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Textos de Luiz Pontual
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L. Pontual
Instituto René Guénon de Estudos Tradicionais
Barata e piratas na Livraria e Editora
Globo
de  Porto Alegre
(A Globo da Rua da Praia, de José Otávio Bertazo,
Editora Globo S.A., 1993, São Paulo)
estudostradicionais@hotmail.com   luizpontual@hotmail.com
    NUMA MANHÃ QUENTE, em meados de janeiro de 1941, Catarina Caputto, subchefe do depósito da Livraria do Globo, no quinto andar do prédio da rua dos Andradas, encaminhou-se para a mesa telefônica, a fim de substituir a telefonista titular, que havia entrado de férias. De meia-idade, ostentando na lateral do nariz uma respeitável verruga, estava há mais de vinte anos na empresa.

           Toda vez que ocupava a mesa telefônica, com seu forte sotaque da colônia italiana, enfileiravam-se as confusões. Na sua falta de malícia, nunca se apercebia quando alguém fazia uma brincadeira. Invariavelmente, atendia o telefone dizendo: "Livraria do Globo, Catarina Caputto falando". E, se por acaso o interlocutor perguntasse: "Quantos putos existem na empresa?", ela respondia, no seu falar arrastado: "Dois, eu e meu primo, chefe da impressão tipográfica".

            Naquela manhã, a voz que lhe chegou aos ouvidos era grave e com um acento indefinido:
           — O sr. Bertaso, por favor.
           — Qual dos Bertaso, seu José pai ou filho, o seu Henrique ou o seu Paulo?
           — O encarregado do departamento editorial.
           — Um momento.

           A linha ficou muda por alguns instantes, e a voz de Catarina voltou para informar o interlocutor de que o "Seu Henrique'' estava fazendo a barba.

           — O senhor pode chamar daqui a quinze minutos?
           — Poderia falar com a sua secretária?
         
           A ligação foi completada, e o que se ouviu não foi nenhuma voz feminina e sim a de Érico Verissimo, cujo gabinete ficava contíguo ao de Henrique.

           Todas as manhãs, repetia-se o ritual da barba, ocasião das primeiras conversas do dia entre os amigos. Fernando Lambiase, mestre barbeiro e cozinheiro, fazia a barba de todos os Bertaso, e de quinze em quinze dias Érico se submetia estoicamente ao corte de cabelo feito por ele. Naquela manhã, levou o fone ao ouvido e, depois de um curto silêncio, respondeu afirmativamente:

          — Sim, o Sr. Henrique terá prazer em atender os senhores, mas poderia perguntar exatamente qual é o assunto?
          Depois de uma pausa:
         
         — Coompreendo. Muito bem. A partir das 9 horas, o Sr. Henrique estará  esperando. Tomem o elevador do centro da loja e peçam, por favor, a seção Editora. Érico pousou o fone, fez um breve "ufa!'', e seu amigo Henrique, com a usual cautela de quem está sendo barbeado, perguntou em voz baixa quem era.

          — O secretário da embaixada britânica, não sei se o primeiro ou o segundo, e seu adido cultural, uns tais de Evans e McKinley. O assunto é confidencial.

          Henrique esboçou um sorriso, afastando a mão de Fernando com o rosto semi-ensaboado:
          — Será que eles pretendem nos cobrar direitos autorais? Os pagamentos estão em dia. Na semana passada, pelo que eu me lembro, autorizei a remessa de dois adiantamentos para a Agência Dona Carlota.

          Érico retrucou:
          — Provavelmente o que eles desejam é uma contribuição para o esforço de guerra britânico.
          E a conversa tomou outro rumo, depois que Henrique e Erico combinaram receber juntos os representantes da embaixada britânica.

           Um pouco depois das 9 horas, entraram no gabinete do editor, impecavelmente vestidos, dois homens que andariam na casa dos 35 ou 40 anos. As apresentações foram feitas, e John Evans, segundo secretário da embaixada britânica, mais Peter Mc Kinley, juntamente com Érico Veríssimo, cercaram a mesa de Henrique Bertaso. Após as amenidades sobre o tempo — "muito calor", "chegamos ontem ao cair da tarde", "viagem marítima", "hospedados no Grande Hotel", "bonita cidade" —, John Evans, que parecia ser o mais velho dos dois e mais fluente no português, pigarreou e começou um relato que, pouco a pouco, foi deixando aturdidos tanto Henrique como Érico Veríssimo.

