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Metafísica e Navegação Polinésia
        Para começar, devo admitir que, embora eu seja marinheiro e navegador, não sou perito em etnologia, nem em qualquer outra ciência da área: eu não tenho a pretensão de ser um “pesquisador de outras culturas”, tão caro à mentalidade ocidental moderna. Aliás, comecei a ler trabalhos etnográficos e antropológicos somente muito depois de ter deixado a região do Sul do Pacífico. O conteúdo deste artigo é essencialmente fruto das minhas próprias observações, e quaisquer equívocos nele contidos são da minha inteira responsabilidade. Para compreender outra cultura em qualquer um de seus aspectos é preciso aproximar-se dela com o menor número possível de idéias preconcebidas, ou seja, com um mínimo de condicionamento cultural próprio. O viajante deve trabalhar com todas as suas forças para tornar-se fluente na língua falada pelo povo anfitrião: é necessário integrar-se por completo e sem preconceitos na nova cultura. Foi esse o meu método durante o período coberto
pelo aprendizado que descrevo a seguir.

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Antes que se possa enxergar a grandeza das realizações do povo polinésio é preciso ter apreciado a vastidão da Oceania por experiência própria. A Oceania é composta de pequenas ilhas e recifes de coral, separados por milhares de milhas náuticas de águas azuis.  Nestas ilhas solitárias, diversos grupos de polinésios edificaram suas culturas, aliás bastante admiráveis, com base numa visão sagrada do mundo.  Na verdade, como as diferenças culturais entre as ilhas da Oceania não são muito grandes, pode-se dizer que os povos polinésios têm todos uma visão mais ou menos semelhante do mundo, com pequenas variações apenas. Para explicar a existência de tal unidade de visão, é preciso procurar um meio de transporte com que os polinésios possam atravessar o abismo aquático que os separam. Devemos nos dirigir aos navegadores e conhecer a sua arte.

            Em diversas ocasiões durante o começo dos anos 80, tive a satisfação de receber instrução de quatro homens que tinham por ofício a navegação em mar aberto. Os meus veneráveis instrutores se chamavam Tranhei Théki (de Maori), J. W. Kei (de Taiti), Jacques Koah (de Bora Bora) e Matthew Burke Moi (de Rorotonga e Samoa Ocidental).  As minhas aulas, com exceção dos que recebi de Théki, foram todas ministradas como diálogos durante o percurso, enquanto eu servia como marujo e cozinheiro nas respectivas embarcações.  Antes da minha contratação como marujo, não imaginava que a arte tradicional da navegação subsitisse na Oceania. Menos ainda sabia eu da natureza do mundo tradicional polinésio, e a sua similitude com outras culturas das quais eu já possuia algum conhecimento.

            Querendo visitar o arquipélago das Ilhas Marquesas antes do meu retorno a Vanatu onde trabalhava,  embarquei na escuna Vé no início de 1980. Logo percebi que o capitão Moi não usava sextante, nem parecia dispor de mapas de navegação. O capitão parecia pouco se preocupar com a determinação da nossa posição ou curso. Quando perguntei a respeito, disseram-me que o tipo de onda, a cor do mar, as nuvens e as posições das estrelas eram as nossas guias. Pedi maiores esclarecimentos, mas fui informado que para tanto eu teria que aprender a língua samoana.

            Quando já era proficiente em samoano foi-me possível ter várias conversações com o Capitão Moi sobre a sua arte. Ele ficava mais taciturno quando eu perguntava sobre os aspectos mais elevados da arte, mas explicou-me que havia três níveis de aperfeiçoamento. Como não me foi ensinada nenhuma nomenclatura para esse processo, resolvi usar os termos ‘literal’, ‘moral’ e ‘anagógico’.

            O primeiro nível, o literal – o qual implica a observação das nuvens, das aves marinhas, das ondas e da cor do mar – tem como pré-requisito a eliminação da mente de todos os pensamentos desnecessários e atenção completa aos fenômenos da natureza à medida em que forem se apresentando. Explicaram-me que o aperfeiçoamento da arte da observação requer anos de treinamento. É preciso aprender a ‘olhar’ – a ‘ver’ – os aspectos sutis das mudanças, e aplicar as observações à tarefa da orientação.

