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Instituto René Guénon de Estudos Tradicionais
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Inúmeras vezes, durante os anos que já passei 1onge da Índia, tenho ouvido a grata pergunta: "Como vai a família ?" Ela faz-me ver que é virtualmente impossível traduzi-la para o meu idioma nativo, o hindi. Na Índia, assim se formularia a pergunta: “Estão todos bem em sua casa ?”

      A questão é que, na Índia, quase nunca usamos a palavra "família" no sentido, talvez, de apenas o marido, a esposa e os filhos. Na Índia, uma família significa algo muito mais íntimo que um clã, abrangendo numerosos parentes próximos e distantes. Na vida familiar indiana, com todas as suas diversas relações, aprendemos a tomar-nos parte integrante do mundo que nos cerca.

      Certa vez citei para um amigo ocidenta1 um provérbio indiano muito conhecido: "A ambição de toda moça hindu é ser sogra." Meu amigo mostrou-se admirado: "Por que ser sogra?", indagou-me.

      Não importa que direitos a sociedade negue à mulher hindu; nos complexos e absorventes domínios do seu lar ela é suprema. Com o marido e a mulher freqüentemente vivem todos os filhos do casal e suas noras, todos os netos, e ainda, possivelmente, se os netos varões tiverem idade bastante para o casamento, todos os bisnetos. A mulher mais idosa da casa, a sogra, dirige esse império - que dela exige toda a habilidade, todo o tato e capacidade administrativa.

      Além dos membros da família propriamente ditos, haverá também os parentes afastados que, por esta ou aquela razão, adquirem o direito de pertencer a essa vasta organização familiar - um primo viúvo, um tio que não constituiu família ou uma tia solteira. Parentes que vivam perto ou longe tem o direito de vir em "visita" e passar em nossa casa uma semana, seis meses ou o resto da vida, sem que ninguém questione sua presença. Afinal de contas, para que serve a família?

        Da casa de minha avó, lembro-me de um primo idoso que nos visitava diariamente. Ele vinha à nossa casa não para gozar da nossa companhia, mas por ser avarento demais para comprar o seu próprio jornal. Às seis da tarde, todos os dias, colocava-se uma cadeira para ele no jardim, tendo sobre o assento o nosso jornal, com uma pedra em cima, para impedir que a crescente brisa vespertina o desfolhasse!

       Ele chegava, sentava-se confortavelmente, deleitava-se com o maravilhoso colorido dos crepúsculos indianos, lia o jornal, depois ia embora. Muitas vezes não chegava a trocar uma única palavra com qualquer pessoa da casa. E por que precisaria fazê-lo? Na concepção dos indianos, o horizonte de uma família deve ser o mais amplo possível.

       Nenhuma pessoa da família, sobretudo sendo um dos seus membros mais idosos, é jamais relegada ao montão das coisas imprestáveis.Todos continuam sempre sendo queridos e respeitados no ambiente familiar.

       A primeira vez que eu regressei à Índia, após ter passado quatro anos estudando numa universidade norte-americana, minha família ardia em curiosidade de saber das minhas exóticas aventuras naquele "novo" país, os Estados Unidos da América. A pergunta que me despertou maior surpresa foi a que me fez uma parenta muito idosa, uma senhora já meio surda e quase cega.

    - Diga-me uma coisa - disse ela - é mesmo verdade que na América há senhoras idosas que vivem sós?
    - É - confirmei. - Nem sempre há espaço para os velhos na casa de um casal jovem.
    - Oh - exclamou ela - que tristeza!

      Mas os velhos quase sempre preferem ter o seu próprio canto - expliquei.
    - Eu não estava me referindo aos velhos, - atalhou ela, com viva impaciência. - Eu imagino como deve ser triste para os moços.

      Não admira, pois, que não exista na Índia um vocábulo que verdadeiramente corresponda à palavra "família' , no sentido restrito que ela tem para os ocidentais. Em toda família asiática não há só espaço, sente-se mesmo a necessidade de todas essas múltiplas relações e das suas diversas contribuições para a vida familiar. A vida familiar indiana envolve a consideração de um mundo de pessoas que poderão não ser do agrado de todos os componentes da casa - as quais, não obstante isso, merecem igual consideração.

  - Como, num meio assim tão cheio de gente, pode haver lugar para o recolhimento, para as manifestações de preferência, gosto ou talento individuais? A explicação está na arte peculiarmente indiana de "viver reservadamente em convivência".

     Na Índia, a necessidade de refrescar a mente na solidão, de refazer-se do que já se qualificou de "cansaço de convivência", de reabastecer-se de reservas interiores de energia e interesse pela vida é perfeitamente compreendida e profundamente respeitada. Suponhamos que uma das mulheres mais jovens numa casa de "famílias conjuntas" desejasse dispor de algum tempo para si mesma, livre das incessantes exigências dos seus familiares e dos trabalhos caseiros. Bastaria manifestar o desejo de ter um tempo para meditar - digamos uma hora, um dia, ou mesmo um período mais longo - certa de que a sua pretensão, talvez um tanto extravagante no Ocidente, seria satisfeita sem surpresa. Outras pessoas assumiriam as suas tarefas, esperando unicamente que ela um dia lhes retribuísse o gesto da mesma maneira.

