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Instituto René Guénon de Estudos Tradicionais

René Guénon


"Introduction Générale à l'Étude des Doctrines Hindoues"

Parte II, Capítulo III


O QUE É PRECISO
ENTENDER POR
TRADIÇÃO?



Paris 1921.
Edição atual: Maisnie-Trédaniel, 1983
                 Nos capítulos anteriores, ocorreu-nos frequentemente falar de tradição, de doutrinas ou de concepções tradicionais, e mesmo de línguas tradicionais, e é aliás impossível proceder de modo diferente quando se quer designar o que constitui verdadeiramente todo o essencial do pensamento oriental sob seus diversos modos; porém, o que é a tradição mais precisamente? Para afastar uma confusão que poderia acontecer, dissemos logo que não tomamos esta palavra no sentido restrito no qual o pensamento religioso do Ocidente opõe às vezes "tradição" e "escrita", entendendo pelo primeiro desses dois termos, de um modo exclusivo, o que foi tão somente o objeto de uma transmissão oral. Para nós, ao contrário, a tradição, numa acepção muito mais geral, pode ser tanto escrita quanto oral, apesar de que, habitualmente, senão sempre, ela deve ter sido antes oral na sua origem, como já foi explicado; mas, no estado atual das coisas, a parte escrita e a parte oral formam em
qualquer lugar dois ramos complementares de uma mesma tradição, seja ela religiosa ou não, e não temos nenhuma hesitação ao falar de "escritos tradicionais", o que seria
evidentemente contraditório se não atribuíssemos à palavra "tradição" sua significação mais especial; de resto, etimologicamente, a tradição é simplesmente "o que se transmite",
de uma maneira ou de outra.

              Além disso, é preciso ainda compreender na tradição, a título de elementos secundários e derivados, mas não menos importantes para se ter uma noção completa dela, todo o conjunto das instituições de diferentes ordens que tem seu princípio na própria doutrina tradicional. Assim encarada, a tradição aparentaria se confundir com a própria civilização que é, segundo certos sociólogos, "o conjunto de técnicas, de instituições e de crenças comuns a um grupo de homens durante um certo tempo"
(1); mas de que vale ao certo esta última definição? Para falar a verdade, não acreditamos que a civilização seja suscetível de se caracterizar comumente numa fórmula desse gênero, que será sempre ou muito ampla ou muito restrita em certos aspectos, correndo o risco de excluir elementos comuns a toda civilização, e de abarcar em contrapartida outros elementos que só pertencem propriamente a algumas civilizações particulares.

              Assim, a definição anterior despreza o que há de essencialmente intelectual em toda civilização, já que se trata de algo que não se poderia incluir no que se chama de "técnicas", que se diz serem "conjuntos de práticas especialmente destinadas a modificar o meio físico"; por outro lado, quando se fala em "crenças", acrescentando-se aliás que esta palavra deve ser "tomada no seu sentido habitual", há aí qualquer coisa que supõe manifestamente a presença do elemento religioso, o qual é, na realidade, específico de certas civilizações e não se reencontra em outras. É para evitar qualquer inconveniente desse gênero que nos contentamos, no início, em dizer simplesmente que uma civilização é o produto e a expressão de uma certa mentalidade comum a um grupo de homens mais ou menos extenso, reservando para cada caso particular a determinação precisa de seus elementos constitutivos.

                  Apesar disso, não deixa de ser verdade que, no que se refere ao Oriente, a identificação entre a tradição e a civilização por inteiro é, no fundo, justificada: toda civilização oriental, tomada no seu conjunto, nos aparece como essencialmente tradicional, e isto resulta imediatamente das explicações que demos no capítulo anterior. Quanto à civilização ocidental, dissemos que ela é ao contrário desprovida de qualquer caráter tradicional, com exceção de seu elemento religioso, o único que conservou tal caráter.
É que as instituições sociais, para poderem ser chamadas tradicionais, devem ser efetivamente ligadas, como ao seu princípio, a uma doutrina que também o seja, seja esta doutrina, aliás, metafísica, religiosa ou de qualquer outra natureza conveniente. Em outros termos, as instituições tradicionais, que comunicam seu caráter a todo o conjunto de uma civilização, são aquelas que têm sua razão de ser profunda na sua dependência mais ou menos direta, mas sempre desejada e consciente, em relação a uma doutrina cuja natureza fundamental é, em todo caso, de ordem intelectual; mas a intelectualidade pode estar em estado puro, e daí ficamos diante de uma doutrina propriamente metafísica, ou a intelectualidade pode muito bem estar misturada com diversos elementos heterogêneos, o que dá nascimento ao modo religioso e a outros modos dos quais uma doutrina tradicional pode ser suscetível.

