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René Guénon

Os Estados
Múltiplos do Ser


Capítulos III e IV


(Tradução: Giuliano Morais)



"Les États Multiples de l'Être"
Paris 1932. Maisnie-Trédaniel, 1984
Continuação: Capítulo V
                                                           Capítulo III

                                                             
O Ser e o Não-Ser



              
No que precede indicamos a distinção entre as possibilidades de manifestação e as possibilidades de não-manifestação, umas e outras estando igualmente compreendidas, e sob o mesmo título, na Possibilidade total. Esta distinção se impõe a nós antes de toda outra distinção mais particular, como a dos diferentes modos da manifestação universal, quer dizer, das diferentes ordens de possibilidades que ela comporta, repartidas segundo as condições especiais às quais estão respectivamente submetidas, e que constituem a multidão indefinida dos mundos ou dos graus da Existência.

               Dito isto, se definimos o Ser, no sentido universal, como o princípio da manifestação, e ao mesmo tempo como compreendendo, por si mesmo, o conjunto de todas as possibilidades de manifestação, devemos dizer que o Ser não é infinito, posto que não coincide com a Possibilidade total; e isso tanto mais quanto o Ser, enquanto princípio da manifestação, compreende, com efeito, todas as possibilidades de manifestação, mas somente na medida em que elas se manifestam. Fora do Ser, há, por conseguinte, todo o resto, quer dizer, todas as possibilidades de não-manifestação, com as possibilidades de manifestação mesmas na medida em que estão no estado não-manifestado; e o Ser mesmo se encontra incluído nelas, já que, não podendo pertencer à manifestação, posto que é seu princípio, ele mesmo é não-manifestado. Para designar o que está assim fora e além do Ser, estamos obrigados, na falta de outro termo, a chamá-lo Não-Ser; e esta expressão negativa, que, para nós, não é, em nenhum grau, sinônimo de «nada» como parece sê-lo na linguagem de alguns filósofos, além de estar diretamente inspirada pela terminologia da doutrina metafísica extremo-oriental, está suficientemente justificada pela necessidade de empregar uma denominação qualquer para poder falar disso, junto à precisão, feita já mais atrás, de que as idéias mais universais, sendo as mais indetermináveis, não podem expressar-se, na medida em que são expressáveis, senão por termos que são, com efeito, de forma negativa, assim como vimos no que concerne ao Infinito. Pode-se dizer também que o Não-Ser, no sentido que acabamos de indicar, é mais que o Ser, ou, se quisermos, que é superior ao Ser, se por isso entendemos que o que ele compreende está além da extensão do Ser, e que ele contém em principio ao Ser mesmo. Mas desde que opomos o Não-Ser ao Ser, ou inclusive desde que os distinguimos simplesmente, isso é porque nem um nem outro são infinitos, posto que, desde este ponto de vista, limitam-se um ao outro de certo modo; a infinitude não pertence senão ao conjunto do Ser e do Não-Ser, posto que este conjunto é idêntico à Possibilidade universal.

                Também podemos expressar as coisas desta maneira: a Possibilidade universal contém necessariamente a totalidade das possibilidades, e podemos dizer que o Ser e o Não-Ser são seus dois aspectos: o Ser, na medida em que manifesta as possibilidades (ou mais exatamente algumas dentre elas); o Não-Ser, na medida em que não as manifesta. Por conseguinte, o Ser contém todo o manifestado; e o Não-Ser contém todo o não manifestado, compreendido aí o Ser mesmo; mas a Possibilidade universal compreende ao mesmo tempo o Ser e o Não-Ser. Acrescentamos que o não-manifestado compreende o que podemos chamar o não-manifestável, quer dizer, as possibilidades de não-manifestação, e também o manifestável, quer dizer, as possibilidades de manifestação na medida em que não se manifestam, posto que a manifestação não compreende evidentemente senão o conjunto destas mesmas possibilidades na medida em que se manifestam.(1)