      A importância da vida contemplativa e do equilíbrio interior é uma constante na tessitura da vida indiana . Mahatma Ghandi costumava reservar todas as segundas-feiras para seu “dia de silêncio”, em que o seu pensamento não sofria a interrupção nem da sua própria voz nem de vozes estranhas. Conheço comerciantes diligentes que passam regularmente uma hora após a sua volta do trabalho praticando ioga em casa e meditando - hábito que não provoca espanto em seus parentes ou amigos, nem mesmo em seus sócios.

      Se a "intimidade em público" constitui qualidade a que se deve dar valor, igualmente a urgente necessidade de conviver harmoniosamente com uma série de pessoas diferentes que nos são impostas pelas circunstâncias de nossa vida familiar. Nem mesmo o esposo e esposa hindus escolhem um ao outro; eles são colocados numa situação engendrada pelos mais velhos e só lhes cabe aceitá-la com todas as suas implicações de intimidade que lhes são  inerentes. A vida indiana tem várias maneiras de enfrentar as exacerbações da existência cotidiana, que os ocidentais poderiam considerar com proveito, pois o problema não é exclusivamente da Índia. Todos nós passamos parte do dia com pessoas que, na realidade, não nos agradam :  patrões , companheiros de trabalho, professores, colegas de estudo, a balconista da casa em que fizemos   uma compra, os passageiros do trem ou ônibus em que viajamos, até mesmo os nosso vizinhos.

     Teoricamente, a pessoa formada na família indiana sabe que deve utilizar todas as relações humanas que disponha - e não apenas as que  sejam da sua  preferência – para enriquecer , e não para empobrecer a vida;  para ampliar, e não para reduzir a sua visão do mundo e do lugar que nele ocupa. Noutras palavras: o meio de suportar relações que nos são impostas é aproveitá-las para  recarregar nossa própria vida.

     - Como se consegue isso ? Vou dar algumas sugestões . Voltamos à "sogra" que está à frente de uma família indiana do tipo ortodoxo. Ela deve ser árbitro nas disputas, consoladora na tristeza, confidente, guia nos evitáveis problemas da existência comunitária, fonte de energia espiritual, mantenedora dos valores éticos. Pois ela alimenta o próprio espírito em todas essas relações, retirando das pessoas com as quais convive o que estas lhe possam oferecer espiritualmente, emotivamente, como criaturas humanas. Isto só se consegue à base de um senso de respeito às pessoas - não só às jovens mas também às velhas; não apenas pelo sentimento de gratidão que se deve aos pais , porém atribuindo à presença dessas pessoas um verdadeiro valor e reconhecendo que todas elas podem contribuir para a vida daqueles que as cercam.

     Uma idosa e querida tia, a quem um dia expus um problema de ordem pessoal, respondeu-me tranqüilamente : "Meu filho, faça apenas uma pergunta: quem manda afinal, os seus desejos, ou você mesmo?" . Tenho muitas vezes refletido sobre esta resposta, valendo-me dela para orientar-me, e com disso me alegro pelo fato de minha casa ter sido suficientemente grande para abrigá-la.

     Uma família indiana se enriquece ainda pelo fato de o agrupamento das pessoas pela sua idade ser muito menos comum do que no Ocidente.

     Já vi muita criança brincando em bandos - e ao mesmo tempo cuidando de recém-nascidos de sua família. As crianças maiores não se envergonham de terem de zelar pelas menores. Adultos ainda jovens não esperam associar-se principalmente com pessoas da sua idade. Promover umas festa importa em convidar automaticamente pessoas de todas as idades.

     Num espetáculo teatral que se realize em qualquer vilarejo indiano, para apresentação dos grandes episódios da literatura épica tradicional, um marido e sua esposa irão com os filhos levando ao colo os que ainda não saibam andar, e providenciarão para que os velhos tenham bastões para se arrimarem pelo caminho, exigindo a presença dos adolescentes cépticos, para cujo paladar os clássicos talvez sejam demasiado maçantes, destarte fazendo da diversão noturna motivo para uma verdadeira "reunião de família".

     Conviver assim com tantas pessoas não conduz à uniformidade, e sim à diversidade, pois cada um reflete preciosamente as múltiplas combinações das diversas personalidades com que priva. Em todas as várias manifestações da vida familiar - a reserva individual, o sentimento de coletividade e o direito à uma visão pessoal do mundo - a Índia, um país pobre, mostra-nos o segredo de uma rica existência. Porque; como disse o naturalista - filósofo Henry David Thoreau, que foi muito influenciado pela Índia: "A única riqueza é a vida."
Na Índia,
as famílias são
diferentes.
por Santha Rama Rau
Artigo originalmente publicado na revista "Seleções" (*) de outubro de 1965
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