          — Sr. Bertaso, recentemente, Lorde Beavenbrook, nosso ministro da Produção e do Esforço Bélico, visitou Portugal com o intuito de renovar contratos comerciais, através dos quais a Grã-Bretanha continuaria a receber, além de outros itens, alimentos. Para surpresa da nossa embaixada em Lisboa, a imprensa local e a da cidade do Porto receberam Lorde Beavenbrook como um infame detrator do regime vigente em Portugal e de seu primeiro- ministro, Sr. Oliveira Salazar, citando artigos supostamente escritos por Lorde Beavenbrook nos quais o mesmo tachava tanto o regime português como seu primeiro-ministro de fascistas.

          John Evans limpou a garganta novamente, Henrique e Érico se entreolharam e, em pensamento, perguntaram-se: "Ó raios, o que é que isso tem a ver conosco?" Mas continuaram atentos.

         — Sr. Bertaso, o senhor não pode calcular o impacto que as manchetes dos jornais portugueses causaram em todos nós, principalmente em Lorde Beavenbrook, que escreve suas crônicas semanais para sua cadeia de jornais e nos principais órgãos da imprensa democrática. Para o nosso pessoal da Inteligência, em contato com os jornais portugueses, não foi difícil descobrir a origem dos artigos injuriosos a Portugal.
Eram fictícios, falsos e jamais haviam sido escritos por Lorde Beavenbrook.
          Evans parou por um momento e olhou durante breves segundos para seus dois interlocutores, que lhe devolveram o olhar impassíveis, sem entender o motivo de tão demorada explanação das vicissitudes de Lorde Beavenbrook em continuar recebendo bacalhau, sardinhas, vinhos e cortiças. Estaria algum maluco usando o nome de Lorde Beavenbrook para perturbar o bom relacionamento entre ingleses e portugueses?

            E o relato de Evans continuou:

           — Os jornalistas portugueses nos mostraram diversos exemplares de jornais brasileiros que estampavam os mesmos artigos, e o que nos surpreendeu é que a maioria deles era efetivamente
escrita por Lorde Beavenbrook e, por sinal, muito bem traduzida para o português. E a fonte de todos esses artigos, Sr. Bertaso, era do departamento de informações literárias da seção editora da
Livraria do Globo.

          O silêncio que se seguiu foi como se a Livraria do Globo inteira tivesse parado, com funcionários e clientes de ouvidos atentos, como se um raio tivesse caído no meio do gabinete e um gigantesco estrondo estivesse eminente. Henrique Bertaso balbuciou "Não pode ser!", expressão que sempre usava quando algo inacreditável lhe era contado. Érico Veríssimo, quase no mesmo instante e visivelmente surpreendido, sem querer começou a falar em inglês. John Evans, como se estivesse esperando a reação de Bertaso e a de Veríssimo, virou-se para Peter McKinley e sussurrou:

           — Peter, por favor, a pasta dos recortes.
          
           Num átimo, a mesma foi aberta na frente dos homens da Globo. Cuidadosamente, os artigos de Lorde Beavenbrook, no original, com as respectivas datas de publicação, vinham acompanhados das traduções realizadas pelo departamento de informações literárias da Livraria do Globo. Para se chegar à seção da Livraria do Globo, no início da década de 40, uma das alternativas era entrar na loja pela rua da Praia e subir por um elevador do tipo "gaiola'' até o quarto andar. O prédio tinha duas entradas: uma na rua da Praia e outra pelos fundos, na José Montaury. O edifício, a bem da verdade, era labiríntico. Incluía dois prédios ligados um ao outro: quatro andares, na frente, ocupavam um terço do espaço; um bloco intermediário apresentava mais dois andares; e, nos fundos, cinco andares davam para a José Montaury. Com o desnível que existia entre as duas ruas, era-se obrigado a descer e subir escadas constantemente, e, como a grande altura do pé direito (com exceção do bloco intermediário) determinou a construção de uma rede de galerias de apoio ao longo dos anos, muito tempo se gastava em caminhadas internas.

