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Instituto René Guénon de Estudos Tradicionais
René Guénon
A Crise do Mundo Moderno

Tradução de Fernando Guedes Galvão

Capítulo V (continuação)



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Capítulos VI e VII
            Trata-se por conseguinte com mais verossimilhança daquilo a que chamaríamos de bom grado uma conservação em estado latente, permitindo sempre, aos que forem capazes, tornar a achar o sentido da tradição, mesmo quando este sentido não seja atualmente mais consciente para ninguém. Existem além disso também esparsos, aqui e ali, no mundo' ocidental, fora do domínio religioso, muitos sinais ou símbolos que provêm de antigas doutrinas tradicionais e que se conservam sem ser mais compreendidos. Em tais casos é necessário um contacto com o espírito tradicional inteiramente vivo para despertar o que está, por assim dizer, mergulhado numa espécie de sono, para restaurar a compreensão perdida; e repitamo-lo ainda mais uma vez, é sobretudo para esse trabalho que o Ocidente necessita do socorro, do Oriente, se quiser reconquistar a consciência de sua própria tradição.

            O que acabamos de dizer refere-se propriamente às possibilidades que o catolicismo, em virtude de seu princípio, encerra em si mesmo de um modo constante e inalterável. Por conseqüência, a influência do espírito moderno limita-se forçosamente aqui a impedir, durante um, periodo mais ou menos longo, que certas coisas sejam efetivamente compreendidas. Ao contrário, se se quisesse, com respeito ao estado presente do catolicismo, entender o modo pelo qual é considerado pela grande maioria de seus próprios aderentes, seria-se obrigado a constatar uma ação mais positiva do espírito moderno, se é que esta expressão pode ser empregada para qualquer coisa, que na realidade seja essencialmente negativa. O que temos em vista, a tal respeito, não são somente movimentos bastante nitidamente definidos, como aquele a que precisamente se deu o nome de "modernismo", e que nada mais foi senão uma tentativa felizmente frustrada de infiltração do espírito protestante até no seio da própria Igreja católica; é sobretudo um estado de espírito muito mais geral, mais difuso e mais dificilmente compreensível, e portanto mais perigoso ainda, tanto mais perigoso até quanto é às mais das vezes absolutamente inconsciente para aqueles que por êle são afetados; muitos há que se crêem sinceramente religiosos e todavia, nio fundo, não o são; outros que se podem dizer "tradicionalistas", sem ter a mínima noção de verdadeiro espírito tradicional, e eis aí um outro sintoma ainda da desordem mental de nossa época.
             O estado de espírito a que estamos aludindo é primeiro o que consiste, se assim se pode dizer, em "minimizar" a religião, a fazer dela alguma coisa que se põe de lado, contentando-se cada um em assinalar um lugarzinho bem delimitado e tão estreito quanto possível, alguma coisa que não tem nenhuma influência real sobre o resto da existência, que dela está isolado por uma espécie de oompartimento estanque. Existem hoje muitos católicos que na vida corrente têm modos de pensar e de agir sensivelmente diferentes dos outros seus contemporâneos mais "arreligiosos"? A ignorância é também quase que completa sob o ponto de vista doutrinário é a própria indiferença para com tudo quanto com isso se relaciona. A religião é para muitos unicamente um negócio de "prática", de hábito, para não dizer de rotina, e esses procuram cuidadosamente abster-se de compreender, seja o que fôr, chegando até a pensar que é inútil compreender, ou talvez que nada há que compreender. Entretanto, se se compreendesse verdadeiramente a religião, poderia atribuir-se-lhe um lugar tão medíocre entre as preocupações quotidianas? A doutrina acha-se, pois de fato esquecida ou reduzida a quase nada, avizinhando-se assim simplesmente da concepção protestante porque é um dos efeitos das mesmas tendências modernas opostas a toda a intelectualidade; porém o que é mais deplorável ainda é que o ensino geralmente ministrado em vez de reagir contra este estado de espírito, ao contrário o favorece adaptando-se muito bem a êle. Fala-se muito de moral e quase nunca de doutrina, com o pretexto de não ser compreendida; a religião agora não é mais que "moralismo", ou pelo menos ao que parece, ninguém quer mais ver o que ela realmente é, constituindo isto coisa muitíssimo diferente. Se por ventura, ainda às vêzes acontece falar-se de doutrina, freqüentemente é só para rebaixá-la discutindo com adversários em seu próprio terreno "profano", o que leva inevitavelmente a fazer-lhes concessões as mais injustificáveis. Assim é, por exemplo, que cada um se crê obrigado a levar em consideração, numa medida mais ou menos larga, pretensos resultados da "crítica" moderna, quando, colocando-se noutro ponto de vista, nada seria mais fácil do que mostrar toda a sua inanidade; nestas condições que mais pode ter ficado efetivamente do verdadeiro espírito tradicional?

