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Instituto René Guénon de Estudos Tradicionais
Textos de Autores Tradicionais
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Se nos parece possível comparar em um só ensaio a concha e o sino, aquilo que eles têm em comum - ao ponto de ser intercambiáveis - é a produção do som [1]. Em outro aspecto, a intensidade, a gravidade - que no remete aos admiráveis bronzes Tcheou -, a propagação que o som produz, evoca-nos um verdadeiro recurso do abalo cósmico. O simbolismo da concha se estende às vezes a outros domínios, em razão de sua origem aquática e de sua forma, sem que por isso se observe jamais ambivalência ou contradição.

         A concha (sankha) e o disco (chakra), aos quais a tradição hindu confere os atributos típicos de Vishnu,  são transferidos a Durgâ, nos ensina a lenda, quando ele lançou por terra o monstro Maheshasuru, que tinha cabeça de búfalo, assim como Châmundâ, detentora dos atributos de  vitórias militares: o instrumento cujo som aterroriza os inimigos e a arma dotada de um jato que os destrói. É assaz notável que a concha (horagai), seja igualmente utilizada em uma cerimônia shintoísta que evoca o antigo extermínio, pelo imperador, de um monstro malfeitor, assim como Candî, uma outra forma de Maheshamardanî, dos Puranas, inclui a concha entre seus atributos. O assustador barulho emitido pela concha ressoa no capítulo inicial do Bhagavad Gîta: “ Abalando o céu e a terra, o ruído colossal despedaça o coração dos amigos de Dhritarashtra...”. Seu uso é, em tal ordem, inseparável daquele do tambor, uma e outro reproduzem o estrondo do trovão. A esse respeito, algo similar ocorre na China, entre o tambor e o sino: ambos foram inventados por Tch’ouei, ministro de Chouen e mestre da dança cósmica do faisão, que produz o trovão e o movimento das estações do mundo; tanto um quanto o outro são suspensos  em dois pórticos ornados de dragões: aquele evoca o despertar da potência vital, e o balanço do instrumento que atravessa o pórtico traduz com precisão as condições análogas ao balanço
[2] . O uso guerreiro dos instrumentos é contudo diferenciado, em verdade complementar: o som do tambor , indica o Tsoutchouan, dá o sinal do combate; o do sino anuncia que se chegou ao seu fim.

   O efeito de terror e de ruptura do som confere aos instrumentos que o produzem duas vertentes simbólicas imediatas: o sino, atribuído às formas guerreiras da deusa hindu, ou ainda a Ghantâkarma, é o signo da sua capacidade de expulsar as influências maléficas, e, por conseqüência,  as suas manifestações: as doenças. Ghantâkarma (de ghantâ = concha) combate eficazmente a varíola
[3]. A “aflição” do mental, tal como é discutida pelo Gitâ, anteriormente citado, tem certamente uma função de preparo para o “combate” espiritual do qual a obra lembra as etapas, tanto quanto é verdade que o campo de Kurukshetra é  o de uma batalha interior. É também provável que o uso ritual da concha na Índia - como se constata na Oceania - conserve ao menos virtualmente um significado desta ordem.

   Ele é explicitado no Tibet: a algazarra instrumental na qual a concha desempenha seu papel serve de comoção e de aniquilamento do processo mental, com o objetivo de favorecer a percepção do “Som natural da Verdade”. O som da concha - freqüentemente também o do sino
[4] - é interiormente manifestado pelas experiências espirituais da Yoga: “ lá está o Som sem forma... semelhante à ressonância medial da concha...” (Dhyânabindu-Upanishad). No Bardo tibetano, a concha figura próximo da efígie do defunto, para indicar a função determinante do som e da audição na passagem aos estados post-mortem: ainda, uma antiga sutra precisa que o som manifestado pelo agonizante, e que se esfiapa ao mesmo tempo que o sopro da vida, é um “som de sino”. Os diferentes símbolos encontram certamente seu fundamento na noção do Som primordial (Shabda), esse “Som que não soa, porque ele está além do som” (Dhyânabindu-Upanishad), sempre associado pela tradição hindu à produção da manifestação. Dele viemos e a ele retornaremos.

