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| Textos de Luiz Pontual |
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| Instituto René Guénon de Estudos Tradicionais |
| René Guénon A Crise do Mundo Moderno Tradução de Fernando Guedes Galvão Capítulos II e III |
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| Capítulo II A Oposição do Oriente e Ocidente Um dos caracteres particulares do mundo moderno é a cisão que nele se nota entre o Oriente e o Ocidente, e apesar de já termos tratado esta questão duma maneira mais especial, temos uma vez mais que repisar certos aspectos, a fim de dissipar alguns mal-entendidos. A verdade é que sempre houve civilizações diversas e múltiplas, sendo que cada uma delas se desenvolveu do modo que lhe era peculiar, e num sentido conforme às aptidões de tal povo, ou de tal raça; mas distinção não quer dizer oposição, e até pode haver uma espécie de equivalência entre civilizações de formas muito diferente, desde que partam todas elas dos mesmos princípios fundamentais dos quais representam somente aplicações condicionadas pelas variadas circunstâncias. É esse o caso de tôdas as civilizações a que podemos chamar normais, ou ainda tradicionais; não há entre elas nenhuma oposição essencial, e as divergências, quando existam são apenas exteriores e superficiais; uma civilização que não reconheça princípio algum superior, que só seja na realidade fundada sobre uma negação de princípios, é ipso-facto desprovida de todo o meio de entendimento com as outras, pois este entendimento para ser verdadeiramente profundo e eficaz, só pode estabelecer-se pelo alto, quer dizer, precisamente pelo que falta a esta civilização anormal e que perdeu sua rota. No presente estado do mundo, temos por conseguinte, de um lado todas as civilizações que permaneceram fiéis ao espírito tradicional, que são as civilizações orientais, e de outro lado uma civilização propriamente antitradicional que é a civilização ocidental moderna. Todavia, alguns chegaram até a contestar que a divisão da humanidade em Oriente e Ocidente, corresponda a uma realidade; mas, ao menos; para a época atual, esta alegação não pode ser posta em dúvida. Primeiramente, que existe uma civilização ocidental e comum à Europa e à América, é um fato que não pode ser contestado e sobre o qual todo o mundo está de acordo, seja. qual fôr o juízo que se formule sobre o valor desta civilização. Quanto ao Oriente, as coisas não são tão simples, pois existem efetivamente, não uma só, mas várias civilizações orientais; porém, basta que elas possuam certos traços comuns, os que caracterizam aquilo a que chamamos uma civilização tradicional, e que estes mesmos traços não se encontrem na civilização ocidental, para que a distinção e até a oposição do Oriente e do Ocidente estejam plenamente justificadas. Ora, na verdade é isso mesmo que acontece e o caráter tradicional é com efeito comum a todas: as civilizações orientais. Lembremo-nos, a fim de melhor fixar as idéias, a divisão geral que precedentemente adotamos, a qual, apesar de ser um pouco simplificada, se pretendêssemos entrar em detalhes, é entretanto exata, encarando-a em suas grandes linhas: o Extremo Oriente representado essencialmente pela civilização chinesa, o Oriente Médio, pela hindu e o Próximo Oriente, pela muçulmana. Convém acrescentar que esta última, sob muitos pontos de vista, pode ser considerada como intermediária entre o Oriente e o Ocidente, e que inúmeros de seus caracteres, a colocam muito perto do que foi a civilização ocidental da Idade Média; mas, encarada em relação a» Ocidente moderno, deve-se reconhecer que ela lhe é oposta, tal qual as civilizações propriamente orientais, as quaes deve, neste caso, associar-se. Eis um ponto sobre o qual é preciso insistir: a oposição entre o Oriente e o Ocidente não tinha razão de ser quando também no Ocidente havia civilizações •tradicionais; só tem sentido portanto, em Se tratando especialmente do Ocidente moderno, pois esta oposição é muito mais a de dois espíritos, do que de duas entidades geográficas, mais ou menos bem definidas. Em certas épocas, das quais a mais próxima de nós é a mediaval, o espírito ocidental assemelhava-se muito mais em seus aspectos mais importantes, ao que é ainda hoje o espírito oriental, do que aquilo que se tornou nos tempos modernos. A civilização ocidental era então comparável às civilizações orientais na mesma medida em que essas o são entre elas. Produziu-se no decurso dos últimos séculos uma mudança considerável, muito mais grave que todas as alterações que tinham podido manifestar-se anteriormente em épocas de decadência, pois chega mesmo a. ser uma verdadeira transposição na direção dada à atividade humana; e foi exclusivamente no mundo ocidental que este desvio se originou. Por conseguinte, quando dizemos espírito ocidental, referindio-nos ao que presentemente existe, o que é preciso entender-se por isso, neste caso, é pròpriamente espírito moderno; e como o outro espírito só se conservou no Oriente, podemos em relação às atuais condições, chamá-lo sempre espírito oriental. Estes dois termos, em suma, não exprimem senão uma situação de fato e se nota muito claramente que um desses dois espíritos em questão, é efetivamente ocidental, porque o seu aparecimento pertence à história recente. Contudo não podemos adiantar quanto à procedência do outro que foi outrora comum ao Oriente e ao Ocidente, e cuja origem, a bem dizert deve confundir-se Com a da própria humanidade, pois é esse espírito que se poderia qualificar de normal, nem que, fôsse somente por ter inspirada todas as civilizações que conhecemos mais ou menos completamente, com uma única exceção, que é a civilização ocidental moderna. Várias pessoas, que provavelmente não se deram ao trabalho de ler nossos livros, pensaram ter o direito de nos censurar por havermos dito que todas as doutrinas tradicionais tinham uma origem oriental, e que a própria antigüidade ocidental recebera em todas as épocas, as suas tradições do Orientei; mas nós nunca, jamais, escrevemos algo de semelhante, nem mesmo nada que pudesse ter sugerido uma tal opinião, pela boa razão de que nós