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Instituto René Guénon de Estudos Tradicionais
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Uma estranha aventura
nos mares do sul

                                                      
                                                   
      O VENTO soprava. As nuvens escondiam o Sol. O mar estava agitado, havia rajadas
violentas e cortinas de chuva. Aquele não era o Pacífico Sul dos livros de viagens. Eu era passageiro do Chicot, um cargueiro de 3.900 toneladas que servia o Território Tutelado das Ilhas do Pacífico—uma imensa área que pertencera ao Japão e agora é Território Tutelado das Nações Unidas, sob a administração dos Estados Unidos. Solitários em um mundo de água, estávamos a 11 dias de Guam, no rumo de Truk, nas Carolinas Orientais. Naquela manhã eu havia acordado muito cedo, com a luz cinzenta da alvorada filtrando-se através da vigia de meu camarote. O navio estava diminuindo a marcha, parando no oceano deserto.

      Três minutos depois eu me achava no tombadilho. Nunca vira mar tão grosso como aquele; à medida que perdia a velocidade, o Chicot jogava ainda mais e oscilava nas ondas agitadas. O Comandante Edward A. O'Neill II, na ponte de comando, fêz-me sinal para que fosse reunir-me a êle.

      —Olhe ali—disse, indicando qualquer coisa.

      Olhei, mas nada vi, até que êle me passou o binóculo e me orientou melhor. Então vi: era uma canoa. Voltei-me para êle, incrédulo: —Não é maior do que um tronco! —Tem razão. Um tronco cavado e um mastro. Deve ter uns seis metros de comprimento. Mesmo num lago pareceria bem pequena. Na vastidão do Pacífico não chegava a parecer um bote de brinquedo, apenas uma lasquinha de madeira, um pontinho flutuante. Do tombadilho do Chicot nós olhávamos aquilo como se fosse uma aparição do outro mundo—o que, de certo modo, era.
Percebi que havia homens a bordo da canoa, movendo-se como formigas numa fôlha jogada na correnteza. Mas eles não faziam qualquer sinal. Estariam em dificuldade?

       —Se não estão em apuros—comentou O'Neill—então não sei o que é apuro.

       O Chicot manobrou de forma que as ondas  e o vento impelissem o pequeno bote na nossa direção. Como todas as canoas da Micronésia, aquela contava com um dispositivo de contrabalanço; sem esse elemento de equilíbrio, ela teria ido ao fundo em um instante. No centro da embarcação, sobre uma plataforma amarrada aos suportes do contrabalanço, havia uma cobertura baixa de palha e folhas. Acima desta erguia-se o mastro sem vela.
Havia momentos em que, quando as ondas subiam mais, só o mastro ficava visível. Depois o resto surgia de novo e podíamos divisar os cinco ocupantes do bote. Embora parecessem abatidos e maltratados pelo tempo, todos estavam trabalhando: um homem ao leme, os outros baldeando água. Um deles era velho, outro de meia-idade e os três restantes pouco mais que garotos. Como vestimenta tinham todos eles apenas uma tanga vermelha.

         Dentro de dez minutos estavam junto ao costado do Chicot, que se balouçava com os motores parados. A canoa parecia ainda menor sob a montanha negra do casco do navio.
O imediato, Stanley Gilje, estava no tombadilho da proa, diretamente acima da canoa. Iniciou-se então um colóquio, no qual membros de nossa tripulação serviam de intérpretes. Parecia que os náufragos não estavam muito seguros de quererem ser socorridos.
         Para onde nos dirigíamos ? —perguntaram. Para Truk, gritou alguém. Depois de mais um pouco de conversa, o imediato informou:

        —Tudo combinado. Eles dizem que virão para bordo, se a canoa vier também.

        —Isso é muito amável da parte deles—observou o comandante.—Está bem. Icem a canoa. Os guinchos foram postos em ação e os paus de carga moveram-se lá em cima. Foram arriadas duas lingas de arame e passadas por baixo da canoa, e amarrou-se uma corda ao contrabalanço para manter o equilíbrio. Quatro dos ocupantes agarraram-se à escada de corda e subiram. O mais velho, porém—o timoneiro —resolveu acompanhar sua embarcação até ao fim. Os guinchos funcionaram outra vez e a canoa foi içada para o tombadilho.

        O velho continuava sentado na popa, circunspecto e imóvel. De um cordão em torno do pescoço pendia-lhe um objeto reluzente, que eu pensei que fosse, um amuleto, mas que depois verifiquei ser um abridor de latas comum. Sobre os joelhos êle segurava cuidadosamente uma bússola toda enferrujada.

       Tão logo a canoa pousou no tombadilho, os outros quatro náufragos se juntaram ao velho timoneiro. Nós ficamos parados, olhando para eles, como matutos numa feira de amostras.
A embarcação media, como nos parecera, uns seis metros de comprimento e não era feita de um só tronco, mas de pranchas da árvore de fruta-pão, ligadas por uma argamassa de coral moído e por tiras de fibra de coqueiro, sem um único prego em todo o conjunto. A canoa propriamente era estreita e funda - uma simples ranhura, onde um homem podia apenas agachar-se ou ajoelhar. O abrigo, sobre os suportes do contrabalanço, não tinha mais de um metro quadrado, com menos de 50 cm. de altura. Dois homens no máximo—acocorados e bem juntos—podiam caber lá dentro ao mesmo tempo, para abrigar-se ou dormir.