               No que concerne às relações entre o Ser e o Não-Ser, é essencial destacar que o estado de manifestação é sempre transitório e condicionado, e que, inclusive para as possibilidades que implicam a manifestação, o estado de não-manifestação é o único absolutamente permanente e incondicionado.(2) Acrescentamos a este propósito que nada do que é manifestado pode «perder-se», segundo uma expressão que se emprega bastante freqüentemente, de outra maneira que pela passagem ao não-manifestado; e, bem entendido, esta passagem mesma (que, quando se trata da manifestação individual, é propriamente a «transformação» no sentido etimológico desta palavra, quer dizer, o passo além da forma) não constitui uma «perda» senão do ponto de vista especial da manifestação, posto que, no estado de não-manifestação, todas as coisas, ao contrário, subsistem eternamente em princípio, independentemente de todas as condições particulares e limitantes que caracterizam tal ou qual modo da existência manifestada. Mas para poder dizer justamente que «nada se perde», inclusive com a restrição concernente ao não-manifestado, é necessário considerar todo o conjunto da manifestação universal, e não simplesmente tal ou qual de seus estados com a exclusão de outros, já que, em razão da continuidade de todos estes estados entre eles, sempre pode haver uma passagem de um ao outro, sem que esta passagem contínua, que não é mais que uma mudança de modo (que implica uma mudança correspondente nas condições de existência), faça-nos sair de modo algum do domínio da manifestação.(3)

                Quanto às possibilidades de não-manifestação, pertencem essencialmente ao Não-Ser, e, por sua natureza mesma, não podem entrar no domínio do Ser, contrariamente ao que tem lugar para as possibilidades de manifestação; mas, como dissemos mais atrás, isso não implica nenhuma superioridade de umas sobre as outras, posto que umas e outras têm unicamente modos de realidade diferentes e conforme a suas naturezas respectivas; e a distinção mesma do Ser e do Não-Ser é, em suma, puramente contingente, posto que não pode fazer-se senão do ponto de vista da manifestação, que é ela mesma essencialmente contingente. Ademais, isto não diminui em nada a importância que esta distinção tem para nós, uma vez que, em nosso estado atual, não nos é possível colocarmo-nos efetivamente em nenhum ponto de vista diferente desse que é o nosso enquanto, como seres contingentes e individuais, nós mesmos pertencemos ao domínio da manifestação, e enquanto não podemos ultrapassa-la senão nos libertando inteiramente, pela realização metafísica, das condições limitantes da existência individual.

                  Como exemplo de uma possibilidade de não-manifestação, podemos citar o vazio, já que tal possibilidade é concebível, ao menos negativamente, quer dizer, pela exclusão de algumas determinações: o vazio implica a exclusão, não só de todo atributo corporal ou material, e inclusive não somente, de uma maneira mais geral, de toda qualidade formal, mas também de tudo o que se refere a um modo qualquer de manifestação. Por conseguinte, é um nonsense pretender que pode haver vazio no que compreende a manifestação universal, sob qualquer estado que seja,(4) posto que o vazio pertence essencialmente ao domínio da não-manifestação; não é possível dar para este termo outra acepção inteligível. Sobre este ponto devemos nos limitar a esta simples indicação, já que não podemos tratar aqui a questão do vazio com todos os desenvolvimentos que implicaria, e que se afastariam muito de nosso tema; e como é sobretudo a propósito do espaço que esta questão conduz às vezes a graves confusões,(5) as considerações que se referem a este encontrarão melhor lugar no estudo que nos propomos consagrar especialmente às condições da existência corporal.(6) No ponto de vista que nos colocamos no presente, devemos adicionar simplesmente que o vazio, qualquer que seja a maneira em que o consideremos, não é o Não-Ser, mas sim somente o que podemos chamar um de seus aspectos, quer dizer, uma das possibilidades que ele encerra e que são diferentes das possibilidades compreendidas no Ser, e que, por conseguinte, ficam fora deste, considerado inclusive em sua totalidade, o que mostra bem que o Ser não é infinito. Ademais, quando dizemos que tal possibilidade constitui um aspecto do Não-Ser, é necessário prestar atenção ao fato de que esta possibilidade não pode ser concebida de modo distintivo, já que este modo se aplica exclusivamente à manifestação; e isto explica por que, inclusive se podemos conceber efetivamente esta possibilidade que é o vazio, ou toda outra da mesma ordem, nós não podemos dar-lhe nunca senão uma expressão completamente negativa: esta observação, geral para todos os feitos para tudo o que se refere ao Não-Ser, justifica assim mesmo o emprego que fazemos deste termo.(7)