           O Capitão Moi não podia dar muitos detalhes sobre a natureza exata do segundo nível (o ‘moral’), mas adiantou que este envolve a invocação da divindade marinha. Através da recitação de uma série de preces invoca-se Tuaraati, o Senhor dos Oceanos, e abre-se um côco cuja água é derramada no oceano como uma forma de libação, enquanto se pede que o Tuaraati guie a mente do navegador por sobre Seu reino.  O Capitão Moi indicou que isso é feito diretamente, mas não se dispôs a demonstrá-lo. Do terceiro nível falaremos mais adiante.

           Para concluir a aprendizagem referente ao primeiro nível de navegação, o navegador deve passar uma considerável parte de seu tempo no mar, sozinho numa pequena canoa. Durante esse período, o praticante deve recitar muitas preces e oferecê-las a Tuaraati. Aos poucos, segundo a expressão usada, o mar preenche a mente do mesmo modo como o sangue banha o corpo.  Em terra, através do conteúdo didático dos hinos tradicionais por ele entoados, o estudante de navegação adquire conhecimentos sobre fenômenos naturais necessários à navegação. O instrutor depende exclusivamente de sua memória para o ensino desses hinos, e espera-se do aprendiz que este os decore verbatim também. O conjunto dos hinos é bastante extenso e o ciclo completo só se aprende após anos de estudo. 

            Os fenômenos naturais que devem ser observados pelo navegador na execução de sua tarefa incluem o comportamento dos cetáceos, aves e peixes, além do movimento das ondas, a formação das nuvens, o sabor da água e as posições das estrelas. Os pequenos cetáceos são sempre atraídos pelas atividades marítimas do homem, e por meio da observação de suas brincadeiras em volta do barco o navegador saberá algo sobre a direção e a distância da terra. Também, segundo dizem os nativos, os golfinhos abandonam o barco quando da aproximação de uma tempestade e na proximidade de recifes. No mar aberto costuma-se observar o comportamento do golfinho-rotador (Stenella longirostris), o golfinho-pintado-do-pacífico (Stenella frontalis) e o golfinho-comum (Delphinus delphis), enquanto que na vizinhança dos arquipélagos é o golfinho-nariz-de-garrafa (Tursiops truncatus) que se vê com maior frequência. O navegador, na verdade, faz uma ‘leitura’ dos diversos tipos de saltos dos golfinhos e da sua velocidade.

             Os golfinhos não são os únicos animais cujo comportamento deve ser interpretado pelo navegador. A presença de peixes-voadores e lulas indicam grande profundidade (‘águas azuis’), enquanto a de caravelas denota grande distância da terra. Quando o tubarão-branco ou o tubarão-martelo são vistos alimentando-se na superfície, sabe o navegador que deve estar próximo de um recife. Bandos de gaivotas são uma boa indicação de terra próxima, embora fora de vista, e a observação de seus padrões de vôo contribui para a determinação da distância e direção até a terra mais próxima. Também é importante a observação do albatroz-pacífico, encontrado até quarenta milhas distante do litoral, cuja linha de vôo indicará a direção de onde veio.

             Além disso, um navegador habilidoso consegue distinguir mais de 20 tipos diferentes de ondas. Cada tipo tem um nome e uma função distintos e permitem ao navegador reunir informações sobre o curso a seguir, a distância da terra e a velocidade. Sendo diretamente associados com as ondas, os ventos são também numerosos e mui diversos. Os meus mentores não quiseram falar muito sobre o assunto dos ventos, porque cada vento é visto como um espírito (daimon) muito poderoso, o conhecimento do qual não deve ser transmitido ao neófito. Segundo os polinésios, os espíritos-ventos atuam como auxiliares do Senhor das Águas.

