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Instituto René Guénon de Estudos Tradicionais
Como estudar a obra de René Guénon
por Luiz Pontual
(continuação)
                                                                 “Estados Múltiplos do Ser”

                       Vejamos agora como Guénon apresenta o terceiro livro do núcleo doutrinal de sua obra:

                                                                       
"PREFÁCIO

               Em nosso precedente estudo sobre O Simbolismo da Cruz, expusemos, segundo os dados providos pelas diferentes doutrinas tradicionais, uma representação geométrica do ser que está baseada inteiramente na teoria metafísica dos estados múltiplos. O presente volume será a este respeito como um complemento, já que as indicações que demos não bastam, talvez, para fazer-se sobressair todo o alcance desta teoria, que deve considerar-se como inteiramente fundamental; em efeito, devemos nos limitar então ao que se referia mais diretamente à meta claramente definida a que nos propúnhamos. Por isso é que, deixando de lado agora a representação simbólica que temos descrito, ou ao menos não a recordando em certo modo mais que incidentalmente quando houver lugar a nos referir a ela, consagraremos inteiramente este novo trabalho a um desenvolvimento mais amplo da teoria de que se trata, seja, primeiramente, em seu princípio mesmo, seja em algumas de suas aplicações, no que concerne mais particularmente ao ser considerado sob seu aspecto humano.
              No que concerne a este último ponto, talvez não é inútil recordar a partir de agora que o fato de determo-nos nas considerações desta ordem não implica de modo algum que o estado humano ocupe uma fileira privilegiada no conjunto da Existência universal, ou que se distinga metafisicamente, em relação a outros estados, pela posse de uma prerrogativa qualquer. 
             Em realidade, este estado humano não é mais que um estado de manifestação como todos outros, e entre uma indefinidade de outros; na hierarquia dos graus da Existência, situa-se no lugar que lhe está atribuído por sua natureza mesma, quer dizer, pelo caráter limitante das condições que lhe definem, e este lugar não lhe confere nem superioridade nem inferioridade absoluta. Se às vezes devemos considerar particularmente este estado, é, pois, unicamente porque, sendo o estado no qual nos encontramos de fato, por isso mesmo adquire para nós, mas para nós somente, uma importância especial; assim, nisto não se trata mais que um ponto de vista completamente relativo e contingente, o dos indivíduos que somos em nosso presente modo de manifestação. Por isso é que, concretamente, quando falamos de estados superiores e de estados inferiores, é sempre com relação ao estado humano, tomado como termo de comparação, como devemos operar esta repartição hierárquica, posto que não há nenhum outro que nos seja diretamente compreensível enquanto que indivíduos; e é necessário não esquecer que toda expressão, sendo a envoltura em uma forma, se efetua necessariamente de modo individual, de sorte que, quando queremos falar de algo, concernente às verdades de ordem puramente metafísica, não podemos fazê-lo mais que descendo a uma ordem completamente diferente, essencialmente relativa e limitada, para as traduzir à linguagem que é a das individualidades humanas. 
             Compreender-se-á sem esforço todas as precauções e as reservas que impõe a inevitável imperfeição desta linguagem, tão manifestamente inadequada ao que deve expressar em tal caso; há aí uma desproporção evidente, e, ademais, pode-se dizer o mesmo para toda representação formal, qualquer que seja, compreendidas aí as representações propriamente simbólicas, não obstante incomparavelmente menos estreitamente limitadas que a linguagem ordinária, e por conseqüência mais aptas para a comunicação das verdades transcendentes, daí o emprego que se faz delas constantemente em todo ensino que possua um caráter verdadeiramente «iniciático» e tradicional. Por isso é que, como o temos feito observar já em várias ocasiões, convém, para não alterar a verdade por uma exposição parcial, restritiva ou sistematizada, reservar sempre a parte do inexpressável, quer dizer, aquilo que não poderia encerrar-se em nenhuma forma, e que, metafisicamente, é em realidade o que mais importa, podemos dizer, inclusive, o mais essencial.
              Agora bem, se se quer ligar, sempre no que concerne à consideração do estado humano, o ponto de vista individual ao ponto de vista metafísico, como deve fazer-se sempre que se tratar de «ciência sagrada», e não só de saber «profano», diremos isto: a realização do ser total pode levar-se a cabo a partir de não importa qual estado tomado como base e como ponto de partida, em razão mesma da equivalência de todos os modos de existência contingentes a respeito do Absoluto; assim, pode levar-se a cabo a partir do estado humano da mesma maneira que desde todo outro, e inclusive, como já o temos dito em outra parte, a partir de toda modalidade deste estado, o que equivale a dizer que é concretamente possível para o homem corporal e terrestre, pensem o que pensem disso os ocidentais, induzidos a engano, quanto à importância que convém atribuir a «corporeidade», pela extraordinária insuficiência de suas concepções concernentes à constituição do ser humano. 
              Posto que este é o estado no qual nos encontramos atualmente, é daí de onde devemos partir efetivamente se nos propomos alcançar a realização metafísica, a qualquer grau que seja, e essa é a razão essencial pela qual este caso deve ser considerado mais especialmente por nós; Ademais, posto que desenvolvemos estas considerações precedentemente, não insistiremos mais nisso, ainda mais por que nossa exposição mesma permitirá compreendê-las melhor ainda .
              Por outra parte, para descartar toda confusão possível, devemos recordar a partir de agora que, quando falamos dos estados múltiplos do ser, trata-se, não de uma simples multiplicidade numérica, ou inclusive mais geralmente quantitativa, mas sim de uma multiplicidade de ordem «transcendental» ou verdadeiramente universal, aplicável a todos os domínios que constituem os diferentes «mundos» ou graus da Existência, considerados separadamente ou em seu conjunto, e, por conseguinte, fora e mais à frente do domínio especial do número e inclusive da quantidade sob todos seus modos.              Em efeito, a quantidade, e com maior razão o número que não é mais que um de seus modos, ou seja, a quantidade descontínua, é somente uma das condições determinantes de alguns estados, entre os quais está o nosso; por conseguinte, não poderia ser transportada a outros estados, e ainda menos aplicada ao conjunto dos estados, que escapa evidentemente a uma tal determinação. Por isso é que, quando falamos deste em relação a uma multidão indefinida, sempre devemos tomar cuidado de observar que a indefinidade de que se trata transborda todo número, e também tudo aquilo ao que a quantidade é mais ou menos diretamente aplicável, como a indefinidade espacial ou temporal, que não dependem igualmente mais que das condições próprias ao nosso mundo. 
              Impõe-se ainda outra observação, sobre o emprego que fazemos da palavra «ser», que, em todo rigor, já não pode aplicar-se em seu sentido próprio quando se trata de alguns estados de não manifestação dos quais teremos que falar, e que estão além do grau do Ser puro. Não obstante, em razão da constituição mesma da linguagem humana, e à falta de outro termo mais adequado, estamos obrigados a conservar este mesmo termo em parecido caso, mas não lhe atribuindo então mais que um valor puramente analógico e simbólico, sem o qual nos seria completamente impossível falar de uma maneira qualquer daquilo do que se trata; e este é um exemplo muito claro dessas insuficiências de expressão às quais fazíamos alusão faz um momento. É assim como poderemos, como já o temos feito em outras partes, continuar falando do ser total como estando ao mesmo tempo manifestado em alguns de seus estados e não manifestados em outros, sem que isso implique de modo algum que, para estes últimos, devamos nos deter na consideração do que corresponde ao grau que é propriamente o do Ser.
              A propósito disto recordaremos que o fato de deter-se no Ser e de não considerar nada além, como se o Ser fosse de certo modo o Princípio supremo, o mais universal de todos, é um dos traços característicos de algumas concepções ocidentais do início da Idade Média, que, embora continham incontestavelmente uma parte de metafísica que não se encontra já nas concepções modernas, permanecem enormemente incompletas sob este aspecto, e também pelo fato de que se apresentam como teorias estabelecidas para si mesmas, e não com vistas a uma realização efetiva correspondente. Isto não quer dizer, certamente, que não tenha havido então outra coisa no ocidente; nisso, falamos somente do que se conhece geralmente, e do que alguns, fazendo louváveis esforços para reagir contra a negação moderna, "têm tendência a exagerar o valor e o alcance, posto que não se dão conta de que nisso se trata ainda sim de pontos de vista finalmente bastante exteriores, e de que, nas civilizações onde, como no caso daqui, estabeleceu-se uma sorte de ruptura entre duas ordens de ensino que se sobrepõem sem opor-se jamais, o «exoterismo» faz chamada ao «esoterismo» como seu complemento necessário. Quando este «esoterismo» é desconhecido, a civilização, que já não está vinculada diretamente aos princípios superiores por nenhum laço efetivo, não demora a perder todo caráter tradicional, já que os elementos desta ordem que subsistem ainda nela são comparáveis a um corpo que o espírito tivesse abandonado, e, por conseguinte, impotentes em adiante para constituir algo mais que uma sorte de formalismo vazio; é isso, muito exatamente, o que ocorreu no mundo moderno.
               Uma vez dadas estas poucas explicações, pensamos poder entrar em nosso tema mesmo sem nos deter mais em preliminares dos quais todas as considerações que já temos exposto em outras partes nos permitem nos dispensar em grande parte. Em efeito, não nos é possível voltar indefinidamente sobre o que já foi dito em nossas obras precedentes, o que não seria mais que tempo perdido; e, se de fato algumas repetições forem inevitáveis, devemos nos esforçar em reduzi-las ao que é estritamente indispensável para a compreensão do que nos propomos expor presentemente, sem prejuízo de remeter ao leitor, cada vez que haja necessidade disso, a tal ou qual parte de nossos outros trabalhos, onde poderá encontrar indicações complementares ou desenvolvimentos mais amplos sobre as questões que sejamos levados a considerar de novo. 
               O que constitui a dificuldade principal da exposição, é que todas estas questões estão ligadas em efeito mais ou menos estreitamente umas às outras, e que importa mostrar este laço tão freqüentemente como é possível, embora, por outra parte, não importa menos evitar toda aparência de «sistematização», quer dizer, de limitação incompatível com a natureza mesma da doutrina metafísica, que deve abrir pelo contrário, a quem é capaz de compreendê-la e de «assenti-la», possibilidades de concepção não só indefinidas, mas sim, podemos dizê-lo sem nenhum abuso de linguagem, realmente infinitas como a Verdade total mesma.”


