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Instituto René Guénon de Estudos Tradicionais
René Guénon

A Crise do Mundo Moderno

Introdução e Capítulo I

Tradução de Fernando Guedes Galvão
Este importante título é a porta de entrada à obra magistral de René Guénon.
Fernando Guedes Galvão, amigo e correspondente do autor, o traduziu e fez puplicar em 1948, através da Martins Editora de São Paulo. Trata-se da melhor tradução para língua portuguesa, muito superior à realizada em Portugal, cujos inúmerosa erros, inclusive tipográficos, permanecem até hoje nas sucessivas reimpressões. Nosso Instituto coloca ao alcance dos interessados o texto completo desta excelente tradução, cobrindo
assim uma lacuna editorial que se arrasta por décadas. O link para os capítulos seguintes se encontra no canto inferior direito de cada página.

                                                                                                                   (
Luiz Pontual)
                                                      Introdução


                 
Quando escrevemos, há alguns anos, "Oriente e Ocidente", pensávamos ter fornecido sobre as questões que faziam o objeto deste livro todas as indicações úteis, pelo menos naquele momento. Desde então, os acontecimentos foram-se precipitando com uma velocidade sempre crescente, sem aliás, nos: obrigar a mudar qualquer palavra ao que então dizíamos. Tornam-se, agora, oportunas certas precisões complementares, e somos levados a desenvolver alguns pontos de vista, sobre os quais não julgávamos necessário insistir então. Estas precisões impõem-se tanto mais que vimos, novamente, confirmadas, nestes últimos tempos, e sob uma forma bastante agressiva, algumas das confusões que precisamente tratamos dissipar; abstendo-nos, todavia, cuidadosamente de nos envolver em qualquer polêmica, julgamos conveniente tornar a pôr as coisas em seus devidos lugares, ainda uma vez. Há, nesta ordem, considerações mesmo elementares, que parecem tão estranhas para a grande maioria de nossos contemporâneos que para lhes fazer compreender é mister repisar muitas vezes e apresentá-las sob seus diferentes aspectos, explicando-as melhor à medida que as circunstâncias o permitirem, o que pode dar lugar a dificuldades que nem sempre foi possível então prever.

                    O próprio título do presente volume, pede algumas explicações que devemos fornecer antes de mais nada, a fim de que se saiba bem como o entendemos, e que a este respeito não haja qualquer equívoco. Que se possa falar de uma crise do mundo moderno, tomando a palavra "crise" em sua acepção mais comum, é uma coisa que muitos não põem mais em dúvida e a este respeito, pelo menos, produziu-se uma mudança bastante sensível; sobre a própria ação dos acontecimentos, certas ilusões começam a dissipar-se, e nós, por nossa parte, de tal nos felicitamos, porque, apesar de tudo, temos ali um sintoma assaz favorável, índice duma possibilidade de retificação da mentalidade contemporânea, alguma coisa que aparece como um fraco clarão no meio do caos atual. Assim é que a crença em um "progresso" indefinido, que ainda há pouco era tido por uma espécie de dogma intangível e indiscutível já não é tão geralmente admitida; alguns entrevêem mais ou menos vagamente, mais ou menos confusamente, que a civilização ocidental em vez de continuar sempre a desenvolver-se no mesmo sentido, bem poderia chegar um dia a um ponto de parada, ou mesmo até soçobrar completamente em algum cataclismo. Talvez esses não vejam ainda nitidamente onde está o perigo, e os receios quiméricos ou pueris que manifestam por vezes provam suficientemente a persistência de muitos erros em seus espíritos. Mas, enfim, já é alguma coisa que esses suspeitem um perigo, mesmo que sintam mais do que compreendam verdadeiramente onde está esse perigo, e consigam conceber que esta civilização, de que os modernos se acham tão enfatuados, não ocupa na história do mundo um lugar privilegiado, que ela pode ter a mesma sorte que muitas outras já desaparecidas em épocas mais ou menos remotas e algumas das quais, só deixaram após elas ínfimos sinais, vestígios apenas perceptíveis ou dificilmente reconhecíveis.

                   Quando, pois, se diz que o mundo moderno sofre de uma crise, entende-se por isso, mais habitualmente, que êle chegou a um ponto crítico, ou em outros ter mos, que uma transformação mais ou menos profunda está iminente, que uma mudança de orientação deverá inevitavelmente produzir-se dentro de pouco tempo, quer se queira, quer não, de uma forma mais ou menos brusca, com ou sem catástrofe.  Esta significação é perfeitamente legítima  e  corresponde  com  exatidão àquilo que pensamos, mas em parte somente, porque colocando-nas num ponto de vista mais geral, é toda a época moderna, no seu conjunto, que representa para o mundo um período de crise.    Além disso,  parece que estamos chegando ao desfecho, e é isto que torna ainda mais sensível o caráter anormal deste estado de coisas que já dura há alguns séculos, e cujas conseqüências  não eram  tão palpáveis   como   hoje.    É   também por isso que os acontecimentos se desenrolam com a velocidade acelerada a que há pouco aludimos; sem dúvida, tal situação ainda poderá continuar por algum tempo, porém, não indefinidamente.    E ainda que ninguém se ache em condições de lhe assinalar um limite preciso, tem-se a impressão de que isso já não pode durar muito tempo.