sabemos muito bem que isso é falso. Com efeito, são precisamente os dados tradicionais que se opõem claramente a uma asserção deste gênero: era todo lugar encontra-se a afirmação formal de que a tradição primordial do ciclo atual nos veio das regiões hiperbóreas; houve em seguida várias correntes secundárias, correspondentes a diversos períodos e das quais uma das mais importantes, pelo menos entre aquelas cujos vestígios se podem ainda discernir, se moveu incontestàvelmente do Ocidente para o Oriente. Mas tudo isso se relaciona com épocas remotíssimas, as comumente chamadas "pré-históricas", e não é este assunto o que temos em vista. O que dizíamos é em primeiro lugar, desde há muito tempo, que o depósito da tradição primordial foi transferido para o Oriente, e é lá que agora se encontram as formas doutrinais mais diretamente oriundas dessa mesma tradição; em segundo lugar, que no atual estado de coisas, o verdadeiro espírito tradicional, com tudo o que êle envolve, só tem hoje autênticos representantes tão-sòmente no Oriente. Para melhor esclarecer ainda este ponto, devemos dar algumas explicações, embora rápidas, a respeito de certas idéias de restauração duma "tradição ocidental", ventiladas em diversos meios contemporâneos; o único interesse, porém, que elas apresentam é o de mostrar que em última análise alguns espíritos já se não encontram satisfeitos com a negação moderna; ressentem a necessidade de coisa diferente da que lhe oferece nossa época, e entrevêem a possibilidade dum regresso à tradição, sobre qualquer forma, como único meio de saída da crise atual. Infelizmente o "tradicionalismo" não é de nenhum modo o verdadeiro espírito tradicional, êle só pode ser, como muitas vêzes constatamos, uma simples tendência, uma aspiração mais ou menos vaga, e que não supõe conhecimento real algum; e no desconcerto mental de nossos dias, esta aspiração provoca, é preciso dizê-lo, sobretudo concepções fantasistas e quiméricas, desprovidas de todo e qualquer fundamento sério. Não encontrando qualquer tradição autêntica sobre que se possam apoiar, vão até o ponto de imaginar pseudotradições que nunca existiram, privadas de princípios, e que todavia são exibidas como se os tivessem, e toda a desordem moderna se reflete nessas construções que, sejam, quais forem as intenções de seus autores, só tem por resultado concorrerem Com nova contribuição para o desequilíbrio geral. Mencionaremos, somente para ilustrar «casos assim, a suposta "tradição ocidental", fabricada por Certos ocultistas que empregando os elementos mais disparatados quiseram sobretudo fazer concorrência a uma "tradição oriental" não menos imaginária, a dos teosofistas; já em outro lugar falamos o bastante sobre todas estas coisas e preferimos agora passar imediatamente ao exame de outras teorias, que podem parecer mais dignas de atenção, pois nelas encontramos ao menos o desejo de, invocar tradições que tiveram uma existência efetiva. Ainda há pouco aludíamos, à corrente tradicional vinda das regiões ocidentais; as narrativas dos antigos, concernentes a Atlantida, bem indicam a sua origem. Depois do desaparecimento deste continente, que foi o último dos grandes cataclismos no passado, não parece duvidoso que os restos de sua tradição fossem transportados para regiões diversas, onde se misturaram a outras tradições preexistentes, principalmente às ramificações da grande tradição hiperbórea; e é muito possível que as doutrinais dos celtas, em particular, tenham sido um dos produtos desta fusão. Estamos bem longe de contestar estas coisas; mas que se tenha bem presente o que segue; é que a forma propriamente "atlanteana" desapareceu há milhares de anos com a civilização à qual pertencia, e cuja destruição só se pode ter dado 'em conseqüência dum desvio que talvez, em vários pontos, já comparável ao que hoje constatamos, porém com notável diferença, atendendo a que a humanidade não tinha ainda então entrado na Idade Sombria. Na verdade, esta tradição só corresponde a um período secundário do nosso ciclo, e seria um grande erro pretender identificá-la com a tradição primordial de onde provém, todas as outras, ela que é a única que permanece do princípio ao fim. Seria fora de propósito expor agora todos os dados que justificam estas afirmações e por isso vamos simplesmente à conclusão: é impossível fazer reviver presentemente uma tradição "atlanteana", ou mesmo pretender ver com ela qualquer ligação mais ou menos indireta; aliás há muita fantasia em, tentativas desta natureza. Entretanto, não deixa de ser interessante pesquisar a origem dos elementos que se acham em tradições ulteriores com a condição de fazê-lo, é claro, rodeando-sa de todos os cuidados, a fim de não cair em certas ilusões; estas pesquisas piorem, não podem em caso algum chegar até à ressurreição duma tradição que não possa ser adaptada a alguma das atuais condições deste nosso mundo. Outros querem apegar-se ao "celtismo", porque apelando assim para alguma coisa que esteja menos afastada de nós, pode parecer mais fácil a possibilidade de sua realização. Mas, onde encontrarão eles, hoje o "celtismo" no seu estado puro, e dotado ainda de suficiente vitalidade para que possam encontrar nêle um ponto de apoio? Não mencionaremos propositalmente reconstituições arqueológicas, ou simplesmente "literárias", como se têm visto algumas, pois trata-se de uma coisa bem diferente. Que elementos célticos perfeitamente reconhecíveis e ainda utizáveis tenham chegado até nós por diversos intermediários isso é mais que verdade; mas tais elementos estão muito longe de representar a integridade duma tradição. Salientaremos até um fato surpreendente: nos próprios países onde essa mesma tradição vivera outrora, aí é ela hoje muito mais ignorada do, que muitas outras civilizações que sempre foram estranhas a esses mesmos países. Não haverá nisso alguma coisa que deve dar bastante que pensar, pelo menos àqueles que não estão completamente dominados por alguma idéia preconcebida? Diremos mais: nos casos idênticos a este, quando estivermos em face de vestígios deixados por civilizações desaparecidas, só é possível, para na realidade os compreendermos, proceder