                 Considerações semelhantes poderiam aplicar-se a toda outra possibilidade de não-manifestação; poderíamos tomar outro exemplo, como o silêncio, mas a aplicação seria muito fácil de fazer para que seja útil insistir mais nisso. Assim, a este propósito, nos limitaremos fazendo observar isto: como o Não-Ser, ou o não manifestado, compreende ou envolve ao Ser, ou ao princípio da manifestação, assim também o silêncio comporta em si mesmo o princípio da palavra; em outros termos, do mesmo modo que a Unidade (o Ser) não é senão o Zero metafísico (o Não-Ser) afirmado, assim também a palavra não é senão o silêncio expresso; mas, inversamente, o Zero metafísico, embora sendo a Unidade não afirmada, é também algo mais (e inclusive infinitamente mais), e, do mesmo modo, o silêncio, que é um de seus aspectos no sentido que acabamos de precisar, não é simplesmente a palavra não expressa, já que é necessário deixar subsistir nele, além disso, o que é inexpressável, quer dizer, aquilo que não é suscetível de manifestação (pois quem diz expressão diz manifestação, e inclusive manifestação formal), e, por conseguinte, determinação em modo distintivo.(8) A relação estabelecida assim entre o silêncio (não-manifestado) e a palavra (manifestada) mostra como é possível conceber possibilidades de não manifestação que correspondem, por transposição analógica, a algumas possibilidades de manifestação,(9) sem pretender de modo algum, aqui ainda, introduzir no Não-Ser uma distinção efetiva que não poderia encontrar-se nele, posto que a existência em modo distintivo (que é a existência no sentido próprio da palavra) é essencialmente inerente às condições da manifestação (ademais, modo distintivo não é aqui, em todos os casos, necessariamente sinônimo de modo individual, posto que este último não implica especialmente a distinção formal).(10)

                                                                                    
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Notas :

(1) Ver L’Homme et son devenir selon le Vêdânta, cap. XV.

(2) Deve entender-se bem, que, quando dizemos «transitório», não temos em vista exclusivamente, e nem sequer principalmente, a sucessão temporal, já que esta não se aplica senão um modo especial da manifestação.

(3) Sobre a continuidade dos estados do ser, ver Le Symbolisme de la Croix, cap. XV e XIX.— O que acabamos de dizer deve mostrar que os pretendidos princípios da «conservação da matéria» e da «conservação da energia», qualquer que seja a forma sob a qual estes sejam expressos, não são em realidade mais que simples leis físicas completamente relativas e aproximativas e que, no interior mesmo do domínio especial ao qual se aplicam, não podem ser verdadeiras mais que sob algumas condições restritivas, condições que subsistiriam também, mutatis mutandi, se quiséssemos estender tais leis, transpondo convenientemente os termos, a todo o domínio da manifestação. Ademais, os físicos estão obrigados a reconhecer que não se trata de certo modo mais que de «casos limite», no sentido que tais leis não seriam rigorosamente aplicáveis senão ao que eles chamam «sistemas fechados», quer dizer, a algo que, de fato, não existe e não pode existir, já que é impossível realizar e inclusive conceber, no interior da manifestação, um conjunto que esteja completamente isolado de todo o resto, sem comunicação nem intercâmbio de nenhum tipo com o que está fora dele; tal solução de continuidade seria uma verdadeira lacuna na manifestação, e este conjunto, em relação ao resto, seria como se não existisse.