                Porém, na própria palavra "crise", estão contidas outras significações, que a tornam ainda mais apta a exprimir o que desejamos; efetivamente, sua etimologia, que na linguagem corrente freqüentemente se perde de vista, mas à qual convém sempre transportar-se como é preciso fazer, quando se quer restituir a um termo a plenitude de seu próprio sentido e de seu valor original, sua etimologia, dizíamos, converte êsse termo parcialmente em sinônimo de "juízo" e de "discriminação".    A fase a que se pode chamar verdadeiramente "crítica",  em qualquer ordem de coisas, é a que conduz imeditamente a uma solução favorável ou desfavorável, a que intervém em uma decisão, num
ou noutro sentido; conseqüentemente, só então é possível formular um juízo sobre os resultados adquiridos, de pesar os "prós" ou "contras", operando uma espécie de classificação entre os resultados, uns positivos, outros negativos, e ver assim para que lado a balança pende definitivamente.    É claro que não temos qualquer pretensão de estabelecer de um modo completo uma tal discriminação, o que seria aliás prematuro, visto que a crise ainda não foi resolvida, e que não é mesmo ainda possível dizer ao certo quando e como o será, tanto   mais   que   é   sempre   preferível abster-se de certas previsões quando essas  não puderem ser confrontadas  com razões que  sejam  claramente inteligíveis para todos, e que conseqüentemente correriam o risco de ser mal interpretadas, e ainda de contribuírem para a confusão em vez de a remediar. O que apenas podemos nos propor  é contribuir até certo ponto, e tanto quanto permitirem os meios ao nosso alcance,  para  dar  àqueles que  são capazes,  a consciência  de  alguns   dos   resultados  que  parecem desde já bem estabelecidos, e preparar assim, embora de um modo muito parcial e bastante indireto, os elementos que deverão servir ao futuro "juízo", quando então   principiará um   novo período da história da humanidade terrestre.

               Algumas das expressões ora usadas, evocarão sem dúvida no espírito de alguns, a idéia daquilo a que se chama "juízo final", e na verdade não será sem razão que isso se entenda literal ou simbolicamente, ou mesmo de ambas as formas, visto que na realidade elas de nenhum modo se excluem — isso pouco importa, porque não é aqui nem lugar, nem hora de explicar completamente este ponto.

               Em todo o caso, o fato de pôr na balança os "prós" e os "contras" — esta discriminação de resultados positivos e negativos que há pouco nos referimos — pode seguramente fazer pensar na repartição dos "eleitos" e dos "danados" em dois grupos, agora fixados imutàvelmente.    Mesmo que se tratasse somente de uma analogia, deve-se reconhecer que é ao menos uma analogia válida e bem fundamentada em conformidade   com a própria   natureza   das   coisas. Sobre; isto são necessárias ainda certas  explicações. Não é sem dúvida ao acaso que tantos espíritos se acham hoje obcecados pela idéia do "fim do mundo", o que até certo ponto e a certos respeitos é para lastimar, porque as extravagâncias a que dá vaza esta idéia mal compreendida, as divagações "messiânicas" que daí resultam em certos meios, todas estas manifestações oriundas do desequilíbrio mental de nossa época, não fazem senão agravar ainda mais o mesmo desequilíbrio,  em  proporções  que  de  forma   alguma são para desprezar.   

                Mas, enfim, há um fato aí que não se pode deixar de levar em consideração. A atitude mais cômoda, quando se constatam coisas desta natureza, é sem dúvida a que consiste em afastá-las pura e simplesmente sem mais exame e tratá-las como erros ou devaneios sem importância.    Pensamos, no entanto, que mesmo quando sejam efeitos de erros, é melhor,   denunciando-os  como  tais,  procurar   as  razões que os provocaram e a parte de verdade mais ou menos deformada, que apesar de tudo pode aí ser encontrada, porquanto o erro, sendo em suma um modo de existência puramente negativo, não pode apresentar-se como um erro absoluto, que é palavra sem sentido.   Considerando as coisas desta forma, percebe-se sem dificuldade que esta preocupação   do   "fim   do mundo" está intimamente ligada ao estado de mal-estar geral no qual presentemente vivemos; o pressentimento obscuro de alguma coisa que efetivamente está prestes a acabar, agindo sem controle sobre certas imaginações, produz nelas muito naturalmente representações desordenadas, e o mais das vezes toscamente materializadas, que por sua vez se traduzem exteriormente pelas extravagâncias de que há pouco falamos.

                Esta explicação não é, aliás, uma desculpa para essas pessoas; quando muito, pode-se desculpar os que caem involuntariamente no êrro, por estarem a isso predispostos, devido a um estado mental de que não são responsáveis, não constituindo isto, entretanto, mais um motivo para desculpar o próprio erro. Ademais, pelo que nos diz respeito, ninguém poderá de forma alguma censurar-nos duma indulgência excessiva em relação às manifestações "pseudo-religiosas" do mundo contemporâneo, nem tampouco para com todos os erros modernos em geral (*). Sabemos até que muitos, ao contrário, serão tentados a reprovar nossa posição antimoderna, e talvez, pelo que dissemos, se torna mais compreensível o modo pelo qual encaramos as coisas, esforçando-nos por nos colocarmos sempre no ponto de vista que nos importa: o da verdade imparcial e desinteressada.

                Não é só uma explicação simplesmente "psicológica" da idéia do "fim do mundo" e de suas atuais manifestações, por mais exata que seja no lugar que lhe compete. A nossos olhos não poderia parecer suficiente. Conservar-se neste propósito, seria deixar-se influenciar por uma destas ilusões modernas, contra as quais justamente nós nos opomos em todas as ocasiões. Muitos, dizíamos nós, sentem confusamente o fim iminente de alguma coisa, cuja natureza não sabem exatamente definir, e cujo alcance são incapazes de medir.

               Sem embargo, é preciso admitir que eles têm a. respeito uma percepção muito real embora um tanto vaga, e sujeita a falsas interpretações, ou a deformações imaginativas; e seja qual for esse fim, a crise que  aí deve necessariamente   terminar   é   bastante aparente, e uma multidão   de   sinais  inequívocos  e fáceis de constatar conduzem todos eles concordantemente à mesma conclusão.    Este fim não é sem dúvida o "fim do mundo", em seu sentido total, como alguns o entendem, mas nem por isso deixa de ser o fim de um mundo: e se o que deve acabar é a civilização ocidental sob sua forma atual, compreende-se que aqueles que estão habituados a não ver nada fora dela, e a considerá-la como " a civilização" sem epíteto - acreditam facilmente que tudo   acabará   com   essa civilização, a qual se vier a desaparecer será verdadeiramente o "fim do mundo".