por comparação com o que há de similar nas civilizações tradicionais que ainda vivem; assim é que poderíamos dizer o mesmo a respeito da Idade Média, onde se encontra tanta coisa cuja significação se perdeu para os ocidentais modernos. Pôr-se em contato com as tradições cujo espírito ainda subsiste, é por assim dizer o único meio de vivificar o que ainda é suscetível de sê-lo; e, como já indicamos muitas vezes, eis aí um dos maiores serviços que o Oriente pode prestar ao Ocidente. Não negamos a sobrevivência dum certo "espírito céltico" que ainda se pode manifestar sobre várias formas, como já aconteceu em diferentes épocas; mas quando alguém vier nos garantir que ainda existem centros espirituais que conservam integralmente a tradição druídica, desejaríamos que nos fornecessem as devidas provas; e até nova ordem, isso parece-nos bem duvidoso, ou até completamente inverossímil. A verdade é que elementos célticos que subsistiram foram na sua maior parte, durante o tempo medieval, assimilados pelo cristianismo. A lenda do "Santo Graal" e tudo a que a ela se prende é neste particular, um exemplo tipicamente provante e significativo. Aliás, pensamos que se uma tradição lograsse reconstituir-se, ela tomaria forçosamente uma forma exterior religiosa, no sentido mais estrito da palavra, e esta forma só poderia ser cristã, pois, de um lado as outras formas possíveis são desde há muito completamente (estranhas à mentalidade ocidental, e por outro lado, é só no cristianismo, ou melhor, no catolicismo, para falar com mais precisão, que se encontram, no Ocidente, os restos do espírito tradicional ainda sobrevivente. Toda a tentativa "tradicionalista" que não levar em conta este fato está, inevitavelmente condenada ao insucesso por falta de base; é evidentíssimo que ninguém se pode apoiar a não ser sobre o que existe duma maneira efetiva, e que, onde a continuidade falhe, só poderão haver reconstituições artificiais, e conseqüentemente não viáveis. Se objetarem que o cristianismo, em nossos dias quase já não é mais compreendido verdadeiramente e nem o seu profundo sentido, (8) retorquiremos que ele pelo menos guardou em sua própria forma tudo quanto é necessário para fornecer assim a base em apreço. A tentativa menos quimérica, a única mesmo que não esbarra contra impossibilidades imediatas, seria, pois, a que visasse restaurar algo de comparável ao que existira na Idade Média, com as diferenças requeridas pela modificação das circunstâncias; e para contrabalançar tudo quanto se perdeu por completa no Ocidente, conviria apelar-se para as tradições que se conservaram integralmente, como ainda há pouco indicamos, e proceder depois a um trabalho de adaptação, coisa que somente poderia ser obra duma elite intelectual fortemente constituída. Já dissemios tudo isso, porém é bom insistir, porque atualmente vai circulando muita fantasia inconsistente, e também porque é preciso compreender bem que, se as tradições orientais, em suas formas próprias, podem sem dúvida ser assimiladas por uma elite, que por definição, diremos, deve estar além de toda e qualquer forma, tal nunca poderá dar-se com a generalidade dos ocidentais, a não ser por transformações imprevisíveis, pois essas tradições não foram feitas para eles. Se vier a constituir-se uma elite ocidental, ser-lhe-á indispensável, pela razão que acabamos de mencionar, o conhecimento verdadeiro das doutrinas orientais, para bem desempenhar sua função. Porém, os que tiverem apenas de recolher o benefício daquele trabalho, e que serão a grande maioria, esses poderão nem ter consciência dessas coisas, mas a influência que delas receberão — sem mesmo o suspeitarem, por canais e meios que lhes escaparão à compreensão — nem por isso deixará de ser menos eficaz, ou menos real. Importa sermos muito claros, neste ponto, pois desejamos ser perfeitamente compreendidos te que não nos atribuam outras intenções diferentes das que ora deixamos bem expressas. Mas deixemos agora de lado qualquer antecipação, pois é o presente estado das coisas que sobretudo nos deve ocupar, e voltemos ainda um instante às idéias de restauração duma "tradição ocidental", tais como as podemos observar em redor de nós. Uma só advertência bastaria para mostrar que estas idéias não estão "em ordem", se se pode falar assim: de fato, essas idéias são quase sempre concebidas mais ou menos com um espírito hostil, claro, para com o Oriente. Mesmo aqueles que desejariam apoiar-se no cristianismo são muitas vezes, preciso é dizê-lo, animados por este espírito; parecem procurar descobrir, antes do mais, oposições que, na realidade, são perfeitamente inexistentes. E assim é que chegamos até a ouvir esta opinião absurda, que se coisas idênticas se encontrarem ao mesmo tempo no cristianismo e nas doutrinas orientais, expressas de ambos os lados por fórmulas quase idênticas, elas não terão apesar disso a mesma significação rios dois casos, mas terão até uma significação contrária! Os que emitem afirmações deste calibre provam com isso que sejam quais forem suas pretensões, a compreensão que possuem das doutrinas tradicionais não vai muito longe, pois não conseguiram entrever a identidade fundamental que se dissimula abaixo de todas as diferenças de formas exteriores, e que, mesmo onde esta identidade se torna absolutamente aparente, eles ainda aí se obstinam a desconhecê-la. Assim é que, esses mesmos não encaram o cristianismo senão dum, modo todo exterior, que não condiz a noção duma verdadeira doutrina tradicional, oferecendo em qualquer ordens uma síntese completa; é o princípio que lhes falta, e estão afetados muito mais do que eles pensam por este espírito moderno contra o qual, todavia, querem reagir; e quando empregam a palavra "tradição", não é, sem dúvida, com o mesmo sentido que lhe damos. Na confusão mental que caracteriza nossa época, chegaram a empregar indistintamente o. termo tradição a mil coisas diferentes, muitas vezes insignificantes, como simples costumes sem alcance algum, e até de origem recentíssima. Notificamos, aliás, um abuso do mesmo gênero a respeito da palavra "religião". É preciso desconfiar destas alterações da linguagem que traduzem uma