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Instituto René Guénon de Estudos Tradicionais
Caim  e  Abel


René Guénon

           CAPÍTULO XXI de
"O Reino da Quantidade
e os Sinais dos Tempos"
Luiz Pontual
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                    A "solidificação" do mundo tem ainda, na ordem humana e social, outras conseqüências de que não falamos até agora: a este respeito, ela cria um estado de coisas no qual tudo está contado, registrado e regulamentado, o que, no fundo, não é mais do que outro gênero de "mecanização"; nada é mais fácil do que constatar por todo o lado, na nossa época, fatos sintomáticos tais como, por exemplo, a mania dos recenseamentos (que se liga, aliás, diretamente à importância atribuída às estatísticas) (1), e igualmente, a multiplicação incessante das intervenções administrativas em todas as circunstâncias da vida, intervenções que devem ter como efeito certamente assegurar uma uniformidade tão completa quanto possível entre os indivíduos, tanto mais que, de certo modo, é "princípio" de qualquer administração moderna tratar esses indivíduos como simples unidades numéricas todas semelhantes entre si, isto é, agir como se, por hipótese, a uniformidade "ideal" estivesse já realizada, obrigando deste modo todos os homens a ajustarem-se, se assim de pode dizer, a uma mesma medida "média". Por outro lado, esta regulamentação cada vez mais excessiva tem uma conseqüência bastante paradoxal: é que, quanto mais se glorifica a rapidez e a facilidade crescentes da comunicação entre os países mesmo os mais afastados, graças às invenções da indústria moderna, põem-se ao mesmo tempo todos os entraves possíveis à liberdade dessa comunicação, de tal modo que é muitas vezes praticamente impossível passar de um país para outro, ou pelo menos, tornou-se mais difícil do que nos tempos em que não havia nenhum meio mecânico de transporte. É mais um aspecto particular da "solidificação": num mundo assim, já não há lugar para os povos nômades que até agora têm subsistido em condições diversas, porque cada vez menos encontram espaço livre diante de si. Aliás, todos se esforçam por todos os meios para os levar à vida sedentária (2), de modo que, também sob este aspecto, não parece longe o momento em que "a roda deixará de andar"; além disso, nesta vida sedentária, as cidades, que representam, de certo modo, o último grau da "fixação", tomam uma preponderância importante e tendem cada vez mais a absorver tudo (3); e é assim que, perto do final do ciclo, Caim acabara realmente por matar Abel.

                    Com efeito, no simbolismo bíblico, Caim é representado como agricultor e Abel como pastor. São assim tipos das duas espécies de povos que existiram desde as origens da presente humanidade, ou pelo menos, desde que se produziu nela uma primeira diferenciação: os sedentários, ligados à cultura da terra, os nômades, à criação de gado
(4). Estas são, é preciso insistir, as ocupações essenciais e primordiais destes dois tipos humanos; o resto é acidental, derivado ou acrescentado, e falar de povos caçadores ou pescadores, por exemplo, como fazem comummente os etnólogos modernos, ou é tomar o acidental pelo essencial, ou referir unicamente casos mais ou menos tardios de anomalia e de degenerescência, como se pode encontrar realmente em certos povos selvagens (e os povos essencialmente comerciantes ou industriais do Ocidente moderno não são, aliás, menos anormais, embora de outro modo) (5). Cada uma destas duas categorias tinha naturalmente a sua lei tradicional própria, diferente da outra, e adaptada ao seu gênero de vida e à natureza das suas ocupações; esta diferença manifestava-se nomeadamente nos ritos sacrificiais, e dai a menção especial que é feita das oferendas vegetais de Caim e das oferendas animais de Abel, no texto do Gênesis (6). Já que fazemos aqui uma referência particular ao simbolismo bíblico, é bom notar já, a este propósito, que a Thora hebraica se liga propriamente ao tipo da lei dos povos nômades: daí a maneira como é apresentada a história de Caim e de Abel, que, do ponto de vista dos povos sedentários, apareceria sob outra luz e seria susceptível de outra interpretação; mas, claro, os aspectos correspondentes a estes dois pontos de vista estão incluídos um e outro no seu sentido profundo, e não são, na realidade, mais do que uma aplicação do duplo sentido dos símbolos, aplicação à qual só fizemos uma alusão parcial a propósito da «solidificação», já que esta questão, como se verá melhor a seguir, está estreitamente ligada ao simbolismo do assassínio de Abel por Caim. Do caráter especial da tradição hebraica vem também a reprovação que se faz a certas artes ou a certos ofícios que estão ligados propriamente aos sedentários, e nomeadamente a tudo o que diz respeito à construção de habitações fixas; pelo menos foi assim até à época em que precisamente Israel deixou de ser nômade, durante alguns séculos, isto é, até ao tempo de David e de Salomão, e sabe-se que, para construir o Templo de Jerusalém, foi preciso chamar operários estrangeiros (7).