           A parte nobre da casa, situada na rua da Praia, abrigava no andar térreo a livraria e a papelaria. Seguindo-se por um corredor, à esquerda, passava-se pela sala da administração, onde trabalhava o velho José Bertaso e seus dois sócios, Mário Barcellos e Oswaldo Rentzsch. No final do corredor, localizava-se parte das oficinas gráficas, que se estendiam até a rua José Montaury. No bloco intermediário, havia um grande elevador de carga que subia até o depósito e, ocasionalmente, transportava visitantes para a seção editora e outros setores da empresa. Entre o bloco intermediário e o dos fundos, cujos pisos não coincidiam, havia um outro elevador de carga, inteiramente aberto. O que até hoje me espanta é que jamais alguém caiu no poço.

            No meio dessa confusão de prédios, abria-se um amplo espaço, espécie de área interna, cercada pelas janelas do bloco da frente e do intermediário. Isso permitia que, de vez em vez, uma risada estrepitosa, dada por João Motini ou Vitorio Gheno, que trabalhavam na seção de desenho, no quinto andar, ecoasse nos ouvidos ciosos dos dirigentes da editora, no quarto andar. Ao mesmo tempo, dava entrada à luz natural nos gabinetes de Henrique Bertaso e Érico Verissimo.

           Além dos gabinetes da administração, havia, no mesmo piso, uma sala ampla compartilhada por alguns setores da editora: secretaria geral, organização de originais, alguns tradutores e a revisão. Nos fundos, funcionava o departamento de informações literárias, que tinha por chefe Antônio Barata, o qual, nos anais da casa, desde a visita dos ingleses, passou a ser conhecido como "Lorde Beavenbrook dos Pampas".

           Em 1930, Henrique Bertaso propôs a seu pai organizar, com a ajuda de Érico Verissimo, uma seção editora, partindo de algumas idéias de Mansueto Bernardi, no sentido de que a Livraria do Globo traduzisse por conta própria e apresentasse aos leitores brasileiros obras de autores europeus. O velho José concordou, embora sem grande entusiasmo. Henrique e Érico montaram, de início, um plano razoavelmente ambicioso, e as primeiras contratações foram efetuadas, dando ênfase a uma série de volumes policiais e de livros infanto-juvenis, além de outra de livros didáticos, que também começaram a ser publicados. O empenho dos dois e a acolhida favorável do público aumentaram o lançamento de novos títulos, o que tornou necessária a criação de um departamento de divulgação. Afinal de contas, a editora estava se expandindo.

            Divulgar livros por meios publicitários, ou mesmo fazer anúncios em jornais, era algo muito dispendioso. Onerava demais o produto, pelo simples fato de que o preço de venda não comportava qualquer parcela extra sem tornar-se proibitivo. Foi criado, então, o departamento de divulgação literária (DIL), que pretendia funcionar, entre outras coisas, como uma agência de notícias. Em vez de cobrar pelos seus serviços, permutava por espaço publicitário, com mais de trezentos jornais e revistas espalhados pelo Brasil, artigos, crônicas, contos traduzidos de jornais estrangeiros e de livros cujos direitos haviam sido adquiridos pela casa.
           Num boletim que era enviado quinzenalmente para os assinantes, havia também uma coluna própria para preencher pequenos espaços em jornais, intitulada  "Você sabia que...'', onde se resumiam pequenos tópicos de informações históricas, geográficas e outras curiosidades. O que se exigia, em troca, dos órgãos de imprensa assinantes dos serviços prestados era que publicassem, gratuitamente, resenhas dos livros recém-publicados pela Globo e que estampassem o fac-símile das capas. Junto com o material do DIL, as resenhas e os clichês montados ou demonstrados das capas eram expedidos pelo correio.