             Os meus mentores se baseavam também em vários tipos de formações de nuvens para determinar a posição dos arquipélagos. A maioria dessas formações consistiam de nuvens do tipo cúmulo-nimbo, caracteristicamente formadas sobre as partes mais elevadas das ilhas. Aos olhos de um observador treinado há uma nítida diferença entre os cúmulos-nimbos que se formam sobre a terra e os que se formam sobre o mar. De um modo geral, a presença desse tipo de nuvem é encarada como um sinal enviado pelo Senhor das Águas para guiar o navegador até um porto seguro. Isso faz lembrar as idéias dos marinheiros ocidentais com relação ao aparecimento em meio às tempestades do fogo de Sant’Elmo: em ambos os casos, o fenômeno é visto como uma forma de proteção divina.

               Quanto ao sabor da água não tenho muito a dizer, pois embora eu tenha visto o Capitão Moi experimentá-la repetidamente, não tenho a mínima idéia de como ele o faz. Tentei imitá-lo, mas só senti gosto de salmoura. A interpretação do sabor da água do mar é certamente uma arte.

               E as estrelas? Bem, as estrelas mais brilhantes do hemisfério sul são Sirius, na constelação do Cão Maior, Canopus, na constelação da Quilha (parte integrante do Navio), Rigil Centauro, na constelação Centauro, Rigil em Orion, e Formalhaut no Peixe Austral. Todo navegador polinésio precisa fazer a observação dessas estrelas. Entre os nativos, as estrelas Lambda, Mu e Nu da constelação do Escorpião são apelidadas “O Anzol de Maui”, sendo Maui um herói cultural e filho de Tangaroa. Também o Cruzeiro do Sul desempenha um papel importante na navegação.

               Depois de ter-me ensinado alguns aspectos do primeiro nível, o nível ‘literal’, o Capitão Moi pôde encaminhar-me ao navegador Jacques Koah de Bora Bora, tido como mestre no sistema de navegação daquelas ilhas. Capitão Koah havia se aposentado depois de trabalhar durante toda a sua vida a bordo de um pequeno barco cargueiro. Como ele era fluente em francês, falavamos nesse idioma até eu aprender o dialeto local.  No tempo que passei com ele aprendi algumas coisas sobre o segundo e terceiro níveis da arte da navegação, pois o domínio dos aspectos ‘literais’ e ‘morais’ dependia da compreensão obtida no terceiro nível, o ‘anagógico’.

               Para entrar nesse nível, para que o mar venha a ‘preencher a mente’, é preciso aprender a ‘ver com o coração’ e a ‘respirar com os pés’.  Em suma, é necessário encher os pulmões à plena capacidade e concentrar-se exclusivamente no ato da respiração. Isso deve ser feito a bordo de uma embarcação que esteja distante do litoral o suficiente para que se possa sentir o subir e descer rítmico das ondas. A respiração é então sintonizada com o movimento do mar; assim, quando o barco é alçado pela onda, deve-se inalar profundamente, ‘até aos pés’, e quando o barco mergulha junto com a onda, deve-se exalar vagarosamente, seguindo o movimento. Através dessa prática, a mente ‘torna-se o mar’, e pode-se comungar diretamente com o elemento, coisa que permitirá perceber a mínima alteração que ocorrer no ambiente. O navegador deve ‘comungar com o corpo do Senhor das Águas’ para poder conhecer a Sua mente com se fosse a sua própria.

               Deve-se invocar o Senhor das Águas (Tuaraati) e ‘ouvir’ a Sua instrução através do Seu corpo e dessa forma conhecer a Sua mente. O conhecimento de Tuaraati então abre as portas para o conhecimento de ‘Tangaroa, o Supremo’. Dizem os polinésios que ‘é Ele quem conduz a canoa’,  e acrescentam que o navegador ‘conhece o mar’, ‘se move com ele’ e através de Tangaroa e por meio de Tuaraati, a sua canoa chega ao destino.

              Mas isso ainda não é tudo que há para se aprender sobre a arte da navegação: o Capitão Koah mencionou também a ciência das estrelas. Ele não sabia comungar com elas, propriamente falando, mas conhecia a natureza de cada uma. As estrelas são entidades vivas das quais é possível se aproximar para aquele cuja mente está preenchida pelo mar, conforme já explicamos.  Elas devem ser abordadas e ‘conhecidas’ por intermédio do Senhor das Ondas (Tuaraati). Essas entidades podem prestar orientação tanto no sentido literal (direção) como no sentido moral (aconselhamento). Mas, como dissemos, só se pode aproximar-se delas e conhecê-las através do Senhor das Ondas e, por consequência, Tangaroa (nível anagógico).