espécie de degenerescência das idéias correspondentes; e não é porque alguém se intitule "tradicionalista" que temos a certeza que êle saiba, mesmo imperfeitamente, o que é a tradição, no verdadeiro sentido desta palavra. De nossa parte recusamo-nos terminantemente a dar este nome a tudo o que é de ordem puramente humana; e não é fora de propósito declará-lo expressamente, quando se encontra a todo instante, por exemplo, uma expressão como a de "filosofia tradicional". Nenhuma filosofia, mesmo sendo em verdade tudo quanto pode ser, tem direito algum a esse título, porque toda ela se mantém apenas dentro da ordem racional, mesmo que não negue o que a ultrapassa, porque não é mais que uma construção edificada por indivíduos humanos, sem revelação ou inspiração de espécie alguma; resumindo, numa só palavra: porque é algo de essencialmente "profano". Demais, a despeito de todas as ilusões, e muitos dentro delas Se comprazem, não será só por certo com uma ciência inteiramente "livresca" que se poderá fazer erguer a mentalidade duma raça e duma época; para isso é necessária mais que uma especulação filosófica, que mesmo no caso mais favorável, está condenada pela sua própria natureza a permanecer apertas exterior, muito mais verbal que real. Para restaurar a tradição perdida, para revivificá-la verdadeiramente, é preciso o contato com o espírito tradicional que se mantém vivo ainda, e como já dissemos é somente no Oriente que este espírito se conserva inteiramente vivo; ao fazer uma tal afirmação é claro que, naturalmente, só encaramos os elementos ortodoxos, excluindo qualquer agitação modernista, que porventura possa manifestar-se. Os raros movimentos de reação "antimoderna", até agora verificados, aliás muito incompletos a nosso ver, não deixam de supor, antes de mais nada, que no Ocidente se encontra também uma aspiração visando um retorno ao espírito tradicional, movimentos esses que só confirmam nossa convicção. Tudo isto é excelente em sua parte negativa e crítica, mas acha-se, no entanto, ainda muito longe duma restauração da verdadeira intelectualidade, e desenvolve-se apenas nos limites de um horizonte mental bastante reduzido. Já é sem dúvida alguma coisa, por ser indício de um estado de espírito de que teria sido dificílimo encontrar o mínimo sinal, há poucos anos atrás.. Se nem todos os ocidentais se acham mais satisfeitos unanimemente com o desenvolvimento exclusivamente material da civilização moderna, talvez seja isso um sinal de que nem toda a esperança de salvação está ainda totalmente perdida. Seja como fôr, supondo-se que o Ocidente volte de um modo qualquer à sua tradição, sua oposição com o Oriente cessará de existir e destarte estaria o caso resolvido, pois que, se tal estado de coisas tomou incremento, isso só foi devido ao fato do Ocidente se ter desviado de sua rota. Na realidade não há. senão oposição do espírito tradicional e do espírito antitradicional. Assim, contrariamente ao que podem supor aqueles a que ainda há pouco nos referimos, o regresso à tradição teria entre seus primeiros resultados o de tornar possível um entendimento imediato com o Oriente, como possível é entre todas as civilizações que possuem elementos comparáveis, ou equivalentes, pois são esses elementos que constituem o terreno único sobre o qual este entendimento pode operar-se vàlidamente. O verdadeiro espírito tradicional, seja qual fôr a forma que tome, no fundo é sempre o mesmo; as diversas formas que são adaptáveis especialmente a tais ou tais condições mentais, a tais ou tais circunstâncias de tempo e lugar, são a expressão duma. única e mesma verdade. Porém, faz-se mister colocar-se na ordem da intelectualidade pura para descobrir esta unidade fundamental, debaixo de sua aparente multiplicidade. Demais1, é nesta ordem intelectual que residem os princípios de que todo o resto depende normalmente, a título de conseqüência ou de aplicação mais ou menos afastadas; é por conseguinte sobre estes princípios que é preciso pôr-.se de acordo antes do mais, em se tratando dum entendimento verdadeiramente profundo, pois aí está todo o essencial; e uma vez compreendidos esses princípios, o acordo se fará por si mesmo. É necessário notar, com efeito, que o conhecimento dos princípios é o conhecimento por excelência, o conhecimento metafísico na verdadeira acepção da palavra é universal como os próprios princípios, portanto completamente desembaraçado de todas as contingências individuais que, ao contrário, intervém necessariamente, logo que se passe às aplicações; tanto assim que este domínio puramente intelectual é o único que não requer um esforço de adaptação entre mentalidades diferentes. Outrossim, quando um trabalho desta natureza é realizado, nada mais resta que desenvolver os resultados, para que o acordo em todos os outros domínios dê-se igualmente, pois, como dissemos, é daí que tudo depende direta ou indiretamente; ao contrário, um acordo obtido num domínio particular, fora dos princípios, será sempre eminentemente instável e precário, e muito mais semelhante à uma combinação diplomática que um verdadeiro entendimento. Insistindo ainda, diremos que este entendimento só pode vir realmente de cima, e nunca de baixo, devendo por isso entender-se em um duplo sentido: é preciso partir do que há de mais elevado, isto é, dos princípios, e descer depois gradualmente às diversas ordens de aplicação, observando sempre rigorosamente a dependência hierárquica que existe entre eles, e esta obra, por seu próprio caráter, só pode ser obra de uma elite, dando à esta palavra, sua acepção mais completa e verdadeira. É a uma elite intelectual que exclusivamente nos referimos; a nosso ver não pode «existir outras, pois todas as distinções sociais exteriores são coisas sem importância, atendendo ao ponto de vista em que nos colocamos. Estas breves considerações já podem fazer compreender tudo quanto falta à civilização ocidental moderna, não só no que diz respeito à possibilidade duma aproximação efetiva com as civilizações Orientais, mas também em si mesma, para ser uma civilização normal e completa; em verdade, estas duas questões estão tão estreitamente ligadas que fazem por