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Instituto René Guénon de Estudos Tradicionais
     Em minha vida não faltaram tipos inesquecíveis, mas, quando volvo os olhos para as paisagens que a memória me apresenta, vejo com mais clareza e precisão o rosto e o vulto de uma mulher chinesa - Madame Hsiung.
 
          Moramos em Nanquim, durante 17 anos, ao lado da casa em que ela residia, as duas casas separadas por um muro. Do nosso lado, havia a casa, um jardim, e nossa família compunha-se  de quatro pessoas. A residência dela era de um andar com cinqüenta quartos divididos de dois em dois, de três em três e de quatro em quatro, numa série de pátios ligados um ao outro por corredores. E pertenciam todos a uma só família - a de Madame Hsiung - 72 criaturas, ao todo.

          Quando eu ia vê-la, costumava encontrá-la sempre no mesmo lugar. Morava no centro da casa, em três peças que davam para o sul e cujas janelas abriam sobre um pátio calçado de pedras cinzentas e roliças. No centro desse pátio, havia um poço cheio de peixinhos dourados. Madame Hsiung tinha um gato enorme, amarelo, que ficava sentado horas inteiras ao lado do poço, olhando os peixes. De vez em quando, estendia uma das patas bruscamente. Madame Hsiung, que não olhava para coisa alguma, porém via tudo, não deixava que o gesto do felino lhe passasse despercebido um só instante.

          - Gato ! advertia, apenas, com voz precisa e firme. O gato retirava a pata incontinenti.
          - A senhora nunca deu um nome ao seu gato? perguntei-lhe certa vez.
          - Basta o trabalho que tenho com os nomes de meus netos, respondeu ela, sorrindo.
 
          Tinha 22 netos, filhos de seus sete filhos. Alem disso, tivera duas filhas, mas como estas já se haviam casado, ingressando em outras famílias, não podia contá-las mais como parte da sua. Duas vezes por ano elas vinham visitá-la, discutiam seus problemas e ouviam os comentários e conselhos da progenitora.
Madame Hsiung quase não saía daquelas três peças e do pequeno pátio. Aliás, raramente levantava-se de uma cadeira grande e preta de madeira lavrada, cujo assento se tornara tão liso quanto uma superfície de vidro e cujos dois braços já estavam sem verniz, devido ao contato constante de suas mãos. Madame Hsiung era tão pequena, tão leve e frágil que parecia não pesar coisa alguma Passava a maior parte do tempo sentada ali, lendo poesia, obras clássicas, ensaios e comentários.

            Não ensinara as filhas a ler. - E porque não, Madame? perguntei-lhe um dia.
            - Saber ler não torna as mulheres mais felizes, foi sua resposta um tanto evasiva.
            - Mas a senhora... protestei.
            - Eu leio demais, disse logo, com sua voz clara e maviosa .- É um defeito que tenho. Quando eu era criança, meu único irmão   morreu. Meu pai, que era um homem erudito, ensinou-me a ler para que tivesse uma pessoa com quem conversar; capaz de compreender a razão das coisas.
             - E as mulheres, em geral,, não compreendem a razão das coisas ? perguntei- lhe.
             - Não é necessário compreenderem, retrucou simplesmente.
             Falava muito pouco, e manter conversa com ela não era fácil. Levei vários amigos meus a ver Madame Hsiung, e estes, no curso dos longos e tranqüilos silêncios que interrompiam a palestra, visivelmente, não se sentiam à vontade. Eu, porem, apreciava esses silêncios, que me davam a oportunidade de sentir e desfrutar melhor sua presença.