                                                                                    ***

Nota sobre tradução:

              "Os estados múltiplos do ser" foi traduzido para o português por nosso amigo Giuliano Morais. Inicialmente, a tradução foi realizada a partir da versão em espanhol disponível na Internet. No entanto, constatamos que havia algumas imprecisões e mesmo alguns trechos mais ou menos obscuros; enviamos a Giuliano uma cópia do original em francês e trabalhamos juntos em alguns trechos intrincados. O resultado final demonstrou-se muito satisfatório e, podemos dizer, superior às duas traduções existentes em espanhol. As traduções da obra de Guénon para o inglês são muito boas sob a direção editorial da
Sophia Perennis.
              De qualquer modo, temos que agradecer aos grupos espanhóis que traduziram, digitalizaram e publicaram na Internet a obra completa de Guénon e dezenas de outros autores de primeiríssima linha, prestando uma ajuda inestimável aos buscadores tradicionais de fala espanhola (e portuguesa) em todo o mundo.
 
                                     
                                                      
Princípios do Cálculo Infinitesimal

             Luiz Gambogi, professor de matemática, realizou muito boa tradução deste que constitui o quarto livro que está incluído no núcleo doutrinal como um agente auxiliar que expande o entendimento e compreensão da magistral apresentação de "O Simbolismo da Cruz" e "Os Estados Múltiplos do Ser", em especial no que respeita ao simbolismo matemático e geométrico.

                                                              
"PREFÁCIO ( René Guénon)

