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Instituto René Guénon de Estudos Tradicionais
O presidente Lula beijou a mão de Jader Barbalho
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Luiz Pontual
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            O título acima não pretende, é claro, ser noticioso. Todo mundo sabe, exceto algum possível ex-lulista, que pode agora estar internado numa clínica para pacientes mentais com amnésia traumática, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, sim, aquele mesmo, beijou a mão de Jader Barbalho, que desta vez não estava algemada. Na mesma ocasião, gabou-se alegremente de haver dado uma aula de ciência política, não só com esse gesto, mas com sua convivência amiga com muita gente de que até ele mesmo, em sua possível condição de presidente mais traído 'na História deste país', dizia ter-se afastado.

            Não, o título é para reforçar uma família de provérbios que me tem sido muito útil vida afora. Quem te viu, quem te vê; nada como um dia depois do outro; o mundo dá muitas voltas; e, finalmente, os dizeres proféticos do Barão de Itararé: 'Queres conhecer o Inácio? Coloca-o num palácio.' Se me contassem sem confirmação, eu duvidaria, acharia má vontade excessiva contra Lula. Se fosse eu a contar, um petista aguerrido poderia querer até me justiçar, por crime de lesa-santidade. Mas agora está aí, Lula beijando a mão de Jader.

            Deve ser a segurança da vitória que o faz ver-se no direito de afrontar não só o seu passado, já suficientemente enxovalhado, como aqueles a quem devia respeitar e nestes não incluo somente os que o têm em alta conta ou o aprovam, mas todos os brasileiros. Deboche também não, curtir assim com a cara da nação já está demais. Que é isso? Nenhum princípio vale mais? Nenhuma convicção resiste à conveniência, a ponto de o presidente, segundo expressão literal de petistas e mais ou menos dele também, beijar a mão que mexe na merda? Pois, se não se pode fazer política sem meter a mão na merda, muita merda haverá de ter remexido Jader Barbalho e assim beijou merda o presidente - e eu me julgava pelo menos cidadão de um país onde o presidente não beija merda com tal desplante e desprezo por suas convicções, hoje se vê que mentirosamente apregoadas. Nós todos somos presididos por ele e merecemos respeito, não a desfaçatez de quem pode fazer o que quiser, inclusive essa cafajestada, porque nele não pega nem pode pegar nada, se bem que um dia depois do outro valha para todos e tudo. Às vezes penso que ele está tendo um surto de mania, com a virtual garantia de sua reeleição e com o fato de que agora, para o campo dele, tudo que se diga ou faça contra ele é golpismo.

            Se, por um acaso hoje visto como praticamente impossível, ele perdesse a eleição, ah, seria golpe. Gozado que quem tem expressado idéias golpistas, bonapartistas, personalistas e antidemocráticas é ele, que devaneia com a durabilidade de uma ditadura africana, acha moleza administrar a China porque lá não há democracia e pensa até sonhadoramente num país sem Congresso, pois não satisfazem as medidas provisórias que ele disse que não ia usar, mas usa mais do que qualquer outro. As elites, contudo, não o suportam. Que elites, meu Deus do céu, pela enésima vez? Só se foi alguma grã-fina que o esnobou ou algum casamento de zilionária para o qual ele não foi convidado, porque as elites não só se dão bem com o governo dele, como vivem almoçando com ele e lhe tascando elogios por todos os lados. Mas a realidade não importa, o que interessa são as frases de efeito, para provar que a elite não tolera ser governada por um operário, afirmação claramente desmentida pelos fatos, a não ser pela alegável circunstância de que não há governo nenhum e, portanto, nada pode existir contra ele. E serve para o caso da improbabilíssima derrota dele, que, se sobrevier, terá sido porque as elites manipularam as urnas eletrônicas. Golpismo óbvio. Ou seja, tudo o que não interessar à reeleição de Lula é golpismo. E, se ele perder, o povo (ele dispõe de apoio de movimentos organizados e experientes em trazer o 'povo' para as ruas) virá pôr as coisas em seu devido lugar.

              Não fiquei nem um pouco impressionado com o caso do dossiê ou dos ministros cujos telefones estavam grampeados. O caso do dossiê já foi devidamente classificado com o rótulo oficial da campanha Lula para qualquer oposição: golpismo. O presidente e seu partido já emitiram o que podia tornar-se o moto do governo: não vi nada, não sabia de nada. Além disso, nada mais chama a atenção, neste clima em que os modernos palácios de Brasília parecem conter socavões sinistros, cafuas enfumaçadas e malcheirosas, escondendo em cada canto uma manobra delinqüente, furtando o país ou desmoralizando suas instituições. De repente aparecem figuras surgidas não se sabe de onde, com nomes estranhos como Delúbio, Valdebran ou Gildemar, além de Freud, metidas nesse mesmo mundo penumbroso e miasmático a que nos vamos nos acostumando e descobrimos que essas assombrações fazem parte da máquina que está no poder e manda em nós. Isto já é parte da era Lula, que certamente já pode ser caracterizada como a era em que o gangsterismo mostrou abertamente sua cara em toda a nossa vida pública.

             Não, tudo isso é triste e inquietante, mas, sinceramente, o beija-mão foi pior. Já desiludido com Lula e seu governo, já desanimado diante destas eleições tão chochas, pelo menos acreditava em alguma coisa. E acreditava que o presidente também acreditava em alguma coisa, não era uma massa amoldável a qualquer fôrma, um cínico capaz de debochar de todos os que puseram fé nele, até porque sabe que continuarão pondo fé, porque precisam dessa religião que erigiram. Não, não acho que o presidente deu uma aula de ciência política. Que aula eu sei que ele deu não poderia dizer aqui, porque seria xingamento, injúria que não posso cometer contra ninguém, muito menos o presidente da República. Mas acho que muitos de vocês também estão achando o que eu acho que ele é.

             E agora podemos dizer que já vimos tudo neste mundo.
João Ubaldo Ribeiro
João Ubaldo Ribeiro, a quem conheci em Salvador nos idos de 1976, começou carreira como jornalista e consagrou-se como escritor. Até recentemente, isto é, há quase quatro anos, defendia idéias muito semelhantes às do PT. Assim como muitos outros da mesma geração, ante a sucessão de escândalos e, especialmente, ante o desmascaramento de um projeto totalitário de poder, passou a produzir algumas crônicas que tocam profundamente os muitos desiludidos que "não tiveram medo de ser felizes".
Pelo menos cinco merecem registro pois entraram para a antologia das mais
nítidas e sagazes destes tempos crescentemente sombrios.
Clóvis Rossi e a Folha de São Paulo, por muito menos, hoje estão sendo interpelados judicialmente pela "organização criminosa" que dirige o Brasil; mas em relação a Ubaldo,  o torneiro e seus apaniguados
preferem nem tocar, pois sabem que suas crônicas são irrespondíveis.

São Paulo, 30 de setembro de 2006.
                                                                                                                         Luiz Pontual
Publicado no "O Estado de São Paulo"
de domingo, 22-09-2006