                Como temos dito, no Islã a tradição apresenta dois aspectos distintos, dos quais um é religioso, e é este ao qual se liga diretamente o conjunto das instituições sociais, enquanto que o outro é aquele que é puramente oriental, verdadeiramente metafísico. Numa certa medida, houve algo desse gênero na Europa da Idade Média, com a doutrina escolástica na qual a influência árabe se verificou, aliás, fortemente; mas é preciso acrescentar, para não ir muito longe com as analogias, que a metafísica nunca foi tão nitidamente distinta como deveria ter sido da teologia, isto é, em suma, distinta de sua aplicação específica ao pensamento religioso, e que, por outro lado, o que se encontra de propriamente metafísico não é completo, permanecendo submetido a certas limitações que parecem inerentes a toda a intelectualidade ocidental; sem dúvida, é preciso ver nessas duas imperfeições uma conseqüência da dupla herança da mentalidade judaica e da mentalidade grega.

            Na Índia, estamos em presença de uma tradição puramente metafísica em sua essência, à qual vêm se acrescentar, como tantas dependências e prolongamentos, diversas aplicações, seja em certos ramos secundários da própria doutrina, como aquele que se liga à cosmologia, por exemplo, seja na ordem social, que é aliás estritamente determinada pela correspondência analógica estabelecida entre as respectivas formas da existência cósmica e da existência humana. O que aparece aqui muito mais claramente do que na tradição islâmica, sobretudo em razão da ausência do ponto de vista religioso e dos elementos extra-intelectuais que este implica essencialmente, é a total subordinação das diversas ordens particulares para com a metafísica, isto é, ao domínio dos princípios universais.

              Na China, a separação muito nítida de que falamos mostra de um lado uma tradição metafísica, e, por outro, uma tradição social, que podem parecer inicialmente não somente distintas, como o são, com efeito, mas mesmo  relativamente independentes uma da outra, mesmo porque a metafísica sempre permaneceu o privilégio quase que exclusivo de uma elite intelectual, enquanto que a tradição social, em razão de sua natureza própria, se impõe igualmente a todos e exige ao mesmo grau sua participação efetiva. Todavia, é preciso tomar cuidado com o fato de que a tradição metafísica, tal como é constituída sob a forma de "Taoísmo" é o desenvolvimento dos princípios de uma tradição ainda mais primordial, contida notadamente no Yi-King , e que é dessa mesma tradição primordial que decorre inteiramente, se bem que de um modo menos imediato e somente enquanto aplicação a uma ordem contingente, todo o conjunto de instituições sociais habitualmente conhecido sob o nome de "Confucionismo". Assim, encontra-se restabelecida, com a ordem de suas relações reais, a continuidade essencial dos dois aspectos principais da civilização extremo-oriental, continuidade que correria o risco de permanecer desconhecida quase que inevitavelmente, se não se soubesse remontar até sua fonte comum, isto é, até esta tradição primordial, cuja expressão ideográfica, fixada desde a época de Fo-Hi, se manteve intacta por um período de quase cinqüenta séculos.

             Após esta tomada de conjunto, devemos agora marcar de um modo mais preciso o que constitui propriamente esta forma tradicional especial que chamamos de forma religiosa, depois marcar o que distingue o pensamento metafísico puro do pensamento teológico, isto é, das concepções em modo religioso, e também, por outro lado, o que o distingue do pensamento filosófico no sentido ocidental desta palavra. É nessas distinções profundas que encontraremos verdadeiramente, por oposição aos principais gêneros de concepções intelectuais, ou antes semi-intelectuais, habituais ao mundo ocidental, as características fundamentais dos modos gerais e essenciais da intelectualidade oriental.




Nota:
(1) E. DOUTTÉ,    "Magie et religion dans l'Afrique du Nord",   Introdução,   p. 5.
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