                Ainda que o presente estudo possa parecer, à primeira vista ao menos, não termais que um caráter um pouco «especial», pareceu-nos útil empreender-lhe para
precisar e explicar mais completamente algumas noções que nos sucedeu mencionar nas diversas ocasiões que nos servimos do simbolismo matemático, e esta razão bastaria em suma para justificar-lhe sem que tenha lugar a insistir mais nisso. Não obstante, devemos dizer que a isso se agregam também outras razões secundárias, que concernem sobretudo ao que se poderia chamar o lado «histórico» da questão; efetivamente, este não está inteiramente desprovido de interesse desde nosso ponto de vista, no sentido de que todas as discussões que se suscitaram sobre o tema da natureza e do valor do cálculo infinitesimal oferecem um exemplo contundente dessa ausência de princípios que caracteriza às ciências profanas, isto é, as únicas ciências que os modernos conhecem e que inclusive concebem como possíveis.
                Já observamos freqüentemente que a maioria dessas ciências, na medida inclusive em que correspondem ainda a alguma realidade, não representam nada mais que simples resíduos desnaturalizados de algumas das antigas ciências tradicionais: é a parte mais inferior destas, a que, tendocessado de ser posta em relação com os princípios, e tendo perdido por isso sua verdadeira significação original, acabou por tomar um desenvolvimento independente  e por ser considerada como um conhecimento que se basta a si mesmo, ainda que,certamente, seu valor próprio como conhecimento, precisamente por isso mesmo, encontra-se reduzido a quase nada. Isso é evidente sobretudo quando se trata das  ciências físicas, mas, como explicamos em outra parte,1 as matemáticas modernas mesmas não constituem nenhuma exceção sob este aspecto, se se as compara ao que eram para os antigos a ciência dos números e a geometria; e, quando falamos aqui dos antigos, nisso é mister compreender inclusive a antigüidade «clássica», como um mínimo estudo das teorias pitagóricas e platônicas basta para mostrá-lo, ou o deveria ao menos se não fosse mister contar com a extraordinária incompreensão daqueles que pretendem interpretá-las hoje em dia. Se essa incompreensão não fora tão completa, ¿como se poderia sustentar, por exemplo, a opinião de uma origem «empírica» das ciências em questão, enquanto, em realidade, aparecem ao contrário tanto mais afastadas de todo «empirismo» quanto mais atrás nos remontamos no tempo, assim como ocorre igualmente com todo outro ramo do conhecimento científico?
                  Os matemáticos, na época moderna, e mais particularmente ainda na época
contemporânea, parecem ter chegado a ignorar o que é verdadeiramente o número; e,
nisso, não estamos falando só do número tomado no sentido analógico e simbólico em
que o entendiam os Pitagóricos e os Cabalistas, o que é muito evidente, senão inclusive, o que pode parecer mais estranho e quase paradoxal, do número em sua acepção simples e propriamente quantitativa.
                Efetivamente, os matemáticos reduzem toda sua ciência ao cálculo, segundo a concepção mais estreita do que se possa fazer dele, isto é, considerado como um simples conjunto de procedimentos mais ou menos artificiais, e que não valem em suma mais do que pelas aplicações práticas às que dá motivo; no fundo, isso equivale a dizer que substituem o número pela cifra e, ademais, esta confusão do número com a cifra está tão extendida em nossos dias que se poderia encontrá-la facilmente a cada instante até nas expressões da linguagem corrente (2). Agora bem, em todo rigor, a cifra não é nada mais que a vestimenta do número; nem sequer dizemos seu corpo, já que, em certos aspectos, é mais corretamente a forma geométrica a que pode considerar-se legitimamente como constituindo o verdadeiro corpo do número, assim como o mostram as teorias dos antigos sobre os polígonos e os poliedros, postos em relação direta com o simbolismo dos números; e, ademais, isto concorda com o fato de que toda «incorporação» implica necessariamente uma «espacialização».
                   Não obstante, não queremos dizer que as cifras mesmas sejam signos inteiramente arbitrários, cuja forma não teria sido determinada mais do que pela fantasia de um ou de vários indivíduos; com os caracteres numéricos deve ocorrer o mesmo que com os caracteres alfabéticos, dos que, em algumas línguas, não se distinguem (3), e se pode aplicar a uns tanto como aos outros a noção de uma origem hieroglífica, isto é,ideográfica ou simbólica, que vale para todas as escrituras sem exceção, pordissimulado que possa estar esta origem em alguns casos devido a deformações ou alterações mais ou menos recentes. 
               O que há de certo, é que os matemáticos empregam em sua notação símbolos cujo sentido já não conhecem, e que são como vestígios de tradições esquecidas; e o que é mais grave, é que não só não se perguntam qual pode ser esse sentido, senão que nem sequer parecem querer que tenham algum. Efetivamente, tendem cada vez mais a considerar toda notação como uma simples «convenção», pela qual entendem algo que está proposto de uma maneira inteiramente arbitrária, o que, no fundo, é uma verdadeira impossibilidade, já que jamais se faz uma convenção qualquer sem ter alguma razão para fazê-la, e para fazer precisamente essa mais bem do que qualquer outra; é só àqueles que ignoram essa razão a quem a convenção pode parecer-lhes arbitrária, de igual modo que não é senão àqueles que ignoram as causas de um acontecimento a quem este pode parecer-lhes «fortuito»; efetivamente, isso é o que se produz aqui, e se pode ver nisso uma das conseqüências mais extremas da ausência de todo princípio, ausência que chega até fazer perder à ciência, ou supostamente tal, pois então já não merece verdadeiramente esse nome sob nenhum aspecto, toda significação plausível.
                Ademais, devido ao fato mesmo da concepção atual de uma ciência exclusivamente quantitativa, esse «convencionalismo» se estende pouco a pouco desde as matemáticas às ciências físicas, em suas teorias mais recentes, que assim se afastam cada vez mais da realidade que pretendem explicar; insistimos suficientemente sobre isto em outra obra como para dispensar-nos de dizer nada mais a este respeito, tanto mais quanto que é só das matemáticas do que vamos ocupar-nos agora mais particularmente. Desde este ponto de vista, só acrescentaremos que, quando se perde tão completamente de vista o sentido de uma notação, é muito fácil passar do uso legítimo e válido desta a um uso ilegítimo, que já não corresponde efetivamente a nada, e que às vezes pode ser inclusive completamente ilógico; isto pode parecer bastante extraordinário quando se trata de uma ciência como as matemáticas, que deveria ter com a lógica laços particularmente estreitos, e, no entanto, é muito certo que se podem assinalar múltiplos ilogismos nas noções matemáticas tais como se consideram comumente em nossa época.
                 Um dos exemplos mais destacáveis dessas noções ilógicas, e que teremos que
considerar aqui antes de mais nada, ainda que não será o único que encontraremos no
curso de nossa exposição, é o do pretendido infinito matemático ou quantitativo, que é a fonte de quase todas as dificuldades que se suscitaram contra o cálculo infinitesimal, ou, talvez mais exatamente, contra o método infinitesimal, já que nisso há algo que, pensem o que pensem os «convencionalistas», ultrapassa o alcance de um simples «cálculo» no sentido ordinário desta palavra; só há que fazer uma exceção com aquelas, das dificuldades que provém de uma concepção errônea ou insuficiente da noção de «limite», indispensável para justificar o rigor deste método infinitesimal e para fazer dele outra coisa que um simples método de aproximação. Ademais, como o veremos, há que fazer uma distinção entre os casos em que o suposto infinito não expressa mais do que uma absurdidade pura e simples, isto é, uma idéia contraditória em si mesma, como a do «número infinito», e aqueles em que só se emprega de uma maneira abusiva no sentido de indefinido; mas seria mister não crer por isso que a confusão mesma do infinito e do indefinido se reduz a uma simples questão de palavras, já que recai verdadeiramente sobre as idéias mesmas.
                O que é singular, é que esta confusão, que tivesse bastado dissipar para atalhar tantas discussões, tenha sido cometida por Leibnitz mesmo, a quem se considera geralmente como o inventor do cálculo infinitesimal, e a quem chamaríamos mais corretamente seu «formulador», já que este método corresponde a algumas realidades, que, como tais, têm uma existência independente daquele que as concebe e que as expressa mais ou menos perfeitamente; as realidades de ordem matemática, como todas as demais, só podem ser descobertas e não inventadas, enquanto, pelo contrário, é de «invenção» do que se trata quando, assim como ocorre muito freqüentemente neste domínio, alguém se deixa arrastar, devido a um «jogo» de notação, à fantasia pura; mas, certamente, seria muito difícil fazer compreender esta diferença a matemáticos que se imaginam gostosamente que toda sua ciência não é nem deve ser nada mais que uma «construção do espírito humano», o que, se fosse mister crer-lhes, a reduziria certamente a ser muito pouca coisa em realidade. Seja como seja, Leibnitz não soube nunca se explicar claramente sobre os princípios de seu cálculo, e isso é o que mostra que tinha algo nesse cálculo que lhe ultrapassava e que se impunha em certo modo a ele sem que tivesse consciência disso; se se tivesse dado conta, certamente não teria se enredado numa disputa de «prioridade» sobre este tema com Newton, e, ademais, esse tipo de disputas são sempre perfeitamente vãs, já que as idéias, enquanto são verdadeiras, não poderiam ser a propriedade de ninguém, apesar do «individualismo» moderno, já que é só o erro o que pode atribuir-se propriamente aos indivíduos humanos. 
                   Não nos estenderemos mais sobre esta questão, que poderia levarnos
bastante longe do objeto de nosso estudo, ainda que quiçá não seja inútil, em alguns
aspectos, fazer compreender que o papel do que se chama os «grandes homens» é
freqüentemente, numa boa medida, um papel de «receptores», de sorte que, geralmente, eles mesmos são os primeiros em iludir-se sobre sua «originalidade».
O que nos concerne mais diretamente pelo momento, é isto: se temos que
constatar tais insuficiências em Leibnitz, e insuficiências tanto mais graves quanto que
recaem especialmente sobre as questões de princípios, ¿que será então com os demais filósofos e matemáticos modernos, aos que, certamente, Leibnitz é muito superior apesar de tudo? Esta superioridade, deve-se, por uma parte, ao estudo que tinha feito das doutrinas escolásticas da idade média, ainda que nem sempre as tenha compreendido inteiramente, e, por outra, a alguns dados esotéricos, de origem ou de inspiração principalmente rosacruciana (4), dados evidentemente muito incompletos e inclusive fragmentários, e que, ademais, às vezes lhe ocorreu aplicar bastante mal, como veremos alguns exemplos disso aqui mesmo; para falar como os historiadores, é a estas duas «fontes» às que convém referir, em definitivo, quase tudo o que há de realmente válido em suas teorias, e isso é também o que lhe permite responder, ainda que imperfeitamente, contra o cartesianismo, que representava então, no duplo domínio filosófico e científico, todo o conjunto das tendências e das concepções mais
especificamente modernas. 
                   Esta precisão basta em suma para explicar, em poucas palavras, tudo o que foi Leibnitz, e, se se lhe quer compreender, seria necessário não perder de vista nunca estas indicações gerais, que, por esta razão, cremos bom formular desde o começo; mas é tempo de deixar estas considerações preliminares para entrar no exame das questões mesmas que nos permitirão determinar a verdadeira significação do cálculo infinitesimal.