            Vi-a pela primeira vez, quando ela completou 50 anos. De acordo com os costumes da terra, fui visitá-la logo que nos mudamos para a redondeza. Não pôde receber-me, mas, no dia seguinte, enviou-me convite para a festa com que iam comemorar o aniversário. Ao chegar, encontrei os convidados reunindo-se em torno às mesas. Quando Madame Hsiung entrou, com uma criada de cada lado, estes levantaram-se, e todos olhamos para ela. Era de uma beleza clássica - pálida, esbelta, o corpo ereto como uma seta, envolto num quimono de cetim cinza prateado. Usava os cabelos pretos brilhantes e lisos como laca, à moda chinesa, puxados para trás, formando um coque apertado, seguro por um grampo dourado e coberto com um véu preto de seda, muito fino. Lembro-me da mão pequena e linda que se firmava, graciosamente, sobre a cabeça esculpida na bengala de madeira negra.

               Inclinou levemente a cabeça e, com um aceno, convidou-nos a sentar-nos. - Não sorria, mas seus longos olhos eram tão límpidos e tão cheios de vida, que pareciam iluminar-lhe o rosto. Vendo-a tão linda, concluí que vivia com o lazer das famílias chinesas abastadas. Enganava-me, porém, como vim a descobrir depois .

                Nossa amizade surgiu de um ramalhete de rosas do nosso jardim, que eu lhe
oferecera. Descobri que tinha especial predileção, não pelas rosas, que considerava um tanto vulgares, mas pele jasmim do Cabo.

                No jardim de nossa casa havia vários pés dessa planta e levei-lhe alguns ramos- Graças a ela aprendi que essas flores devem ser colhidas de madrugada, ainda frescas de orvalho.
            “- Com o sol, o perfume perde sua suavidade”, explicou-me docemente. - é preciso colhê-las de madrugada e oferecê-las imediatamente.
            - Mas, minha senhora, protestei, - a tais horas hei-de encontrá-la dormindo...
            - “Experimente”, foi a resposta.
           
           Diante disso, não sem certa dificuldade, levantei-me muito cedo, um dia, colhi urna braçada de jasmins do Cabo rorejados de orvalho, com as folhas escuras ainda brilhantes e luzidias.               O perfume era, de fato, incomparável. Levei-as à minha amiga. Ela estava sentada no pátio, com um livro na mão, enquanto a criada lhe servia uma refeição frugal -  arroz, legumes e dois pedaços pequenos de peixe salgado. Quando lhe entreguei as flores, seu rosto iluminou-se, como em secreto êxtase.  Ergueu os lindos olhos e disse:
             - Está vendo?

           - A senhora tinha razão, respondi. Aos poucos vim a conhecer a família que ela chefiava, exercendo, como exercia, autoridade absoluta na casa. O Sr. Hsiung, dono de três dos maiores armarinhos de seda da cidade, passava os dias na casa de chá, ou numa de suas lojas . Quando surgia qualquer dificuldade, vinha ver a esposa, no pequeno pátio, e discutia com ela o assunto.

            Nunca tivera ligação alguma com outra mulher, e ela permanecia o que sempre fora para ele. Não podia ocultar o fato de que a amava. Ao aproximar-se dela, sua atitude transformava-se inteiramente. Era um homem orgulhoso e enérgico, habituado a mandar; mas, com a esposa, era outro. Quando ela falava, interrompia o que estivesse fazendo ou dizendo, para ouvi-la. Homem de negócios, hábil e próspero, procurava sempre apoio e arrimo na sabedoria da mulher.

            Há freqüentemente brigas numa grande família chinesa. Quando o chefe da casa - sempre a mulher - é uma velha incapaz e mal humorada, não faltam aborrecimentos e dissabores, pois tudo vem a ser o que ela for. Mas Madame  Hsiung teria sido capaz de governar o país . Sentada no seu canto, lia e relia os livros que lhe destilavam no espirito a sabedoria dos antigos, dirigindo, ao mesmo tempo, a casa e a imensa família, do primeiro ao ultimo.