         A vela—uma peça encharcada, de lona azul—estava entalada sob uma travessa perto da proa. Não havia sinal de alimentos; viam-se apenas uns pedaços de carvão, além de algumas vasilhas amassadas e cascas de coco, que com certeza serviram muito mais para tirar água de dentro do bote do que para comer. Ali mesmo, a bordo do Chicot, a canoa ainda tinha uns 30 centímetros de água, e seus proprietários não paravam de baldeá-la. No meio do mar devia ser—segundo a comparação de nosso imediato—"como uma banheira com as torneiras abertas".

          Terminada a faina de baldear a água, os cinco homens estenderam a vela para secar, inspecionaram as juntas do casco e apertaram as tiras de fibra. Toda a preocupação deles se concentrava na canoa. Incrivelmente, nenhum parecia necessitar de cuidados médicos. Entretanto, era óbvio que estavam famintos. Tendo verificado que sua embarcação se encontrava em boa forma, eles finalmente consentiram em fazer uma visita à cozinha.

          Arranjaram-se umas peças de vestuário para substituir suas tangas encharcadas. Depois de alguma insistência, nossos hóspedes se revelaram suficientemente humanos e foram descansar um pouco. Mais tarde, sentamo-nos com eles e, com o auxílio de um intérprete, ouvimos a sua história. O mais velho—o timoneiro—era o único que falava. Chamava-se Sernous; os outros pertenciam a seu grupo familiar ou clã. Vinham todos do atol de Pulap e se dirigiam para Truk.

         De Pulap ... na canoa ? O comandante abriu um mapa.
         —Mas Pulap—comentou êle—fica a 300 milhas para leste, e Truk fica 150 milhas além de Pulap. Quer dizer que vocês estavam perdidos? —Não, nós fomos desviados do rumo pelo vento. Eles estavam no mar havia 30 dias. Sernous abriu três vezes suas calejadas mãos, mostrando todos os dedos. —Trinta—repetiu. A viagem devia durar quatro dias... êle já a tinha feito várias vezes. Nessa, porém, encontraram fortes ventos e grandes vagas. Ademais, sua bússola se estragara. Era uma velha bússola de um barco de pesca japonês, e o álcool se escoara pelos interstícios. Talvez o comandante pudesse consertá-la.

         De qualquer modo, prosseguiu o homem, eles foram arrastados para oeste dia após dia. O vento soprava com tamanha violência que eles nada podiam fazer. Para não afundar,
tinham de baldear a água, por turnos, dia e noite. Mesmo assim, o Santa Maria estivera quase todo o tempo com a metade embaixo da água.

         Santa Maria era o nome da canoa ? Então, eles eram católicos ?

         Sim. Sernous baixou os olhos para seu abridor de latas, como se fosse crucifixo, e benzeu-se. E quanto à alimentação? Fomos informados de que, no começo, eles tinham cocos, inhame e fruta-pão, além de carvão e pederneira para fazer fogo. Quando os alimentos acabaram e o carvão se molhou, passaram a pescar, comendo os peixes crus. Tiveram sorte nas pescarias, chegando a apanhar, cerca de 30 peixes. . . quase um por dia. E tiveram sorte também com a água, conseguindo recolher da chuva o suficiente para matar a sede. O pior eram as noites, pois eles estavam sempre encharcados e com frio.

         Sabiam onde se encontravam quando os recolhemos ?

         Claro! Tinham esperança de alcançar o atol de Ifalik, no distrito de Yap.
         —É naquela direção—disse Sernous, apontando para noroeste.

        O comandante e o imediato acenaram com a cabeça, divertidos. Ifalik ficava realmente "naquela direção", a umas 35 milhas, pelo registro de bordo, do ponto onde os tínhamos avistado, e a quase 5OO de seu destino, Truk. Mais tarde, comentamos o que teria sido de nós, física e emocionalmente, depois de 30 dias naquela casquinha, no meio do oceano, e qual teria sido a nossa reação ao sermos recolhidos. Enquanto contava sua história, o velho timoneiro de Pulap nem sequer alterou o diapasão da voz.

        Seus companheiros também não demonstravam a menor emoção. Eles tinham ficado perdidos no mar. Ora, milhares de sua gente, ao longo dos séculos, se tinham perdido também; alguns foram encontrados, outros não; muitos eram arrastados para longe, até à Nova Guiné ou às Filipinas.

         Trinta dias, 500 milhas... o que era isso? Nada. A resposta estava naqueles nervos relaxados, na placidez daqueles olhos castanhos. Sernous estava falando de novo, e o intérprete disse:
  
         —Ele pede licença para voltarem agora a trabalhar na canoa. Querem que ela fique bem forte e não faça água na viagem de volta, de Truk para Pulap.

          —Pois não—concordou o Comandante O'Neill.
          Depois, não pôde refrear a curiosidade :

          —Pergunte-lhes por que todo esse interesse em ir até Truk.
          Sernous respondeu e o intérprete explicou:

          —Eles iam comprar cigarros.

          —Só para isso ? Comprar cigarros ?

          —Sim. Cigarros. Eles dizem que não precisam de mais nada.

          Oferecemos um pacote para cada um e, durante o resto da viagem, nossos hóspedes fumaram ininterruptamente enquanto trabalhavam no Santa Maria. Não nos disseram qual a marca que pretendiam comprar. Mas não houve reclamações.






"Se não estão em apuros", comentou o nosso comandante, "então não sei o que é apuro"

por 
James Ramsey Ullman
autor de
"Tigre das Neves" e outras obras.
Condensado de "Holiday" e publicado na
"Seleções do Reader's Digest" (*), dez., 1960, pp. 59-63
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