                  Diremos, pois, para reduzir as coisas  às  suas justas proporções, que bem parece que nos avizinhamos realmente do fim de um mundo, isto é, do fim de uma época, ou de um ciclo histórico, e que além disso esse ciclo pode muito bem estar em correspondência com um ciclo cósmico, segundo o que a este respeito   ensinam   todas   as   doutrinas   tradicionais. Já  no  passado  houveram  muitos  acontecimentos   desta espécie e  sem  dúvida  ainda muitos  outros  haverão no futuro; acontecimentos, aliás, de desigual importância, conforme terminem períodos mais ou menos extensos e relativos, seja a todo o conjunto da humanidade terrestre, seja somente a uma ou outra de suas partes, a uma raça ou ainda a um determinado povo. É de supor-se que no estado atual do mundo, a mudança que intervier tenha um alcance assaz geral, e que seja qual fôr a forma de que ela venha a revestir-se, e que nós não procuraremos definir, afetará mais ou menos toda a terra. Em todo o caso, as leis que regem tais acontecimentos podem ser aplicadas analògicamente em todas os graus; assim, o que se diz do "fim do mundo" — num sentido tão completo quanto é possível conceber, e que comumente só se relaciona ato mundo terrestre — é ainda verdadeiros guardadas as devidas proporções, quando se trate simplesmente do fim de um mundo qualquer, tomado num sentido muito mais restrito.

                   Estas observações preliminares muito ajudarão a compreender as considerações que se seguem. Em outras obras (**), já tivemos muitas vêzes ocasião de fazer alusão às "leis cíclicas", coisa que seria talvez difícil de expor de um modo completo e de uma forma facilmente acessível aos espíritos ocidentais; todavia é necessário possuir algumas noções sobre este assunto, se se quiser fazer uma idéia verdadeira do que é a época atual, e do que ela representa exatamente na história do mundo. Por isso mesmo, começaremos por mostrar que os caracteres desta época são na verdade e realmente aqueles que as doutrinas tradicionais sempre indicaram como pertencentes ao período cíclico a que elas correspondem; o que também eqüivalerá mostrar que, sob certo ponto de vista, o que é anomalia e desordem é, no entanto,  um elemento necessário   duma   ordem   mais vasta, uma conseqüência inevitável das leis  que  regem   o   desenvolvimento   de   toda   a   manifestação. Além do mais, digamo-lo desde já, isso não constitui  um motivo suficiente para que alguém pretenda agüentar   passivamente   a   perturbação   e   a   obscuridade que parecem triunfar momentaneamente; pois, se assim fosse, não feríamos mais que guardar silêncio.    Ao contrário, é uma razão a mais para cada um se esforçar tanto quanto possível, por preparar  a saída desta "idade sombria", cujos indícios vários já permitem entrever seu fim mais ou menos próximo, se é que já não esteja iminente.  Isso também pertence mesmo intrinsecamiente à ordem das coisas, visto que o equilíbrio é o resultado da ação simultânea de duas tendências opostas: se uma ou outra pudesse inteiramente cessar de agir, o equilíbrio jamais se tornaria a encontrar, e o próprio mundo se desvaneceria.

              Esta suposição, porém, é impossível de realização, pois os dois termos duma oposição só têm sentido um pelo outro, e sejam quais forem as aparências, pode-se estar certo de que  todos os desequilíbrios parciais e: transitórios concorrem finalmlente para a realização do equilíbrio total.

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       (*)    Vide  especialmente  
"O   Erro  Espírita" e   "O  Teosofismo". (N. do T.)
       (**) 
"O esoterismo de Dante", cap. VIII. Em outubro de 1938, publica na revista "Estudos Tradicionais"
               o estudo
"Algumas  notas sobre a doutrina dos ciclos cósmicos".  (N. do T.)
                                                                          
                                                                          
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Capítulo I
                                     A IDADE SOMBRIA


                   
A doutrina hindu ensina que a duração de um ciclo da humanidade, a que dá o nome de Manvantara, se divide em quatro idades que marcam outras tantas fases progressivas dum obscurantismo gradual da espiritualidade primordial; são esses mesmos períodos que, por sua vez, as tradições da antigüidade ocidental designavam como as idades de ouro, de prata, de bronze e de ferro.

                     Estamos presentemente na quarta idade, a Kali-Yuga, ou "Idade Sombria", e isto, dizem eles, há mais de seis mil anos, isto é, desde uma época muito anterior a todas as que são conhecidas da história "clássica". Desde então, as verdades que outrora eram acessíveis a todos os homens, tornaram-se cada vez mais encobertas e menos atingíveis.

                     Os que as possuem são cada vez menos, e se o tesouro da sabedoria "não humana", anterior a todas as idades, não pode jamais perder-se, esse tesouro vem-se envolvendo em véus cada vez mais impenetráveis, sob os quais, é extremamente difícil de o descobrir, pois se acha dissimulado a qualquer olhar. E' por isso que sob símbolos diversos se fala sempre de alguma coisa que se perdeu, aparentemente, pelo menos, em relação ao mundo exterior, que deve ser encontrada de novo por aqueles que aspiram ao verdadeiro conhecimento; também se diz, porém, que o que se acha assim escondido, de novo voltará a ser visível no fim deste ciclo, o qual, em virtude da continuidade que liga todas as coisas entre si, será também o começo dum novo ciclo.

