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Luiz Pontual
        

        
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A morada da sabedoria
de Luiz Pontual
                                          
      
Quem poderia imaginar que as palavras “lar” e “lareira”, além de semelhantes, são aparentadas em sua significação ?

     Designam onde se faz o fogo , por extensão, o próprio fogo e - mais que isto - o fogo central, símbolo cosmológico da criação, em torno do qual tudo se ordena.

     Entre os índios Sioux, como nos relata Alce Negro ( Hehaka Sapa ) no incomparável livro The Sacred Pipe    a natureza é sagrada e impregnada de simbolismo ; cada objeto do cotidiano, desde uma lança até um pequeno pente, guardam também seu significado simbólico, isto é, aludem à uma ordem de realidade que lhes é superior.
É precisamente o que ocorre em relação à “morada”  ( Oca ) onde os índios moram e também no que respeita à situação geomântica  da própria aldeia, cuja localização nunca é aleatória ou ditada apenas por questões de sobrevivência física.

     Nesta perspectiva , é interessante observar o número de varas que fazem a armação de suporte da oca ou cabana : podemos contar 12  nas cabanas rituais - é o número dos apóstolos, do ciclo anual e dos signos zodiacais ; contamos 28 em outro tipo de cabana e aqui   refere-se ao ciclo lunar e ao conjunto de letras do alfabeto árabe e sânscrito, entre outros paralelos e correspondências tradicionais.

     Na cabana ritual, a entrada é sempre apontada para leste ( oriente, origem ) e em seu centro 4 pedras são aquecidas por um contínuo braseiro.

     Na oca doméstica, o centro destina-se ao fogo que se presta a cozinhar e aquecer... e recordar. O topo da cabana ( cônica ) possui uma abertura, por onde flui a fumaça ; é uma legítima e primitiva chaminé ( por onde se encaminha a coluna de fumaça ).

     O esquema gráfico de uma oca é um cone, isto é, um triângulo “em rotação” ; assim como a montanha, seu simbolismo refere-se à Unidade ( o ápice ou cumeeira ) e à multiplicidade ( os inúmeros pontos que configuram a base, de lado a lado ) ; o fogo  central representa o Sol ( ouro ) e a Origem Primordial  ; a fumaça, em coluna ascendente vertical,  simboliza a reintegração ao céu das partículas (multiplicidade) do mundo manifestado .

    O simbolismo do incenso, de fato, é precisamente este : o retorno (ascensão) da multidão indefinida de seres e coisas à sua Unidade primordial ou ao Grande Espírito, o Wakan Tanka dos Sioux.

    Podemos constatar, ainda nos referindo à Tradição Sioux, que a cabana é uma representação cosmológica  , isto é, a tradução da ordem cósmica em morada.

    Ainda que não tenhamos sabedoria  teórica ou metafísica , estar num lugar assim é especialmente agradável e mesmo arrebatador, dependendo da sensibilidade e “sintonia fina” de cada um. É como se houvesse uma linguagem ( e há ! ) arquitetônica que comunicasse instantânea e diretamente ao nosso coração todo um saber ; é a tradução da harmonia cósmica em proporções, ritmo e hierarquia de formas, matéria  e cores, acordes que ressoam e vibram até o Infinito.

    Ainda no âmbito de cabanas , podemos notar que os  nômades do Saara organizam o interior de suas tendas ao redor do permanente fogo central, onde uma chaleira fervente está sempre no ponto para  o chá . Nas tradicionais casas chinesas e japonesas tal característica é exaustivamente confirmada.

    Há, em contrapartida, lugares que nos transferem sensação de opressão, dissipação ou desconforto, sem que saibamos exatamente o porquê ; a arquitetura moderna, que orgulha-se em fazer oposição à natureza, considerada “selvagem, desordenada e cega”, é especialista em criar tais ambientes artificiais e notavelmente desagradáveis à vista e ao estar .