   O “som da Verdade” pode ser entendido mais imediatamente como aquele do Dharma budista : os sininhos dependurados nos diversos andares dos pagodes sino-japoneses, e sensíveis ao sopro do vento, cumprem o papel de fazer ressoar a mensagem
[5] . O Cânon pali (Dîgha-Mikâya) não ensina que a voz dos entes divinos é semelhante “ao som de um sino de ouro”? Com uma outra intensidade, entretanto, o “sineiro da concha” dos Dîgha e do Samyutta-Nikâya preenche desde a proclamação do Dharma até as quatro direções do espaço: “Este é, oh Vasettha, como um vigoroso sineiro de concha (sankhadhama): sem esforço, ele se faz ouvir aos quatro orientes...” . Isso que Paul Mus tem com razão aproximado da proclamação simultânea dos quatro Vedas [6] . Vê-se a que ponto o simbolismo da concha  encontra-se, com efeito, ligado à manifestação do Logos.

   Diz-se que, durante os cataclismos intermediários que separam as fases da evolução do mundo, o ensinamento védico permanece “enrolado” nas espirais da concha, e que se “desenrola” no início do manvantara para ser compreendido pelos Rishis, os guardiães da eterna Sabedoria. Há, portanto, nessa relação, analogia entre a concha e o arco bíblico. O gérmen (bindu) da evolução cíclica - a pérola encerrada dentro da concha - identifica-se de outro modo ao Som primordial (akshara) , isso equivale dizer ao mononossílabo Om, no qual cada um dos três componentes ou mâtra : A, U, M, corresponde respectivamente a um dos aspectos do Veda: Rig, Yajur e Sâma
[7] . René Guénon, a propósito, observou que a grafia sanscrítica do monossílabo poderia se reduzir a três elementos: uma linha direita, um elemento de espiral, um ponto, correspondente  à estrutura simbólica da concha [8] , o ponto diacrítico - igualmente chamado bindu - representa claramente o “gérmen” cósmico, assemelhado a uma pérola secreta e fecunda da qual a concha é a “matriz”[9] . Esse senso de manutenção, de “conservação” , refere bem a função tradiciopnal de Vishnu, do qual a concha é um dos maiores atributos [10]. Sempre, segundo a diversidade de imagens divinas, a concha pode mudar de mão, e seu aspecto simbólico modifica-se  em conseqüência disso: o ponto diacrítico é a perfeição do monossílabo Om; nele se resolve - se encerra - o movimento espiralóide da concha; pode-se considerar, ao inverso, que a espiral como que se desdobra a partir do ponto inicial: a manifestação é produto do  Som Primordial, o ciclo novo renasce, em torno do qual vêm à tona a Lei revelada. Isso é dito da concha de Vishnu que representa o aspecto  “satívico”, essencial, da consciência individual (ahamkara), e que ela é a origem dos cinco elementos (bhûta) - porque o som é a qualidade do primeiro entre eles:  akâsha, o éter. Ela identifica-se de qualquer modo à Shakti de Vishnu, equivalente a Lakshimî, nascida das águas, deusa da Fortuna e da Beleza [11]. A origem marinha das conchas reconduz-nos, por outro lado,  ao simbolismo das Águas primordiais, e isto é o que significa a linha direita do grafismo mencionado anteriormente. Representada pelo termo  “tesouros” aquáticos - notadamente dos que detêm o Chakravarti, a Soberania universal - ela  é  um outro emblema de Varuna, que rege o domínio das Águas [12].

       É interessante observar que  iconografia dos Puranas dá à concha a cor da “lua cheia”. Ora, é com a ajuda de uma concha marinha que se tira da lua, na China antiga, o rosa celestial, signo do benfazejo, néctar da vida, símbolo do elemento yin (o yang é obtido dossol com a ajuda de um espelho de metal)
[13]. Aquática e lunar, a concha representa, nesse caso, a antítese do espelho solar.