                    Mas, perguntar-se-á, por que deve processar-se assim o desenvolvimento cíclico num sentido descendente,  indo  do  superior    para   o   inferior?    Assim sendo, como se poderá facilmente notar, isso representa a própria negação da idéia de "progresso", tal como os modernos a entendem.    É que o desenvolvimento de toda a manifestação   implica   necessariamente um afastamento cada vez maior do princípio de onde ela procede; partindo do ponto mais alto, ela tende forçosamente para baixo, e como os corpos pesados, ela para aí tende com uma velocidade sempre crescente, até encontrar, enfim, um ponto de parada. Esta queda poderia ser caracterizada como uma materialização  progressiva,  pois  a expressão do  princípio é espiritualidade pura; dizemos a expressão, e não o próprio princípio,  por   não   poder   este   ser designado por nenhum dos têrrmos. que parecem indicar uma oposição qualquer, pois fica sempre para além   de   todas   as   oposições.    Ademais,   palavras como "espírito" e "matéria", que para maior comodidade de expressão tomamos emprestadas, dos idiomas ocidentais, não têm para nós senão um valor simbólico; mas em todo o caso, podem servir muito bem para o que está se tratando sob a condição de afastar as  interpretações  especiais  dadas pela  filosofia moderna, cujo  "espiritualismo"   e "materiailismo",  não são, a nosso ver, senão duas formas complementares das  quais  uma   implica  à outra,    sem   importância entretanto para quem almeja a elevar-se acima destes  pontos  de  vista  contingentes.    Contudo,  não  é metafísica pura o que nós nos propomos tratar presentemente; por isso, sem nunca perdermos de vista os princípios essenciais e tomando as devidas precauções para evitar qualquer equívoco, podemos nos permitir de usar termos que embora pouco adequados pareçam suscetíveis de tornar as coisas mais facilmente compreensíveis. Isso, entretanto, na medida do possível, sem desnaturar o nosso objetivo. O que dissemos sobre o desenvolvimento da manifestação apresenta um aspecto que, embora exata em seu conjunto, fica entretanto muito simplificado e esquemático e ipode fazer pensar que este desenvolvimento se efetua em linha reta, num sentido único e sem qualquer oscilação; a realidade porém é muito mais complexa.

                   Efetivamente, se encararmos em todas as coisas,, como já indicamos precedentemente, duas tendências opostas, uma ascendente e outra descendente, ou, se quisermos servir-nos de outro modo de representação, uma centrífuga e outra centrípeta, do predomínio de uma ou outra, procedem duas fases complementares. da manifestação — uma de afastamento do princípio, outra de retorno ao princípio — fases que freqüentemente são comparadas simbolicamente aos movimentos do coração, ou às duas fases da respiração. Ainda que estas duas fases sejam comumente descritas como sucessivas, é preciso conceber que, na realidade, as duas tendências, às quais elas correspondem, agem sempre simultânemente, todavia em proporções diversas. Acontece, às vezes, em certos momentos críticos em' que a tendência descendente parece estar a ponto de predominar definitivamente, na marcha geral do mundo; que uma ação especial intervém para reforçar a tendência contrária, de modo a restabelecer um certo equilíbrio, pelo menos relativo, como podem comportar as condições do momento, e assim operar uma retificação parcial, pela qual o movimento de queda poderá parecer detido, ou temporariamente neutralizado. (1)

                  É fácil de compreender que destes dados tradicionais só podemos limitar-nos presentemente a fazer aqui uma sumária exposição, que torne possíveis vastas e profundas concepções muito diferentes de todos: os ensaios de "filosofia da história", e aos quais se entregam de tão boa mente os modernos.

                  No momento não cogitamos de ir até às origens do presente ciclo, nem mesmo simplesmente ao começo da Idade Sombria. Nossais intenções relacionam-se dum modo direto, com um campo mais limitado; somente as últimas fases desta mesma Idade Sombria. Pode-se, com efeito, dentro de cada um dos grandes períodos de que já falamos, distinguir ainda diferentes fases secundárias, e que constitutem outras tantas subdivisões e sendo cada parte, de um certo modo, análoga ao todo, estas subdivisões reproduzem, por assim dizer, em escala mais reduzida, a marcha geral do grande ciclo, no qual integram; porém, mais uma vez ainda, uma completa pesquisa das modalidades de aplicação desta lei aos diversos casos particulares, nos levaria muito além do quadro que traçamos para este estudo. Mencionaremos somente, para terminar estas considerações preliminares, algumas das últimas épocas particularmente críticas que a humanidade atravessou; as que entram no período que habitualmente se costuma chamar "histórico", pois que é efetivamente o único que se torna verdadeiramente acessível à história comum, ou "profana"; e isso nos levará por si mesmo ao que deve constituir o próprio objeto de nosso estudo, visto que a última destas épocas críticas é exatamente a que forma o que se chama os tempos modernos.

                    Dá-se aqui um fato muito estranho e que parece não ter sido nunca tão convenientemente notado, como mereceria; é que o período propriamente "histórico", no sentido que acabamos de indicar, remonta exatamente ao século VI, antes da era cristã, como se houvesse, no tempo, uma barreira que não pudesse ser transposta com o ajutório dos meios de investigação da quie dispõem os pesquisadores comuns. A contar desta época, com efeito, possui-se em toda a parte uma cronologia bastante precisa e bem fundamentada; para o que é anterior, ao invés, (só não se obtém em geral, sertão uma aproximação vaga e as datas; propostas para os mesmos acontecimentos variam, muitas vezes, de vários séculos. É bastante característica que mesmo para países como o Egito, por exemplo, em que a "história oficial" registra mais do que simples vestígios esparsos, prevaleça essa constatação, e o que é talvez ainda mais surpreendente é que, num caso excepcional e privilegiada como o da China, que possui para épocas bem mais afastadas anais datados por meio de observações astronômicas e que, portanto; não deveriam deixar lugar a dúvida alguma, os modernos, mesmo assim, qualificam estas épocas de "lendárias", como se fosse um domínio, no qual, eles não se reconhecessem dom direito algum à certeza e onde mesmo se interditassem a si próprios a regalia de efetuar investigação para atingi-la.

                   A antigüidade chamada "clássica" não é, portanto, a bem dizer, senão uma antigüidade toda relativa, e até muito mais próxima dos tempos modernos que da verdadeira antigüidade, pais que essa não atinge, nem sequer, a metade da Idade Sombria que por  sua vez, segundo a doutrina hindu, é somente a décima parte do Manvantara.
Por aí se poderá julgar suficientemente até que ponto os modernos têm razão de se mostrarem orgulhosos da extensão de seus conhecimentos históricos! Mas tudo isso, responderiam ainda eles, sem dúvida, para se justificarem, não passa de períodos "lendários", e eis porque julgam não dever dar-lhes importância; esta resposta, porém, é precisamente a confissão de ignorância, e duma falta de compreensão que apenas se pode explicar pelo desdém que votam à tradição.