               Os espíritos-estrelas são entidades distintas, com atributos e manifestações distintos. Contam-se entre os Fetia Virua Raa (espíritos-estrelas sagrados) as estrelas Sirius, Lambda, Mu e Nu (estas três da constelação do Escorpião, formando o já mencionado “Anzol de Maui’), Fomalhaut e Vênus (também conhecido como Fetiapopoi Hiti), as quais podem ser invocadas no mar em tempos de dificuldade, embora eu desconheça o rito teúrgico para tal. No todo, os espíritos-estrelas são entidades sagradas (tapu ou raa), mas são antes uma espécie de anjos que deuses (Mau Atu). Na língua do povo de Samoa chamam-se Agaga fetu.

                 Sem dúvida alguma, para atingir o grau de mestre na arte da navegação é necessário ser transformado e purificado espiritualmente. Segundo o Capitão Koah, o navegador é uma pessoa muito tapu, deve ater-se a uma dieta determinada pela tradição e seguir um código de conduta muito rigoroso.

                 Às vezes o Capitão Koah consultava o seu colega, Capitão Kei de Taiti, capitão de um queche mercante por nome de Moa, sobre questões da arte de navegação. Embora ambos fossem mestres na arte, nenhum deles se dispunha a me explicar os métodos na íntegra. Por fim transferiram-me aos cuidados de Théki, um praticante Maori da arte de navegação que havia passado um longo tempo em Taiti e Bora Bora.

                Théki me iniciou na arte da respiração para que a minha mente pudesse entrar em harmonia com o mar, uma das poucas coisas que consentiu em partilhar comigo. Não sou alheio à natureza espiritual dessa arte, mas faltam-me palavras para explicá-la. Com o tempo, através das nossas conversas sobre o Budismo ao qual eu havia sido convertido e do qual ele sabia não ser uma religião ocidental, ele passou a depositar um pouco mais confiança na minha pessoa. Théki me explicou que o seu povo, juntamente com todos os demais povos polinésios, havia sido molestado pelos missionários cristãos e pelos antropólogos, e que o pouco que restava de suas tradições não podia ser comunicado àlguém alheio à sua cultura. Eu teria permissão para conhecer os princípios mais básicos, e mais nenhuma palavra!

                 O mestre me levou ao mar numa lancha e mandou que ficasse quieto observando o mar. Depois de duas semanas nesse regime, levou-me ao mar aberto numa canoa, onde eu devia prestar atenção ao movimento das ondas do mar, sentir a canoa subir e descer e  sintonizar a minha respiração em conformidade com isso. Depois de algum tempo, o efeito dessa prática foi semelhante ao do que se obtém no zazen.  Fora isso, não sei como expressar a minha experiência em palavras.

                 Aprendi uma série de coisas sobre a arte polinésia de navegação, mas estou longe de saber o suficiente para poder abandonar o uso do sextante. Mesmo assim, tenho certeza de que a arte tradicional da navegação, se corretamente exercida, permite ao navegador obter a compreensão de muitas verdades profundas e importantes. Infelizmente, não tenho esperanças de concluir o meu aprendizado e sou obrigado a basear as minhas conclusões no pouco que aprendi. Em tempos muito remotos, os povos do Pacífico devem ter sido influenciados por – ou ter sido parte de – uma grande tradição primordial. Só nos resta hoje especular sobre a natureza daquilo que se perdeu com a invasão e conquista por parte das nações do Ocidente. Jamais saberei – aliás, europeu nenhum jamais saberá – a plena extensão do que foi aquela civilização marítima do passado.
                                                                                  
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(Agradecemos ao amigo Jesper Sampaio a indicação e tradução deste artigo pleno de simbolismo)
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de James Barr
Tradução de: ‘Of Metaphysics and Polynesian Navigation’,
Avaloka III, #1 & 2, 1988-89