                      São naturalmente os povos agricultores que, pelo fato de serem sedentários, acabam, mais cedo ou mais tarde por construir cidades; e, de fato, diz-se que a primeira cidade foi fundada pelo próprio Caim; esta fundação só teve lugar, aliás, muito depois de se terem referido as suas ocupações agrícolas, o que mostra bem que há como que duas fases sucessivas no "sedentarismo", em que a segunda representa, em relação à primeira, um grau mais acentuado de fixação e de "concentração" espacial. De modo geral, as obras dos povos sedentários são, por assim dizer, obras do tempo; fixados no espaço e num domínio estritamente delimitado, desenvolvem a sua atividade numa continuidade temporal que lhes aparece como indefinida. Pelo contrário, os povos nômades e pastores não edificam nada que perdure, e não trabalham com vista a um futuro que lhes escapa; mas vão adiante de si próprios no espaço, que não lhes opõe nenhuma limitação, mas, pelo contrário, lhes abre constantemente novas possibilidades. Encontra-se assim a correspondência dos princípios cósmicos aos quais se liga, numa outra ordem, o simbolismo de Caim e de Abel: o princípio da compressão, representado pelo tempo e o princípio da expansão, pelo espaço
(8). A bem dizer, ambos estes princípios se manifestam simultaneamente no tempo e no espaço, como em todas as coisas, e é necessário anotar isto para evitar identificações ou assimilações demasiado "simplificadas", bem como para resolver por vezes certas oposições aparentes; mas não é menos certo que a ação do primeiro predomina na condição temporal, e a do segundo na condição espacial. Ora o tempo gasta o espaço, se assim se pode dizer, afirmando desse modo o seu papel de «devorador»; igualmente, ao longo dos tempos, os sedentários absorvem pouco a pouco os nômades: é esse, como dizíamos mais atrás, o sentido social e histórico do assassínio de Abel por Caim.

                    A atividade dos nômades exerce-se especialmente no reino animal, móvel como eles; a dos sedentários, pelo contrário, tem como objeto direto os dois reinos fixos, o vegetal e o mineral
(9). Por outro lado, pela força das coisas, os sedentários chegam a constituir símbolos visuais, imagens feitas de diversas substâncias, mas que, do ponto de vista do significado essencial, se reduzem sempre mais ou menos diretamente ao esquematismo geométrico, origem e base de todas as formações espaciais. Os nômades, pelo contrário, para quem as imagens estão proibidas como tudo o que tenda a fixá-los num determinado lugar, têm símbolos sonoros, os únicos compatíveis com o seu estado de contínua migração (10). Mas há uma coisa notável que é o fato de, entre as faculdades sensíveis, a vista estar em ligação direta com o espaço, e o ouvido, com o tempo: os elementos do símbolo visual exprimem-se em simultaneidade, os do símbolo sonoro, em sucessão; opera-se, pois, nesta ordem uma espécie de inversão das relações que vimos atrás, inversão que é, aliás, necessária para estabelecer um certo equilíbrio entre os dois princípios contrários de que falamos, e para manter as suas ações respectivas nos limites compatíveis com a existência humana normal. Assim, os sedentários criam as artes plásticas (arquitetura, escultura, pintura), isto é, as artes das formas que se desenvolvem no espaço; os nômades criam as artes fonéticas (música, poesia), isto é, as artes das formas que se desenvolvem no tempo; porque, digamo-lo de novo, qualquer arte é, na sua origem, simbólica e ritual, e só por uma degenerescência ulterior, muito recente, aliás, é que perde esse caráter sagrado para se tornar finalmente o "jogo" puramente profano, ao qual está reduzida entre os nossos contemporâneos (11).

                    Eis onde se manifesta o complementarismo das condições de existência: os que trabalham para o tempo estão estabilizados no espaço; os que erram no espaço, modificam-se sem cessar com o tempo. E vejamos onde aparece a antinomia do "sentido inverso": aqueles que vivem segundo o tempo, elemento mutável e destruidor, fixam-se e conservam-se; aqueles que vivem segundo o espaço, elemento fixo e permanente, dispersam-se e mudam-se sem cessar. É preciso que seja assim para que a existência de uns e de outros se torne possível, pelo equilíbrio, pelo menos relativo, que se estabelece entre os termos representativos das duas tendências contrárias; se só uma ou outra destas duas tendências compressiva e expansiva estivesse em ação, o fim viria rapidamente, quer por "cristalização", quer por "volatilização", se nos é permitido empregar a este respeito as expressões simbólicas que devem evocar a "coagulação" e a "solução" alquímicas, e que correspondem, aliás, efetivamente, no mundo atual, a duas fases de que ainda iremos elucidar mais à frente o respectivo significado
(12). Com efeito, é este um domínio onde se afirmam com particular nitidez todas as conseqüências das dualidades cósmicas, imagens ou reflexos mais ou menos longínquos da primeira dualidade, a mesma da essência e da substância, do Céu e da Terra, de Purusha e de Prakriti, que gera e rege toda a manifestação.