                                                                               * * *

Notas:

(1) Ver "Reino da Quantidade e os Sinais dos Tempos".
(2)Ocorre o mesmo com os «pseudo-esoteristas» que sabem tão pouco do que querem falar que nunca deixam de cometer esta mesma confusão nas elucubrações fantásticas com as que têm a pretensão de substituir à ciência tradicional dos números!
(3) O hebreu e o grego estão nesse caso, e o árabe o estava igualmente antes da introdução do uso das cifras de origem índia, que depois, modificando-se mais ou menos, passaram daí à Europa da idade média; pode-se destacar a este propósito que a palavra «cifra» mesma não é outra coisa que o árabe Cifr, ainda que este não seja em realidade mas que a designação do zero. Por outra parte, é verdade que em hebreu, saphar significa «contar» ou «numerar» ao mesmo tempo que «escrever», de onde sepher «escritura» ou «livro» (em árabe sifr, que designa particularmente um livro sagrado), e sephar, «numeração» ou «cálculo»; desta última palavra vem também a designação dos Sephiroth da Cabala, que são as «numerações» principais assimiladas aos atributos divinos.
(4) A marca inegável dessa origem se encontra na figura hermética colocada por Leibnitz na portada de seu tratado Da Arte combinatória: é uma representação da Rota Mundi, na que, no centro da dupla cruz dos elementos (fogo e água, ar e terra) e das qualidades (quente e frio, seco e úmido), a quinta essência está simbolizada por uma rosa de cinco pétalas (que corresponde ao éter considerado em si mesmo como
princípio dos outros quatro elementos); claro, esta insígnia passou despercebida para todos os comentadores acadêmicos!
  

                                                 
                                                   
IX - Livros conexos e compilações

               Como poderão ter notado, alguns livros não foram mencionados nos grupos de estudo que estabelecemos a título de orientação geral ao estudo da obra magistral de René Guénon.
              De início, os dois tomos de
"Franco-Maçonaria e Companheirismo", resultado da compilação de vários estudos sobre o tema e resenhas de livros e revistas relacionados ao tema, que podemos integrar ao primeiro grupo de livros a estudar; é natural que o ocidental contemporâneo que inicia suas buscas através dos estudos tradicionais procure alguma alternativa que esteja em seu próprio território histórico-intelectual, digamos. Irá fazer verificações no que restou da Igreja Católica Apostólica Romana, depois nas Igrejas Ortodoxas e, frequentemente, nos místicos medievais e, quase sempre, junto à Maçonaria. Estas obras disssipam as dúvidas mais frequentes, pautam rigorosamente os critérios de regularidade e ortodoxia, e ao final das contas, acabam por descartar as inúmeras enganações que pululam por aqui e lá fora.
         