                  Com efeito, o espírito especificamente moderno, é como mais adiante mostraremos, nada mais, nada Menos que o espírito antitradicional. No século VI, antes da era cristã, produziram-se mutações consideráveis entre quase todos os povos; 'estas alterações apresentaram, aliás, caracteres diferentes, conforme os países. Em certos casos, foi uma readaptação da tradição a diferentes condições das que tinham existido anteriormente, readaptação que se efetuou num sentido rigorosamente ortodoxa; foi o que |se deu particularmente na China, onde a doutrina, primitivamente constituída de um só conjunto, foi então dividida em duas partes nitidamente distintas: o taoismo, que reservado a uma elite, compreendia a metafísica pura e as ciências tradicionais de ordem propriamente especulativa e o confucionismo, que era comum a todos, indistintamente, e tinha por domínio próprio as aplicações práticas e principalmente sociais. Entre ps persas, parece que houve igualmente uma readaptação do mazdeísmo, pois esta época foi a do último Zoroastro. (2)

                    Na India, apareceu então o budismo (3) destinado a vir a ser pelo tempo adiante, um veículo para a difusão de diversos elementos da doutrina hindu em outras partes da Ásia, tais como a China, o Japão, os Países Malaios e o Thibet. É bastante curioso constatar que na India não se encontre nenhum monumento construído antes dessa época, e os orientalistas, que gostam de dizer que tudo começou com o budismo,1 cujas particularidades eles exageram singularmente, quiseram tirar partido desta constatação a favor de sua tese; entretanto a explicação do fato é simplicíssima; é que todas as construções anteriores a esse tempo eram de madeira, e por isso desapareceram muito naturalmente, sem deixar vestígios (4); porém, a verdade é que uma tal mudança no modo de construção, corresponde necessariamente a uma profunda modificação das condições gerais do modus vivendi do povo em que isso se verifica.

                     Aproximando-nos do Ocidente, vemos que esta mesma época foi para os judeus a do cativeiro de Babilônia; e nessa época pode-se verificar um dos fatos mais espantosos que se possa constatar: o curto período de setenta anos foi suficiente para perderem até a sua própria escrita, pois tiveram que reconstituir os Livros sagrados dom caracteres bem: diferentes daqueles que estiveram em uso até então. Poder-se-iam citar ainda muitos outros acontecimentos referentes mais ou menos ao mesmo tempo; apenas: faremos notar que para Roma foi o inicio do período propriamente "histórico", que sucedeu à época "lendária" dos reis. Sabe-se, também, de uma maneira um pouco vaga, que houve então importantes movimentos entre Os povos celtas. E sem mais insistir, vamos ao que se refere à Grécia. Aí, igualmente, o século VI foi o ponto de partida da civilização chamada "clássica", a única a que os modernos reconhecem o caráter "histórico", e tudo quanto precede é bem mal conhecido, sendo tratado de "lendário", embora as descobertas arqueológicas recentes não nos permitirem mais duvidar de que lá, anteriormente, também houve uma civilização real. E temos razões de sobra para crer que esta primeira civilização helênica foi intelectualmente muito mais interessante que a seguinte, e que as relações entre essas duas civilizações não deixam de oferecer certa analogia cem as que existiram entre a Europa medieval e a Europa moderna. Todavia, convém notar que a cisão não foi tão radical como neste último caso, pois houve, ao menos parcialmente, uma readaptação efetuada na ordem tradicional, principalmente no domínio dos "mistérios", que está ligado com o pitagorismo, que foi sobretudo, sob uma nova forma uma restauração do orfismo anterior, e cujos laços evidentes com o culto délfico de Apólo  hiperbóreo permitem  até vislumbrar uma filiação contínua e regular com uma das mais antigas tradições de humanidade. Mas por outro lado, vimos logo aparecer algo de que não se tinha tido até então exemplo algum e que, com o decorrer dos tempos, devia exercer uma influência nefasta sobre todo o mundo ocidental: queremos nos referir a esse modo especial de pensar que tomou e conservou o nome de "filosofia", e este ponto é bastante importante para nele nos determos alguns instantes.

                     A palavra "filosofia", em si mesma pode seguramente ser tomada em um stentido muito legítimo, que sem dúvida foi o seu primitivo sentido, sobretudo, se fôr verdade, como pretendem, que foi Pitágoras quem a empregou antes de qualquer outra pessoa: etimològicamente ela não significa senão "amor à sabedoria"; designa portanto, em primeiro lugar, uma prévia disposição requerida para ascender à sabedoria, mas também pode designar, por uma extensão muito natural, a procura que, provindo desta mesma disposição, deve conduzir ao conhecimento. Não é pois senão um estágio preliminar o preparatório de um encaminhamento que conduz à sabedoria, mas que nem por isso deixa de estar abaixo dela. (5) O descaminho que se produziu posteriormente consistiu em tomar este grau transitório pelo próprio fim, tem pretender substituir pela sabedoria a "filosofia", o que implica na falta de lembrança ou o desconhecimento da verdadeira natureza da primeira. E foi assim que nasceu o que poderemos chamar a filosofia "profana", isto é, uma pretensa sabedoria puramente humana e por conseguinte de ordem simplesmente racional, tomando o lugar da verdadeira sabedoria tradicional, supra-racional e "não humana".