assim dizer uma única, e acabamos precisamente de apontar as razões pelas quais tal se verifica. Mostraremos agora mais cabalmente em que consiste o espírito antidracional, que é propriamente o espírito moderno, e quais as conseqüências que dele derivam, conseqüências que vemos desenrolar-se com uma lógica desapiedada nos acontecimentos atuais; mas antes de aí chegarmos, uma última reflexão se impõe ainda. Não é ser "antiocidental", se é que se pode empregar esta palavra, o ser "antimodernoi", pois é ao contrário, o único esforço válido para tentar salvar o Ocidente de sua desordem e por outro lado, nenhum oriental, fiel à sua tradição, pode considerar as coisas de modo diferente; há muito menos adversários do Ocidente como tal, o que aliás seria desprovido de sentido, do que do Ocidente quando êle se identifica com a civilização moderna. Alguns estão hoje falando de "defesa do Ocidente", o que é verdadeiramente singular, quando, como mais longe veremos, é este quem ameaça de tudo submergir e de arrastar consigo a humanidade inteira para o sorvedouro de sua atividade desordenada; singular, dizemos nós, e inteiramente injustificável, se é que esses entendem, como bem o parece, apesar de algumas restrições que esta defesa deve ser dirigida contra o Oriente, pois que o verdadeiro Oriente não cogita nem de atacar, nem de dominar a quem quer que seja, nada mais, pede sua independência e sua tranqüilidade, o que é, todos convirão, assaz legítimo. A verdade, no entanto, é que o Ocidente é que efetivamente tem precisão de ser defendido, mas unicamente Contra êle mesmo, contra suas próprias tendências, que, se forem levadas a cabo, inevitavelmente o conduzirão à ruína e à destruição; é por conseguinte "reforma do Ocidente" que se deveria dizer, e se esta reforma fosse o que deveria ser, quer dizer, uma verdadeira restauração tradicional, teria por natural conseqüência uma imediata aproximação com o Oriente. De nossa parte, poderíamos contribuir na medida de nossos recursos para esta aproximação, e também para esta reforma, se porventura ainda, fosse tempo, e se um tal resultado pudesse ser obtido antes da catástrofe final, para a qual marcha a largos passos a civilização moderna; mesmo que fosse já demasiado tarde para evitar esta catástrofe, o trabalho executado nesta intenção nunca seria inútil, pois serviria em todo caso para preparar, embora de longe, esta "discriminação" a que aludimos de inicio e assegurar assim a conservação dos elementos destinados a escapar ao naufrágio do mundo atual para se tornarem os germes do mundo futuro. * * * Notas: (8) Quase vinte anos mais tarde é que S. S. Pio XII, não querendo mais ocultar a gravidade deste estado de coisas, profere as palavras seguintes, no encerramento do Congresso dos Catequistas, realizado em Boston em 26 de outubro de 1946: "O Corpo Místico de Cristo, que é a Igreja, acha-se atualmente ameaçado não somente do exterior pelas potências hostis, mas também internamente pela fraqueza e decadência de certos elementos. Esta fraqueza crescente, que se manifesta em numerosos setores da Igreja, tem sua fonte principal na ignorância, ou melhor, no conhecimento superficial das verdades religiosas ensinadas pelo Redentor". Mais adiante: " Mas é preciso que seus membros compreendam a plenitude da beleza de suas obrigações como membros do Corpo Místico de Cristo" (N. do T.) * * * Capítulo III Conhecimento e Ação Consideraremos agora dum modo mais particular um dos aspectos principais da oposição que existe atualmente entre o espírito oriental e o ocidental, e que é mais geralmente a do espírito tradicional e do anti-tradicional, como já explicamos. Sob certo ponto de vista, que é, aliás, um dos mais fundamentais, aparece, esta oposição como sendo a da contemplação e a da ação ou, mais exatamente, na demarcação que convém atribuir tanto a um como a outro desses dois termos. Em suas relações, podem ser encarados de várias maneiras diferentes: são eles na realidade, como se pensa mais comumente, dois termos contrários ou não será um, talvez, complemento do outro, ou ainda, não haverá de fato entre eles uma relação, não de coordenação, mas sim de subordinação? Tais são os diferentes aspectos da questão, aspectos que se relacionam com outros tantos pontos de vista, e cada um deles, embora de muito desigual importância, pode bem se justificar a certos respeitos, correspondendo a um aspecto de realidade. Primeiramente, o ponto de vista mais superficial, o mais exterior de todos, é o que consiste em opor pura e simplesmente a contemplação à ação, como se fossem dois contrários na exata acepção do termo. Com efeito, que a oposição existe claramente nas aparências, isso é incontestável. Todavia, se essa oposição fosse absolutamente irredutível, haveria absoluta incompatibilidade entre contemplação e ação, as quais assim sendo, nunca poderiam então encontrar-se reunidas. Ora, realmente isso não se dá, não há pelo menos em casos normais, povos, nem talvez mesmo indivíduo, que possam ser exclusivamente contemplativos, ou exclusivamente ativos. O que é certo é que existem duas tendências, uma delas quase que necessariamente, mais forte, de forma que o desenvolvimento de uma parece efetuar-se em prejuízo da outra, pela simples razão de que a atividade humana, tomada ma seu sentido mais lato, não pode exercer-se igualmente e ao mesmo tempo em todos Os domínios e em todas as direções. E é isso o que dá a aparência duma oposição; mas deve ser passível uma conciliação entre estes opostos, ou pseudo-opostos. Ademais, poder-se-ia dizer o mesmo a respeito de todos os contrários que deixam de o ser desde que, para os Considerar, nas elevemos acima dum certo nível, no qual se encontra confinada a realidade de sua oposição. Quem diz oposição, ou contraste, também diz com isso mesmo desarmonia, ou desiquilíbrio, isto e, algo que como já indicamos suficientemente, só pode existir considerado sob um ponto de vista relativo, particular e limitado. Se considerarmos a Contemplação e a ação como complementares, então já nos colocamos, num ponto de vista mais profundo e verdadeiro que o precedente, pois nesse caso a oposição já se acha conciliada e