"Estudos Sobre o Hinduísmo" é a compilação de estudos sobre esta doutrina e se presta a esclarecimentos adicionais para "O Homem e Seu Devir Segundo o Vedanta".
        
"Considerações Sobre o Esoterismo Islâmico e Sobre o Taoísmo" é uma importante compilação de estudos sobre estas duas formas tradicionais, acrescidos de resenhas de livros e revistas ligados ao tema. "Mélanges", publicado em 1972 pela Gallimard é uma compilação de estudos variados, extremamente interessantes; ali encontramos "O Demiurgo", "Silêncio e Solidão" (sobre nativos norte-americanos), um interessantíssimo estudo sobre "O simbolismo dos números" e vários outros.
           O estudioso poderá reunir uma bliblioteca a partir das centenas de indicações que Guénon nos oferece em todos seus livros; o IRGET (Instituto René Guénon de Estudos Tradicionais) possui uma biblioteca que é um verdadeiro tesouro tradicional (ver "Raízes e Folhas de nossa Biblioteca", neste site.)

                                                                                    ***

                                                                   
Notas bibliográficas
 
             
"O Erro Espírita" em português.

            Andrea Patrícia : este é o nome da tradutora de "O Erro Espírita", que nos informa "ter sido fácil, pois não sou tradutora !"  e que realizou o trabalho a partir da versão em espanhol.
            Reiteramos a importância fundamental desta obra de Guénon, não apenas aos desencaminhados pelo espiritismo, mas para toda comunidade de estudiosos da Tradição. Ver em postagens anteriores neste mesmo tópico outras considerações relativas a este livro.
            Andrea Patrícia, todos agradecemos por esta tradução tão importante.


                Grande notícia!
"O Teosofismo" em breve traduzido!

               “Luiz, fui motivada a traduzir este livro porque fui espírita/neo-espiritualista e percebi a enganação na qual estava metida, em grande parte, graças a René Guenón. Meu pai é espírita desde antes de eu nascer, minha família infelizmente é envolvida com espiritismo/neo-espiritualismo/nova era. Muitos de meus amigos também.
O primeiro livro de Guenon que li foi El Teosofismo e depois li El Error Espiritista seguido de A Crise do Mundo Moderno. Li outras mais, mas ainda não li tudo. Admiro muito Guenon, pela seu conhecimento e sabedoria. Creio que ele foi um homem muito caridoso, pois dedicou muito de seu tempo para alertar as pessoas sobre os erros da modernidade. Ele fez um belo trabalho, pelo qual sou muito grata.
Estou traduzindo El Teosofismo, logo que estiver pronta, avisarei a você.

           Fique com Deus!
Andra Patrícia”
 
                                                                                  *
                                                                  
                                                                 
Traduttore...traditore

            Estivemos passando os olhos na tradução para o português de
"O Erro Espírita" e constatamos várias imperfeições perfeitamente compreensíveis para quem declaradamente não é do ramo e Andrea mesma não escondeu este fato .
É que o espanhol, por ser muito próximo do português, proporciona as mais variadas ciladas e armadilhas. "Largo", por exemplo, significa em português "profundidade" e há várias palavras com grafia idêntica e significado não tanto...
Mesmo assim, no conjunto, o mais importante está preservado e a leitura ou estudo pode ser empreendido sem maiores prejuízos à compreensão.
Sempre se perde algo em qualquer tradução e a máxima italiana que titula esta postagem é mais que justificada; o ideal sempre é traduzir desde o original - mas o francês hoje, lamentavelmente, está em terceiro plano em nosso país e fora dele; o próprio governo francês, com sua característica arrogância, parece não conceder maior importância ao fato.
             Giuliano Morais havia traduzido
"Os Estados Múltiplos do Ser" a partir do espanhol mas quando lhe passamos uma cópia do original francês novas luzes trouxeram maior nitidez e clareza como resultado final. É a melhor (e provavelmente a única) tradução desta obra para nossa língua.
            A língua espanhola é muito antipatizada pelos brazucas e há um sentimento de rivalidade que jamais poderia ser justificado quando tratamos de assuntos tradicionais. Portugal e Brasil juntos não produziram nem 10% do que os espanhóis em matéria de livros tradicionais e só isto seria motivo suficiente para a aquisição de um bom dicionário espanhol-português e uma gramática.
               Quando (há décadas... estudamos árabe (uma experiência única e insubstituível)  na USP com o então catedrático Helmi Nasr, soubemos que é reconhecido oficialmente o fato de "pelo menos 30% das palavras em português terem raiz árabe. A verdade é que a porcentagem que foi deixada de fora por "haver dúvidas" levaria certamente o total para quase 40%, o que é notável.
               No caso do espanhol, tal porcentagem é ainda maior e não é difícil compreender se tivermos em mente quase oito séculos de presença árabe-islâmica na Península Ibérica.
               Todos os buscadores tradicionais deveriam ler e estudar o magnífico e arrebatador livro de Titus Burckhardt “A Civilização Hispano-Árabe” onde a importância da civilização islâmica é descrita magistralemente, seja sob o aspecto intelectual/espiritual, seja na arquitetura, literatura, etc.
               Voltemos à língua árabe; a antipatia que no geral nós brasileiros a ela atribuímos preconceituosamente, nos impede de ver (ouvir) a incomparável riqueza de sons ali presente, e grande parte destes recursos vocais têm origem no árabe e, de todas as línguas de raiz greco-latina, sem dúvida o espanhol teve o privilégio único de ser enriquecido pela língua árabe que, lembremos, é língua sagrada, pois através dela foi revelado o Sagrado Alcorão.

 
                                                                      
"Palavra é Ritmo"

               Se falamos do espanhol com surpreendente entusiasmo para nossos estimados/as leitores/as, em parte tal fato se deve a nossos correspondentes de língua espanhola de várias partes do mundo; o site do Instituto René Guénon de Estudos Tradicionais possui versão nesta língua e, acreditem, no cômputo geral, várias páginas apresentam maior visitação de espanhóis do que brasileiros, fato que não deixa de ser notável; nossos amigos de confiança na Alemanha, Itália e França realizaram a tradução para suas respectivas línguas .
              Para quem gosta de literatura e línguas, o estudo atento da terceira parte do "Baú dos Relâmpagos Fulgurantes" (Introdução Geral ao Estudo das Doutrinas Hindus) irá revelar profunda compreensão da natureza e origem da linguagem, cujo fundamento essencial é o ritmo. No site IRGET todos poderão apreciar a trasncrição de memorável palestra de Charles Vachot no Museu Guimet , "A Guirlanda das Letras".
Os que tiveram oportunidade de estudar uma língua sagrada, como nós em relação ao árabe, poderão testemunhar o poder de evocação que a pronúncia correta de uma palavra instantaneamente nos traz. É como se fôssemos arrebatados à raiz e à essência mesmo do conceito que a palavra pronunciada "quer dizer".