                    Esta digressão a que fomos levados pelo exame das manifestações do individualismo, no domínio religioso, não  nos parece inútil,  pois bem mostra que o mal, neste casa, é ainda mais grave e mais espalhado do que poderia ter parecido de início; por outro lado, pouco nos afasta da questão que tínhamos em mira e com a qual nossa última nota se relaciona diretamente, pois ainda é como sempre o individualismo que introduz em toda a parte o espírito de discussão. É dificílimo fazer compreender a nossos contemporâneos que há coisas que pela sua própria natureza não podem ser discutidas; o homem moderno ao invés de elevar-se até á verdade, pretende fazê-la descer ao seu nível.  E eis sem dúvida porque há tantos que quando se lhes fala de "cências tradicionais", ou mesmo de metafísica pura, imaginam tratar-se somente de "ciência profana" e de "filosofia". No domínio das opiniões individuais pode-se sempre discutir, porque não se ultrapassa a ordem racional, e também porque não invocando nenhum princípio superior, chega-se facilmente a encontrar argumentos de maior ou menor valor, para sustentar os "prós" e os "contras" — até na maioria dos casos pode-se prolongar indefinidamente a discussão sem chegar a qualquer solução. É assim que quase toda a filosofia moderna é formada apenas de equívocos e questões mal propostas. As discussões, longe de esclarecer tais questões como de ordinário se supõe, não fazem as mais das vezes quase que senão deslocá-las, quando as não obscurecem ainda mais, e o resultado mais comum é que cada qual, ao esforçar-se por convencer o adversário, se aferra mais que nunca à sua própria opinião, encerrando-se dentro dela dum modo ainda mais exclusivista que antes. No fundo, a finalidade em tudo isso não é chegar-se ao conhecimento da verdade, mas ter razão apesar de tudo ou quando muito persuadir-se a si próprio, já que não se pode persuadir aos outros, coisa aliás tanto mais para lastimar quanto nela  anda  sempre   misturada  desta   necessidade   de "proselitismo" que constituiu também um dos elementos mais característicos do espírito ocidental. Por vezes o individualismo, no sentido mais comum e mais baixo da palavra, manifesta-se de um modo mais aparente ainda: não se vêem assim a cada instante pessoas que querem julgar a obra dum homem pelo que elas sabem de sua vida particular, como se pudesse haver uma relação qualquer entre essas duas coisas? Dessa mesma tendência junta à mania do detalhe, resulta também, notemo-lo de passagem, o interesse que se liga às mínimas particularidades da existência dos "grandes homens" e a ilusão em que incorrem por querer explicar tudo quanto fizeram por uma espécie de análise "psicofisiológica". Tudo isso é muito significativo para quem quiser considerar o que é verdadeiramente a mentalidade contemporânea.

                   Mas voltemos ainda um instante à introdução dos hábitos de discussão no domínio em que tais hábitos nada têm a fazer, e digamos claramente o seguinte: a atitude "apologética" é em si mesma uma atitude extremamente fraca, porque é puramente "defensiva", no sentido jurídico da palavra; e não é sem algum motivo que ela é designada por um termo derivado de "apologia", que tem por significação própria o arrazoado de um advogado e que, num idioma como o inglês, chegou até a tomar correntemente a acepção de "desculpa"; a importância preponderante dada à "apologética" é por conseguinte o sinal incontestável de um recuo do espírito religioso. Esta fraqueza se acentua mais quando a "apologética" degenera, como dizíamos há pouco, em discussões puramente "profanas", pelo método e ponto de vista onde a religião é colocada no mesmo plano que as teorias filosóficas e científicas, ou pseudo-cíentíficas — as mais contingentes e as mais hipotéticas — nas  quais  o  interessado para se mostrar "conciliador" vai até o ponto de admitir em certa dose concepções que não foram inventadas senão para arruinar toda a religião. Os que assim agem fornecem por si mesmos prova de que são perfeitamente inconscientes do verdadeiro caráter da doutrina, de que eles se julgam os representantes mais ou menos autorizados.

                  Os que são qualificados para falar em nome duma doutrina tradicional, não têm que discutir dom os "profanos", nem entrar em qualquer "polêmica" com eles — devem só expor apenas a doutrina tal qual ela é, aos que podem compreendê-la e ao mesmo tempo denunciar o erro em toda a parte onde êle se encontre, evidenciá-lo como tal, projetando sobre êle a verdadeira luz do conhecimento. O seu papel não é suscitar uma luta e nela comprometer a doutrina, mas formular o juízo que eles têm direito de fazer, se efetivamente estão senhores dlos princípios que os devem inspirar infalivelmente. O terreno da luta é o da ação, isto é, o domínio individual e temporal — o "motor imóvel" produz e dirige o movimento -sem a isso ser impelido — o conhecimento esclarece a ação sem participar de suas; vicissitudes — o espiritual guia o temporal sem nele imiscuir-se — e assim cada coisa permanece na sua ordem, no lugar que lhe pertence na hierarquia universal. Mas, no mundo moderno, onde poderá ainda se encontrar a noção duma verdadeira hierarquia? Nem coisa, nem pessoa se acha mais no lugar que normalmente deveria ocupar: os homens já não reconhecem nenhuma autoridade efetiva na ordem espiritual, ou poder legítimo algum na ordem temporal. Os "profanos" ousam discutir coisas sagradas, contestando o seu caráter e até a sua própria existência — é o inferior que julga o superior, a ignorância que impõe limites à sabedoria, o erro que passa por cima da verdade, o humano que se substitui ao divino, a terra que predomina sobre o céu, o indivíduo que se propõe como medida de todas as coisas e pretende ditar ao universo leis tiradas exclusivamente de sua própria razão relativa e falível.

                           "Ai de vós, guias cegos", diz o Evangelho.

                            Hoje, com efeito, só se vêem em toda parte cegos que guiam outros cegos e que, se não forem detidos em tempo, os levarão fatalmente ao abismo onde perecerão com eles.

                                                                          
* * *

NOTAS:

(23)    Mormente em: O Teosofismo e O Erro Espírita. (N. do T.)
(24)    Aliás, este estado deve manter-se, segundo a palavra evangélica, até   a   "consumação  dos   séculos",   isto  é,   até   o  fim   do  ciclo  atual.
(25)    As palavras proferidas por S. S. Pio XII e mencionadas em nota na página 41 se enquadram também neste trecho.    (N. do T.)