    O que justificaria, por exemplo, uma estupidez arquitetônica como o Masp? O edifício é um caixotão de concreto suspenso, “um dos maiores vãos livres do mundo!”, orgulham-se certos parvos; o material ali empregado  seria suficiente para quatro vezes a área do Masp efetivamente útil; a mania moderna de trocar os milenares telhados por lajes cria insolúveis  problemas de infiltração e controle de temperatura ; o desperdício, esforço e tensões produzidas por tal obra são visíveis  a qualquer um, pois o enorme caixote encontra-se
vergado , exigindo constantes e caríssimas reformas.

    Trata-se de um exemplo clamoroso de como a ausência de princípios conduz sempre a resultados desastrosos .   É claro que nos referimos a um caso particularmente infeliz - mas toda cidade moderna é opressiva também do ponto de vista arquitetônico, pelos motivos já expostos - e não é sem razão que quase todos querem fugir destes “cemitérios” nos feriados ou qualquer outra oportunidade que se apresente!

    A arquitetura muçulmana, por outro lado, traduz seus princípios religiosos ; uma janela ou porta certamente terá a forma de arco com ponta  , que reafirma a doutrina da Unidade -  o monoteísmo - que é fundamental no Islã ; a este respeito, é muito curioso que etnólogos e sociólogos não cansem de repetir que os “índios são politeístas ou adoradores do Sol”.

     Para os índios, o Sol simboliza o Princípio, o que é muito diferente de tomá-lo diretamente  por Deus ou Wakan Tanka. Sol é luz no sentido de irradiação da sabedoria. É ouro no sentido de imutabilidade ou qualidade permanente. O princípio da Unidade ( Deus Único ) é tão importante para os Sioux quanto para os muçulmanos ou para qualquer outra forma tradicional autêntica.

    Retomando nosso tema central,   o lar da sabedoria,   podemos inferir destas breves considerações a importância fundamental da arquitetura como expressão de um conhecimento transcendente. Quando temos o privilégio de conhecer uma morada deste  tipo ,  é fácil compreender  a verdade profunda contida na expressão em moda   “boas ou más vibrações”.

- Sabemos que uma mesma nota – a corda “ré” de um violão, por exemplo – quando tocada, faz vibrar , à distância ,a corda ré de um outro violão ; é o que podemos chamar de vibrações concordantes .

-  Há , na alma humana, “cordas” invisíveis que vibram quando tocadas por certos ritmos ( ou proporções arquitetônicas ) que transcendem o humano ; são como “ecos do Infinito” ou recordações ( a palavra corda de novo ! ) de uma origem celestial, solar, o fogo central ...

                                                                      - Sol....e Lar !

                                                                         * * * * *

                                                                                                                    São Paulo,  9 de Julho de 1999
LAR s. m. 1. Lugar na cozinha em que se acende o fogo; fogão. 2. Torrão natal; pátria. 3. Casa de habitação. 4. Família. S. m. pl. Nome dos deuses familiares e protetores do lar doméstico, entre os romanos e etruscos .
Notas:

(1) J. E. Brown, traduzido para o espanhol pela Ed. Taurus “Ritos Sioux” 1980.
(2) A geomancia ou geografia sagrada leva em consideração, entre outros critérios, a astronomia e o simbolismo da natureza, como rios , vegetação e topografia.
(3) A palavra cosmo designa “ordenamento” universal. Natureza  ( do grego , physis ) , etimologicamente, significa “aquilo que vem a ser”, isto é, o mundo manifestado .
(4) Metafísica : o que se encontra antes e acima da natureza.
(5) Museu de Arte situado à Avenida Paulista, em São Paulo,  em frente ao Parque Trianon.
(6) Refere-se ao  simbolismo do  triângulo, já mencionado no caso das cabanas Sioux, mas, aqui, com dois de seus lados em arco.

São Paulo, 9 de Julho de 1999
estudostradicionais@hotmail.com    luizpontual@hotmail.com