                                                                                                                                         
Luiz Pontual
                                                               * * *             

                  
"Entender" e "Compreender": grande distância!

                 
                                As anotações que trasncrevo aqui se encaixam oportunamente
                                            na página, pois tocam o assunto do aprendizado tradicional, superficial ou profundo.



        
Longos anos de estudos e aulas nos proporcionam experiência e qualificação sobre ensinar e aprender ou semear e colher; a agricultura, por sinal, nos proporcionaria muitos recursos simbólicos para desenvolver este tema tão interessante e pertinente, que nos vem à mente como reflexões sobre certas dificuldades e obstáculos por que passa um rapaz amigo nosso em seu início de caminhada na senda tradicional.

         Muito inteligente e talentoso, estudando (há apenas um ano) firme quase toda a obra de Guénon, entusiasmou-se e, como ocorre frequentemente, decidiu concentrar esforços para uma iniciação no esoterismo islâmico; acreditou que o "que interessa mesmo" na obra de Guénon são os três livros do núcleo "nobre" ou metafísico, a saber : "O Homem e Seu Devir Segundo o Vedanta", "O Simbolismo da Cruz" e "Os Estados Múltiplos do Ser", descartando o resto como "já resolvido".

         Convenceu-se de que o regime vegetariano era não apenas mais saudável mas também tradicional, enumerando dezenas de citações tiradas dos mais variados livros sagrados, desde o "não matarás" bíblico até luminares do hinduísmo e budismo. Quando comentamos que o vegetarianismo era uma invenção moderna "parida" por Helena Blawatsky após a consumação do casamento entre o espiritismo e o teosofismo, o rapaz em questão buscou minimizar o assunto, alegando que "os vegetais têm todas as proteínas necessárias ao organismo humano".

          Recomendamos então a releitura (pois já havia "entendido" "todo" o Guénon) de "O Teosofismo" em seus vários trechos dedicados a este monstrenguinho chamado vegetarianismo, onde Guénon destila fino humor e ironia, desmontando peça por peça esta armaçãozinha que tanto seduz os naturebosos e verdinhos (no duplo sentido que o termo comporta). Sugestão aceita, nosso amigo entregou os anéis mas preservou cuidadosamente os dedos, isto é, "até concordo que o vegetarianismo não tenha base tradicional, mas não há qualquer prova científica em contrário: estou me sentindo muito bem e a carne hoje me causa repugnância".

 
                                                              
A "verdura" do saber.

           Nosso verde amigo perseverou na defesa do vegetarianismo arremessando longe o argumento bíblico "não matarás" (que não resiste ao fato de que os vegetais também "são mortos" para chegarem ao prato e, menos ainda, à constatação de toda cadeia alimentar está plena de "assassinatos", desde os seres grandões aos mais ínfimos...) e lançando mão de trechos de textos do hinduísmo onde os vegetais são exaltados como alimentos de certas honoráveis e antiquíssimas vertentes tradicionais; omitiu, no entanto, por ignorância ou conveniência, que a mesma vertente considera a manteiga "a gordura mais nobre", altamente recomendada e "imprescindível na alimentação".

          Havíamos esquecido de mencionar que nosso verde amigo é "vegetariano puro", isto é, nada de derivados de animais, como leite, manteiga ou queijo. Não parou por aí: numa alusão muito hipotética porém de perfume nitidamente evolucionista, ponderou que "em épocas muito remotas o homem alimentava-se exclusivamente de frutos"; queria talvez reportar-se a outros Yugas, que na Antiguidade, segundo Hesíodo, foram chamadas "Idade de Ouro", "Prata", "Bronze" e "Ferro". Vamos supor que tal hipótese (de dificílima verificação) estivesse correta: assim mesmo, teríamos que levar em conta que hoje não vivemos na Idade de Prata mas no Kali Yuga e que a humanidade encontra-se subtida à condições muitíssimo diferentes.

           Este tipo de erro - transposição mecânica de uma verdade tradicional remota para a atualidade - não é coisa nova; outro rapaz, igualmente inteligente (não sabemos se vegetariano ou não) não defendeu entusiasticamente Julius Evola (um Kchatriya confesso e admirador do Brahmane Guénon) alegando que na Idade de ouro não haviam castas?  Eis aí um exemplo notável de coisa "entendida" e não comprendida, ou conhecimento inorgânico ou "sistemático" e, assim podemos resgatar em parte o motivo do título desta postagem.


                                                            
Orgânico e inorgânico.

            Já registramos em outras ocasiões que a natureza do pensamento tradicional é essencialmente orgânico, vivo e, mais que isto, para além da vida e da morte. A continuidade lógica que permeia toda a Manifestação, tal como Titus Burckhardt tão bem resgistrou em seu antológico estudo contra o evolucionismo, reporta-se de grau em grau ao Princípio Único, havendo ordem e hiearquia em toda sua arquitetura.
            Dissemos também que a palavra "coerência" significa o perfeito ajuste lógico da parte no Todo e que "contradição" é apenas um aspecto de uma "incoerência".
            Daí podemos notar que a "fisionomia mental" de um vocacionado tradicional é sempre sintética e nunca analítica.

            Explicamos que o termo "análise" designa
"decomposição", isto é, fragmentação e descontinuidade lógica e a proximidade do termo com "morte" não é fortuita, longe disto; a "arrumação" arbitrária de tais fragmentos mortos em defesa de uma hipótese é o que podemos chamar de "sistema" e é precisamente o método sistemático (inorgânico) que impera na mentalidade moderna de modo geral e nos meios acadêmicos de modo particular, que funciona como "combustível" da desagregação do pensar que tão bem caracteriza os tempos modernos.

           O acento e a insistência com que os vegetarianos, naturebosos e aparentados devotam à importância do "corpo" e da "vida" em si mesmos (como se todas as demais instâncias dependessem disto, bem ao feitio evolucionista) nos dá a medida da distância que tal deformação tem em relação aos estudos tradicionais; todos os estudantes e estudiosos que nos acompanham não terão dificuldades em trazer à memória dois capítulos de "Oriente e Ocidente", isto é,
"A Superstição da Ciência" e "A Superstição da Vida", cuja releitura recomendamos com muita ênfase.

          No parágrafo acima, mais uma vez, temos uma amostra exemplar da dissociação da parte com o todo, que não é outra coisa senão fruto morto do modo analítico e sistemático, que resulta nas mais estapafúrdias e incoerentes confusões modernas.