resolvida por estes dois termos de certa forma. Se equilibrassem um como outro, tratar-se-ia então ao que parece, de dois elementos igualmente necessários que se completam e se apoiam mutuamente, e que Constituem a dupla atividade interior e exterior dum só e mesmo ser, quer esse seja cada homem tomado em particular, ou a humanidade considerada coletivamente. Esta concepção é certamente mais harmônica e mais satisfatória que a primeira; entretanto, se nos mantivéssemos exclusivamente dentro dela, poderíamos ser tentados, em virtude da correlação assim estabelecida, a colocar no mesmo plano a contemplação e a ação de maneira que bastaria apenas manter, tanto quanto possível, a balança em equilíbrio entre elas sem nunca se levar em consideração o caso de qualquer superioridade de uma Com relação à outra, o que bem mostra ser insuficiente tal ponto de vista. Ao invés, é mister que a questão de superioridade seja pousada e se tome efetivamente em devida consideração, seja qual fôr a orientação que se queira dar à sua solução. O que importa, afinal de contas, não é a questão de predominância de fato, que seria, neste caso, uma questão de temperamento ou de raça, mas a que se poderia chamar uma predominância de direito; e essas duas coisas estão só até certo ponto ligadas. Sem dúvida, o reconhecimento da superioridade de uma das duas tendências incitará a desenvolvê-la o mais possível de preferência à outra; mas, na aplicação, não é menos verdade que o lugar que caberá à contemplação e à ação no conjunto da vida de um homem, ou de um povo, resultará sempre em grande parte da própria natureza deste, pois nisto nunca se deverão perder de vista as possibilidades particulares de cada um. É manifesto que a aptidão à contemplação está muito mais espalhada e geralmente mais desenvolvida entre os orientais; é a Índia, provavelmente, o país em que tal fato dá-se com maior intensidade, e é por isso mesmo que ela pode ser considerada como a representante, por excelência daquilo a que chamamos o espírito oriental. Ao contrário, é incontestável que de um modo geral a aptidão à ação, ou a tendência que resulta desta aptidão, é a que predomina entre os povos ocidentais, abrangendo a grande maioria dos indivíduos, e que, se esta tendência rão fosse tão exagerada e não estivesse tão desnorteada, como está presentemente, ela subsistiria, apesar de tudo, de forma que a contemplação só poderia ser o apanágio de uma elite muitíssimo limitada; é por isso que é voz corrente na Índia que se o Ocidente voltasse a um estado normal, e possuísse uma organização social regular, aí se encontrariam, indubitavelmente muitos Kshatriyas, porém poucos Brâhmanas. (9) Entretanto isso poderia bastar, se a elite intelectual fosse efetivamente constituída e se sua supremacia fosse reconhecida, para que tudo entrasse na ordem, pois o poder espiritual não é em absoluto baseado na quantidade, cuja lei é a da matéria. Note-se bem: na antigüidade, e sobretudo na Idade Média, a disposição natural à ação, existente nos ocidentais, nem por isso os impedia de reconhecer a superioridade da contemplação — isto é, da inteligência pura, por que não é mais assim na época moderna? Será porque os ocidentais, desenvolvendo em excesso suas faculdades de ação, chegaram a perder a sua intelectualidade, e que, para se consolarem, inventaram teorias que colocam a ação acima de tudo, e vão, como no "pragmatismo" até o ponto de negar que exista qualquer coisa que tenha valor fora dela, ou será ainda ao contrário êste modo de ver que, tendo prevalecido no começo, trouxe a atrofia intelectual que boje constatamos? Em quaisquer destas duas hipóteses, e tam bém no caso provável da verdade se encontrar na combinação de uma com outra, os resultados são exatamente os mesmos. Atendendo ao ponto a que chegaram as coisas, urge reagir e é mister, digamo-lo ainda mais uma vez, que o Oriente ajude o Ocidente, se êste todavia o consentir, não para lhe impor concepções que lhe são estranhas, como muitos parecem temer, mas bem ao contrário, para ajudá-lo a achar novamente sua própria tradição, cujo sentido perdeu. Poder-se-ia dizer que a antítese do Oriente e do Ocidente, no atual estado de coisas, consiste em que o Oriente mantém a superioridade da contemplação sobre a ação, ao passo que o Ocidente moderno afirma o contrário: a superioridade da ação sobre a contemplação. Agora já não se trata como quando se falava simplesmente de oposição, ou de complementarismo e por Conseguinte de uma relação de coordenação entre os dois termos em confronto. Agora já não se trata de pontos de vista tais que cada um deles possa ter sua razão de existir e ser aceito, no mínimoí, como expressão duma certa verdade relativa, sendo uma relação de subordinação irreversível por sua própria natureza. As duas concepções são realmente contraditórias1, portanto, exclusivas uma da outra, de sorte que desde que se admita que haja efetivamente subordinação, uma é forçosamente verdadeira e a outra é falsa. Antes de ir ao fundo da questão em si mesma, focalizaremos ainda o seguinte: enquanto o espírito que se manteve no Oriente é, como mais acima dissemos, verdadeiramente o de todos os tempos, o outro espírito só veio a aparecer muito recentemente, o que, afastada qualquer outra consideração, pode reputar-se como algo de anormal. Esta impressão é confirmada pelo exagero em que cai, seguindo a tendência que lhe é peculiar, o espírito ocidental moderno, que não contente em proclamar em todas as ocasiões a superioridade da ação, chegou até a fazer desta a sua preocupação exclusiva, e a negar qualquer valor à contemplação, ignorando aliás ou desconhecendo por completo a sua verdadeira natureza. Ao contrário, as doutrinas orientais, embora afirmem o mais nitidamente possível a superioridade e mesmo a transcedência da contemplação relativamente à ação, nem por isso deixam de dispensar a esta o seu legítimo lugar e de bom grado reconhecem toda a sua importância na ordem das contingências humanas. (10) As doutrinas orientais, bem como as antigas doutrinas ocidentais, são unânimes em afirmar que a contemplação é superior à ação, como o imutável é superior á mutação (11). Não