       A noção do Som primordial não é diferente do simbolismo chinês do sino. É ele, o “sino amarelo” (houang-tchong), que dá a nota fundamental kong, origem de toda  a gama e geratizes de sons, em correspondência com as estações, os orientes, os nomes, as cores etc. (Yue-ling). Especificamente, o sino amarelo está em relação com o solstício de inverno, origem do ciclo anual, assim como com o “eixo” do ano, a transição efêmera da estação, naquele momento em que o Soberano, observando-se no ming-t’ang as etapas do ciclo solar, faz um retorno ao centro. Sublinhe-se que, também, o sino amarelo é o padrão de todas as espécies de medida (distância, capacidade, peso). Por outro lado, na divisão dos timbres, se verá que o som do metal, produzido pelo sino, naturalmente identificado ao outono, se opõe, não ao tambor como se viu anteriormente, mas ao som do bambu, isto é, a flauta transversal. Também parece normal que os  sinos do Chan-hai king anunciem a chegada da geada, observado pelo Yue-ling  no outono
[14].  Mas o Te-king indica bem que o concerto simultâneo dos sinos e dos tambores é um sinal de perfeita harmonia [15]. E se restar dúvida de que o sino pode evocar, por sua vez, a imagem da matriz cósmica, deve-se lembrar a caverna inicial dos chineses coloca de fato “um sino celeste” sobre o plano horizontal da terra [16].

      Iremos descobrir, no domínio indo-tibetano, uma nova equivalência simbólica: a concha hindu, ou o sino tibetano (tilpe), são com os mesmos direitos, com efeito, a contrapartida “passiva|” e feminina de vajra, aquele detentor do caráter “ativo”  e masculino do raio. a simetria dos dois objetos dão-lhes em todos os sentidos, o primeiro ser surgido na mão esquerda, e o segundo, na mão direita. Oposição: aquele do mundo “adamantino” ao mundo fenomênico, da essência às aparências ( que é a realidade do som, cuja extinção sucede logo a produção?)
[17] . Complementar: aquele de “método”  ou dos “meios”, e da “sabedoria”, faces ativa e passiva da experiência espiritual ( a segunda e mais precisamente a Prajnâpâramitâ, da qual a representação feminina freqüentemente é sobre o sino). Essa é uma complementaridade de mesma ordem, mas de uma amplitude maior, que experimenta na Índia o bânalinga e o shâlagrâma,  imagens “não manifestadas” de Shiva e de Vishnu, um e outro  reúnem no leito dos rios: a identidade do linga e do vjara, símbolos axiais e ígneos, o que se percebe facilmente [18] ; aquele da concha e do shâlagrâna, o qual é uma amonita negra, se mostra redonda, as estrias e a origem aquática do segundo: se houver dúvida, deve-se lembrar que, na arte khmer primitiva, a concha por ele era às vezes pura e simplesmente substituída. Mas é sempre a função vishnoísta da qual se costuma falar,  diante da função ativa e transformadora de Shiva, e isso se sustenta com a ajuda dos símbolos sexuais concretos. Não é por isso, afinal - e na produção mesmo do som não há contradição - que o aspecto essencial do simbolismo da concha seja tão igual ao  do sino?
A concha e o sino
de Pierre Grison
Tradução: Áurea Maria Corsi
Notas:

[1] Nos limitamos estritamente neste caso às linguagens simbólicas da Ásia oriental, no contexto de uma obra que faz parte das edições tradicionais: Dos Simbolismos e das formas. A aproximação não é entretanto restrita a esse campo: Rémy de Gourmont, em seu Estética da língua francesa, chamou a atenção para a semelhança existente entre os termos Schelle (sineta), do alemão, e shell (concha), do inglês.
[2]  Cf. “Le Jeu de l’éscarpolette” , in Étude Traditionelles, n.396/397. 
[3] Cf. M. T. de Mallmann, Enseignements iconographiques de l’ Agni Purana, p.60. E isso é igualmente válido sobre o sino: “Pode a concha”, diz um hino do Atharva-Veda, “ defender-nos do medo!... Com a concha nasce o oceano... triunfamos de rakshasa... da doença, da pobreza.”
[4] Notadamente, no Shabda-Yoga, ou “yoga do som”,  atribui-se ao “som da concha” um papel determinante. E também no Hamsa-Upanishad: “...a terceira concha...” (a tradução, como a do Dhyânabindu-Upanishad, é de Jean Varenne, Upanishads du Yoga, Paris, 1971).
[5] Esta difusão rítmica é também  a função do tamboril (damaru) de dakinê, instrumento que a iconografia dos Puranas aproxima freqüentemente do sino.
[6] Cf. Paul Mus, “Baradubur ”, in Bulletin de l’ École Française d’ Extrême-Orient, t. XXXIV, p.393.
[7] Mas o akshara é também um som de sino: “ ...semelhante ao zumbido de um sino soando ao longe, é a indizível ressonância da sílaba Om: quem a conhece, conhece o Veda!” (Dhyânabindu-Upanishad).
[8] Symboles fondamentaux de la science sacrée,  cap. XXII. Cf. também Michel Vâlsan, “Le Triangle de l’androgyne et le monosyllabe Om”, in Études Traditionailles, n.382.
[9] O símbolo da fecundidade da concha se estende a um domínio muito vasto, saindo um pouco da proposta deste texto. Observamos, entretanto, que ela é símbolo de regeneração: também associada aos ritos funerários - concorrentemente, por vezes, tendo-se em conta o Laos - com os guizos de bronze.
[10] “ Glória a ti, concha sagrada,  diz uma antiga prece, ...oh tu, nascida do mar, e que Vishnu traz à mão!
[11] Que não se esqueça certamente de comparar à Afrodite, ela própria nascida de umas concha marinha.
[12] “ À boca da concha”, diz a invocação citada anteriomente, “ é Chandra, a Lua, ao seu  lado  Varuna, sobre o som  dos Prajâpati, do lado de cima Gangâ, Sarasvatî, e todos os rios sagrados dos três mundos...”.
[13] Diversos textos chineses antigos, dos quais o Liu-che tch’ ouen-ts’ ieou, observam que as conchas marinhas crescem e diminuem com as fases da lua (a mesma idéia se encontra alhures no Antigo Mediterrâneo).
[14] Esta disposição poderia representar de fato uma passagem do símbolo do eixo solsticial ao eixo equinocial.
[15] As inscrições votivas de sinos antigos atribuem-lhes, na China, o poder de estabelecer a paz, a concórdia, a harmonia e a alegria. Um é qualificado de “transcendente”, ling, e “harmoniosa”, houo: ling evoca a recepção de influência celeste; houo, que é um acorde musical, assegura de qualquer maneira a difusão. Um outro tende, diz-se, a obter o  “domínio do corpo” ou, poder-se-ia ler, a “aniquilação do eu”, com exceção do texto   inteiramente pré-budista (cf. Wieger, Caractères chinois, Hien-hien, 1932).
[16] Não pode ser fortuito que um dos maiores elementos decorativos dos sinos de bronze na época Tcheou é a dupla espiral. A forma e o símbolo do sino se encontram de outro modo na stûpa da Ásia meridional.
[17] A nosso ver, a palavra Om é como o som de um sino grave. Ela é primeiro perceptível, depois imperceptível. e finanalmete se funde no espaço infinito. É desse modo que o mundo dos fenõmenos se funde no Absoluto (Shrî Ramakrishina).
[18] É preciso acrescentar o trishûla shivaísta, que por sua vez figura com contrapartida da concha.
Publicado originalmente em
Études Traditionnelles nº 459 em janeiro de 1978