                     Sem embargo, ainda subsistiu alguma coisa desta através de toda a antigüidade, o que é provado primeiramente pela persistência dos "mistérios", cujo caráter essencialmente "iniciático", não poderá ser contestado; e também pelo fato de que o ensinamento dos próprios filósofos apresentava às mais das vezes e ao mesmo tempo, um lado "esotérico" ou interno, podendo este último permitir a ligação com um ponto de vista superior, o que aliás se manifestava duma maneira muito nítida embora ainda talvez incompleta em certos aspectos, alguns séculos mais tarde entre os Alexandrinos. Para que a filosofia "profana" fosse definitivamente constituída como tal era preciso que somente o "exoterismo" permanecesse, e que fosse até à negação pura e simples de qualquer "esoterismo". É este o resultado onde deveria ir dar o movimento começado pelos gregos., e que ora presenciamos; já se afirmavam as tendência que deviam em nossos; dias ser levadas às conseqüências mais extremas e a excessiva importância que deram ao pensamento racional, acentuou-se ainda mais, chegando ao "racionalismo", atitude especialmente moderna que consiste, não mais em só e simplesmente ignorars mas em negar expressamente tudo quanto seja de ordem supra-racional. Não antecipemos, entretanto, as conseqüências que isso acarretou e o modo como se desenvolveram, assunto que voltaremos noutra parte deste trabalho.

                     Do que acabamos de dizer, uma coisa sobretudo deve ser lembrada particularmente, para o ponto de vista que tratamos: convém procurar na antigüidade "clássica", algumas das origens do mundo moderno, que se gaba, não sem razão, de ser o continuados da civilização greco-latina. É no entretanto, preciso dizer que essa continuação é longínqua e um tanto infiel, pois havia apesar de tudo, nessa antigüidade, muitas coisas que na ordem intelectual e espiritual não têm equivalentes entre os modernos; em todo o caso no obscurecimento progressivo do verdadeiro conhecimento, são dois graus bastante diferentes. Poder-se-ia, outrossim, Conceber que a decadência da civilização antiga tenha trazido de um modo gradual e sem solução de continuidade um estado mais ou menos semelhante ao que vemos hoje; mas na verdade, tal não se deu, porque no intervalo1 houve para o Ocidente uma outra época crítica que foi ao mesmo tempo uma dessas épocas de retificação a que aludimos acima.

                    Foi o início e a expansão do cristianismo, que coincidia de um lado com a dispersão do povo judeu, e de outro, com a última fase da civilização greco-latina; assim, podemos passar mais rapidamente sobre esses acontecimentos, apesar de sua importância, porque são mais geralmente conhecidos do que aqueles de que discorremos até aqui, e seu sincronismo foi notado até pelos historiadores de horizontes bem superficiais. Já foram também várias vezes assinalados certos traços comuns entre a decadência antiga e a época atual; e sem querer levar muito avante o paralelismo, devemos, efetivamente, reconhecer nele várias semelhanças notáveis. A filosofia puramente "profana" tinha ganho terreno; o aparecimento do cepticismo de um lado, o sucesso do "moralismo" estóico e epicurista do outro, mostram bastante até que ponto a intelectualidade desceu. Ao mesmo tempo as antigas doutrinas sagradas, que quase mais ninguém compreendia, tinham degenerado, devido a esta incompreensão, ao "paganismo", no verdadeiro sentido do termo, isto é, não passavam de "superstições", coisas que, tendo perdido sua profunda significação, sobrevivem a si mesmas por manifestações unicamente exteriores. Houve tentativas de reação contra esta caducidade; o próprio helenismo tentou revitalizar-se à custa de elementos tirados das doutrinas orientais, com as quais podia achar-se em contato, mas tal já não bastava ; a civilização greco-latina estava em seu fim e seu ressurgimento tinha que vir de algures e operar-se sob uma forma completamente diversa. Foi o cristianismo que levou a cabo esta transformação e salientaremos de passagem que a comparação que se pode fazer sob certos aspectos entre aquele tempo e o nosso, talvez seja um dos elementos determinantes do "messianismo" desordenado que atualmente tomou incremento.

                         Após o agitado período das invasões bárbaras, necessário para completar a destruição do antigo estado de coisas, uma ordem normal foi restaurada e teve a duração de alguns séculos — a Idade Média — tão desconhecida pelos modernos, incapazes de compreendê-la na sua intelectualidade, e para os quais ela é muito menos familiar e longínqua do que a antigüidade "clássica".

                         A verdadeira Idade Média, para nós, estende-se desde o reinado de Carlos Magno até os princípios do século XIV. Com esta última data começa uma mova decadência, que através de etapas diversas, se foi acentuando até nossos dias. E o verdadeiro ponta de partida da crise moderna é o começo da desagregação da "crístandade", com a qual se identificava essencialmente a civilização medieval no Ocidente; ao mesmo tempo, o fim do regime feudal, assaz intimamente ligado e solidário com esta mesma "crístandade", é a origem da constituição das "nacionalidades". Portanto, é preciso considerar o começo dos tempos modernos dois séculos mais cedo do que se leva em conta habitualmente ; a renascença e a reforma são sobretudo resultantes, que somente se tornaram possíveis em virtude de uma decadência anterior. Longe de serem uma retificação, elas marcaram uma queda muito mais profunda, pois consumaram o rompimento definitivo com o espírito tradicional, quer no campo dais ciências e das artes, quer até mesmo no campo religioso, no qual tal ruptura teria sido bem dificilmente concebível.
Aquilo a que se chama Renascença, foi na realidade, como em outras ocasiões já o fizemos notar a morte de muitas coisas, sob o pretexto de volver à civilização greco-romana; só aproveitaram desta o que ela tinha de mais exterior, pois só isso havia claramente nos textos escritos. E mesmo esta restituição incompleta não podia, sem dúvida, ter senão um caráter muito artificial, atendendo a que se tratava de formas que há muitos séculos tinham cessado de existir com vida própria. Quanto às ciências tradicionais da idade média, depois de terem apresentado ainda algumas manifestações finais, inerentes a esta época, desapareceram tão radicalmente como as das civilizações mais remotas que foram outrora aniquiladas por algum cataclismo; desta vez, porém, nada haveria para substitui-las. Daí por diante nada mais houve além da filosofia e da ciência "profanas", isto é, a negação da verdadeira intelectualidade, a limitação do conhecimento à ordem mais inferior, o estudo empírico e analítico dos fatos que não estão mais ligados a qualquer princípio, a dispersão numa multidão indefinida de detalhes insignificantes, o acúmulo de hipóteses sem fundamentos, que se destróem incessantemente umas às outras, e vistas fragmentárias que a nada podem conduzir, salvo a essas aplicações práticas que constituem a única superioridade efetiva da civilização moderna; superioridade aliás pouco invejável, e que desenvolvendo-se até abafar qualquer outra preocupação deu à esta civilização o caráter puramente material que a tornou uma verdadeira monstruosidade.