                   Mas, voltando ao simbolismo bíblico, o sacrifício animal é fatal a Abel
(13), e a oferenda vegetal de Caim não é aceito (14); aquele que é abençoado, morre, aquele que vive é amaldiçoado. Rompe-se o equilíbrio, de uma parte e de outra; como restabelecê-lo senão através de trocas, de tal modo que cada uma tenha a sua parte das produções da outra? É assim que o movimento associa o tempo e o espaço, e de certo modo, é a resultante da sua combinação e concilia neles as duas tendências opostas de que falamos atrás (15); o movimento não é em si próprio mais do que uma série de desequilíbrios, mas a soma destes constitui o equilíbrio relativo compatível com a lei da manifestação ou do "devir", isto é, com a própria existência contingente. Qualquer troca entre os seres submetidos às condições temporal e espacial é um movimento, em suma, ou antes, um conjunto de dois movimentos inversos e recíprocos, que se harmonizam e se compensam um ao outro; aqui, o equilíbrio realiza-se, pois, diretamente pelo fato mesmo desta compensação (16). O movimento alternativo das trocas pode, aliás, exercer-se nos três domínios espiritual (ou intelectual puro), psíquico e corporal, em correspondência com os "três mundos": troca dos princípios, dos símbolos e das oferendas, tal é, na verdadeira história tradicional da humanidade terrestre, a tripla base sobre a qual assenta o mistério dos pactos, das alianças e das bênçãos, isto é, no fundo, a própria repartição das "influências espirituais" em ação no nosso mundo; mas não podemos insistir mais nestas últimas considerações, que se ligam evidentemente a um estado normal do qual estamos muito afastados sob todos os aspectos, e dos quais o mundo moderno não é mais do que negação pura e simples (17).


                                                                                  * * *


Notas:

1. Muito haveria a dizer sobre as proibições formuladas em certas tradições contra os recenseamentos, salvo em alguns casos excepcionais; se disséssemos que estas operações e todas aquelas daquilo a que chamamos o «estado civil» têm, entre outros inconvenientes, o de contribuir para encurtar a duração da vida humana (o que, aliás, está conforme com a própria marcha do ciclo, sobretudo nos últimos períodos), ninguém acreditaria; e, no entanto, em certos países, os camponeses mais ignorantes sabem bastante bem, como fato de experiência corrente, que se se contarem muitas vezes os animais, morrem muitos mais do que se não o fizerem. É claro, evidentemente, que aos olhos dos modernos que se dizem «esclarecidos», isto não passa de uma «superstição»!

2. Citemos, como exemplos particularmente significativos, os projetos «sionistas», no que diz respeito aos Judeus e também as tentativas recentes para fixar os Ciganos em certas regiões da Europa ocidental.

3.  É preciso lembrar a este respeito que a própria «Jerusalém celeste» é simbolicamente uma «cidade»,
o que mostra, mais uma vez, como dizíamos atrás, que se pode verificar um duplo sentido da «solidificação».

4. Poderíamos acrescentar que, sendo Caim designado como mais velho, a agricultura parece que teve
uma certa anterioridade, e, de fato, o próprio Adão, antes da «queda», é representado como tendo a  função de «cultivar o jardim», o que, aliás, não se refere propriamente à predominância do simbolismo vegetal na figuração do início do ciclo (daí uma «agricultura» simbólica e até iniciática, a mesma que, entre os Latinos, se dizia que Saturno tinha ensinado aos homens da «idade de ouro»); mas, seja como for, só temos que ter em conta aqui o estado simbolizado pela oposição (que é ao mesmo tempo um complementarismo) de Caim e de Abel, isto é, aquele em que a distinção dos povos em agricultores e pastores é já um fato consumado.

5   As denominações de Iran e de Turan que se quis já atribuir a designações de raças, representam na reali¬dade respectivamente os povos sedentários e os povos nômades; Iran ou Airyana vem da palavra arya (de onde deriva ârya por extensão), que significa «lavrador» (derivado da raiz ar, que se encontra também no latim arare, arator, e também arvum «campo»); e o emprego da palavra ârya como designação honorífica (para as castas superiores) é, por conseguinte, característica da tradição dos povos agricultores.