            Na chefia dessa "cozinha'' de informações, desde fins de 1938, encontrava-se Antônio Barata, jornalista simpático e sempre sorridente, hábil e imaginoso tradutor. Se ele tinha alguma convicção ideológica, certamente pendia para a democracia. Por algum motivo nunca revelado, ele detestava o primeiro-ministro português, Antônio Oliveira Salazar, e seu regime ditatorial. Portanto, nos dias em que sua fúria anti-salazarista se encontrava em estado mais efervescente, invariavelmente iniciava a tradução de um artigo de Lorde Beavenbrook e, na primeira oportunidade que o texto lhe desse ensejo, fazia alusões de sua própria lavra contra o ditador português. Quando Henrique Bertaso e Érico Veríssimo ouviram o relato dos representantes do Império Britânico, temeram pelo pior. O mínimo que poderia acontecer seria um processo por perdas e danos, com uma pesada indenização. O prestígio da Globo estava em jogo. Tudo iria por água abaixo. Mas, felizmente, nada houve. Retomando a palavra, John Evans declarou a seus interlocutores que o governo da Sua Majestade não estava interessado em processar a Globo, que a linha política do responsável pelo departamento, o falso Lorde Beavenbrook, era bastante democrática. A única coisa que desejavam era que, dali por diante, mais nenhuma tradução fosse feita de qualquer artigo de Lorde Beavenbrook. E que o nome do magnata da imprensa inglesa não fosse usado nunca mais assinando artigos inventados pelo sr. Barata.

             Ao ser chamado ao gabinete de Henrique Bertaso, Antônio Barata foi apresentado aos ingleses e, com sua exuberante cordialidade, respondeu às perguntas que lhe foram feitas por Érico e Henrique, dizendo que, de fato, havia tomado algumas "liberdades literárias" ao traduzir os textos de Lorde Beavenbrook e que, positivamente, tinha a certeza de que Lorde Beavenbrook pensava como ele, pois Salazar não passava de um famigerado ditador, perseguidor da liberdade.

            — Bem, seu Barata, nós vamos conversar depois — e, entre muitos sorrisos e apertos de mão, o simpático Barata deixou o gabinete, prometendo nunca mais "traduzir" um artigo de Lorde Beavenbrook.

             O episódio Beavenbrook causou forte comoção, tanto em meu pai como em Erico Veríssimo, e de imediato procedeu-se a uma espécie de auditoria no DIL com relação a outras tarefas executadas por Barata. Descobriu-se, por exemplo, que o imaginoso Barata havia oferecido para publicação um original intitulado O Livro dos Piratas, como se fosse seu. Só que a autoria era de um escritor inglês, e ele acrescentou ao texto, como último capítulo, um conto de pirataria moderno, de sua autoria, envolvendo um avião e um transatlântico.

            O sorridente Barata explicou que a casa havia demonstrado interesse, e como o autor não respondera às consultas feitas sobre a cessão dos direitos, e estando sua tradução já adiantada, havia decidido apresentar-se como autor e resolver o assunto depois da guerra. Este seu último caso ficou conhecido como "O Livro das Baratas do Antônio Pirata".
Sempre me surpreendeu e intrigou a importância e excelência do conjunto de 
livros de uma editora fora do eixo Rio-São Paulo: a Globo de Porto Alegre.
Quando olho para os variados e indispensáveis dicionários da língua portuguesa ("Verbos e Regências", "Sinônimos e Antônimos", "Regimes de Substantivos e
Adjetivos" *, etc.) ou com as primorosas traduções (realizadas por renomados escritores brasileiros) dos grandes da literatura mundial... tudo isto soa extraordinário, muito mais que um magnífico catálogo de livros: trata-se da realização de um grande projeto editorial.
Assim, foi com alegria que me deparei em um sebo paulistano com um exemplar de
"A Globo da Rua da Praia", de José Otávio Bertaso, neto do fundador.
O livro é prefaciado por Luiz Fernando, filho de Érico Veríssimo, então editor (da Globo).  O que aqui  publicamos são alguns excertos
que deliciarão os apreciadores de livros e editoras.
(L.P.)