                    O que é muitíssimo extraordinário, é a rapidez com a qual a civilização medieval caiu no mais completo esquecimento; os homens do século XVII, não tinham mais a mínima noção do que ela fora; os monumentos que subsistiam nada mais representam aos seus olhos, nem na ordem intelectual, nem tampouco na ordem estética. Pode-se julgar por aí o quanto a mentalidade se tinha transformada nesse intervalo! Não tentaremos procurar descobrir aqui os fatores, sem dúvida alguma muito complexos, que Concorreram para esta transformação tão radical, e é até bem difícil admitir que ela pudesse operar-se espontaneamente, sem a intervenção duma vontade diretriz, cuja natureza exata permanece forçosamente bastante enigmática; a este respeito, há circunstâncias assaz estranhas, como a vulgarização, num determinado momento, apresentando como novas descobertas, coisas que na realidade eram conhecidas há muito tempo, mas cujo conhecimento em virtude de certos inconvenientes, que poderiam pôr em risco suas vantagens, não tinha caído ainda até então no domínio público.  (6)

                    Não é também nada provável que a lenda que fêz da Idade Média uma época de "trevas", de ignorância e de barbárie, se tenha originado te firmado por si mesma, e que a verdadeira falsificação da história, tal como nos é apresentada peitos modernos, tenha sido empreendida sem nenhuma idéia preconcebida. Mas não iremos mais avante no exame desta questão, pois seja qual fôr o modo pelo qual este trabalho se tenha efetuado, é no momento, a constatação do resultado o que em suma mais nos importa.

                    Há uma palavra que ocupou um lugar de honra na Renascença, e que resumia antecipadamente todo o programa da civilização moderna: o "humanismo". Tratava-se, com efeito, de reduzir tudo a proporções puramente humanas; prescindir de qualquer princípio de ordem superior, e poder-se-ia dizer simbolicamente desviar-se do céu sob o pretexto de conquistar a terra. Pretendia-se seguir o exemplo dos gregos, porém estes nunca tinham ido tão longe nesse sentido, nem no tempo de sua maior decadência intelectual, ou, pelo menos, as preocupações utilitárias nunca tinham passado para o primeiro plano, como logo deveria suceder entre os modernos. O "humanismo" já era uma primeira forma daquilo em que se transformaria o "laicismo" contemporâneo; e querendo reduzir tudo à medida do homem, tomado como fim, a si próprio, acabou êle por descer de etapa em etapa ao seu mais baixo nívtel, e para só quase procurar a satisfação das necessidades inerentes ao lado material de sua natureza, pretensão afinal de contas bastante ilusória, pois que esta suscita sempre mais necessidades artificiais dia que as poderia satisfazer.

                    Irá o mundo moderno até o fim deste fatal declive, ou então, como aconteceu na decadência do mundo greco-latino, uma nova correção se produzirá, e ainda desta vez antes que tenha atingido o fundo do abismo para onde está sendo arrastado? Mas parece provável que uma parada a meio caminho não seja mais possível. Segundo todas as indicações fornecidas pelas doutrinas tradicionais, nós já entramos decididamente na fase final da Kali Yuga, no período mais sombrio desta "idade sombria", e deste estado de dissolução não é mais possível sair senão por um cataclismo, pois neste caso não bastará uma simples retificação — será necessário uma renovação total.    A desordem e a confusão imperam em todos os campos, foram levadas a um ponto que ultrapassa muito e muito tudo quanto se havia visto precedententente, e partindo do Ocidente, ameaçam agora invadir o mundo inteiro.. Entretanto, sabemos muito bem que seu triunfo não poderá ser senão aparente e passageiro; tal grau parece-nos ser o sinal da mais grave de todas as crises que atravessou a humanidade durante o ciclo atual. Não temos nós chegado a esta época temível, anunciada pelote Livros sagrados da India, "em que as castas serão, misturadas, em que a própria família deixará de existir"? Basta que cada um olhe em volta de si, para se convencer de que este é realmente o estado do mundo atual por toda a parte, estado que demonstra essa profunda degradação a que o Evangelho chama "a abotninação da desolação".  Não se deve dissimular a gravidade da situação; convém encará-la tal qual ela se apresenta, sem nenhum "otimismo", mas também sem nenhum "pessimismo", visto que, como atrás dizíamos, o fim do mundo antigo será também o começo dum mundo novo.

                     Quanto ao presente, pergunta-ste: qual será a razão de ser dum período, como o em que vivemos? Com efeito, por mais anormais que sejam as condições presentes, consideradas em si mesmas, elas devem no entanto entrar na ordem geral das coisas, nesta ordem que segundo uma fórmula do Extremo Oriente, é formada pela soma de todas as desordens. Esta época por mais penível e turva que ela seja, também deve ter, como todas as outras, seu lugar marcado no conjunto do desenvolvimento humano, e demais o fato de ter ela sido prevista pelas doutrinas tradicionais é, a este respeito, uma indicação suficiente. O que dissemos sobre a marcha geral dum ciclo de manifestação caminhando no sentido duma materializarão progressiva, dá, sem mais delongas, a explicação dum tal estado e mostra bem que o que é anormal e desordenado, sob um certo ponto de vista particular, não é entretanto senão conseqüência duma lei que fie relaciona com um ponto de vista superior ou mais extenso. Acrescentaremos, sem contudo insistir demais, que, como toda a mutação de um estado, a passagem de um ciclo para outro só se pode efetuar na penumbra. Esta lei é muito importante, e são múltiplas, as suas aplicações, e por isso mesmo uma exposição um pouco detalhada a tal respeito nos  levaria demasiadamente longe.   (7)