sendo a ação senão uma modificação transitória e momentânea do ser, ela não poderá encerrar em si mesma seu princípio e sua razão suficiente; se não estivesse ligada a um princípio qualquer, além de seu domínio contingente, ela não passaria de pura ilusão; e este princípio — do qual ela aufere toda a realidade de que é suscetível sua existência e até mesmo sua própria possibilidade — só pode encontrar-se na contemplação, ou, se preferirem, no conhecimento, pois, no fundo, estes dois termos são sinônimos ou pelo menos coincidem;, visto que o próprio conhecimento e a operação pelo qual se o alcança não podem de modo algum achar-se separados. (12) Igualmente a mutação na sua acepção mais lata, é ininteligível e contraditória, isto é, impossível sem um princípio de que proceda, o qual por isso mesmo que é seu princípio não lhe pode estar submetido, sendo por conseguinte, forçosamente imutável; e eis porque, na antigüidade ocidental, Aristóteles afirmara a necessidade do "motor imóvel" de todas as coisas. Este papel de "motor imóvel", é representado precisamente pelo conhecimento em relação à ação; é evidente que esta pertence toda ela ao mundo da mutação, do "vir a ser"; só o conhecimento é que permite sair deste mundo e elas limitações que lhe são inerentes. E quando êle atinge o imutável, que é o caso do conhecimento principal ou metafísico — isto é, o conhecimento por excelência — só então é que possui por si mesmo a imutabilidade, pois todo o conhecimento Verdadeiro é essencialmente identificação com seu objeto. É exatamente isso que os modernos ocidentais ignoram, eles que no tocante ao conhecimento, não olham outra coisa senão a um conhecimento racional e discursivo, portanto indireto e imperfeito, a que se poderia chamar um conhecimento por reflexo. Demais a mais, só apreciam este conhecimento inferior e mesmo só lhes dão alguma importância, quando lhes possa servir para fins práticos. Empenhados na ação a ponto de negarem tudo quanto a ultrapassa, nem sequer notam que esta ação degenera assim por falta de princípio, em uma agitação tão vã quanto estéril. É pois exatamente este, com efeito, o caráter mais visível da época moderna: necessidade de agitação incessante, de mudança contínua, de velocidade sempre crescente, como a que se reflete no desenrolar dos próprios acontecimentos. É a dispersão na multiplicidade e em uma multiplicidade não mais unificada pela consciência de qualquer princípio superior. E na vida corrente, como nas concepções científicas, a análise é levada aos extremos, ao fracionamento indefinido, uma verdadeira desagregação da atividade humana em todos os domínios onde possa ainda exercer-se. Daí, a inaptidão à síntese, a impossibilidade de toda a concentração tão impressionante aos olhos dos orientais. São as conseqüências naturais e inevitáveis duma materialização cada vez mais acentuada, pois a matéria é essencialmente multiplicidade e divisão, e é por isso que, digamo-lo de passagem, deste estado de coisas só podem resultar lutas e conflitos de toda a espécie, tanto entre os povos como indivíduos. Quanto mais a pessoa mergulha na matéria, tanto mais se acentuam e amplificam os elementos de divisão e de oposição, e ao invés, quanto mais ela se deva para a espiritualidade pura, tanto mais se aproxima da unidade, que não pode ser plenamente realizada senão pela consciência dos princípios universais. O que é mais para estranhar é que o movimento e a mudança agora são verdadeiramente procurados por si mesmos, e não em vista de uma finalidade qualquer a que possam conduzir, e este fato resulta diretamente da absorção de todas as faculdades humanas pela ação exterior, cujo caráter momentâneo, ainda há pouco assinalamos. É ainda a dispersão encarada sob um outro aspecto, e em um grau mais acentuado — é, poder-se-ia dizer, como uma tendência à instantaneidade, tendo por limite um estado de puro desequilíbrio, que, se pudesse ser atingido, coincidiria com a dissolução final deste mundo; e é ainda um dos sinais mais claros do último período da Kali-Yuga. Sob este ponto de vista ainda a mesma coisa se dá na ordem científica: é a averiguação pela averiguação, muitíssimo mais ainda que pelos resultados parciais e fragmentários a que ela conduz; é a sucessão cada vez mais rápida de teorias e hipóteses sem fundamento, que apenas edificadas ruem para dar lugar a outras que durarão ainda menos — verdadeiro caos no qual seria vão procurar alguns elementos definitivamente adquiridos, se isso não for antes um monstruoso acúmulo de fatos e de detalhes que nada podem provar ou significar. Referimo-nos aqui, bem entendido, ao que toca ao ponto de vista especulativo e na medida em que ainda subsiste. Relativamente às aplicações práticas verificam-se, bem ao contrário, resultados incontestáveis facilmente compreensíveis, pois estas aplicações se relacionam imediatamente com o domínio material: esse domínio é precisamente o único em que o homem moderno pode vangloriar-se de ter uma real superioridade. Deve-se, pois, esperar que as descobertas, ou melhor, as invenções mecânicas e industriais continuem ainda a desenvolver-se e a multiplicar-se cada vez mais rapidamente até o fim da era atual. E quem sabe se elas, com os perigos de destruição que encerram em si mesmas, não serão um dos principais agentes que provocarão a derradeira catástrofe, caso as coisas cheguem a tal ponto que não mais passa ser evitada? Não há dúvida que em geral tem-se a impressão de que no estado atual não há mais estabilidade alguma. Enquanto somente alguns sentem o perigo e tentam reagir, a maioria de nossos contemporâneos se compraz com esta desordem, na qual estes vêem como uma imagem exteriorizada de sua própria mentalidade, Há, efetivamente, correspondência exata entre um mundo em que tudo parece estar em puro "vir a ser", no qual não há mais nenhum lugar para o imutável e o permanente, e o estado de espírito; dos homens que fazem consistir toda realidade neste mesmo "vir a ser" — o que implica a negação do verdadeiro conhecimento, bem como o próprio objeto deste conhecimento, isto é, dos princípios transcedentes e universais; pode-se mesmo ir mais longe ainda — é a negação