6  Sobre a importância muito particular do sacrifício e dos ritos que a eles se ligam, nas diferentes formas tradicionais, ver Frithjof Schuon, Du Sacrifice, na revista Études Traditionnelles, Abril de 1938, e A. K. Coomaraswamy, Atmayajna Self-sacrifice, no Harvard Journal ofAsiatic Studies, Fevereiro de 1942.

7 A fixação do povo hebreu dependia, essencialmente, aliás, da própria existência do Templo de Jerusalém: assim que este foi destruído, o nomadismo reapareceu sob a forma especial da «dispersão».

8  Sobre este significado cosmológico devem ver-se especialmente os trabalhos de Fabre d’Olivet.

9 A utilização dos elementos minerais compreende especialmente a construção e a mineralogia: voltaremos a esta última, cujo simbolismo bíblico a faz remontar a Tubalcaim, isto é, a um descendente de Caim, cujo nome se encontra na formação do seu próprio, o que indica que existe entre eles uma ligação direta particularmente estreita.

10  A distinção destas duas categorias fundamentais de símbolos é, na tradição hindu, a do yantra, símbolo figurado, e do mantra, símbolo sonoro; ela arrasta naturalmente uma distinção correspondente nos ritos onde estes elementos simbólicos são empregues respectivamente, embora não haja sempre uma separação tão nítida como a que se pode encarar teoricamente, já que todas as combinações em proporções diversas são possíveis aqui.

11 Seria desnecessário notar que, em todas as considerações expostas aqui, se vê aparecer nitidamente o caráter correlativo, e de certo modo simétrico, das duas condições espacial e temporal, consideradas no seu aspecto qualitativo.

12 É por isso que o nomadismo, sob o seu aspecto «maléfico» e desviado, exerce facilmente uma ação «dissolvente» sobre tudo aquilo com que entra em contado; por seu lado, o sedentarismo, sob o mesmo aspecto, só pode levar às formas mais grosseiras de um materialismo sem saída.

13 Como Abel derramou o sangue dos animais, o seu sangue é derramado por Caim; há como que a expressão de uma «lei de compensação», em virtude da qual os desequilíbrios parciais, que é no que consiste fundamentalmente toda a manifestação, se integram no equilíbrio total.

14 Importa notar que a Bíblia hebraica admite, no entanto, a validade do sacrifício não sangrento considerado em si mesmo: é o caso do sacrifício de Melquitsedec, que consiste na oferenda essencialmente vegetal do pão e do vinho; mas isto liga-se em realidade ao ritual do Soma védico e à perpetuação direta    da «tradição primordial», para além da forma especializada da tradição hebraica e «abraâmica», e até, muito mais longe ainda, para além da distinção da lei dos povos sedentários e da dos povos nômades; há ainda uma reminiscência da associação do simbolismo vegetal com o «Paraíso terrestre», isto é, com o «estado primordial» da nossa humanidade.A aceitação do sacrifício de Abel e a rejeição do de Caim é representada muitas vezes sob uma forma simbólica bastante curiosa; o fumo do primeiro eleva-se verticalmente para o céu, enquanto que o do segundo se espalha horizontalmente à superfície da terra; deste modo traçam respectivamente a altura e a base de um triângulo que representa o domínio da manifestação humana. 

15 Estas duas tendências manifestam-se ainda, aliás, no próprio movimento, sob as formas respectivas  do movimento centrípeto e do movimento centrífugo.

16  Equilíbrio, harmonia, justiça, não são mais do que três formas ou três aspectos de uma e mesma coisa; aliás, em certo sentido, poder-se-ia fazê-las corresponder respectivamente aos três domínios que mencionamos a seguir, com a condição, claro, de restringir aqui a justiça ao seu sentido mais imediato, cuja simples «honestidade» nas transações comerciais representa, nos modernos, a expressão diminuída e degenerada pela redução de todas as coisas ao ponto de vista profano e à estreita banalidade da «vida vulgar».

17 A intervenção da autoridade espiritual no que diz respeito à moeda, nas civilizações tradicionais, liga-se imediatamente àquilo que acabamos de dizer; com efeito, a moeda em si é de certo modo a própria representação da troca, e podemos compreender por esse fato, de modo mais preciso, qual era o papel efetivo dos símbolos que trazia gravados e que circulavam com ela, dando a essa troca um significado completamente diferente da simples «materialidade», que é tudo o que resta nas condições profanas que regem, no mundo moderno, as relações dos povos bem como as dos indivíduos.