           
Quintana, na década de 40 e até meados da década seguinte, perambulava pelos bares e volta e meia era encontrado em estado lastimável. Certa vez, em seu quarto de pensão, traduzindo um dos volumes de Proust, deixou sobre a mesa mais da metade da sua produção cuidadosamente manuscrita e esqueceu a janela aberta. Voltando de madrugada de mais uma noite de boêmia, se deu conta de que uma súbita ventania, seguida de uma forte chuva, havia espalhado pelos pátios de sua pensão e galinheiros circunvizinhos mais de duzentas laudas do seu trabalho. De outra feita, numa das famosas macarronadas na casa de Fernando Lambiase, no final do jantar, viu-se envolvido numa brincadeira iniciada por Hamilcar de Garcia. O irrequieto Hamilcar apanhou um ovo de avestruz e começou a jogá-lo como se fosse uma bola de futebol americano. Ao passá-lo para Quintana, este não esboçou nenhum gesto de segurá-lo e o ovo pré-histórico de Fernando Lambiase esborrachou-se em cima da mesa, esparramando o seu conteúdo gosmento e tremendamente fétido. Segundo relato de meu pai, praticamente todo mundo sentiu-se mal, vomitando pelos cantos. A única pessoa que se manteve impassível, como se nada tivesse acontecido, foi o poeta, que solicitou ao dono da casa permissão para banhar-se e o empréstimo de uma camisa limpa.

                Devido aos contínuos excessos etílicos de Quintana, seus amigos conseguiram convencê-lo de que deveria internar-se numa clínica para desintoxicar-se. A partir de sua internação, felizmente, depois de duas ou três recaídas ele deixou de beber. Todos os meses, isto lá por volta de 1954, durante sua internação, meu pai me encarregava de visitá-lo em sua clínica para entregar-lhe uma determinada quantia. Detalhe que nunca esqueci era que, depois de um bate-papo de dez ou quinze minutos, para assinar o recibo Quintana colocava seus óculos de aro de tartaruga emendados no meio com uma tira de esparadrapo.

               Nos primeiros anos da década de 40, editamos em nossa coleção Nanquinote, ilustrada por Edgar Koetz, seu primeiro livro infantil, intitulado Batalhão das Letras, que foi desaconselhado pelos mentores da Secretaria de Educação e Cultura por conter a seguinte quadrinha:

                             - Com  x se escreve xícara
                             com x se escreve xixi
                             não faças xixi na xícara
                             o que irão dizer de ti?

Provavelmente os educadores daquela época acharam que o livro de Quintana era um manual de maus costumes.

               Costumávamos nos encontrar na casa de Erico Veríssimo, e numa determinada ocasião, segundo lembrança de Sérgio Faraco, Quintana manteve-se silencioso, mal-e-mal abrindo a boca para dizer sim ou não. Segundo Faraco, ao contrário de Quintana eu estava eufórico, comentando com grande entusiasmo o sucesso que o recém-lançado Incidente em Antares vinha obtendo. Lá pelas tantas, o poeta levantou-se, apresentou suas despedidas e, acompanhado por Faraco, preparou-se para deixar a casa dos Veríssimo.
Já na porta, ao se despedir de Quintana, Erico comentou o fato de o poeta ter se mantido tão silencioso.
— Ora, seu Érico — respondeu-lhe Quintana —, vim esta noite aqui para falar mal do José Otávio Bertaso e veja só quem eu encontro: o próprio, falando pelos cotovelos. Vou voltar outro dia, isto é, se o senhor me garantir que o José Otávio estará ausente.

                Quando a editora se mudou para o bairro Menino Deus, em 1971, seguidamente Mario Quintana vinha nos visitar, e suas visitas eram realmente uma festa. Como velho conhecido da casa, fazia questão  de conversar com todos os chefes de departamento e seus auxiliares. No departamento de divulgação e vendas com Josefina Gama, no departamento de artes com João Braga e, depois, Leonardo Mena Barreto Gomes, na contabilidade com Osmar Casa (sobre
a situação de sua conta de direitos autorais) e, finalmente, antes de entrar na minha sala para saborear um cafezinho que, segundo ele, era feito com a tinta e a aguarrás que sobravam da impressão de seus livros, conversava tímida e longamente com Maria da Glória Bordini.
Lembro-me de um final de tarde, em meados do outono de 1975, quando nos levou os originais de seu novo livro, Apontamentos de História Sobrenatural. Da minha sala, situada no sexto andar do prédio que ocupávamos no Menino Deus (cada andar tinha o pé-direito com mais de 3 metros), descortinava-se uma vista maravilhosa. De um lado, o sol declinava mergulhando no Guaíba. À nossa frente, a cidade. Pousando o original de seu novo livro em minha mesa, Mario dirigiu-se à janela e nos disse, como se nunca tivesse se apercebido antes:
              — Que belo mapa da cidade.