 
                                                                     
"Já entendi tudo".



                 Mencionávamos no início destas linhas o entusiasmo de nosso verde amigo, que, após um ano de estudos cerrados da obra de Guénon julgou-se "pronto" para ser um Sufi ao estilo
"Fast-Food" . Quanto às obras "mais exteriores" de Guénon, "já entendi tudo".
                A pergunta que fazemos é: QUEM entendeu? Pois a resposta é fácil: o mesmo anterior aos estudos que, no entanto, se ilude como se houvesse realizado uma completa revolução "pessoal" (incluindo aí a "limpeza" do organismo com o regime vegetariano), estando assim perfeitamente "apto" a uma iniciação ao esoterismo islâmico que, se bobear  BANNNNNNNNG!!! vai direto para a Libertação Total, sem os fastidiosos "trâmites burocráticos e alfandegários" a que os menos "qualificados" necessariamente são submetidos.
               O "entendimento" não qualifica o "eu", apesar de "mudá-lo" no que respeita à "quantidade" de informação (isto é, dá uma "enchidinha" no "HD mental"); a qualificação efetiva se dá pela "compreensão", que não é outra coisa senão a identificação da essência mesma do ser com Sua Essência, se nos permitem tal complexidade metafísica. Platão/Aristóteles já diziam "conhecer é recordar", nes't pas?
               Alors, mons enfants, le jour de gloire, est-il arrivé?
               E aí temos um outro ponto de chegada muito interessante, que é a grande diferença entre o "entendimento", que reforça o "eu", o individualista, o orgulhoso de suas tão elevadas "qualidades" - e a "compreensão" que, muito ao contrário, tende ao Universal e paulatinamente apaga o "eu" ilusório.
               Quem conhece os convertidos ao Islã do tipo individualista orgulhoso
"boto fé é em mim mesmo", não deixarão de notar que eles não hesitam, ao escolher o novo nome, em proclamar aos quatro ventos, se homem, "Muhammad" (SAW) ou, se mulher, "Khadija" (esposa do Profeta). Não deixam por menos, não. É batata (orgânica e natural) !

                                                    
Semeadura e colheita.
             


                  Falávamos mais acima sobre as inúmeras possibilidades simbólicas que florescem na agricultura. Isto nos remete de imediato às formas tradicionais dos nativos norte-americanos, em especial os Hopi e os Sioux. Em nosso ressurecto site os interessados poderão apreciar longos excertos referentes a estas tradições e poderão apreciar o inacreditável frescor simbólico ali presente, arrebatador e irresistível.

                 Aos que apreciam a arte de escrever, não podem deixar de conhecer "Almas Mortas", de Gogol, um dos grandes escritores-pintores russos; o título da obra pode induzir os incautos a equívoco, pois longe de catacumbas ou cemitérios, os vastos panoramas finamente desenhados por Gogol são tecidos com a mais fina urdidura humorística; na segunda parte desta obra profunda e reveladora (não apenas da alma russa mas de todo um tempo que inexoravelmente então estertorava) há um longo e muito interessante discurso sobre as estepes e campos russos, sua agricultura e seus homens.

                 Da semeadura à colheita, muito naturalmente decorre um tempo, variável segundo a espécie que tenhamos em vista; entre o "entendimento" e a "compreensão", as coisas se dão de modo análogo, desde que a terra esteja convenientemente preparada e que as condições climáticas sejam favoráveis, sem falar nos cuidados constantes, como combate às pragas e predadores e a irrigação conveniente, entre outros.
A primeira leitura dos livros de Guénon frequentemente dá a ilusão ao neófito de que "finalmente apareceu alguém que responde totalmente ao 'vazio' intelectual que existia em mim" . Se refletirmos um pouco sobre o impacto tremendo que representa tais primeiras leituras, temos que convir que o novo leitor (independente de idade) é um perdido (nos dois sentidos do termo) na modernidade e que todo o seu "repertório" cultural está encharcado de erros que remontam a séculos, situação (um tipo de "desestruturação") que não se modifica de repente como em um golpe de mágica. 

                Tem início então um forte movimento de resgate de valores e princípios (que é o significado original do termo"revolução"), movimento inexorável segundo as qualificações mais ou menos favoráveis do neófito leitor; os reajustes e reposicionamento de infra-estrutura e estrutura da arquitetura mental e "cultural" do leitor lentamente vão se realizando e isto independentemente de estar ou não estudando: é um processo lento e contínuo, que vai "qualificando" os instrumentos (métodos) mesmos do saber.

                Não é outro o motivo pelo qual após alguns anos, ao retomarmos "A Crise do Mundo Moderno" ou "Oriente e Ocidente" nos damos conta de nos deparar com "novos livros, nunca antes lidos"; é que o leitor da primeira leitura já não é o mesmo e agora pode compreender e "carregar" certas riquezas do conhecimento tradicional que de início sequer poderia discernir e muito menos "assimilar".

                Ficamos às vezes a imaginar o que certos neófitos podem efetivamente apreciar dos esplendores fulgurantes do saber tradicional a nós presenteados por um Titus Burckhardt ou um Martin Lings... o "timing" mental para a compreensão precisa estar devidamente maturado, caso contrário a "floração" e, menos ainda, o "perfume espiritual" não acontecem. A paciência e persistência, virtudes tão esquecidas (e desprezadas) são duas das pedras que fazem o caminho da travessia desde o "entendimento" para a "compreensão".


                                                    
Koan "Pedra e Água"


                 Poderá surpreender a todos como nossas considerações sobre "entendimento e compreensão" teriam podido nos aparecer subita e inesperadamente sob a forma do famoso "Koan" búdico e taoísta "Pedra e Água" .
Se persarmos sobre o "orgânico" e "inorgânico", alguns horizontes se descortinam. O "petrificado" identifica-se muito apropriadamente ao termo "civilização" (com o suposto sentido de "superior"), que está associado à "cidade de pedra"; o "selvagem" (com o sentido de "inferior", "bruto"), por outro lado, é situado na mata virgem, a "selva", a natureza íntegra. Já tecemos considerações sobre este tema em nosso estudo "A Tradição dos Índios Norte-Americanos".

               Nosso vôo pelicanoso-albatrótico desde Curaçao para São Paulo, durante o dia, teve escala em Manaus. Quando o pássaro-de-ferro, perdendo paulatinamente altura, se aproximava do aeroporto, um espetáculo grandioso, em crescendo de dar vertigem, nos foi apresentado sem maiores preâmbulos: uma serpente descomunal, chamada "Amazonas", pouco a pouco virou um mar sem limites, maior que a própria floresta e que todo o continente.
Elemento ÁGUA... que força, que poder irresistível !