(4) É isso o que pretendem concretamente os atomistas.

(5) A concepção de um «espaço vazio» é contraditória, o que, notemos  de passagem, constitui uma prova suficiente da realidade do elemento etéreo (Akâsha), contrariamente à teoria das diversas escolas que, na Índia e na Grécia, não admitiam mais que os quatro elementos corporais.

(6) Sobre o vazio em suas relações com a extensão, ver também Le Symbolisme de la Croix, cap. IV.

(7) Ver Tao-te-King, cap. XIV.

(8) É o inexprimível ( e não o incompreensível como se crê vulgarmente) o que se designa primitivamente pela palabra  «misterio», já que, em grego significa «calar», «ser silencioso». À mesma raíz verbal mu (de onde vêm o latín mutus, «mudo») se vincula também o termo , «mito» em grego, que, antes de ser desviado de seu sentido até não designar já  nada mais que um relato fantástico, significava aquilo que, não sendo suscetível de expressar-se diretamente, só podia ser sugerido por uma representação simbólica, fosse verbal ou figurada.

(9) Poderíamos considerar da mesma maneira as trevas, em um sentido superior, como o que está além da manifestação luminosa, enquanto que, em seu sentido inferior e mais habitual, são simplesmente, no manifestado, a ausência ou a privação da luz, quer dizer, algo puramente negativo; ademais, no simbolismo, a cor negra tem usos que se referem efetivamente a esta dupla significação.

(10) Pode-se observar que as possibilidades de não manifestação que consideramos aqui correspondem ao «Abismo» ,e ao «Silêncio» de algumas escolas do Gnosticismo Alexandrino, os quais são de fato aspectos do Não-Ser.

                                                                            
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                                                          Capítulo IV

                                             
Fundamento  da  Teoria
                                        dos Estados Múltiplos


                   
O que precede contém, em toda sua universalidade, o fundamento da teoria dos estados múltiplos: ao considerarmos um ser qualquer em sua totalidade, este deverá comportar, ao menos virtualmente, os estados de manifestação e os estados de não- manifestação, porque é somente neste sentido que se pode falar verdadeiramente de «totalidade»; de outra forma, não estamos em presença mais do que de algo incompleto e fragmentário que não pode constituir verdadeiramente o ser total(1). A não-manifestação, como dissemos anteriormente, é a única que possui o caráter de permanência absoluta; por conseguinte, é dela que a manifestação, em sua condição transitória, extrai toda sua realidade; e por isso é que se vê que o Não-Ser, longe de ser o «nada», seria exatamente o contrário, se é que o «nada» poderia ter um contrário, o que lhe suporia ainda um certo grau de «positividade», enquanto que ele não é senão a «negatividade» absoluta, quer dizer, a pura impossibilidade (2).

              Sendo assim, o resultante é que são essencialmente os estados de não-manifestação os que asseguram ao ser a permanência e a identidade; e, fora destes estados, quer dizer, se não tomamos o ser mais que na manifestação, sem reportar-lhe a seu princípio não-manifestado, esta permanência e esta identidade não podem ser senão ilusórias, posto que o domínio da manifestação é propriamente o domínio do transitório e do múltiplo, comportando modificações contínuas e indefinidas. A partir disso, compreenderemos facilmente o que é mister pensar, do ponto de vista metafísico, da pretendida unidade do «eu», quer dizer, do ser individual, que é tão indispensável à psicologia ocidental e «profana»: por uma parte, é uma unidade fragmentária, posto que não se refere senão a uma porção do ser, a um de seus estados tomado isoladamente, e arbitrariamente, entre uma indefinidade de outros (e ainda este estado está muito longe de ser considerado ordinariamente em sua integralidade); e, por outra parte, esta unidade, ao não considerar senão o estado especial ao qual se refere, é assim mesmo tão relativa como é possível, posto que este estado se compõe, ele mesmo, de uma indefinidade de modificações diversas, e tem tanto menos realidade quanto fazemos abstração do princípio transcendente (o «Si mesmo» ou a personalidade) que é o único que poderia dá-la verdadeiramente, ao manter a identidade do ser, de modo permanente, através de todas estas modificações.