              Levantei-me junto com Maria da Glória, fomos para o seu lado e ouvi-o repetir:

              — Que belo mapa da cidade.

             Efetivamente, do nosso lado esquerdo uma avenida seguia em direção ao centro, com as suas transversais que desembocavam numa outra avenida à nossa direita, com palmeiras nos canteiros do centro. O que aconteceu depois naquele final de tarde me deixou muito impressionado. Enquanto voltava para minha mesa para atender o telefone e Maria da Glória saía da minha sala para instruir Carmem Lannes sobre os termos do contrato, o poeta sentou-se à mesa de reuniões e começou a rabiscar algo num bloco. Falando ao telefone, vi Maria da Glória voltar à minha sala alguns minutos depois com a cafeteira e servir o poeta, que aproveitou a pausa para acender um novo cigarro. Ato contínuo, Maria da Glória sentou-se à mesa de reuniões e permaneceu muda enquanto Quintana rabiscava no bloco. Finalmente, depois de anotar uma solicitação de Antônio Leite ao telefone, ouvi uma gostosa gargalhada. Era o poeta exultante, acompanhado de um "Meu Deus!" de Maria da Glória. Exclamava ele:

             — Acabei de produzir uma poesia, O Mapa, para o meu novo livro.

             Não entendendo bem o que estava se passando, tecebi das mãos de Maria da Glória uma folha manuscrita com uma explicação muito agitada: "José Otávio, o Mario escreveu um poema inspirado naquilo que viu da tua janela''.  Juntando-me a eles na mesa de reuniões, li sem dificuldade o que Quintana escrevera e que pretendia acrescentar ao original que repousava em minha mesa. Eis seu
O Mapa, que está na página 143 de seu livro Apontamentos de História Sobrenatural, publicado por nós no outono do ano seguinte:

                        Olho o mapa da cidade
                        Como quem examinasse
                        A anatomia de um corpo...
                        (E nem que fosse o meu corpo!)

                        Sinto uma dor infinita
                        Das ruas de Porto Alegre
                        Onde jamais passarei...

                        Há tanta esquina esquisita,
                        Tanta nuança de paredes,
                        Há tanta moça bonita
                        Nas ruas que não andei
                        (E há uma rua encantada
                        Que nem em sonhos sonhei...)

                        Quando eu for, um dia desses,
                        Poeira ou folha levada
                        No vento da madrugada,
                        Serei um pouco do nada
                        Invisível, delicioso

                        Que faz com que o teu ar
                        Pareça mais um olhar,
                        Suave mistério amoroso,
                        Cidade de meu andar
                        (Deste já tão longo andar!)

                        E talvez de meu repouso...
                                    
                                            *

                       Ante os meus grunhidos de satisfação e espanto, Mario Quintana mantinha no rosto uma expressão zombeteira de um veterano feiticeiro demonstrando suas artes mágicas. Confessei-lhe que nunca tinha visto alguém produzir um poema de maneira tão rápida. Achava que a poesia só poderia ser concebida à noite, à luz de uma lua cheia ou de um toco de vela.

                      — Ora, ora, José Otávio — confidenciou-me o poeta —, a poesia brota do nada, duma lufada de vento, de um raio de luz. Poderia prosseguir te dando uma série de exemplos. Bastou olhar para a seqüência de ruas que se vê da tua janela e de ter visto na sala da Josefina o mapa da cidade que o velho Klettner desenhou para vocês, para eu fazer a associação. E por coincidência tinha à minha disposição o bloco e a esferográfica em cima da mesa.

