem com nenhuma das fantasias modernas inspiradas mais ou menos diretamente de tais concepções antitradicionais.
(9) A realização da individualidade humana integral corresponde ao “estado primordial”, de que já falamos muitas vezes, e que é chamado de “estado edêmico” na tradição judaico-cristã.
(10) Lembraremos, para evitar qualquer equívoco, que sempre tomamos o termo “transformação” em seu sentido estritamente etimológico, que é o de “passagem além da forma”, portanto para além de tudo o que pertence à ordem das existências individuais.
(11) Em um certo sentido, estes dois estados negativo e positivo do “Homem Universal” correspondem respectivamente, na linguagem da tradição judaico-cristã, ao estado anterior à “queda” e ao estado consecutivo à “redenção”; trata-se, segundo este ponto de vista, dos dois Adão de que fala São Paulo (1ª Epístola aos Coríntios, XV), o que mostra ao mesmo tempo a relação entre o “Homem Universal” e o Logos (cf. Autorité Spirituelle et Pouvoir Temporel, 2ª ed., pg. 98).