            Ensinava às noras tudo o que lhes era necessário aprender sobre os deveres de donas de casa e as relações humanas. no lar. Na véspera do Ano Novo, Madame Hsiung chamava-as todas à sua presença, fixando seus deveres para o ano seguinte. Esses deveres variavam anualmente, a fim de que ninguém se cansasse por fazer sempre a mesma coisa. Nenhuma das jovens cogitaria sequer de manifestar qualquer preferência. Nem era preciso que o fizessem, pois Madame Hsiung sabia perfeitamente quais eram suas tendências e inclinações. Uma delas, digamos, detestava a direção da cozinha. Se tivesse sido leal e cumpridora de seus deveres, durante aquele ano, não seria mais incumbida daquela tarefa no ano seguinte. Caso, porém, tivesse dado mostras de constante mau humor, voltava, na certa, para a cozinha.
            Madame Hsiung nunca repreendia, mas
agia inexoravelmente. Certa feita, seu filho mais velho, já casado apaixonou-se por uma moça que trabalhava numa casa de chá, e esta foi enviada, de súbito, para uma província muito distante dali. O rapaz ficou muito deprimido, durante algum tempo, perdendo o apetite totalmente. Sabia muito bem o que tinha sucedido, mas de que valia protestar ?  Enquanto isso, Madame Hsiung fez com que lhe servissem sempre seus petiscos favoritos, e comprou-lhe um objeto que ele muito desejava possuir - um fonógrafo de marca estrangeira. Com o seu tacto refez-se a harmonia do casal, e  o rapaz esqueceu-se da paixão.

            Durante algum tempo, tive dúvidas sobre se os filhos e netos de Madame Hsiung gostavam mesmo dela. Examinando, porem, meus próprios sentimentos, descobri que até eu mesma lhe queria muito bem. Porque? Por ter confiança absoluta no seu espirito de justiça.   E ela não tinha caprichos nem preconceitos . Tudo o que fazia era no interesse da outra pessoa, e não em seu próprio beneficio. Para com um amigo, uma criança, ou um desconhecido, seu espírito de justiça era sempre o mesmo. A justiça pode ser ríspida e fria, mesmo ao ser perfeita ;   mas Madame Hsiung nada tinha de fria. Embora raramente o demonstrasse, era extremamente compassiva.

          Lembra-me por exemplo, que, numa rua transversal do nosso bairro, uma pobre mendiga deu à luz a uma criança inesperadamente. Estava mendigando quando sentiu as dores do parto. Um grupo de malandros se tinham reunido em torno dela, com uma curiosidade bestial. Alguém correu a avisar Madame Hsiung e ela saiu de casa à toda a pressa Uma de suas criadas contou depois à minha :   "Madame criou asas de repente, nos pés e  nos ombros. Falou àqueles homens com uma voz que parecia vir dos céus, e eles saíram correndo. Mandou então que carregassem a mulher e a criança para a casa dela. Mais tarde, tive ocasião de vê-los freqüentemente, mãe e filho, pois a mulher ficou trabalhando na propriedade dos Hsíung, como criada - a casa era tão grande que duas pessoas a mais quase não fariam diferença alguma.    
          
          Todos ali tinham podido apreciar, através de qualquer experiência particular, o quanto    Madame Hsiung era justa, e cada qual lhe era dedicado, a seu modo. Seu espírito de justiça era supremo, pois nunca se lembrava de suas próprias boas ações e não gostava que lhe dessem mostras de gratidão.

        As crianças aprenderam a dizer-lhe a verdade, porque ela agia sempre de acordo com o que lhe dissessem, muito embora soubesse, às vezes, que estavam mentindo. Uma vez castigou severamente o quarto neto e ele não merecia o castigo. O irmão mais velho tinha acusado falsamente o outro do roubo de uma moeda. Permitiu que o menino maior sofresse as angústias do remorso, devido à punição injustamente infligida ao outro, e ensinou o menor a suportar com dignidade um castigo que não merecera. Fosse lá como fosse, ambas as crianças se tornaram mais dedicadas à avó , depois do incidente.