de todo o conhecimento real, seja qual fôr a ordem, até no relativo, pois como já dissemos o relativo é ininteligível e impossível sem o absoluto, o contingente sem o necessário, a mutabilidade sem o imutável, a multiplicidade sem a unidade; o "relativismo" encerra uma contradição em si mesmo e quando se quer reduzir tudo à mutabilidade, deveria chegar-se logicamente a negar a própria existência desta mutabilidade; no fundo, os famosos argumentos de Zenon de Elea não tinham outro sentido. Porém é preciso dizer que as teorias deste gênero não são exclusivamente próprias dos tempos modernos. Convém não exagerar. Alguns exemplos podem ser encontrados na filosofia grega. O caso de Heráclito com seu "escoamento universal" é o mais conhecido a este propósito. Foi mesmo o que levou os Eleatas a combater essas concepções, assim como as dos atomistas, mediante uma espécie de redução ao absurdo. Também na Índia parece ter existido algo de comparável a certos respeitos, ainda que sob um ponto de vista muitíssimo diferente do da filosofia, pois as teorias atomistas exerceram sua influência sobre algumas escolas búdicas. (13) Estas teorias, porém, não passavam de exceção. As revoltas contra o espírito tradicional, verificadas durante todo decurso da Kali-Yuga, não tiveram, em suma, senão um alcance assaz restrito. O que aparece como novidade é a generalização de tais concepções, como estamos vendo no Ocidente contemporâneo. Salientaremos que as "filosofias do "vir a ser", sob a influência da recentíssima idéia de "progresso" tomaram entre os modernos uma forma especial, diferente da que tinham as teorias do mesmo gênero entre os antigos: esta forma, aliás suscetível de múltiplas variedades, é o que se pode designar, dum modo geral, pelo nome de "evolucionismo". Não voltaremos novamente a discorrer sobre este assunto, pois já fizemos alhures; lembraremos somente que toda a concepção que não admite nada mais que o "vir a ser" é necessariamente e por isso mesmo uma concepção "naturalista", implicando como tal uma negação formal de tudo quanto está além da natureza, isto é, do domínio metafísico, que é o domínio dos princípios imutáveis e eternos. Apontaremos também, a propósito destas teorias antimetafísicas, que a idéia bergsioniana da "duração pura" corresponde exatamente a esta dispersão no instantâneo de que há pouco referíamos. A pretensa intuição que se modela sobre o fluxo incessante das coisas sensíveis, longe de proporcionar o meio para um conhecimento verdadeiro, representa na realidade a dissolução de todo o conhecimento possível. Isto nos leva a repetir mais uma vez, pois é este um ponto absolutamente essencial e sobre o qual é indispensável não deixar pairar nenhum equívoco, que a intuição intelectual, única pela qual se obtém o verdadeiro conhecimento metafísico, nada tem em absoluto de comum com essa outra intuição de que falam certos filósofos contemporâneos — esta é de ordem sensível, propriamente infra-racional, ao passo que a outra, que é a inteligência pura, é, muito ao contrário, supra-racional. Mas os modernos que nada conhecem de superior à razão, no domínio da inteligência, não podem nem mesmo conceber o que possa ser a intuição intelectual, enquanto que as doutrinas da antigüidade e da Idade Média, mesmo quando tinham apenas um caráter simplesmente filosófico — e por conseguinte não podiam efetivamente apelar para esta intuição — não deixavam de reconhecer expressamente sua existência e sua supremacia sobre todas as outras faculdades. Eis porque antes de Descartes não houvera "nacionalismo", tendo nós com isso também alguma coisa de especificamente moderna) o que está estreitamente solidário com o "individualismo", pois nada miais é que a negação de toda faculdade de ordem supra-individual. Enquanto os ocidentais se obstinarem em desconhecer, ou em negar a intuição intelectual, não poderão possuir, no verdadeiro sentido da palavra, uma tradição qualquer; tampouoo poderão entender-se com os autênticos representantes das civilizações orientais, onde tudo está como suspenso a esta intuição, imutável e infalível em si mesma, único ponto de partida de todo desenvolvimento conforme as normas tradicionais. * Notas: (9) Com efeito, a contemplação e a ação, são respectivamente as funções próprias das duas primeiras castas, a dos Brâhmanas, e a dos Kshatriyas: é por isso que suas relações são respectivamente as da "Autoridade espiritual" e do "poder temporal", assunto que será visto mais tarde em obra a publicar, pois merece ser tratada mais detidamente. (10) Os que duvidarem da importância real, bem que relativa, que as doutrinas tradicionais do Oriente, e especialmente da índia, concedem à ação, poderão para »e convencerem consultar a Bhaçjavad-Gitâ, que é aliás — não se deve esquecer, se se quer compreender bem o seu sentido -- um livro especialmente destinado ao uso dos Kshalriyas. (11) É em virtude da relação assim estabelecida que se diz que o Brâhmana é o tipo dos seres estáveis e que o Kshatriya é o tipo dos seres móveis ou mudáveis; assim todos os seres deste mundo, segunda sua natureza, estão principalmente em relação com um ou outro, pois há uma perfeita correspondência entre a ordem cósmica e a ordem humana. (12) É preciso notar, com efeito, como conseqüência do caráter essencialmente momentâneo da ação, que em seu domínio, os resultados estão sempre separados daquilo que os produz, enquanto que o conhecimento traz seu fruto em si mesmo. (13) Pode-se dizer que as teorias "naturalistas" aparecem quase inevitavelmente cada vez que numa civilização os Kshatriyas (ou o elemento que lhe eqüivale) começam a desconhecer sua subordinação essencial vis-à-vis dos Brâhmanas, é que pelo andar dos tempos o poder temporal tende a predominar sobre a autoridade espiritual. Com efeito, é facílimo compreender pelas indicações que precederam, que existe, dum modo geral, um laço diretíssimo entre a negação de todo princípio imutável e da autoridade espiritual e a redução de toda realidade ao "vir a ser", inclusive a afirmação da supremacia do poder temporal, cujo domínio próprio é o mundo da ação. * * * df |
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