               O cimento não é outra coisa senão a pedra reduzida a pó; sem a água , a pedra não é nada, se reduz a pó (porque a melodia da fabulosa "Stardust" nos vem agora?)... mas, recoloque a água no pó e verás a dureza e resistência da pedra (ou da água)reaparecer. A pedra pode ser um obstáculo intransponível ou esmagador; no entanto, pode ser também "o caminho das pedras", pouco abaixo do nível das águas, que assegura a travessia de uma margem à outra e mesmo para "a terceira margem do rio".

              A "pedra", sob vários aspectos, pode ser associada à "Morte" (-a lápide sobre um túmulo não será um definitivo "ponto final"?) e a "água" à "Vida", ao nascimento e ao renascimento. Certas dificuldades - quando muito desencorajadoras - equivalem ao "tirar leite de pedra"... Um dos ritos de purificação dos Sioux era uma sauna subterrânea, "água e pedra"...

                               
"Kabloona!" e "Komock, o Esquimó"


                Retomando a tal estória dos homens "frutívaros"  , fica meio engraçado ler relatos e considerações sobre certas vertentes tradicionais remanescentes no Ártico, tal como podemos ver em nosso ressurecto site IRGET nas páginas "Kabloona!" e "Komock, o Esquimó", que, francamente, não eram propriamente "vegetarianos"... O ridículo da hipótese evolucionista, associada aos espíritas e teosofistas, não tem limites; o "pouco" das tradições sagradas que "respira" nestes dois relatos é mais que suficiente para confirmar o que Guénon comenta sobre o assunto em "O Teosofismo".

              Este que vos escreve passou horas escaneando estes antigos artigos da "Seleções" das décadas de 40 e 50 do século passado e, estimados buscadores, acreditem que tivemos suficientes motivos para tal sacrifício e "generosidade". Tudo, tudo mesmo, está interligado logicamente numa "rede" de Arquitetura coerente e integral e, aos que quiserem (e puderem) aproveitar, estes excertos em nosso querido site www.reneguenon.net , aparentemente tão inocentes e "jornalísticos", poderão se revelar muito mais interessantes que a vã "filosofia" dos "entendidos" poderia supor.  

               Falávamos há pouco sobre o Koan "Pedra e Água", sobre a pedra sem água como pó e, inesperadamente, nos veio à memória alguns acordes de "Stardust". Não deixa de ser curioso que esta expressão em inglês (literalmente "pó de estrelas") queira dizer "Via Lactea"... pois logo em seguida comentavamos sobre "tirar leite de pedra". Não dizia Dante algo sobre "O Amor que move as estrelas"? E assim, quase brincando, cintilações pulsam aqui e ali...


                                                 
"Exemplos" e conclusão


                 Neste tópico chegamos ao "coração" do tema a que nos propusemos, a partir de uma situação real recorrente, que é o caso dos buscadores iniciantes cometendo os erros mais ou menos previsíveis e inevitáveis.
O tecido lógico contínuo, trama e urdidura, que permeia toda a manifestação, é nossa "tela de fundo", onde pintamos e bordamos as "sombras" ou desvios modernos, em especial o método analítico e sistemático, que está na raiz do "pensamento morto", característico e "combustível" da desestruturação contemporânea.

                 Os que souberem alinhavar a partir dos pontos ali destacados poderão tirar excelente proveito e não é outro nosso objetivo ao discorrer (diástoles e sístoles) sobre o "Pulsar" tradicional que dá vida e ordem ao Pensamento Real.
Há poucos dias recebemos uma questão exemplar das "bicadas" urubusais que a obra de Guénon é alvo tão frequente: no livro "Oriente e Ocidente", no primeiro capítulo da parte II, vemos a expressão "tradicionalistas" como uma qualidade inerente aos Orientais e o contexto contido no parágrafo não deixa qualquer dúvida sobre sobre este significado; mais adiante, no segundo capítulo, a mesma expressão -"tradicionalistas"-é utilizada, porém no contexto dos estudiosos ocidentais modernos , isto é, de quem se aproxima, estuda ou pesquisa temas relacionados ao Oriente, porém sem as condições essenciais para compreendê-lo verdadeiramente.

                O objetivo da questão é "denunciar uma contradição" de Guénon, que usou a mesma palavra com dois sentidos "muito diferentes, quase opostos"; os limites das línguas ocidentais modernas frequentemente impõem imprecisões que não são daquele que transmite o conhecimento tradicional, mas da língua que é a "ferramentaria" disponível nas atuais circunstâncias. Em outra ocasião, ouvimos uma crítica análoga, desta vez trazendo a confrontação de um trecho de "O Demiurgo" com uma nota de pé de página de "O Homem e Seu Devir Segundo o Vedanta" referente à Brahma "Supremo" e "Não-Supremo"; trata-se, evidentemente, de uma precisão doutrinal publicada muitos anos após "O Demiurgo" (de 1909), que explica que os termos "supremo" e "não-supremo" não são correlativos, tal como poderiam ser interpretados nos limites intelectuais próprios do Ocidente moderno. Mas não! Os corvos e urubus de plantão se apressam a crocitar, asas agitadas, trêmulos de indignação: "Olha a contradição! Olha a contradição!!!"
É também mais ou menos por estes caminhos que certas cobras travestidas de "águias" fazem coro aos que, seja por incapacidade intelectual seja por ignorância e má-fé (por que não um "sindicato" destas três "características"?) proclamam aos urros que o conceito do "Não-Ser" não é tradicional...

                É também destes âmbitos inferiores a afirmação de que "um dos maiores erros de Guénon é ter afirmado que a China não sucumbiria à modernidade, o que aconteceu em 1949 e o livro "Ocidente e Oriente" não foi corrigido pelo autor". Quem nos passou um artiguete (melhor seria chamar de um "vôo de galinha de angola") daquela sinistra personagem brazuca muito provavelmente é um dos filhotes (nos dois sentidos) largados pelo mundo pela tal personagem... mas, deixemos este lado escabroso de lado, ao menos neste tópico. Acreditamos que as "sementes" foram lançadas e, em terreno propício, darão seus invulgares frutos e aromas, alimento etéreo tão bem descrito por Dante com "Vulgar Eloqüência", se nos compreendem bem.





                                                                                                                                       
Luiz Pontual
"Entender" e "compreender":
- que distância!

Por Luiz Pontual
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