         Todos, na cidade, recorriam aos seus conselhos. Lembro-me de que, num inverno, a fome, que se espalhara ao norte de Nanquim, levou as ruas a se encherem de refugiados, que carregavam suas posses e seus filhinhos, em cestos amarrados com cordas aos cajados colocados sobre os ombros. Os elementos de maior autoridade no lugar foram logo procurar Madame Hsiung. Ela mandou que construíssem pequenas cabanas, com esteiras de bambú no abrigo formado pelas muralhas da Cidade, e que abrissem um refeitório público para fornecer-lhes arroz de graça, no templo budista. “Os sacerdotes não têm muito que fazer” , declarou com doçura, mas firmemente.

         Ela própria forneceu as primeiras quinhentas sacas de arroz, fazendo ao mesmo tempo, comentários, sobre a generosidade tradicional de dez outras famílias abastadas da cidade. Cada qual delas forneceu, incontinenti, a mesma quantidade de arroz.

           Eu costumava achar que seu único defeito era o fato de ser um pouco severa demais com as noras - e talvez    o fosse,  aliás,  com todas as mulheres.  Enfrentei-a, um dia, com esta pergunta:
           - Madame , a senhora gosta mais de seus filhos  que   das filhas, não é ?  Ou, melhor,  prefere os homens às mulheres ?

            Ela acolheu a pergunta, como de costume, com alguns minutos de silêncio .
            - É verdade que às vezes sou impaciente com as mulheres. Mas não é verdade que não gosto delas.
            - E por que motivo é  impaciente com elas ?
            - As  mulheres têm grande poder , respondeu simplesmente.

            Nunca hei-de esquecê-la no momento em que me disse isso. Era um dia quente de verão As cigarras cantavam nas árvores com um som de chaleiras a ferver, e o ar  estava extremamente carregado. Mas desprendia-se dela uma espécie de perfume delicado  e refrescante. Vestia um quimono de seda creme. Lá fora no pátio, algumas criancinhas nuas brincavam junto ao poço. O pátio vivia sempre cheio de netos, e até bisnetos que, no inverno mal podiam  andar, com suas pesadas roupas de lã e agora ali estavam, nus, queimados de sol.
Ela mal parecia reparar nas criança, e raramente lhes falava. Mas a verdade é que não as perdia de vista. Algumas corriam de repente  ao seu encontro. Ela punha sobre as  cabecinhas suas mãos leves – as garotas deixavam-se estar alguns instantes encostadas e corriam de volta a seus brinquedos.  Vigilante embora, dava-lhes inteira liberdade. Quando uma delas fazia o que não devia fazer  - quando,  por exemplo, mergulhava os dedos na água turva do poço e punha-se a chupá-los, a avó nada dizia.   Chamava a criança com doçura, limpava-lhe os dedos num lenço, e dava-lhe um pouco de chá.

          - Quando você estiver com sede, venha que eu lhe dou de beber , dizia apenas.
         - A senhora disse que as mulheres têm muito poder ? perguntei novamente, aquele dia.
         - Têm , respondeu. - O maior poder que existe sob os céus.
          - Qual ? persisti.
         O poder sobre a vida, respondeu.
         Esperei, mas ela nada mais disse. Depois compreendi que tinha dito o bastante ; dissera, mesmo, tudo.
         Quando os japoneses chegaram pela primeira vez, em 1932, fui ver Madame Hsiung, levando-lhe alguns ramos de ameixeira.
        - A senhora não vai embora ?  perguntei-lhe.
        - Vou mandar as moças da família para o interior. Quanto a mim, nada tenho a recear. Não tive receio algum quando os senhores da guerra lutaram.
        Eram homens, apenas. E os japoneses também o são. Nunca tive medo dos homens.
        - E ficou.
        Não tenho notícias dela há muitos anos. Mas não posso imaginá-la morta . Está viva, e, viva, permanece o centro do lar, da comunidade, e, na força que possui, da China. É, na verdade, essencialmente, uma mulher e, como tal, o centro da própria vida.
A poderosa
Madame Hsiung
Por  Pearl S. Buck
Prêmio  Nobel de literatura, autora de “China , velha China”, e outros romances.
Publicado na revista "Seleções do Reader's Digest" (*) em 1946.
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