                      Após assinar o contrato, o meu querido amigo tirou da carteira um recorte de uma edição da Manchete de 1966 e pediu-me para transcrever nas orelhas de seu Apontamentos de História Sobrenatural uma carta que Paulo Mendes Campos lhe havia escrito. Quintana estava muito sensibilizado pelo depoimento de Mendes Campos, que assim descrevia sua poesia: "Os objetos que te impressionam são comuns: a caneta com que escreves, os telhados, as tabuletas, a vitrine do bric. Teus animais são os próximos do homem: boi, cavalo. As sensações que te fazem pulsar são as mais cotidianas: como a de um gole d'água bebido no escuro. Os sons que te ampolgam são ritornelos da infância ou o fundo suspiro que se some no ralo misterioso da pia. Os mitos que te assombram são os mais familiares: Anjo da Guarda, Menino Jesus, Frankenstein, Sindbad, Jack o Estripador, Lili, Tia Elida, o major Pitaluga, o retrato do marechal Deodoro proclamando a República..." Mais adiante: "Como fazer desses elementos uma grande poesia? Só há um jeito: deles reproduzindo não o traço descritivo mas o contorno de uma contraimagem. E isso é a tua poesia". E continua: "Uma vez, iluminado, um amigo me contou que esta vida, a nossa vidinha terrestre, também é sobrenatural: Guimarães Rosa vive o mistério de aquém-túmulo; Bandeira pensa que tudo é um milagre, menos a morte. Teus quintanares, poeta, são dessa mesma linha: não decifram, denunciam o mistério".

               Após
Apontamentos de História Sobrenatural, Quintana ainda produziu sucessivamente: Da Preguiça Como Método de Trabalho, Baú de Espantos, Nova Antologia Poética, Na Volta da Esquina, 80 Anos de Poesia, Preparativos de Viagem, Porta Giratória e A Cor do Invisível.

                Em maio de 1985, atravessando pachorrentamente a rua da Praia, segundo suas próprias palavras, o disttaído poeta atropelou um carro que estava estacionado. Caiu e fraturou a bacia. Depois que foi socorrido e operado, fui visitá-lo com meu irmão Fernando no hospital da PUC. Nesta visita, num bate-papo entremeado de muitas risadas, sua sobrinha Helena nos informou que o poeta estava interessado em produzir um Diário Poético. Cada dia do ano teria uma quadrinha e espaço em branco para o leitor rabiscar anotações e até mesmo escrever poesia. Achamos a idéia formidável e, no próprio hospital, Mario começou a trabalhar com muito afinco. Entregamos a editoração e a seleção das quadrinhas, por indicação de Helena Quintana, a Maria Cecy Barth, e depois de algumas trocas de alfinetadas o poeta e a organizadora chegaram a um acordo. Mesmo correndo contra o tempo, conseguimos colocar seu primeiro Diário Poético à venda na Feira do Livro daquele ano. No dia do lançamento, que aconteceu uma semana depois da inauguração da feira, amparado numa bengala, um satisfeito Mario Quintana, toda vez que era interpelado por alguém, indagava:

              — Você já comprou o meu Diário? Gostaria de autografá-lo. Em suas duas horas de caminhada visitando os diversos estandes, naquele dia do lançamento vendemos perto de duzentos exemplares. Numa semana, foram-se 5 mil exemplares em todo o brasil.

               Quando, em 1988, a Livraria do Globo deixou de participar da Feira do Livro, um indignado repórter indagou ao poeta sobre o que ele achava do não comparecimento da livraria à feira da praça.
— Fazem muito bem, pelo menos lá na livraria, a duas quadras daqui, os clientes estão abrigados da chuva e recebem os mesmos 20 por cento de desconto.

                No dia anterior, um violento temporal de fim de tarde havia derrubado meia dúzia de barracas e encharcado algumas centenas de livros, além de ter espantado os bebedores de cerveja do barzinho da feira.
E-Mail :
(*) Uma amostra dos tempos de ouro da Editora Globo de Porto Alegre. Grandes investimentos relacionados ao ensino e apuro da língua portuguesa representaram um aumento qualitativo de leitores ao longo de décadas.
Mário Quintana
ministra uma bela aula
de geografia poética.
(pg. 198-200 de "O Globo da Rua da Praia" )