              Os estados de não-manifestação são do domínio do Não-Ser, e os estados de manifestação são do domínio do Ser, considerado em sua integralidade; podemos dizer também que estes últimos correspondem aos diferentes graus da Existência, não sendo estes graus outra coisa que os diferentes modos, em multiplicidade indefinida, da manifestação universal. Para estabelecer aqui uma distinção clara entre o Ser e a Existência, devemos, assim como já o dissemos, considerar o Ser como sendo propriamente o princípio mesmo da manifestação; a Existência universal será então a manifestação integral do conjunto das possibilidades que comporta o Ser, e que são ademais todas as possibilidades de manifestação, e isto implica o desenvolvimento efetivo destas possibilidades em um modo condicionado. Assim, o Ser envolve a Existência, e é metafisicamente mais que esta, posto que é o princípio desta; a Existência não é, pois, idêntica ao Ser, porque este corresponde a um menor grau de determinação, e, por conseguinte, a um grau maior de universalidade(3).

                Embora a Existência seja essencialmente única, e isso porque, em si mesmo, o Ser é um, ela não compreende menos, por isso, a multiplicidade indefinida dos modos da manifestação, porque ela os compreende a todos igualmente pelo próprio fato de que são igualmente possíveis, implicando esta possibilidade que cada um deles deve realizar-se segundo as condições que lhe são próprias. Como o dissemos em outra parte, falando desta «unicidade da Existência» (em árabe Wahdatul wujûd) segundo os dados do esoterismo Islâmico[4], segue-se que a Existência, em sua «unicidade» mesma, comporta uma indefinidade de graus, correspondentes a todos os modos da manifestação universal (que é, no fundo, a mesma coisa que a Existência em si mesma); e esta multiplicidade indefinida dos graus da existência implica correlativamente, para um ser qualquer considerado no domínio inteiro desta Existência, uma multiplicidade igualmente indefinida de estados de manifestação possíveis, dos quais, cada um, deve ser realizado em um grau determinado da Existência universal. Um estado de um ser é, portanto, o desenvolvimento de uma possibilidade particular compreendida em tal grau, estando este grau definido pelas condições às quais está submetida a possibilidade de que se trate, na medida em que esta é considerada como se realizando no domínio da manifestação[5].

                 Assim, cada estado de manifestação de um ser corresponde a um grau da Existência, e esse estado comporta, além do mais, modalidades diversas, segundo as diferentes combinações de condições das que é suscetível um mesmo modo geral de manifestação; enfim, cada modalidade compreende, ela mesma, uma série indefinida de modificações secundárias e elementares. Por exemplo, se consideramos o ser neste estado particular que é a individualidade humana, a parte corporal desta individualidade não é senão uma de suas modalidades, e esta modalidade está determinada, não precisamente por alguma condição especial de existência, mas por um conjunto de condições que delimitam suas possibilidades, sendo estas condições aquelas cuja reunião define o mundo sensível ou corporal (6). Como já o indicamos (7), cada uma destas condições, considerada isoladamente das outras, pode estender-se além do domínio desta modalidade, e, seja por sua própria extensão, seja por sua combinação com condições diferentes, constituir então os domínios de outras modalidades, fazendo parte da mesma individualidade integral. Por outra parte, cada modalidade deve considerar-se como suscetível de desenvolver-se no percurso de certo ciclo de manifestação, e, para a modalidade corporal, em particular, as modificações secundárias que comporta este desenvolvimento serão todos os momentos de sua existência (considerada sob o aspecto da sucessão temporal), ou, o que equivale ao mesmo, todos os atos e todos os gestos, quaisquer que sejam, que cumprirá no curso desta existência(8).

