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"Você ainda acredita em democracia?"
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Instituto René Guénon de Estudos Tradicionais
Textos de
Luiz Pontual
        

        
Do you still
believe in Democracy?
Você ainda
acredita em democracia?
Capítulo III

Resgate da Verdade

                
Quando demonstramos que os fundamentos da democracia são absurdos e falsos, mencionamos que a natureza de cada indivíduo é necessariamente diferente da dos outros e que nenhum tipo de maioria se presta a avalizar seja o que for, de qualquer ponto de vista.

                 Dissemos ainda que existe uma hierarquia perfeitamente natural entre os homens e que o intelecto (e, principalmente, o Espírito, que está acima de tudo) é sempre mais importante que a força bruta. O pensamento prevalece sobre a força: é o que está expresso simbolicamente na famosa esfinge egípcia, em que o rosto humano (a sabedoria) domina o corpo de leão (a força). É o mesmo que dizer que o pensamento deve anteceder e orientar a ação. Estas são verdades tão velhas quanto o mundo.

                 Se levarmos esse conceito às últimas conseqüências, veremos que a própria filosofia, como admitem Platão e Aristóteles, depende de algo superior, que é a metafísica, isto é, o conhecimento transcendente: chegamos assim a um ponto decisivo, que são as religiões e as doutrinas orientais.

                 O homem moderno, no Ocidente ou no Oriente, é, por definição, um materialista prático; isto não o impede de ser sentimental e emocional, antes pelo contrário. Em sua orgulhosa ignorância, ele imagina ter “superado” o que considera um atraso – as religiões e doutrinas – continuamente  destruídas pela ciência moderna e o progresso.

                  O homem moderno despreza a Igreja Católica Romana e proclama-se um evolucionista que “ama a humanidade” acima dos dogmas e “ditaduras” religiosos. Não sabe que o Vaticano II (1962) foi uma conspiração tramada para deturpar e falsificar os pilares e a estrutura da Igreja Católica Romana, uma modernização que lhe custou a própria essência e seus sagrados fundamentos. Esta igreja, em sua atual forma, não pode mais ser considerada como tal e, portanto, não se presta a referências sérias. As Igrejas cristãs orientais, estas sim, ainda guardam importantes elementos ortodoxos.

                  Toda religião ou doutrina constitui um organismo vivo e não “letra morta”. Seu alimento é o Espírito ou, dito de outro modo, as influências espirituais. Sua arquitetura interna e forma exterior garantem a ligação entre o céu e a terra. A palavra “religião” significa restabelecimento de uma ligação, ou de modo mais simples, uma “religação” e se aplica propriamente ao judaísmo, cristianismo e islamismo (1): são as três florações do ramo Abraâmico. As doutrinas orientais, muito anteriores, jamais romperam com suas fontes originais (Hinduísmo e Taoísmo, por exemplo).

                  As modificações impostas pelo Concílio Vaticano II representaram a ruptura com as sagradas tradições tanto da arquitetura interna como da forma externa da religião Católica Apostólica Romana que, lamentavelmente, é hoje algo informe, morto, uma peça de museu, irreconhecível como tradição.

                  Para nos limitarmos ao Ocidente, podemos dizer que o Protestantismo (1517, com Lutero), em termos estritamente religiosos, é a proclamação da “independência” em relação ao cristianismo, um rompimento (um protesto, ou melhor, negação, como diz o próprio nome da seita) aberto com toda a hierarquia católica e seus postulados tradicionais. A finalidade deste “protesto” se ligava a interesses políticos e econômicos, patrocinados pela cobiça de príncipes e soberanos alemães (2). Era necessária a criação de uma pseudo-igreja que se deixasse submeter à tirania de tais interesses, uma vez que não poderiam, nas circunstâncias da época, simplesmente proclamar a morte de Deus e da Igreja.

                  “Não há autoridade no protestantismo, salvo a Bíblia – e esta fica sujeita ao livre exame”, isto é, à opinião subjetiva de qualquer um de seus membros; é claro que isto desencadeou a criação de inúmeras novas seitas, às centenas, todas elas inteiramente destituídas de regularidade ou eficácia, do ponto de vista tradicional e espiritual.

                  É sob o manto do protestantismo que o Ocidente moderno toma um rumo decididamente materialista, tendo como instrumento Lutero e seus mentores anglo-saxões; podemos dizer que os Estados Unidos, a Inglaterra, a França  e a Alemanha, entre outros países, são a “realização” do projeto laico implicado no protestantismo. O Bezerro de Ouro voltou aos altares. Não é por acaso que, segundo o jornalista Laurie Goodstein (3), pastores evangélicos de vários estados americanos, Frank Graham, Jerry Falwell, Pat Robertson e Jerry Vines, entre outros, apontam o Islã como “religião maldosa e perigosa, fraudulenta e agressiva” e traçam planos para converter os muçulmanos ao protestantismo.

                 No que respeita às demais religiões e doutrinas, o conhecimento do homem moderno é ainda mais limitado e  obscurecido por preconceitos. Repetindo os mais canhestros chavões ele pretende por fim a estes “anacronismos”, cujos fundamentos e alcance está muito longe de conceber. Por outro lado, curiosamente, é o primeiro a utilizar os “serviços terapêuticos” derivados de pseudo-religiões do tipo teosofismo e espiritismo (4), verdadeiros simulacros destinados a arrebanhar as classes média e baixa, desenraizadas de suas próprias tradições. Mais recentemente, com a homogeneização “cultural”, poucos escapam da mediocridade, não importando sua classe de origem.

                No entanto, como o homem moderno se julga um ser “racional” e, portanto, acima dos “fanáticos e ignorantes”, deveria respeitar ao menos suas próprias convicções, fazendo valer, por exemplo, a lógica em seus raciocínios.

                E é mediante a lógica que examinaremos, no próximo capítulo, o ponto fundamental de todas as religiões e doutrinas tradicionais, isto é, a existência de Deus ou do Princípio Único de todas as coisas.


                                                                               * * *

Notas:

1. Se considerarmos as várias vertentes ou formas tradicionais da humanidade, verificamos que as três religiões mencionadas representam potencialmente um grau limitado de realização espiritual. As doutrinas orientais, como o hinduísmo, taoísmo e outras formas esotéricas, além da “salvação da alma” (que é até onde chegam as religiões),  permitem a realização espiritual completa, isto é, a Identificação Suprema. Religiões e doutrinas orientais não se opõem: constituem dois âmbitos hierarquicamente distintos, porém complementares.
2. Ver, de  René Guénon,  Autorité Spirituelle et Pouvoir Temporel, pp 86-89,  Paris, 1984, Editions Vega.
3. The New York Times, (1º/jul/2003).
4. Ver, de René Guenon, Le Théosophisme, Histoire d’une Pseudo-Religion, Paris, 1982 e L’Erreur Spirite    Paris, 1984, Éditions Traditionnelles. É curioso observar que o “racionalista” moderno não hesita em freqüentar cerimônias  de “candomblé”, que são resíduos degenerados de tradições terminais africanas, ou de “ler a sorte” com o tarô, fragmento da decomposição de antigas tradições herdadas por “povos em tribulação”, neste caso, os ciganos.
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