                    Mas não é só; a época moderna deve necessariamente corresponder ao desenvolvimento de certas possibilidades, que desde sua origem estavam incluídas na potencialidade do ciclo atual, e por mais inferior que seja o lugar ocupado por essas possibilidades na hierarquia de todo o conjunto nem por isso deveriam deixar de ser chamadas à manifestação tanto quanto às outras, segundo a ordem que lhes foi assinalada. Relativamente a esta circunstância, segundo a tradição, o que caracteriza a última fase do ciclo é, poder-se-ia dizer, a exploração de tudo quanto foi desdenhado' ou rejeitado no decorrer das fases precedentes. Efetivamente é mesmo isso o que nós podemos constatar na civilização moderna, que não vive por assim dizer, senão daquilo que as civilizações anteriores desdenharam. Para o evidenciar, basta ver de que modo os representantes das civilizações que se puderam ainda manter, até agora no mundo oriental, apreciam as ciências ociden tais e suas aplicações industriais. Entretanto estes conhecimentos inferiores, tão vazios aos olhos de quem possui um conhecimento de outra ordem, deviam ser "realizados", e para isso seria preciso que se encontrassem numa fase em que a verdadeira intelectualidade tivesse desaparecido. Estas pesquisas dum alcance exclusivamente prático, no sentido mais restrito da palavra, deveriam ser realizadas por homens aprofundados na matéria, a ponto de nada mais. conceberem para além e que tivessem chegado ao extremo oposto da espiritualidade primordial, tornando-se tanto mais escravos desta mesma matéria quanto mais pretendessem sujeitá-la a seus diversos; fins, o que os conduziria a uma agitação sempre crescente, sem regra nem finalidade, à uma dispersão na pura multiplicidade até a dissolução final.

                     Tal é, esboçada a largos traços e reduzida ao essencial, a verdadeira explicação do mundo moderno; mas, digamo-lo abertamente, esta explicação não deverá absolutamente ser tomada por uma justificativa. Uma infelicidade inevitável, nem por isso deixa de ser uma infelicidade; e mesmo se de um mal deve advir um bem, este fato hão tolhe ao mal o seu caráter. É claro que os termos de "bem" e "mal", que nós empregamos agora aqui, para melhor nos fazermos compreender, estão fora de qualquer intenção especificamente "moral". As desordens parciais não podem deixar de existir, por serem elementos necessários da ordem total; mas, apesar disso, uma época de desordem é propriamente alguma coisa comparável a uma monstruosidade, que mesmo sendo a conseqüência de certas leis naturais, não deixa de ser um extravio e uma espécie de erro, ou então é comparável a um cataclismo, que embora resulte do curso normal das coisas, não deixa de ser, se o encararmos isoladamente, uma grande perturbação e uma anomalia.

                       A civilização moderna, como todas as coisas, tem forçosamente sua razão de ser, e se fôr realmente ela que vai fechar um ciclo, pode-se dizer que ela é o que ela deve ser, e que ela vem a seu tempo e se acha em seu lugar; e nem por isso deverá deixar de ser julgada segundo a palavra evangélica, tão freqüentemente mal compreendida: "Porque é necessário que sucedam escândalos; mas ai daquele, por quem vêm os escândalos".

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NOTAS:

(1) Fato que se relaciona com a função de "conservação divina", e que na tradição hindu é representado por Vishnu, ou ainda mais particularmente com a doutrina dos Avâtâras, ou " descendimentos" do princípio divino no mundo manifestado, assunto que naturalmente não podemos cuidar de desenvolver aqui.
(2) É preciso notar que o nome de Zoroastro designa na realidade, não um personagem particular, mas uma função ao mesmo tempo profética e legisladora.    Houve diversos Zoroastros que viveram em épocas
muito diferentes; é até verossímil que esta função tivesse um caráter coletivo, tal como a de Vyâsa na India; assim como no Egito, o que foi atribuído a Thoth, ou Hermes, representa a obra de toda a casta sacerdotal.
(3) A questão do budismo está na realidade, longe de ser tão simples como se poderia pensar à primeira vista; e é interessante notar-se que _se em certas épocas os hindus condenaram esta ou aquela escola búdica isto não se aplica porém ao próprio Buda. Por outro lado, no que diz respeito ao budismo, tal como é hoje conhecido, é preciso ter-se o devido cuidado de distingui-lo de suas duas formas: o Mahâyâna e o Hinayâna, ou o " Grande Veículo " e o " Pequeno Veículo"; deve-se também notar que cada um dos ramos do budismo, espalhados nos países não indianos, apresenta certos traços que lhes são peculiares; até na India, depois da morte do Ashoka, o budismo declinou pouco a pouco, acabando por  desaparecer inteiramente,  ou quasi.
(4) Este caso não é peculiar à India, mas aparece também no Ocidente; é exatamente pela mesma razão que não se encontra nenhum vestígio das cidades gaulesas, cuja existência é, entretanto, incontestável e atestada por testemunhos contemporâneos; também, neste caso, os historiadores modernos se aproveitaram desta ausência de monumentos para pintar os gauleses como selvagens, que viviam no meio das  florestas.
(5)    É  mais  ou  menos  a  mesma  relação que  existe na doutrina taoista, entre o estado do "homem dotado" e o de "homem verdadeiro".
(6) Citaremos apenas, dois exemplos, entre os fatos deste gênero e que tiveram as mais graves conseqüências: a suposta invenção da imprensa, que os chineses já conheciam muito antes da era cristã, e o descobrimento "oficial" da América, com a qual houve durante toda a Idade Média, comunicações mais freqüentes do que se pensa.
(7) Era esta lei representada nos mistérios de Eleusis pelo simbolismo do grão de trigo; e entre os alquimistas pela "putrefação" e pela côr preta que marca o início do "Grand Oeuvre", sendo também chamado pelos místicos cristãos a " Noite obscura da alma" o que nada mais é senão a aplicação ao desenvolvimento espiritual do ser que se eleva a estados superiores. Seria facil ainda indicar outras muitas concordâncias.










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   Acima: capa, folha de rosto e página interna de "A Crise do Mundo Moderno", Livraria Martins Editora, São Paulo, 1948.
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Fig. 1
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