                É quase supérfluo insistir sobre o pouco que ocupa o «eu» individual na totalidade do ser (9), posto que, mesmo em toda a extensão que pode adquirir quando considerado em sua integralidade (e não só em uma modalidade particular como a modalidade corporal), não constitui senão um estado como outros, e entre uma indefinidade de outros, e isso, quando se limita mesmo a se considerar somente os estados de manifestação; porém, ademais, estes mesmos não são, do ponto de vista metafísico, nada mais do que o que há de menos importante no ser total, pelas razões que temos dado anteriormente (10). Entre os estados de manifestação, há alguns, além da individualidade humana, que podem ser igualmente estados individuais (quer dizer, formais), enquanto que outros são estados não-individuais (ou informais), a natureza de cada um estando determinada (assim como seu lugar no conjunto hierarquicamente organizado do ser) pelas condições que lhe são próprias, posto que se trata sempre de estados condicionados, pelo próprio fato de que são manifestados. Quanto aos estados de não-manifestação, é evidente que, não estando submetidos à forma, como tampouco a nenhuma outra condição de qualquer modo de existência manifestada, são essencialmente extra-individuais; podemos dizer que constituem o que há de verdadeiramente universal em cada ser, e, por conseguinte, aquilo através do qual todo ser se vincula, em tudo o que este é, a seu princípio metafísico e transcendente, vinculamento sem o qual ele não teria senão uma existência completamente contingente e, no fundo, puramente ilusória.

                                                                                  
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Notas :

(1) Como  indicamos no começo, se queremos falar do ser total, é necessário, embora este termo não seja propriamente aplicável, chamar-lhe também analogicamente «um ser», por falta de ter outro termo mais adequado a nossa disposição.

(2) O «nada» não se opõe, pois, ao Ser, contrariamente ao que se diz ordinariamente; é à Possibilidade a que se oporia, se pudesse entrar, à maneira de um termo real, em uma oposição qualquer; mas a coisa não é assim, e não há nada que possa opor-se à Possibilidade, o que se compreende sem esforço, desde que a Possibilidade é em realidade idêntica ao Infinito.

(3) Recordamos ainda que «existir», na acepção etimológica desta palavra (do latim ex-stare), é propriamente ser dependente ou condicionado; é, pois, em suma, não ter em si mesmo seu próprio princípio ou sua razão suficiente, o que é em efeito o caso da manifestação, assim como o explicaremos a seguir ao definir a contingência de uma maneira mais precisa

(4) Le Symbolisme de la Croix, cap. I

(5) Esta restrição é necessária porque, em sua essência não-manifestada, esta mesma possibilidade não pode estar submetida evidentemente a tais condições.

(6) É o que a doutrina hindu designa como o domínio da manifestação grosseira; damos-lhe também algumas vezes o nome de mundo físico, mas esta expressão é equivocada, e, se é possível justifica-la pelo sentido moderno da palavra «físico», que já não se aplica com efeito senão ao que concerne unicamente às qualidades sensíveis, pensamos que vale mais guardar sempre para esta palavra seu sentido antigo e etimológico (de NLF4l, «natureza»); quando se entende assim, a manifestação sutil não é menos «física» que a manifestação grosseira, já que a «natureza», quer dizer, propriamente o domínio do «suceder», é em realidade idêntica à manifestação universal em sua totalidade.

(7) Le Symbolisme de la Croix, cap. XI.

(8) Le Symbolisme de la Croix, cap. XII.

(9) Le Symbolisme de la Croix, cap. XXVII

(10) Poderíamos, pois, dizer que o «eu» com todos os prolongamentos dos que é suscetível, tem incomparavelmente menos importância que a que lhe atribuem os psicólogos e os filósofos ocidentais modernos, embora, entretanto, tem possibilidades indefinidamente mais extensas do que acreditam e do que podem sequer suspeitar (Ver L’Homme et son devenir selon le Vêdânta, cap. II, e também o que diremos mais adiante das possibilidades da consciência individual).